“São dois jogos que decidem a vida e o futuro do clube”. A frase é de Álvaro Pacheco, treinador do Casa Pia, sobre o presente e futuro dos gansos, à partida para o playoff que decide as últimas vagas na edição de 2026/2027 das Primeira e Segunda Ligas. Mas a afirmação podia perfeitamente aplicar-se ao adversário dos casapianos: o Torreense. O conjunto azul grená não só está na final da Taça de Portugal como se encontra a um duplo duelo de conseguir voltar à Primeira Liga mais de três décadas depois. Para que isso aconteça, basta que a história recente mantenha a tendência e que o clube que chega da Segunda Divisão consiga bater o antepenúltimo da primeira, como tem acontecido habitualmente.
É isso que a história conta: desde que os playoff de subida/descida regressaram ao futebol das Primeira e Segunda Ligas em Portugal, das cinco ocasiões, o clube do primeiro escalão conseguiu manter-se na competição de onde vinha por apenas uma vez. Foi o AVS de José Mota que travou a tendência na última época, depois de impedir uma subida do Vizela (5-2 no agregado de resultados). Nos quatro anos anteriores, o clube da Segunda Divisão foi quem sorriu no fim. Para o início deste playoff, na primeira mão, jogada esta quarta-feira, as equipas empataram sem golos e adiam as decisões para a segunda mão, na próxima quinta-feira, em Rio Maior.
O técnico dos gansos, castigado para ambas as partidas do playoff, sempre acreditou que o Casa Pia nem sequer devia estar em Torres Vedras. “Pelo que esta equipa passou ao longo da temporada, merecíamos ter conquistado já o objetivo da manutenção. Temos mais dois jogos para reafirmar a equipa que somos, com a identidade, capacidade e resiliência que a equipa tem demonstrado ao longo desta época ”, afirmou. Uma vez no Estádio Manuel Marques, a equipa de Pina Manique conseguiu adiar, na prática, as decisões do playoff para a sua casa.
Do lado dos azul grená, Luís Tralhão avisou, desde logo, que para este jogo “não havia Primeira ou Segunda Liga”. Era o clássico 11 contra 11, sem espaço ou margem para vassalagem por defeito. Para Álvaro Pacheco esta era, para os seus jogadores, “uma oportunidade para mostrarem a sua qualidade e potencial”. Para o técnico, a equipa, nos últimos 180 minutos que disputou, “foi subindo e mantendo-se mais fiel aos valores casapianos”. E desde o aquecimento, os gansos, serenos, mostravam confiança e assertividade para o que levavam a Torres Vedras. Restava saber se o que trazia o apito inicial de um jogo em que muitos adeptos azul grená falavam de um “2-0”, outros de uma “vitória por margem mínima”, mas quase todos tinham o mesmo denominador comum: a vitória do clube da casa.
O “bom ambiente” que Álvaro Pacheco antecipou, principalmente às 18h de uma quarta-feira, confirmava-se em Torres Vedras, que acordava neste dia com um cheirinho de Primeira Liga: os placardes da Segunda Liga davam lugar às lonas do playoff de acesso à Primeira. Foi nessa atmosfera que as cerca de duas centenas de adeptos do Casa Pia, em clara minoria perante cerca de 2.000 adeptos da casa, marcaram presença num Manuel Marques ansioso por uma subida e naturalmente mais audível que os visitantes.
Era o início de uma partida em que todos queriam entrar com vontade a cada bola, mas sabiam que havia muito por jogar. A entrada era nervosa, de parte a parte. Ambos os conjuntos queriam estar na próxima edição da Primeira Liga, mas as pernas tinham de aguentar toda a primeira mão. A vontade era tão grande como a ansiedade. Principalmente dos azul grená, que tentavam entrar em jogo, ao mesmo tempo que queriam chegar à baliza de Patrick Sequeira. Era uma intenção que, por vezes, parecia atrapalhar a outra. Mas foi ao minuto 12 que a primeira investida chegou, com um remate de Alfaro, depois de uma jogada individual pelo lado direito por Quintero. O remate rasteiro, frouxo, para as mãos do guarda-redes casapiano, não libertou os nervos dos adeptos do Torreense, que ficaram minutos seguintes com o coração nas mãos, quando se pediu grande penalidade na sua grande área – não assinalada. Era pela voz dos adeptos da casa, que se pedia um avanço no terreno. Se a festa nas bancadas valesse golos, de parte a parte, ambas as equipas certamente não estariam anuladas a zero à meia hora de jogo.
