O primeiro desembarque nas ilhas Falkland, em 1690, está atribuído ao navegador inglês John Strong. Apesar disso, o primeiro registo das ilhas pertence ao cartógrafo português Pedro Reinel, em 1522, que aproveitamos para saudar.
Habitam as Falklands 3.662 pessoas, segundo o censo de 2021. Cerca de 80% do total da população reside na capital Stanley, que fica situada a 51° 45′ S, 59° 00′ W, para ser mais rigoroso. Ou seja, muito perto da Terra do Fogo e da Antárctica.
As Falklands são um British Overseas Territory, reconhecido e inequivocamente desejado pelos seus próprios habitantes. Recentemente, em 2013, foi realizado um referendo local que registou 1.513 votos a favor da manutenção do estatuto de British Overseas Territory e 3 votos contra. Não se sabe o que aconteceu ao trio contestatário.
Apesar da realidade política actual – e para além da guerra de 1982 entre o Reino Unido e a Argentina – o estatuto das Falklands, ou Malvinas para a Argentina, e grande parte dos países da América do Sul, tem um histórico de reclamações muito vivo.
Perón incluiu a reivindicação das Malvinas na política externa da Argentina logo no final dos anos 1940, tendo manifestado essa pretensão junto da recém-criada ONU. E em 1953 tentou comprar as ilhas ao governo britânico presidido por Winston Churchill, sem êxito.
As relações entre o Reino Unido e a Argentina a propósito deste tema mantiveram-se bastante instáveis nas três décadas seguintes. Ressalta aqui a posição do Foreign Office britânico (soube-se depois), que considerava, à data, que as ilhas eram um enorme peso económico e que não se justificava manter o estatuto. Só a voz de descontentamento dos ilhéus, feita ouvir no Parlamento, pôs fim a essas manobras. Ainda durante este período, e porque a reclamação das ilhas era bem recebida pelos argentinos, ocorreram alguns eventos simbólicos: em 1964, um pequeno avião civil argentino aterrou no aeródromo de Stanley, tendo o piloto entregue uma carta de soberania a um habitante, e em 1966 um grupo de jovens peronistas desviou um avião comercial da Aerolineas, que aterrou nas ilhas, numa teatral demonstração de soberania sobre o território.
E assim chegamos a 1982 e à Junta Militar na Argentina, liderada à data pelo General Leopoldo Galtieri. Debaixo de enorme desgaste político, Galtieri tenta ganhar o apoio popular através da exploração de uma questão nacional: a reivindicação das Malvinas como parte integrante da Argentina.
Esse plano realizou-se através da invasão das Falklands, em 2 de Abril, por 800 comandos argentinos, seguindo-se outros dois mil militares. O governador britânico rendeu-se e a história seguinte é conhecida: Margaret Thatcher lançou o país em guerra contra a Argentina, com a deslocação imediata de forças navais e aéreas com a missão de recuperar as Falklands e expulsar os argentinos do território britânico. Os combates duraram dois meses e meio, morreram mais de 900 pessoas (255 britânicos, 649 argentinos e 3 residentes civis) e foram afundados navios e abatidos aviões de guerra. A Argentina acabou por se render em Junho desse ano de 1982. O General Galtieri foi deposto quatro dias depois e acabou por ser preso em 1983, depois de eleições e do fim da ditadura militar. Margaret Thatcher, em sentido inverso, ganhou esmagadoramente as eleições seguintes no Reino Unido, passado apenas um ano, em Junho de 1983.
O início da redenção da Argentina só aconteceu em 1986, no México, pela mão de Maradona, e já sem militares, com um governo democrático liderado por Raúl Alfonsin, e em 1990 o Reino Unido e a Argentina retomaram as relações diplomáticas.
Entretanto, desde o fim da guerra o Reino Unido abriu a economia local das Falklands ao turismo e à pesca, com a criação, em 1986, de uma zona económica exclusiva de 200 milhas, mantendo a monocultura de ovelhas praticada até então.
