(c) 2023 am|dev

(A) :: "O Homem e a Mulher existem?"

"O Homem e a Mulher existem?"

Quando os insultos surgem embrulhados em linguagens académicas, passam por análises críticas que se apresentam tão irrefutáveis, quanto verdadeiras.

Filipe Carvalho
text

Consoante a instituição académica, chamamos de “estudos de género”, “teoria queer” ou “desconstrução do sujeito” a um particular tipo de violência, quase sempre praticada, com financiamentos públicos; que raramente não transforma o que qualquer pessoa sensata vê com os seus próprios olhos, numa “construção de poder” que urge não desmantelar, uma escaramuça entre alguns antropólogos e a natureza.

Comecemos pelo princípio, que é também o princípio do problema.

Em 1949, Simone de Beauvoir escreveu que “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Uma frase elegante que é também o ponto de partida de uma das mais longas e custosas aventuras intelectuais e tentativas de convencer a humanidade de que, a diferença entre um homem e uma mulher, é afinal uma ilusão fabricada pelo poder. Beauvoir tinha razão quando nos alertou de que a forma como as mulheres se comportam, vestem e vivem, muda consoante a cultura e a época. Mas daí não se conclui que a feminilidade não existe; partindo do pressuposto de que a variação não apaga o fundamento.

Este salto lógico instalou-se dogmaticamente nas universidades europeias e americanas de forma quase agressiva e inquisitorial. Em Gender Trouble (1990),  Judith Butler propôs que o género não é sequer uma categoria real, mas uma “performance” organizada num conjunto de gestos repetidos que criam a ilusão de uma identidade estável. Isto é, o homem não é um homem: representa um homem. A mulher não é uma mulher: performa a feminilidade que as “práticas reguladoras” lhe impõem.

É uma ideia com uma certa sedução estética e que tem a vantagem considerável de ser, na prática, irrefutável, porque qualquer objecção pode ser imediatamente reabsorvida como mais uma “prática reguladora” do “sistema opressor”. Quando se discorda, é porque se está capturado pelo sistema. Se se concorda é porque o sistema vigente funciona e há que descontruí-lo. Se se fica calado, o silêncio é cúmplice. Enfim, é o esquema de todos os totalitarismos intelectuais que a modernidade produziu.

A devastadora visão do mundo de Michel Foucault, mostra-nos que tudo é uma construção do poder e do domínio. E quando tudo é poder, segundo Foucault, nenhuma tradição, nenhuma instituição, ou forma de vida herdada pode reclamar qualquer validade que não seja imediatamente suspeita de cumplicidade com a dominação.

O que Foucault não explicou — e os seus herdeiros de pensamento preferem não questionar — é quem impõe hoje, a “desconstrução” que ele propunha. Porque se partirmos do princípio foucaultiano de que tudo é poder, então o feminismo académico que colonizou as nossas universidades, os nossos meios de comunicação e os nossos organismos internacionais é também uma forma de poder.

Este mecanismo pelo qual o poder se instala na cabeça dos que domina até eles o tomarem por natureza, é um conceito genuinamente iluminador. A “violência simbólica”, criada por Pierre Bordieu (um filho do seu tempo e prisioneiro dos seus ressentimentos de classe), só conseguiu aplicá-la numa direcção. Não será violência simbólica da mais refinada dizer à mulher portuguesa, à que acorda cedo para levar os filhos à escola e ainda assim se sente realizada nisso, que a sua felicidade é uma ilusão fabricada pelo “bicho-papão” do patriarcado e que a verdadeira consciência feminina está na professora universitária de Estudos de Género que passou a vida a explicar às outras mulheres porque é que estão enganadas?

Na década de 1990, Raewyn Connell construiu a teoria da “masculinidade hegemónica” com a circularidade impecável que só vários anos de vida universitária permitem sustentar sem pudor: se um homem é forte, viril e socialmente respeitado, é hegemónico e portanto cúmplice do patriarcado; se é fraco, marginalizado e inseguro, é subordinado e portanto vítima do mesmo patriarcado. O homem, em qualquer configuração que assuma, é sempre o problema; e a sua progressiva dissolução, a infalível solução.

Margaret Mead passou a vida a convencer-nos de que a natureza humana é infinitamente maleável e que tudo o que somos é fruto do condicionamento cultural. Uma conclusão extraordinariamente conveniente para quem queria mudar tudo sem ter de explicar porquê. Já Derek Freeman dedicou décadas a mostrar, com a paciência metódica que a demolição de um mito exige, que as investigações de Margaret Mead em Samoa foram, para usar uma expressão generosa, mais ideológicas do que científicas. Mas essa refutação chegou tarde, como sempre chega quando o erro já foi institucionalizado, já entrou nos manuais e já formou os professores que formaram os jornalistas que, por sua vez, formaram a opinião.

No fundo, há coisas que os seres humanos fizeram sempre, em todo o lado e desde sempre: distinguir o homem da mulher, formar famílias, ter filhos e transmitir-lhes o que aprenderam. Não porque alguém os obrigou, mas porque é disso que somos feitos. Lamento, mas quem chegou até aqui concordando com alguma coisa do que foi escrito é, segundo o catecismo dominante, um machista, um fascista, ou um reaccionário com problemas por resolver com a sua figura materna.

Quando os insultos surgem embrulhados em linguagens académicas, passam por análises críticas que se apresentam tão irrefutáveis, quanto verdadeiras. A palavra “fascista” perdeu há muito qualquer significado preciso e hoje,  significa apenas “pessoa que disse algo com que não concordo e a quem não sei responder mas quero ofender”. É um atalho intelectual com a vantagem de dispensar o pensamento e a desvantagem de não enganar ninguém que ainda tenha o hábito de o exercer.