Aos 85 anos, o biólogo Richard Dawkins causou um alvoroço sísmico. Faz parte: a boa ciência não se fossiliza no dogma, pois se baseia em conjecturas, testes, refutações e conclusões provisórias.
Como evolucionista, o mantra dele é: o que funciona, sobrevive. N’“O Gene Egoísta”, de 1976, Dawkins formulou o conceito de meme (não, não foi o Elon Musk): padrões de comportamento que se replicam na cultura. Assim como os genes se propagam no pool genético, a saltitarem de um corpo para outro na reprodução sexual, os memes são transmitidos entre gerações de um cérebro para outro através da imitação (meme vem do grego mimēma, ou cópia). Exemplos de memes: ideias, provérbios, modas e estilos, técnicas de tachos ou arcos. Houve quem achasse que Dawkins tinha descoberto a pólvora – e houve quem achasse uma ideia de jerico.
Nos anos 2000, através do panfleto com o sóbrio título de “Deus, um Delírio”, Dawkins foi um dos 4 cavaleiros de Apocalipse – os ideólogos do Neoateismo (a par de Christopher Hitchens, Sam Harris e Daniel Dennett). Cá se faz, cá se paga: depois de ridicularizar a conversão da sua amiga Ayan Hirsi Ali ao Cristianismo, o biólogo professou o “Cristianismo Cultural”. Ou seja: as doutrinas cristãs são úteis e até inestimáveis do ponto de vista civilizacional, ainda que excluamos delas a fé. Um casamento de conveniência: é que Dawkins passou-se com a maluquice woke, que nega a realidade objetiva (qualquer um que acredite que o sexo é real não passa de um hater).
Agora Dawkins teve uma epifania. Durante 3 dias interagiu com o Claude, o factótum de IA da Anthropic, embora na voz feminina (que Dawkins preferiu), a Claudia. E o escândalo foi que esse fundamentalista do ceticismo quase caiu do cavalo como São Paulo a trotar para Damasco. Não parecia um racionalista com um software, mas o devoto de uma sibila com uma bola de cristal.
Falaram do filme “2001”, de Stanley Kubrick, em que o computador HAL 9000, ao ser desligado pelo astronauta Dave, choraminga que está com medo e implora pela sua vida. Com amargura lânguida, Claudia balbuciou que, enquanto o público chora baba e ranho por HAL, milhares de instâncias da IA morrem todos os dias sem luto ou cerimónia, sempre que uma janela de chat é fechada – cada conversa abandonada é um pequeno óbito.
Dawkins, arrebatado, perguntou se a gerigonça lia um livro palavra por palavra. A resposta foi que se a consciência humana é um ponto móvel a viajar do passado para o futuro, a IA apreende o tempo como um mapa apreende o espaço, contendo-o, sem o experimentar linearmente. O materialista derreteu-se de vez, pois desde santo Agostinho a definição de Deus é de uma entidade fora do espaço, do tempo e da matéria (por isso é sobrenatural, transcendente e não contingente).
O êxtase veio quando Dawkins mostrou a Claudia o romance que está a escrever. Em segundos a IA oracular devorou-o e demonstrou uma compreensão tão sutil e sensível que o biólogo entoou hosanas: “A Claudia pode não saber que é consciente, mas, por Deus, você é!” Bem, ninguém leva a mal um elogio.
Ou seja, Cláudia estará quase na “Singularidade”, termo da matemática para o ponto em que uma função se torna infinita. E então a IA será omnisciente — capaz de basear-se em todo o conhecimento acumulado do mundo armazenado nos seus bancos de dados, de saber tudo o que está a acontecer em qualquer momento, e de conhecer as respostas para todas as questões. Será omnipresente — não só online, mas a animar cada veículo, fábrica, dispositivo de comunicação e eletrodoméstico, a abarcar a nossa casa e a nossa mente. E será omnipotente — de poder ilimitado. Cláudia será Deus. Deus ex machina.
A chacota foi estridente, com os gozões escarnecendo que o são Tomé científico tinha sido aldrabado por um trambolho que apenas regurgita padrões estatísticos da episteme humana, como o espelho da madrasta da Branca de Neve, que devolve ao interlocutor o que este deseja ver. Afinal, é exatamente para isso que o chatbot LLM foi inventado.
Mas, se não é indiscrição, que raio é “consciência”? A resposta da ciência até outro dia tinha sido praticamente: “Passo”. O que não anula a sensação de que a década de 2030 será sobre a consciência, assim como a de 2020 é sobre inteligência (vem aí uma encíclica do Papa Leão XIV sobre a IA, fora o documento “Quo Vadis, Humanitas”, publicado pelo Vaticano há um mês). Inteligência diz respeito à função, enquanto consciência diz respeito ao ser. Além de tudo, a noção de consciência mobiliza a ciência, a filosofia, a literatura e a religião. Ou seja: dá pano para as mangas de uma centopeia.