As licenças de pesca que vieram a ser atribuídas e o turismo provocaram um grande crescimento económico, com significativa melhoria da vida dos ilhéus, bem como uma abertura a outros mundos para além da monocultura das ovelhas, da exportação da lã e da sua carne.
E, surpreendentemente, as 200 milhas exclusivas de mar acrescentadas ao seu domínio despertaram em 2004 a curiosidade de um pequeno grupo de britânicos na prospeção de petróleo e gás nessa zona. Criaram uma empresa, a Rockhopper Exploration, que em 2010 descobriu o que procuravam num campo off shore chamado Sea Lion, a cerca de 220 km a norte das ilhas. Não se avista da costa, nem da capital Stanley, e assim as ovelhas podem continuar a pastar descansadas.
A Rockhopper, sob a liderança do CEO Sam Moody, manteve as licenças activas durante os 15 anos seguintes à descoberta e cedeu a operação a uma empresa israelita, a Navitas Petroleum, dirigida e controlada pelo executivo Gideon Tadmor, que trazia para o projecto a experiência adquirida nas grandes descobertas de gás no Mediterrâneo Oriental, ao largo da costa israelita. A Rockhopper teve uma valorização em bolsa de 415% em 2025 e mantém 35% do capital. A Navitas adquiriu os restantes 65% e lidera a operação.
O governo das Falklands emitiu as licenças e assinou os acordos necessários neste tipo de concessões de exploração de petróleo e gás, incluindo royalties e impostos, com a aprovação formal do governo britânico, mas com as receitas a reverterem totalmente para as Falklands. Os trabalhos preparatórios iniciaram-se em 2026, estando a perfuração dos primeiros onze poços submarinos prevista para meados de 2027. A extracção do primeiro petróleo deverá acontecer no primeiro semestre de 2028. Toda a produção será processada num navio-fábrica ancorado sobre o campo, dispensando as habituais plataformas.
Para os cofres das Falklands entram royalties calculadas à taxa de 9% sobre a receita bruta da exploração concessionada à Rockhopper/Navitas e também o imposto sobre as sociedades, que actualmente corresponde a 26% sobre os lucros. Prevê-se uma receita de 4 mil milhões de libras (4.600 milhões de euros) durante a vida completa do projecto, o que significa mais de 1 milhão de libras por cada habitante.
O Reino Unido não recebe qualquer receita directa proveniente da exploração. Beneficiará apenas indirectamente, através da cadeia de fornecimento de bens e serviços com base em Aberdeen e Londres.
Para além de não participar directamente nas receitas, o Reino Unido está colocado perante uma notória divergência com o governo das Falklands a respeito da política energética.
Enquanto o Reino Unido, em casa, segue entusiasmado uma política Green Deal de transição, com o objectivo de alcançar net-zero em 2050 e a fixação de outras metas intercalares mais ambiciosas, o governo das Falklands recusou ratificar o Acordo de Paris sobre alterações climáticas e avançou com a emissão de licenças de exploração de petróleo e gás.
Enquanto o Reino Unido proibiu em 2024 a emissão de novas licenças de exploração de petróleo e gás no Mar do Norte, que se situam entre 100 a 230 kms da costa da Escócia, não se opõe a que nas Falklands, a 13.000 kms, inicie uma exploração off shore com a duração prevista de 35 anos.
Enquanto tudo isto acontece, as Falklands preparam-se para se tornarem energética e economicamente auto-suficientes e o Reino unido caminha apressadamente no sentido contrário, para uma crise energética e económica, empobrecedora, que já ninguém pode ignorar.
O modelo de abastecimento energético das Falklands, actualmente baseado na importação de diesel e na produção gerada por seis velhas turbinas eólicas com mais de 50 metros de altura, instaladas perto de Stanley, evoluirá para uma situação de dispensa total de importação de combustíveis fósseis. A extracção de petróleo e gás no parque Sea Lion vai permitir enviar o gás associado através de uma conduta submarina até Stanley que, por sua vez, alimentará uma central a gás limpa e eficiente ou, em alternativa à conduta, transformar esse gás em gás natural liquefeito (LNG) e transportá-lo para terra.