Celebravam-se cantos como golos, recuperações de bola como subidas de divisão e defesas como se de um troféu se tratasse. Era um contraste do que se passava dentro das quatro linhas até meio da primeira parte. Das bancadas às janelas do hospital junto ao estádio, olhos e ouvidos exclusivamente dedicados a um encaixe que não se desencaixava.
A equipa da casa tentava, igualmente, acalmar os nervos. Principalmente na frente: o nervosismo era batido para as costas da defesa dos gansos. O alvo era Musa Drammeh e a sua velocidade – batida pela de Khaly, central casapiano, por quatro tentativas durante a primeira meia hora. Foram precisos cerca de 35 minutos para a equipa da casa descomplexar-se. A partir daí houve mais Torreense e menos Casa Pia, que esteve sempre organizado, a “saber gerir o jogo” e claramente a querer “levar a decisão para a segunda mão”, no seu reduto, como antecipou Álvaro Pacheco na antevisão do encontro. Repetiam-se as chegadas à baliza da equipa visitante, com diversos cruzamentos perigosos de Javi Vázquéz a ameaçarem a inauguração do marcador. Inconsequentes, no entanto. O nulo confirmava-se ao intervalo.
Com o início da segunda metade, sem alterações em ambas as equipas, chegou a melhor oportunidade da partida até àquele momento: depois de uma grande confusão dentro da área do Torreense, Cassiano rematou perto da meia lua sem oposição mas não conseguiu aproveitar o lance para adiantar os visitantes. O estádio voltou a respirar fundo. O alívio azul grená rapidamente transformou-se em bruá. Como no final da primeira parte, a equipa da casa voltou a chegar por várias vezes junto da baliza de Sequeira. Numa das investidas, o guardião dos gansos teve de se aplicar para evitar o primeiro golo da partida, depois de uma maldade de Dany Jean sobre um adversário pela esquerda e de um remate que saiu para o primeiro de três cantos consecutivos, que não resultaram, uma vez mais, em golo.
O relógio ia passando e jogava a favor do Casa Pia, que mantinha aos 64’ a sua baliza a zeros. Ainda assim, já sem Cassiano nem Livolant – para as entradas de Kevin Prieto e Dailon Livramento – os gansos viam-se, um jogador atrás do outro, cada vez mais amarelados. Além do cansaço, os cartões impediam que o ímpeto de cada lance fosse mais contido. Até que, num lance em que os casapianos falharam um golo cantado – deu a sensação que a bola até tinha entrado, inicialmente –, o ímpeto da entrada de Rosas foi além do permitido pelas leis de jogo. Não só a bola não entrou como, depois de uma revisão do VAR, os visitantes começaram a jogar com menos uma unidade, após uma entrada grosseira do número 75 sobre Guilherme Liberato, médio dos anfitriões.
A partida estava no 76.º minuto e o Torreense tinha reais chances de chegar ao golo que procurava, agora que tinha uma unidade a mais. O Casa Pia, no entanto, não voltou a cara à luta e foi chegando, de forma mais ou menos tímida, à baliza adversária. Num constante ‘bate volta’ – inesperado pela diferença numérica e pelo que Pacheco havia antecipado – o jogo ameaçava, porém, chegar ao fim com uma igualdade onde realmente importa, no resultado. Mesmo com o pé esquerdo de Vázquez a ameaçar uma apoteose que passou a centímetros do golo, na sequência de um livre direto a dois minutos dos 90′.
Os oito minutos de compensação eram o consolo dos dois milhares de azul grená no Manuel Marques, que tentavam empurrar os visitantes à sua baliza nos últimos instantes do encontro, em que houve mais paragens do que jogo. Sim, os anfitriões conseguiram empurrar os visitantes à sua baliza. Não, não conseguiram empurrar o mais importante para as redes adversárias: a bola. A partida terminou, por isso, empatada a zeros.
“Seja por Zoom ou auricular, a mensagem vai lá chegando de todas as formas”, garantiu o técnico do Casa Pia na antevisão, abordando a sua ausência no banco de suplentes dos gansos. A verdade é que a mensagem teve efeitos práticos. O plano de Pacheco parece ter resultado – o Casa Pia leva a decisão para Rio Maior. Mas a disputa por uma vaga na próxima edição da Primeira Liga na próxima temporada ainda vai a meio. Antes, há novo jogo histórico do Torreense, que joga a Taça de Portugal no Jamor frente ao Sporting. Depois, a segunda mão do playoff, que serve como uma marcação de território para ambos os conjuntos, na próxima quinta-feira. Se perder, o Casa Pia volta a Pina Manique e o Torreense poderá jogar a Primeira Liga no Municipal de Rio Maior. Uma batalha campal, no sentido mais literal possível: quem ganhar, fica com o campo.