Não tem o mesmo peso histórico de uma data como o St. Patrick’s Day, nem por isso deixa de ser algo que passe ao lado da realidade sempre movimentada de Nova Iorque. Em abril, nas comemorações do Tartan Day, centenas de pessoas foram desfilando desde a West 45th Street até ao cruzamento da 6th Avenue com a 55th Street em ambiente de festa. Houve cerveja, muita cerveja, os habituais kilts e várias marcas que fazem da cultura escocesa um fenómeno à parte. À frente, um cartaz dava nas vistas: “Nós vamos voltar”. E com uma cara conhecida na fila da frente, agora com uma barba que assinala bem a passagem dos anos: Steve Clarke. O selecionador que conseguiu trazer novamente os escoceses ao Mundial começava a dar o mote.
A Escócia vai terminar a fase de grupos com um jogo que todos aguardam com natural ansiedade frente ao Brasil, no calor de Miami. Antes, vai tentar fazer pela vida em Boston, onde contará com uma enorme falange de apoio entre os que vivem nos EUA e os que viajarão para o país nessa altura. É aí que todo o Mundial do Tartan Army vai passar, primeiro com um encontro frente ao modesto Haiti e depois com um duelo que será preponderante para as contas finais diante de Marrocos. Fora de campo, a receita está definida e tem sucesso garantido: tragam a carteira, venham com tempo, não se esqueçam da cerveja e é vitória certa. Mas querem mais, muito mais. E aquele prémio de consolação de melhores adeptos da prova já sabe a pouco.
Após a vitória frente à Dinamarca que carimbou o regresso aos Mundiais 28 anos depois, Andy Robertson, o capitão, chorou. Chorou de emoção, chorou pelo feito, chorou ao recordar alguém próximo que acabou por morrer de forma trágica. “Não consegui tirar o meu parceiro Diogo Jota da cabeça ao longo do dia de hoje. Falámos imenso sobre o Mundial. Quando ele falhou o do Qatar por lesão, eu também falhei já que a Escócia não se apurou. Falámos muito sobre como seria ir ao Mundial. Sei que ele estará algures hoje a sorrir. Não consegui tirá-lo da cabeça durante todo o dia…”, apontou. Faltava-lhe o amigo para comemorar o objetivo cumprido de jogar um Mundial quando muitas vezes terá pensado que nunca lá iria numa carreira onde ganhou quase tudo o que havia para ganhar. O lateral dá o mote para o que se pode esperar da Escócia, aquela seleção que não tem brilhado nas fases finais de Europeus mas que quer reescrever agora a história.
Além de Robertson, há outros pilares com experiência de Premier League ou que foram saindo para a Serie A que sustentam esse sonho. Os escoceses não têm propriamente figuras como Kenny Dalglish, Denis Law ou, numa outra era, Andy McCoist, mas contam com jogadores como John McGinn, Scott McTominay ou Lewis Ferguson para servirem de exemplo a todos os outros numa equipa onde prevalece o coletivo. São altos, são fortes, muitas vezes têm uns vestígios daquele futebol kick and rush aproveitando a compleição física de quem está na frente, mas chegam também com outra experiência nestes palcos internacionais, com uma base que se mantém tendo o mesmo selecionador e com jogadores que cresceram ao longo da época por somarem mais minutos. A partir daqui, tudo é possível. Fora de campo, vão golear. Lá dentro, logo se vê.
BI
- Ranking FIFA atual: 43.º (a 1 de abril de 2026)
- Melhor ranking FIFA: 13.º (outubro de 2007)
- Patrocinador: Adidas (desde 2010)
- Alcunha: The Tartan Army
- Presenças em fases finais: 8
- Última participação: 1998 (fase de grupos, com Brasil, Noruega e Marrocos)
- Melhor resultado: 9.º lugar em 1974 (fase de grupos, 4 pontos com Jugoslávia, Brasil e Zaire)
- Qualificação: 1.º lugar do grupo C da UEFA (13 pontos em 6 jogos com Dinamarca, Grécia e Bielorrússia)
- O que seria um bom resultado? Passar a fase de grupos e chegar à fase a eliminar

