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Trump, Xi e a armadilha de Tucídides

Poderão o sonho chinês e o sonho americano – ou o Grande Rejuvenescimento da Nação Chinesa de Xi e o Make America Great Again de Trump – evitar a Armadilha de Tucídides e “andar de mãos dadas”?

Jaime Nogueira Pinto
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No fim da visita de Trump à China, e sem pretender acesso a segredos de Estado, é possível tirar algumas conclusões: os líderes dos dois grandes poderes mundiais – em economia, capacidade militar, inovação tecnológica, importância geopolítica – mostraram-se, cada um a seu modo, relativamente satisfeitos com os resultados da cimeira.  Trump, mais efusivamente satisfeito, tratando Xi por “grande homem” e “amigo” e falando sobretudo dos negócios conseguidos; Xi, mais moderadamente satisfeito, pensando sobretudo no reconhecimento implícito da China como potência equiparável aos Estados Unidos.

Seja como for, apesar da generosa adjectivação de um e da reserva prudente do outro, os dois homens têm muito para se entenderem: são ambos realistas, nacionalistas e amantes do poder. E são ambos autoritários, tanto quanto os respectivos sistemas políticos permitem – sendo que o de Xi permite muito e o de Trump muito pouco. O número 1 chinês não tem de contar com opinião pública, eleições ou oposição e foi subordinando o Partido Comunista e os militares à sua vontade; o número 1 norte-americano tem de contar com tudo aquilo com que Xi não conta e ainda com o clima hostil dos media americanos e europeus, onde, aparentemente, a crítica insultuosa ao actual inquilino da Casa Branca se instituiu como prova de virtude ou até de admissão à classe.

Política, Negócio e negócios políticos

Trump precisa das terras raras chinesas e a China depende dos microchips da Nvidia, cujo patrão, Jensen Huang, integrou a comitiva norte-americana. E se Trump e Washington têm um sério problema – sair airosamente da guerra do Irão e restituir a liberdade de circulação ao estreito de Ormuz –, Xi e Pequim têm outro – Taiwan. Ou seja, uma possível ajuda chinesa no Irão pode ter como preço uma cedência americana em relação a Taiwan. Ora o apoio a Taiwan é talvez o único ponto em que o Congresso norte-americano, radicalmente dividido, ainda converge. E para o próprio Trump, deixar cair Taiwan seria também uma inequívoca perda de face.

Xi, que tem cultura clássica (leu muito quando partilhou a desgraça do pai, na Revolução Cultural), lembrou a Trump a famosa “Armadilha de Tucídides”: o risco de guerra quase inevitável entre a potência dominante e a potência em ascensão que ameaça roubar-lhe a primazia. Aconteceu na Grécia, quando Atenas cresceu em poder marítimo, Esparta se assustou e rebentou a Guerra do Peloponeso.

Graham Allison, historiador e politólogo americano, escreveu em Agosto de 2012 no Financial Times sobre a actual emergência da velha Armadilha no Pacífico (“The Thucydides’s Trap has been sprung in Pacific”):  a China era o grande poder em ascensão que, “dentro de uma década”, ultrapassaria os Estados Unidos, tornando-se “a maior economia do mundo.”

Ora tal não aconteceu. Segundo o FMI, em 2024, a economia norte-americana excedeu os 30 triliões, com a economia chinesa a ficar-se pelos 20 triliões. Desde o último encontro dos dois líderes, em 2017, apesar de a economia chinesa estar a crescer a uma média anual que duplica a média de crescimento americana (5,48% versus 2,5%), a disparidade mantém-se; porque se em Paridade de Poder de Compra as duas economias se apresentam mais próximas, em Renda Per Capita a diferença continua a ser abissal: os americanos somam 94.000 USD e os chineses 15.000.

De qualquer forma, no encontro de Pequim, Xi não hesitou em avançar com a Armadilha de Tucídides:

“Podem a China e os Estados Unidos ultrapassar a Armadilha de Tucídides e estabelecer um novo paradigma de relações entre grandes poderes?”

E para reforçar a erudita questão e cativar o interlocutor, o líder chinês acrescentava um brinde ao brinde do banquete:

“Os povos da China e dos Estados Unidos são ambos grandes povos. O Grande Rejuvenescimento da Nação Chinesa e o Make América Great Again podem andar de mãos dadas.”

O nó do problema

Para Allison – que, confesso, não me convenceu com alguns exemplos de conflitos passados que sustentariam a sua tese da “inevitabilidade da guerra” (desde que há armas atómicas, a potência incumbente e a potência emergente deixaram, racionalmente, de se confrontar em guerra directa) –, ambos os interlocutores podem sair por cima da cimeira: Xi, com a China a ganhar o estatuto de principal parceiro ou rival da América; Trump na expectativa da tal mala cheia de bons negócios para as empresas americanas.

​Porém, as questões políticas prementes, o Irão e Taiwan, parecem ter ficado a hibernar na ambiguidade diplomática. Segundo o The Straits Times de Singapura (​em “Fire and Water: Xi warns Taiwan issue could rupture China-US Ties”), Xi não podia ter sido mais claro em relação a Taiwan, aconselhando Trump a ter o maior cuidado, sob pena de enveredar por um “caminho perigoso” capaz de os levar ao conflito. E apesar de o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, ter vindo depois desdramatizar o aviso de Xi – dizendo que a China se tinha limitado a repetir a deixa do costume a que os norte-americanos sempre respondiam reiterando a mesma posição, para depois seguirem para outros assuntos –, a verdade é que, desta vez, Xi foi mais categórico. E convém não esquecer que Trump, no regresso da China, foi avisando Taiwan para não falar em independência.

Pelo sonho é que vamos

Xi nunca se afastou do reconhecimento de um mundo multipolar, em que, além dos Estados Unidos e da China, há outros poderes importantes, como a Rússia de Putin e a Índia de Modi, e poderes médios, como a Turquia, a Arábia Saudita, o Japão, a Alemanha, Israel. No entanto, com Trump, cedeu ao sonho de um mundo bipolar, com um eixo em Washington e outro em Pequim.  Segundo o presidente chinês, ele e Trump tinham concordado em criar uma “relação construtiva e estrategicamente estável” entre os dois grandes poderes, que deviam ser “mais parceiros do que rivais”.

Lembre-se que Xi alterou profundamente o sistema de direcção colegial que vinha de Deng Xiao Ping, definiu o regime a que preside como “socialismo com características chinesas para uma Nova Era” e juntou-lhe um sonho, “o Sonho Chinês do Rejuvenescimento Nacional”. Foi este novo sonho chinês que ali estendeu a mão ao sonho americano de Trump, para partirem rumo ao pôr do sol, não em duelo, mas numa “relação construtiva e estrategicamente estável.”

É claro que todo este mundo de sonho aterra num mundo real seriamente abalado e prejudicado pela guerra do Irão e as suas consequências económico-financeiras.

Trump, que é menos errático do que parece, já percebeu o erro em que incorreu e quer sair dele, mas não de qualquer maneira. Até porque, além da hostilidade persistente da Esquerda, conta agora também com a crítica, nas suas hostes, dos conservadores mais realistas.

A sondagem publicada no New York Times de segunda-feira, 18 de Maio, é eloquente: 64% dos inquiridos considera a guerra com o Irão um erro de Trump, incluindo 22% dos republicanos. E só um terço do total dos inquiridos aprova a sua gestão da economia, a preocupação primeira dos eleitores, bem como a política do Presidente no conflito Israel-Palestina.

É certo que o New York Times não gosta de Trump e que sondagens são sondagens, mas a realidade não há-de estar muito longe disto. E já não falta muito para Novembro.