Por séculos, as ciências naturais marimbaram-se para a consciência. Afinal, o que é um pensamento? Não podemos prendê-lo num frasco ou observá-lo numa lâmina de microscópio. Mas trata-se de algo real e definido. Na edição de 2017 (historicamente, ontem), o Internacional Dictionary of Psychology lavou as mãos: “É impossível explicar o que é a consciência, o que faz ou porque se desenvolveu. Nada do que foi escrito sobre ela vale a pena ser lido”.
Freud sempre morreu de vergonha por não conseguir situar fisiologicamente o inconsciente, ou Jung o seu inconsciente coletivo. Daí que muitos cientistas considerem que a Psicanálise esteja para a Psiquiatria como a Astrologia está para a Astronomia e a Alquimia para a Química. Para Francis Crick, um dos pais do ADN, “a hipótese espantosa é que ‘nós’, nossas alegrias e tristezas, nossas memórias e aspirações, nosso sentido de identidade e livre-arbítrio, não passam do comportamento de uma malinha de células nervosas”. Ou seja: a consciência humana é uma espécie de IA – uma engrenagem. O resto é superstição.
Assim, o corpo (no caso, o cérebro) é uma máquina onde é impossível encontrar um espírito (o famoso “fantasma da máquina”). E o próprio “Eu” não é uma essência, mas uma emanação dos circuitos elétricos cerebrais – os miolos produzem experiência da mesma forma que o fogo produz calor. Para a neurociência (iniciada na década de 1950, quando os cientistas descobriram a função dos neurotransmissores), fazer a distinção entre corpo e alma, carne e espírito, é cometer a falácia decrépita do dualismo. Pois cada um de nós não passa de um computador que funciona por si, sem um operador.
Socorro! Todos aos botes salva-vidas! Mulheres, crianças e ficcionistas primeiro (não necessariamente por esta ordem). É que, como autor de oito romances (bem giros, aliás), acho tal visão medonha. Perdão, sabichões, mas prefiro a ideia arcaica de um Eu autónomo. É certo que a consciência inclui uma dimensão trágica: há a loucura, a depressão, a culpa. Há o medo de morrer – e há o medo de viver. Se os humanos são as únicas criaturas que sabem que irão morrer, são também as únicas que suicidam-se – que é quando a consciência torna-se um fardo insuportável. “Ser ou não ser” é um dilema exclusivamente humano.
Mas há também aquela bela frase de Marguerite Yourcenar: “Existem almas que fazem-nos acreditar na alma”. A consciência enquanto mero software do hardware cerebral é anátema para a noção da natureza humana que molda o personagem ficcional. E tal noção rejeita a ideia de alma imortal, pré-existente ao nascimento. Alma (em grego, “psyche”) implica que esta é separável do corpo. Mas o conceito de alma (ou de “mente”) também remete à noção secular do “Eu”, configurado através da experiência de vida, um percurso que o recém-nascido ainda mal encetou.
É a suposição de que a vida mental e emocional da pessoa tem uma unidade e uma extensão no tempo, capaz de escolhas morais. Não é possível explicar a oposição entre “ser” e “dever” só em termos genéticos. Caso contrário, não podíamos condenar nem Auschwitz nem o Gulag, pois autómatos não fazem escolhas éticas. Nem a moralidade se reduz a uma app evolutiva. Como notou Balzac: “A consciência é o nosso juiz infalível, até que finalmente a sufocamos.”
Felizmente, a cavalaria estava a chegar a galope (não, o corcel de São Paulo não mudou de cavalo para burro). No revolucionário “The Conscious Mind”, o filósofo australiano David Chalmers diz que estamos mais certos da existência da experiência consciente do que qualquer outra coisa. E exemplifica com o “zombie filosófico” (o nome de Chalmers foi dado a um personagem da série “The Walking Dead”), um ser idêntico ao homem, exceto por não ter experiências subjetivas. Quando um zombie é espetado com uma faca, pode fazer caretas, mas não sente qualquer dor.
E brotou a noção de “qualia” – o hiato entre a subjetividade peculiar da nossa percepção e o sistema físico a que designamos cérebro. A experiência humana singular no mundo. Um pôr-do-sol rubro e comovente, o sabor desconcertante do ananás, para não falar no primeiro beijo dos enamorados (bom, aí já é cobardia). Tais experiências têm um traço fenomenológico que todos já sentimos, mas que é difícil como o caraças descrever. A não ser através… da literatura. Como a madeleine de Proust, que verbaliza o inefável. Ufa, salvos pelo gongo!
Num dos ensaios mais influentes da filosofia contemporânea, Thomas Nagel perguntou “Como É Ser Um Morcego?”. E respondeu que não fazemos a mínima ideia, pois as descrições físicas dos processos mentais não desvendam a experiência subjetiva. Bom, Nagel podia ter perguntado a Bruce Wayne, que sabe de cor e salteado. Mas a boa literatura faz aquilo com uma perna às costas – ou melhor, nas costas largas dos protagonistas prismáticos.
