Os Estados Unidos acusaram formalmente Raúl Castro, antigo Presidente cubano e irmão de Fidel Castro, assim como mais outras cinco pessoas pelos seus alegados papéis no abate de dois aviões civis em 1996, pertencentes ao grupo de ativistas exilados cubanos “Hermanos al Rescate”, provocando a morte a três cidadãos norte-americanos e a um residente no país. Castro é acusado de ter dado a ordem para o ataque, relata a CBS.
Ministro da Defesa cubano à data do incidente, Raúl Castro é acusado de conspiração para assassinar cidadãos norte-americanos, quatro acusações de homicídio e duas acusações de destruição de aeronaves, segundo documentos judiciais obtidos pela emissora norte-americana. Entre os arguidos, está também um piloto da força aérea cubana envolvido na operação.
Em março, o procurador-geral da Florida anunciou a reabertura da investigação estadual sobre o incidente, revertendo o arquivamento do caso e, na semana passada, fontes disseram à CNN que a justiça norte-americana estava a analisar a possibilidade de apresentar acusações contra Castro. O caso acabou por deteriorar ainda mais as relações entre os Estados Unidos e Cuba e o então Presidente norte-americano, Bill Clinton, promulgou leis que endureceram as sanções contra Havana e que continuam a ser a base dos embargos norte-americanos ao país.
Os “Hermanos al Rescate” descreviam-se como um grupo humanitário pró-democracia, dedicado a apoiar o povo cubano na luta contra a ditadura. Fundado em 1991 pelo exilado cubano José Basulto — que seguia a bordo de um terceiro avião que conseguiu escapar ao ataque —, era composto maioritariamente por pilotos cubano-americanos que operavam a partir de aeroportos na região de Miami. O grupo chegou mesmo a lançar panfletos sobre Cuba a criticar o governo de Fidel Castro, relata a emissora.
Na década de 1990, o grupo voava regularmente para Cuba, na tentativa de encontrar ou auxiliar cubanos que tentavam chegar aos Estados Unidos de barco. No entanto, 24 de fevereiro de 1996, as forças cubanas abateram com mísseis duas das aeronaves do grupo perto da costa do país, acabando por matar Armando Alejandre Jr, Carlos Costa, Mario de la Peña e Pablo Morales.
Desde então, deputados republicanos cubano-americanos têm pressionado o Departamento de Justiça dos EUA a apresentar acusações contra Raúl Castro, apesar de o seu irmão, Fidel Castro, ter assumido a responsabilidade pelo incidente, afirmando ter dado ordens às forças armadas cubanas para abater qualquer aeronave que violasse o espaço aéreo do país. Segundo a CNN, alegam que existem provas que o ligam Raúl ao caso, inclusivamente uma gravação de comunicações via rádio que indicaria ter sido o próprio a ordenar o abate das aeronaves.
Depois do ataque, o governo cubano acusou os “Hermanos al Rescate” de realizar operações secretas contra o regime e o o então Ministro dos Negócios Estrangeiros de Cuba, Roberto Robaina González, chegou mesmo a alegar que o grupo queria sabotar uma refinaria de petróleo e atacar líderes do país. Os Estados Unidos, por sua vez, sustentam que os aviões foram abatidos em espaço aéreo internacional e reagiram rapidamente, impondo novas sanções a Cuba e condenando o incidente.
Segundo o governo norte-americano, as aeronaves do grupo estavam desarmadas e os voluntários a bordo não representavam qualquer ameaça para o governo cubano, para as suas forças armadas ou para a população da ilha.
A notícia, segundo o The Guardian, surge numa altura em que a administração Trump adota uma postura cada vez mais hostil em relação a Cuba, reforçando as sanções e endurecendo as restrições às exportações de petróleo para a ilha.
Entretanto, o Presidente cubano, Miguel Díaz-Canel Bermúdez, reagiu às acusações dos Estados Unidos contra Castro. “Mentem repetidamente sem qualquer vergonha, com uma desfaçatez alarmante, sem apresentarem uma única prova que sustente as suas alegações”, acusou o líder na rede social X.
Com 94 anos, Raúl Castro continua a ser um das figuras políticas com mais destaque na ilha nas Caraíbas, embora tenha deixado a liderança do Partido Comunista cubano em 2021.