Tendo que escolher, talvez o livro que mais me tenha marcado seja um pequeno conto de Fernando Pessoa, inicialmente publicado na revista Contemporânea, em 1922, intitulado O Banqueiro Anarquista. A narrativa ronda um banqueiro que, como o próprio título indica, se intitulava anarquista. A explicação para o aparente paradoxo é simples: num mundo orientado em torno do poder económico, a única forma que o banqueiro, desde sempre um anarquista, encontrou para impor a sua vontade acima das regras dos demais foi a de triunfar no mundo da alta finança para, daí, por fretes legais e não só, viver pelos seus próprios termos.
A anarquia do banqueiro, portanto, não reside numa defesa da destruição da ordem liberal, ou republicana, que à altura em Portugal antecedia a instauração do Estado Novo — por mais desordenada que esta fosse nos anos finais da I República. Não, a anarquia do banqueiro consiste no reconhecimento de que a base das relações sociais, seja qual for o sistema, é sempre o poder e que se ele desejava um mundo sem regras nas quais pudesse explanar a sua vontade na sua amplitude máxima, então o caminho passaria por transcender a hierarquia social do seu tempo, subindo até ao topo. Aí, detentor de poder real, a sua vontade absoluta poderia fazer-se cumprir.
Mais, em bom rigor, o banqueiro consiste no verdadeiro anarquista. Mais que utópicos como Godwin e Proudhon, ou revolucionários como Bakunin e Kropotkin, o banqueiro não se preocupa com o sistema social que deve orientar uma sociedade. Aliás, aí reside o supremo paradoxo do anarquismo original: ao advogar um sistema para a sociedade, seja ele de cooperação, ausência de propriedade privada ou de individualismo radical, não deixa de ser uma ordem determinada que se impõe à sociedade e, portanto, a molda — nem que seja, no limite, como uma sociedade caracterizada pela ausência de um particular sistema.
Não. A verdadeira anarquia, a suprema anarquia, será, portanto, a do banqueiro, aquele a quem o sistema social lhe é indiferente: seja ele qual for, representa apenas um obstáculo a ser superado, transcendido, controlado, assim permitindo o triunfo pleno da sua vontade individual. Ao verdadeiro anarquista, portanto, não interessa o outro, ou os outros, porque o outro por natureza, apenas por existir e ter vontade também confere uma limitação à sua liberdade. Para o banqueiro, ao verdadeiro anarquista importa apenas a sua vontade pessoal e a capacidade de, a expensas de qualquer convenção, poder ou regulamentação social, a implementar — sobre os outros, sobre a sociedade, sobre quem lhe apetecer, com os meios que forem necessários, incluindo aquele de subir a pulso e vencer no mundo da finança.
O mundo do banqueiro anarquista não será, então, anárquico no sentido de um mundo natural hobbesiano sem qualquer ordem, sem hierarquia, onde impera a força de todos contra todos. Não, pelo contrário, todos esses instrumentos sociais que garantem a ordem — as autoridades, as instituições, os tribunais, a justiça, o poder político dividido, as eleições, a democracia —, tudo isso é útil ao verdadeiro anarquista na medida em que, estando ele no topo da hierarquia, não tem vontade alguma de que venha agora o povoléu em barda, aos gritos, em magote desencabrestado, armado de forquilhas e archotes, entrar pelas portas da mansão adentro com o intuito de lhe esvaziar os cofres, roubar os quadros e pendurar-lhe as entranhas nas ponteiras dos portões de ferro forjado que lhe guardam a vida e os pertences.
Que nada. Ao rico e poderoso convém a polícia, é esta que lhe garante tanto a riqueza como o poder. Do mesmo modo, se o verdadeiro, e bem-sucedido, anarquista é rico e poderoso, também esse gosta da ordem e da serenidade que a autoridade imprime às massas — e quanto mais assim for, melhor, afinal, vendo por esta perspectiva, nada assusta mais o verdadeiro anarquista todo-poderoso do que a revolução. Tal como nada lhe interessa além de certificar-se de que a vida decorre em paz, serena acalmia, tudo nos seus devidos lugares, em rotineira tranquilidade. Ou seja, no fundo, o anarquista bem-sucedido será sempre, para todos os efeitos, um conservador.
Daí, torna-se evidente uma importante conclusão. Apenas a moral — a ordem moral, entenda-se — impede este tipo de anarquia disfarçada, isto porque apenas a moral limita o poder real, prático, das pessoas — no seu âmago, nas suas vontades. Uma sociedade moral ordena-se em redor de um bem que é por todos, ou pelo menos pela sua larga maioria, em público, aceite como bom. Esse bem, naturalmente, transcende a singela vida material dos membros da sociedade e, de algum modo, legitima-se de forma indiscutível como uma manifestação de algo que é unanimemente considerado bom, senão mesmo sagrado ou transcendental. É, depois, essa gravitas que legitima a autoridade que força a sociedade, como um todo, a subjugar-se voluntariamente às regras que a ordenam.
