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De tubarões-fantasma a esponjas carnívoras: cientistas descobrem mais de mil novas espécies no oceano

Missão do Ocean Census identificou espécies marinhas nunca antes vistas: moluscos gigantes, tubarões-fantasma e organismos capazes de sobreviver a pressões extremas a seis quilómetros de profundidade.

Carolina Malheiro
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Uma equipa internacional de cientistas descobriu 1.121 novas espécies marinhas nas profundezas dos oceanos ao longo do último ano. A revelação foi feita na terça-feira pela missão internacional do Ocean Census. Este número representa um aumento de 54% face ao ritmo de descobertas dos anos anteriores.

Os novos registos incluem tubarões-fantasma, esponjas carnívoras, camarões de cores invulgares, anémonas, corais e vermes marinhos, que vivem em ambientes extremos, de pressão elevada e ausência total de luz, de acordo com o site oficial do Ocean Census.

A missão, liderada pela Fundação Nippon, do Japão, e pela Nekton, do Reino Unido, envolveu mais de 1.000 investigadores de 85 países e realizou explorações em várias zonas remotas do planeta, incluindo áreas próximas do Japão, da Austrália, de França e Timor-Leste.

No Japão, a cerca de 800 metros de profundidade, foi descoberta uma nova espécie de verme poliqueta que vive no interior de uma esponja de vidro. Esta estrutura, composta por um esqueleto de sílica translúcida semelhante a uma malha — frequentemente descrita como “castelo de vidro” — , estabelece uma relação simbiótica com o verme marítimo: este obtém proteção e nutrientes, enquanto ajuda a limpar resíduos da superfície da esponja.

Os cientistas identificaram o que designaram como quimera, também conhecida como “tubarão-fantasma”, na Austrália, a cerca de 820 metros de profundidade. Estes peixes são parentes distantes dos tubarões e das raias, dos quais divergiram há cerca de 400 milhões de anos.

Em Timor-Leste, foi encontrada uma espécie de verme-de-fita com cerca de 2,5 centímetros de comprimento, marcada por riscas cor de laranja associadas às suas defesas químicas. As toxinas produzidas por estes organismos estão a ser estudadas pelo seu potencial em tratamentos de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer, e perturbações psiquiátricas, como a esquizofrenia.

Nas Ilhas Sandwich do Sul, os investigadores descobriram uma esponja carnívora a cerca de 3.600 metros de profundidade. Esta espécie apresenta estruturas microscópicas semelhantes a ganchos que funcionam como armadilhas para capturar pequenos crustáceos transportados pelas correntes, que são depois digeridos.

Os investigadores sublinham que as profundezas do oceano continuam a ser das regiões menos estudadas do planeta, com grande parte da biodiversidade ainda por descobrir. A iniciativa pretende acelerar este trabalho antes que as alterações ambientais e a poluição industrial e agrícola afetem estes ecossistemas.
“Com muitas espécies em risco de desaparecer antes mesmo de serem documentadas, estamos numa corrida contra o tempo para compreender e proteger a vida marinha“, afirmou Michelle Taylor, diretora científica do Ocean Census.

Os especialistas alertam, no entanto, que identificar oficialmente uma nova espécie pode demorar até 13,5 anos. “Sem este nome formalmente reconhecido, a espécie efetivamente não existe para a ciência e, portanto, também para a política — espécies sem nome não podem ser protegidas”, sublinha Tammy Horton, investigadora no Centro Nacional de Oceanografia do Reino Unido, à CNN.

Para acelerar este processo, o Ocean Census passou a reconhecer o estado de “descoberta” como um estatuto científico que pode ser imediatamente registado na sua base de dados. Assim que uma descoberta é validada por um especialista, é registada na plataforma — Ocean Census NOVA — de acesso aberto, ficando acessível à comunidade científica e a responsáveis políticos.

O Ocean Census acredita que estas descobertas podem impulsionar medidas mais eficazes de proteção da vida marinha e aumentar o investimento científico. “Gastamos milhares de milhões à procura de vida em Marte ou a ir à Lua”, disse Oliver Steeds, diretor do Ocean Census. “Descobrir a maioria da vida no nosso próprio planeta — no nosso próprio oceano — custa uma fração disso. A questão não é se podemos dar-nos ao luxo de fazer isto. É se podemos dar-nos ao luxo de não o fazer.”