Cher, que faz anos esta quarta-feira, dia 20 de maio, não saberá disto, mas é tudo verdade: há muitos anos foi-me atribuída a tarefa de entrevistar Marianne Faithfull. Tal facto decorreria numa altura em que eu estaria de férias, porém, sendo eu um extraordinário profissional, organizei-me e, na noite anterior à entrevista, que era bem cedo de manhã, deixei preparadas umas folhinhas com perguntas e fui-me deitar cedo. O que de pouco valeu, já que os meus amigos resolveram arrastar-me (literalmente) para fora da cama e largar-me no chão de tijoleira da sala. No dia seguinte, quando acordei (bem cedo) no chão de tijoleira da sala, levantei-me, peguei nas folhas com as perguntas, fui para o terraço, marquei o número e quando Marianne Faithfull se apresentou do lado de lá da linha, fiz a primeira pergunta:
“Do you believe in life after love?”
Aterrado, olhei para as folhas: os meus amigos haviam trocado a minha entrevista por umas folhas com perguntas que consistiam – literalmente – de letras de canções de Cher. Felizmente, Marianne Faithfull achou muita graça ao acontecido (após eu confessar o sucedido) e a entrevista correu bem.
Serve esta introdução para dar ideia do poder de Cher na cultura ocidental, se por cultura ocidental considerarmos um bando de bêbedos que não tinha mais nada para fazer do que chatear e boicotar o mais honesto e sério dos seus amigos. Believe, a canção de onde a frase “Do you believe in life after love?” foi retirada, é de 1998 – nessa altura, Cher tinha 52 anos; e mesmo assim estava em todos os tops com uma canção que, note-se, pretendia ser uma homenagem ao techno de fim de 80s, uma canção pensada para o público gay de Cher. Qual gay: a canção foi adorada por todo o ser vivo, de todas as idades, todas as cores, todos os credos, fosse qual fosse o seu genital preferido.

Esta é mesma Cher que começou na folk da contra-cultura e se tornou uma estrela da noite para o dia com I Got You, Babe, canção escrita pelo seu marido, Sonny Bono (1935-1998), e interpretada por ambos no duo Sonny & Cher; a mesma Cher que em 1987 lançou um álbum de hair-metal (chamado Cher), cuja faixa de abertura, I Found Someone, era uma baladona só possível nos anos 80 e um mega-êxito, a mesma Cher que foi só ali num instantinho tornar-se estrela de cinema com filmes como As Bruxas de Eastwick e Moonstruck – são ambos de 1987 e o segundo filme valeu-lhe o Óscar de Melhor Atriz no ano seguinte (e um Globo de Ouro).
Por isso, quando estiverem a escrever um tweet de parabéns a Cher, pensem no seguinte: isto não é a carreira normal de uma estrela pop. É algo maior. Quase sem exceção, o trajeto de uma estrela pop começa na obscuridade, passa pelo disco que explode, os subsequentes anos de sucesso, os anos de decadência, o regresso nostálgico, o circuito de casinos, até acabar no documentário melancólico sobre como “já ninguém faz música assim” ou, com muita sorte, uma réplica de cera num museu.
Não é que Cher não tenha tido momentos em que foi esquecida ou ridicularizada – teve, e muitos. O ponto é: Cher conseguiu sempre regressar ao estrelato, como se emitir mais luz que os restantes fosse o seu desígnio. Aliás, o seu primeiro êxito – o já mencionado I Got You, Babe, pelo duo Sonny & Cher – chegou quando ela tinha 19 anos de idade. Logo de seguida, lançou uma carreira a solo, ainda que com Sonny como seu compositor, arranjador e produtor. Já agora, um pequeno momento de trivia pop: sendo Cher uma ativista dos direitos LGBT e da luta contra o HIV, Sonny tornou-se num político republicano. Foram casados entre 1964 e 1975. Nas memórias publicadas em 2024, Cher recorda uma relação de abuso piscológico, emocional e financeiro.

Não é fácil definir os géneros musicais que ela adotou subsequentemente. Gypsys, Tramps & Thieves, de 1971 e um dos seus grandes êxitos da década é o quê? Eu chamo-lhe música da Broadway, apesar de haver ali um lado de country orquestral. E Dark Lady é o quê? Por mim poderia ser um excelente lado B dos Abba. Algo com vaudeville, muitas cordas e o drama que aquele vozeirão transmite com aquela facilidade só possível nos eleitos.
Sendo a América um país voltado para a concretização de todos os dólares possíveis de todas as formas possíveis, Cher rapidamente seu um pulo até à TV, primeiro com The Sonny & Cher Comedy Hour e depois com um show de variedades em nome próprio, chamado Cher – que chegou a ter 30 milhões de espectadores semanais. E, como dizia São Mateus numa versão inicial do seu Evangelho, 30 milhões é muita fruta.
“Epá, e já que estamos a ganhar dinheiro com esta moça na TV, porque não experimentar ganhar dinheiro com ela no teatro?”, terá alguém pensado? E ora bem, lá foi Cher para a Broadway. “E se estamos a ganhar dinheiro com ela na TV e no teatro, porque não ganhar dinheiro com ela no cinema?” E lá foi ela fazer filmes – atividade na qual revelou suficiente talento, pese embora muita gente a atacasse, problema comum aos cantores que passam a fazer fitas.
Pelo meio, realizou, ganhou um Óscar, o prémio de melhor atriz em Cannes e fez aquilo que podemos definir por “uma porrada de filmes de merda”. O seu regresso à música foi marcado por uma viragem sonora, rumo a uma espécie de rock baladeiro (que por vezes se designa por hair-metal); e ainda assim sacou êxitos como If I Could Turn Back Time, possuidor de um extraordinário refrão, que devia ser alvo de versões por parte da Lindsey Buckingham, Tina Turner, a moça dos Beach House, Patti Smith e os Geese (eheheh, incrível como até no aniversário de Cher eu consigo enfiar os Geese. Fazê-lo é um prazer e uma arte, mas não o tentem em casa).

Se avançarmos até 1998 voltamos ao início do texto, com o disco Believe, que contém a canção Believe; diz a vox populi conhecedora dos mentideiros da pop que o disco foi produzido a pensar nos fãs LGBT de Cher, já que esta sempre foi ativista da causa e é, supostamente, adorada pela comunidade. O disco acabou no primeiro lugar em inúmeros países — o mainstream quis entrar na festa e o auto-tune transformou-se num fenómeno que nunca mais passou de moda.
Enfim, ela vendeu mais de 100 milhões de discos, ganhou Grammys, Óscares e mais um sem número de prémios, está no Rock and Roll Hall of Fame – onde os Geese ainda não estão, mas estarão mais dia menos dia, os Geese ou Victor Wembanyama – e enfiou mais de 250 milhões ao bolso com a sua digressão de 2002–2005, Living Proof: The Farewell Tour. Que mais dizer, de uma pessoa que vê um musical dedicado à sua vida subir aos palcos?
Talvez apenas isto: não sabemos se há vida depois do amor, amor depois da vida, vida depois da vida, amor depois do amor, mas sabemos que hoje é dia de dar os parabéns a Cher, figura maior da cultura popular do último meio século.