Aliás, historicamente, a fórmula de uma sociedade moralmente ordenada foi sempre relativamente simples: uma revelação sagrada, um bem maior, uma cultura, e um culto, comum em torno dele gerada e, daí, a ordem colectiva à qual os indivíduos voluntariamente aderem. Assim foi, por exemplo, na Grécia clássica, onde a arete e a eudaimonia configuravam o brilho divino da excelência humana, celebrado nos templos, nos jogos e nos versos homéricos — dos deuses, no Olimpo, reflectidos pela graça de Prometeu e de toda uma mitologia de heróis no mundo dos comuns mortais.
Também assim foi em Roma, onde a virtus e a pietas ligavam o cidadão aos deuses, aos antepassados e ao destino eterno da cidade, ela própria divina. Mais tarde, chega o Cristianismo e com ele, na Idade Média e ao longo de toda a tradição cristã, a salvação da alma passou a representar o único bem que justificava a existência terrena. Do mesmo modo, a hierarquia social refletia a ordem divina, e desobedecer significava pecar contra a vontade do próprio Criador.
Já no século XIX, com o advento das luzes e da Revolução liberal, a razão e o progresso substituíram o altar por um novo templo secular onde a ciência, a tecnologia e a liberdade individual se apresentavam como as novéis forças redentoras do destino humano. Ainda assim, nunca nada mudou no essencial, até mesmo no advento do liberalismo com a sua inovadora inversão da soberania, de então em diante, imanada do povo para o poder político, ao invés da anterior que provinha do rei, soberano, para baixo, para o povo. Não obstante, a sociedade permaneceu ordenada em torno de um bem comum, não porque o povo subjugasse a sociedade em regime totalitário, mas, fundamentalmente, porque a sociedade Ocidental, como um todo, partilhava o mesmo código moral que havia aberto as portas da secularização, do poder partilhado, da liberdade individual — o Cristianismo. Ou seja, no âmago, a fórmula moral-cultura-ordem social permaneceu inalterada, na realidade, até aprofundada — será, convenhamos, muito mais difícil manter a ordem imanando o poder de baixo para cima do que na forma inversa. Não imagino que seja polémico afirmar que a “mão invisível” que ordenou durante mais de duzentos anos os mercados — económicos, sociais, políticos — foi uma cultura moral comum.
De facto, mesmo no auge do fanatismo revolucionário, durante o século XX, a sacralização do poder popular conseguiu ser ainda mais feroz. Na URSS, o comunismo não representou outra coisa além da ciência redentora da História, o pináculo do materialismo histórico Marxista transcrito na materialização do paraíso na Terra e o advento do novo homem. Nesse sentido, sacrificar-se pelo Partido e pelo futuro sem classes não seria diferente de qualquer outro dever religioso — com a distinção importante que, uma vez chegados à desilusão prática do mundo, quando com o poder efectivo nas mãos, restou à nomenklatura a violência totalitária em nome de um ideal que, todos aceitando, ninguém, desde aos opressores até aos oprimidos, verdadeiramente acreditava.
Nesse momento, colapsado o consenso moral, substituído por uma farsa, que outra realidade aparece senão o tal mundo anárquico do banqueiro de Pessoa? As massas ignorantes e pobres demais para lutar pela sua vontade, subjugavam-se à ameaça do Gulag, é certo, mas não por vontade própria, restando-lhes a anarquia da fuga, da dissimulação e da luta contra o poder estatal. No topo da sociedade, a relação política do indivíduo com a comunidade seria, no sentido de Pessoa, algo também puramente anárquico: imersos numa hipocrisia partilhada, jurando em público aquilo que repudiavam em privado, o poder — puro, duro, cru — disputava-se por trás da fardas e forças do MVD, da Tcheca, ou do infame KGB, nos corredores do Kremlin, por entre nomeações, traições, assassinatos e ovações públicas, numa luta sem tréguas, sem freios, sem limites morais, pelos lugares do Politburo e do Comité Central — sempre balançando, sem rede, entre a glória do poder supremo e o abismo do reverso da medalha onde o fim aparecia, invariavelmente, com a nuca encostada na ponta do cano de um Nagant M1895.
No Ocidente, o percurso, se bem que diferente, seguiu caminhos paralelos. Esquecido, perdido, lá atrás no mundo antigo, velho e bolorento dos mitos e das crenças, o antigo sentido sagrado da moral aparece hoje em dia quase que estranho ao comum dos ocidentais. Daí, nasceu uma nova ordem social, amoral, material, onde se imagina que a fonte de autoridade reside precisamente no progresso racional e científico, uma autoridade tudo menos moral, ainda que propalando e anunciando o mesmo princípio que a tornou popular — o da libertação dos indivíduos.