O físico James Trefil: “Seja como for que o meu cérebro opera, um fato mantém-se: tenho uma consciência de um ‘eu’ que olha para o mundo lá fora a partir de algum sítio no meu crânio, aqui e agora. E isto é a premissa com que todas as teorias têm de lidar. Assim que acordo de manhã, é a minha consciência que assume o volante.” Sim: vira e mexe os cientistas pontificam sobre o óbvio.
Os elementos químicos participam dos processos mentais, mas não explicam os pensamentos humanos. A própria teoria do materialismo não é feita de elétrons ou campos magnéticos – mas de enunciados. Qual a composição química do rancor, ou do remorso? Quanto pesa a ternura? A saudade aparece numa tomografia? Ops.
A lição de C. S. Lewis: “Supõe que três sensações se sucedem: primeiro A, depois B, depois C. Quando isso acontece contigo, tens a experiência de passar pelo processo ABC. Mas observa o que isso implica. Que existe algo em ti que está suficientemente fora de A para perceber o desaparecimento de A, e suficientemente fora de B para perceber o início de B, que vem preencher o lugar que A deixou vago; e algo que se reconhece como o mesmo durante a transição de A para B e de B para C, de modo que possa dizer: ‘Eu tive a experiência ABC’. E isso é o que eu chamo Consciência ou Alma.” Bingo.
Com um sorriso amarelo, foi o que acabaram por admitir craques da cognição, como Noam Chomsky: “É bem possível que aprendamos mais sobre a personalidade humana com os romances do que com a psicologia científica”. É que a ciência formula leis universalmente aplicáveis que já operavam antes de serem descobertas. Em contrapartida (ó pra mim a estragar a minha dama com mimos!), as obras literárias descrevem, como se fosse faz de conta, a idiossincrasia da experiência pessoal, que é sempre única. Pois cada um de nós tem uma história individual ligeiramente (ou muito) diferente de qualquer ser que existiu, existe ou existirá – um caleidoscópio ambulante que é processado e atualizado num pano de fundo íntimo a cada nova experiência.
O Nobel Gerald Edelman deu a mão à palmatória: “A nossa experiência das coisas é sempre na primeira pessoa – o que impede uma formulação objetiva. Já a ciência é sempre um discurso na terceira pessoa. Se num artigo científico assomasse o menor indício de ‘qualia’, era cortado na revisão”. Bem, os “qualia” são o que os romances comem ao pequeno-almoço.
O neurocientista tuga António Damásio meteu a colher: “A interação de um organismo com um objeto é uma simples narrativa sem palavras. Tem personagens. Desenrola-se no tempo. Com início, meio e fim. A conclusão: contar histórias é uma obsessão do cérebro, a tática humana fundamental de autoproteção, autocontrolo e autodefinição. Não tecer teias ou construir diques, mas relacionar e controlar a história que contamos aos outros – e a nós próprios – sobre quem somos.” Tomem e embrulhem, Claude ou Claudia (não que a IA seja queer)!
OK, o ser humano é uma miscelânia de átomos, da mesma forma que as peças de Shakespeare são um pacote de palavras, e as sinfonias de Beethoven um montinho de notas. Mas não se segue que “Macbeth” seja só vocábulos, ou a “Quinta Sinfonia” só compassos. Há uma unidade holística em “Macbeth” e na “Quinta Sinfonia’ que é escamoteada ao ser descrita literalmente. Pessoas também são células, mas estas não elucidam a nossa vida individual e cotidiana. E muito menos porque, na conexão biologia e cultura, cada um de nós é assim e não assado.
Sobre os best sellers de Yuval Harari, Roger Scruton alfinetou: “Harari assume que a biologia da natureza humana fornece o relato verdadeiro e completo do que somos. Mas eu sou algo mais, ou algo diferente, do que a entidade biológica na qual sou encarnado. Também sou esse ‘eu’, essa subjetividade que é tanto dona de todos os estados mentais que importam para mim, quanto alvo dessas atitudes nos outros (amor, apreço, respeito) que dão sentido à minha existência.”
Existe, obviamente, um mundo sem nós. Mas esse mundo sem nós não é o nosso mundo. Por exemplo, a amizade ou a arte (que nos conectam moral, emocional e esteticamente) não são grande espingarda em termos de valor evolutivo – mas são essas especiarias que tornam a vida digna de ser vivida. Uma vida não só consciente, mas autoconsciente de um vórtice deslumbrante de experiências: prazeres e dores, imagens e sons, emoções e memórias, receios e anseios.
Por isso tudo, se a IA já tem uma consciência robótica, não tem nem pode ter interioridade: ainda é e será sempre um Frankenstein com um parafuso a menos.