É a ironia perfeita: O Reino Unido proíbe a abertura de mais campos petrolíferos na sua costa e, ao mesmo tempo, nas Falklands, inicia-se a exploração de um campo petrolífero, cujo petróleo vai eliminar a dependência do petróleo.
Para além disso, se Stanley quiser manter a energia eólica, para diversificar as fontes, pode e deve fazê-lo, sem aumento significativo do impacto negativo na paisagem, nas ovelhas e nos pinguins locais, substituindo as seis velhas turbinas e as baterias de armazenamento por outras mais modernas e eficientes. As receitas do petróleo chegam bem para isso e não será motivo de grande alarme para o ambiente ou para a agricultura. Em termos de redundância fica de fora da equação a opção por parques fotovoltaicos, dado que o sol é escasso para esse fim na latitude das Falklands, para grande alegria da população humana e animal.
O modelo adoptado pelo governo das Falklands em relação à gestão e aplicação dos fundos que vai receber do projecto Sea Lion será parecido com o que faz a Noruega, através da criação de um fundo destinado a garantir ou pelo menos contribuir para o bem-estar das gerações futuras quando o petróleo acabar.
Poderá dizer-se que privilegia o futuro, deixando a população actual sem outros benefícios que não sejam os melhoramentos que vão ser feito nas ilhas, decididos pelo governo, que as novas receitas permitem. Parece pouco sensível em relação ao presente, a uma população que sempre viveu com as marcas do isolamento extremo e do que tudo isso significa.
Opção inversa à do Estado do Alaska quando na década de 1970 criou um sistema particular de helicopter money que distribui todos os anos um cheque a cada residente, indexado aos lucros obtidos com a exploração de petróleo no norte do território. Ao longo da exploração, o Estado do Alaska distribuiu uma média de 1.600 dólares por habitante. Se o governo das Falklands aplicasse o mesmo princípio e distribuísse, por exemplo, 10% das royalties pelos 3.662 habitantes isso corresponderia a cerca de 3.100 dólares por pessoa, por ano. Uma preocupação com o futuro e com o presente também, homenageando o passado. Um ciclo perfeito. Pode ser que alguém se lembre disto e fique generoso lá no sul do Atlântico.
As Falklands vão ter de se habituar ao crescimento que a exploração do projecto Sea Lion vai necessariamente provocar. Para além do aumento das receitas e do melhoramento das infraestruturas, a população vai crescer com a chegada de técnicos, engenheiros e trabalhadores que não existem no território. O sistema de saúde e educação vai ser fortalecido e construída habitação e alojamento temporário. Prevê-se que a própria defesa possa passar gradualmente, mas não totalmente, para o governo local, deixando o Reino Unido bastante aliviado. Mas nada que assuste quem tem vivido num dos locais mais remotos do planeta.
Em resumo: (i) reclamação da soberania sobre as Falklands pela Argentina de Perón; (ii) guerra entre o Reino Unido e a Argentina em 1982; (iii) economia e defesa das Falklands absolutamente dependentes do Reino Unido (iv) diversificação económica depois da guerra de 1982 com o alargamento da zona económica exclusiva; (v) descoberta de petróleo na nova zona económica exclusiva em 2010; (vi) referendo em 2013 sobre a manutenção da soberania, com resultados esmagadores contra a pretensão argentina; (vii) clivagem entre o governo das Falklands e o governo britânico a respeito da exploração de petróleo; (viii) recusa da ratificação do Acordo de Paris sobre alterações climáticas pelo governo das Falklands; (ix) assinatura do acordo de concessão da exploração petrolífera entre o governo das Falklands e a Rockhopper/Navitas; (x) início dos trabalhos preparatórios em 2026, com a perfuração dos poços submarinos prevista para 2027; (xi) previsão de encaixe de 4 mil milhões de libras para as Falklands, sem benefícios directos para o Reino Unido.
É caso para dizer que não há ficção melhor do que a realidade. Oikophilia rules OK!
Para acompanhar a leitura: Bryan Ferry – A Hard Rain’s A-Gonna Fall