Por outro lado, residindo o bem maior da modernidade liberal na libertação máxima — hoje confundida com segurança, conforto, acomodação — das vontades individuais, a nova ordem acaba sendo, ela própria, profundamente anárquica: o bem-estar máximo de cada um encontra-se no safe space liberto de agruras, ofensas, dores, tristezas, a expensas de todos os outros. Ora, tamanho desiderato é impossível de ser alcançado, senão por alguns, à custa dos outros — a anarquia, pois claro, ainda que tutelada pelo estado, em nome da vítima, contra todos os outros.
Aliás, hoje, em boa verdade, vivemos rodeados de anarquistas. Desde o burocrata que trata do seu futuro marimbando-se no interesse geral, passando pelos colegas de trabalho que nos espetam uma faca nas costas na luta pela promoção, ou o político que vende o futuro e bem-estar da Pátria em troca da glória política pessoal, por todo lado, pululam anarquistas. No trabalho, cobiçando a posição, na família, à espreita da herança, na estrada, ao volante de um automóvel com pressa de chegar a casa, a vida contemporânea não é outra coisa além da profunda solidão moral — a cada ano novas regras, sempre mais individualistas, logo menos morais, portanto mais anárquicas.
No final, regressando a Pessoa, neste admirável mundo novo, o banqueiro comprova ainda uma derradeira conclusão: num mundo de anarquistas, quem segue as regras fica para trás; já quem inventa o novo truque, a nova moscambilha, quem inova na usurpação anárquica do poder, esse é recompensado. Daí, a constante e inexorável degeneração de todas as instituições, paulatinamente esventradas e carcomidas pelos anarquistas que, em nome dos seus particulares interesses, as utilizam em proveito próprio: da junta de freguesia à pequena empresa familiar, da câmara municipal, às associações de beneficência, do governo às agências não-governamentais, das instituições internacionais e multi-laterais às gigantescas corporações financeiras internacionais— por todo o lado, a coberto dos melhores slogans, tudo se perverte, corrompe, destrói, visando os interesses e poderes escondidos que lutam, cada qual na sua escala, pelo poder anárquico que lhes permita impor aos outros a sua despótica e absoluta vontade.
Depois, aos anarquistas bem-sucedidos, uma vez conquistado o poder, vivendo ainda dentro dos formalismos da anterior moral, interessa impor então uma justificação para a manutenção da sua situação no topo da hierarquia a expensas dos princípios que, supostamente, norteiam a sociedade. Chegamos, então, ao momento actual onde uma elite anárquica se ocupa, para manter o poder, a inventar toda uma nova moral que, revendo os princípios fundamentais, force a restante sociedade à submissão: daí o mercado ultra regulado, fechado, para “salvar o planeta”, passando pelo estado social onde metade dos rendimentos são confiscados, acabando no espaço público limitado pelo politicamente correcto, a “boa” informação limpa de qualquer homo, xeno, islamo-fobia libertada de qualquer resquício hetero-patriarcal, tudo conspira no sentido da submissão do indivíduo aos poderes que são através da constante divisão social, da valorização moral da aquiescência, da diabolização da resistência, do escrutínio e do debate, invertendo factualmente todos os princípios que, na anterior ordem moral, defendiam, por igual, de forma voluntária e partilhada, as liberdades, garantias e direitos individuais.
Vivemos, portanto, num mundo anárquico onde novos valores — estranhos e abjectos em muitos casos — nos são impostos guela abaixo pelos poderes que se impõem, às nossas expensas, sobre as nossas costas. O banqueiro de Pessoa, no entanto, explica a receita para a resistência: em mundo de anarquistas, apenas anarquistas sobrevivem. Pelo que, nos dias de hoje, apenas a vontade indómita daqueles que se recusam a abdicar dos seus valores, dos seus princípios, dos seus conceitos, insurgindo-se na defesa da sua moral, dos seus valores, do seu direito a criar os seu filhos como muito bem entenderem, erigindo muralhas, por si próprios, sem contar com ninguém, sempre defendendo a sua família contra tudo e contra todos, incluindo o estado, poderá resgatar uma sociedade moribunda da queda na mais abjecta anarquia, aquela onde da luta de todos contra todos pelo poder, alguém emerge como dono do poder absoluto — então, o despotismo, naturalmente.
O paradoxo do banqueiro anarquista reveste-se hoje, portanto, de um novo e mais profundo paradoxo: a apologia da mais indomável, inegociável, irrenunciável e intransigente anarquia como derradeira forma de salvação da velhinha sociedade das liberdades individuais.