Jogos desde junho de 2025
- Jogo particular, 6/6: Bolívia (fora)
- Jogo particular, 30/5: Curaçau (casa), 4-1
- Jogo particular, 31/3: Costa do Marfim (neutro), 0-1 (D)
- Jogo particular, 28/3: Japão (casa), 0-1 (D)
- Qualificação UEFA, 18/11: Dinamarca (casa), 4-2 (V)
- Qualificação UEFA, 15/11: Grécia (fora), 2-3 (D)
- Qualificação UEFA, 12/10: Bielorrússia (casa), 2-1 (V)
- Qualificação UEFA, 9/10: Grécia (casa), 3-1 (V)
- Qualificação UEFA, 8/9: Bielorrússia (fora), 2-0 (V)
- Qualificação UEFA, 5/9: Dinamarca (fora), 0-0 (E)
- Jogo particular, 9/6: Liechtenstein (fora), 4-0 (V)
- Jogo particular, 6/6: Islândia (casa), 1-3 (D)
O onze
- 4x2x3x1: Angus Gunn; Aaron Hickley, Jack Hendry, Scott McKenna, Andy Robertson; Lewis Ferguson, John McGinn; Ryan Christie, Scott McTominay, Ben Doak e Che Adams
O treinador
- Steve Clarke (escocês, 62 anos, desde maio de 2019)
- Outros clubes: Newcastle (interino), Chelsea (adjunto), West Ham (adjunto), Liverpool (adjunto), WBA, Reading e Kilmarnock
- Títulos: –

O craque
- Scott McTominay (29 anos, médio dos italianos do Nápoles)
- Outros clubes: Manchester United (formação) e Manchester United
A revelação
- Billy Gilmour (24 anos, médio dos italianos do Nápoles)
- Outros clubes: Chelsea, Norwich e Brighton
O mais internacional e o maior goleador
- Kenny Dalglish (102 internacionalizações) e Kenny Dalglish e Denis Law (30 golos)

Os 26 convocados
- Guarda-redes (3): Craig Gordon (Hearts, Escócia), Angus Gunn (Nottingham Forest, Inglaterra) e Liam Kelly (Rangers)
- Defesas (10): Grant Hanley (Hibernian, Escócia), Jack Hendry (Al-Ettifaq, Arábia Saudita), Aaron Hickey (Brentford, Inglaterra), Dom Hyam (Wrexham, País de Gales), Scott McKenna (Dínamo Zagreb, Croácia), Nathan Patterson (Everton, Inglaterra), Anthony Ralston (Celtic, Escócia), Andy Robertson (Liverpool, Inglaterra), John Souttar (Rangers, Escócia) e Kieran Tierney (Celtic, Escócia)
- Médios (8): Ryan Christie (Bournemouth, Inglaterra), Finlay Curtis (Rangers, Escócia), Lewis Ferguson (Bolonha, Itália), Ben Doak (Bournemouth, Inglaterra), Billy Gilmour (Nápoles, Itália), John McGinn (Aston Villa, Inglaterra), Kenny McLean (Norwich, Inglaterra) e Scott McTominay (Nápoles, Itália)
- Avançados (5): Che Adams (Torino, Itália), Lyndon Dykes (Charlton, Inglaterra), George Hirst (Ipswich, Inglaterra), Lawrence Shankland (Hearts, Escócia) e Ross Stewart (Southampton, Inglaterra)
O local do estágio
- Renaissance Charlotte SouthPark Hotel, Charlotte, na Carolina do Norte (treinos: Charlotte FC Training Center)
A antevisão
A ligação a Portugal
- Não existe propriamente uma tradição de jogadores portugueses na Primeira Liga, ao contrário do que vai acontecendo no Campeonato escocês que ganhou esta temporada mais um destaque nacional em Cláudio Braga, avançado do Hearts que foi considerado o MVP da liga. No entanto, e depois de uma qualificação para o Mundial que falhava há 28 anos, o capitão da Escócia, Andy Robertson, não esqueceu alguém que o continua a inspirar mesmo não estando presente. “Estive em cacos hoje… Não consegui tirar o meu parceiro Diogo Jota da cabeça ao longo do dia de hoje. Falámos imenso sobre o Mundial. Quando ele falhou o do Qatar por lesão, eu também falhei já que a Escócia não se apurou. Falámos muito sobre como seria ir ao Mundial. Sei que ele estará algures hoje a sorrir. Não consegui tirá-lo da cabeça durante todo o dia…”, recordou o lateral esquerdo do Liverpool.