O ministro israelita da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, partilhou esta quarta-feira um vídeo onde se podem ver os ativistas da flotilha humanitária detidos em águas internacionais amarrados e obrigados a ajoelhar-se pelas autoridades enquanto ouviam o hino israelita. Publicadas na rede social X, as imagens são acompanhadas com a legenda em hebraico “Isto é como nós recebemos apoiantes de terroristas”, seguido da frase em inglês “Bem-vindos a Israel”. A publicação foi alvo de críticas pelo próprio primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, por vários países e até por Luís Montenegro e Paulo Rangel.
https://twitter.com/itamarbengvir/status/2057046925417824697
Nas imagens, também se pode ver o ministro a passar ao lado de elementos da flotilha — que tinha dois portugueses a bordo, os médicos Beatriz Bartilotti e Gonçalo Reis Dias, — no exato momento em que uma ativista que gritava “Free Palestine” é violentada pelas autoridades presentes no local ou a agitar a bandeira de Israel.
A publicação mereceu vasta condenação internacional, mas também em Israel, com o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, citado pelo The Times of Israel, a considerar que a forma como Ben Givir lidou com os ativistas “não se coaduna como os valores e normas de Israel”.
“Israel tem todo o direito de impedir que flotilhas provocatórias de apoiantes terroristas do Hamas entrem nas nossas águas territoriais e cheguem a Gaza. No entanto, a forma como o ministro Ben Gvir lidou com os ativistas da flotilha não se coaduna com os valores e normas de Israel”, afirmou o chefe do Governo israelita, que quer avançar com a deportação dos tripulantes “o mais rápido possível”.
As críticas internas chegaram também através de Gideon Sa’ar, ministro israelita dos Negócios Estrangeiros, para quem Ben Gvir “causou danos de forma consciente” a Israel, algo que “não é pela primeira vez”.
“[Ben Gvir] desfez esforços tremendos, profissionais e bem-sucedidos realizados por tantas pessoas — desde soldados das IDF até funcionários do Ministério dos Negócios Estrangeiros e muitos outros”, lamentou Sa’ar no X, que afirma que Ben Gvir “não é a cara de Israel“.
https://twitter.com/gidonsaar/status/2057075559021043833
Rabino da Comunidade Israelita de Lisboa condena vídeo publicado por Ben-Gvir
“As ações que vimos o ministro Itamar Ben Gvir praticar estão, na minha opinião, muito distantes dos valores que a comunidade judia se comprometeu a viver e defender”, escreveu o rabino de Lisboa, Pierpaolo Pinhas Punturello, num comunicado a que o Observador teve acesso.
O orientador espiritual recordou a aproximação do Shavout, que este ano se celebra entre esta quinta-feira e o próximo dia 23 de maio. A data comemora a proclamação dos Dez Mandamentos, entregues por Deus a Moisés no Monte Sinai (Egito). Também conhecidos como decálogo, estabelecem dez princípios éticos importantes para a comunidade judaica e cristã, que reforçam o seu compromisso com a justiça e a moralidade.
“Como disse o ministro dos Negócios Estrangeiros, Gideos Sa’ar, a Ben Gvir: ‘Tu não és a imagem de Israel’, continuou o rabino. “E eu acrescentaria, tu nem sequer representas o cerne da nossa identidade enquanto pessoas“, sublinhou.
Publicação gerou críticas de vários países, incluindo de Portugal: “É uma situação absolutamente inaceitável”
Em Portugal, o Governo marcou uma reunião com o Encarregado de Negócios de Israel já para esta quarta-feira, tendo Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, condenado “veementemente o comportamento intolerável” de Ben Gvir, assim como o “tratamento infligido aos ativistas da flotilha em humilhante violação da dignidade humana”.
https://twitter.com/nestrangeiro_pt/status/2057086596063596813
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, admitiu uma suspensão parcial do acordo comercial da União Europeia com Israel. “É uma situação absolutamente inaceitável. Relativamente às discussões que temos no âmbito da União Europeia, Portugal já tem manifestado a sua disponibilidade para uma suspensão parcial do acordo com Israel e veremos nos próximos encontros se há alguma evolução nesse domínio”, afirmou o chefe do Governo português.
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, afirma estar “consternado com o tratamento dado aos membros da flotilha pelo ministro israelita Ben Gvir”. Numa publicação na rede social X, o antigo primeiro-ministro português escreveu que “este comportamento é completamente inaceitável”. “Exigimos a sua libertação imediata”, sublinhou.
https://twitter.com/eucopresident/status/2057273173024841742
A União Europeia, através do Serviço Europeu para a Ação Externa, classificou, esta quinta-feira, como “completamente inaceitável” o “tratamento dado aos ativistas da flotilha no vídeo partilhado pelo ministro Ben Gvir”.
A Comissão Europeia, através de Hadja Lahbib, comissária europeia da Igualdade, afirmou, também no X, que o “ativismo pacífico e liberdade de reunião” são direitos fundamentais e pediu respeito pela lei internacional. “Vejam este vídeo. Não são criminosos condenados. São ativistas que estão a tentar levar comida a quem tem fome”, condenou Lahbib.
https://twitter.com/hadjalahbib/status/2057147030351303087
Também o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, através de Steffen Seibert, na rede social X, apelidou o comportamento do ministro israelita da Segurança Nacional como “totalmente inaceitável e incompatível com os valores básicos dos nossos países”.
Itália, que também tem cidadãos que foram detidos pelas autoridades israelitas a bordo da flotilha, condenou igualmente a divulgação do vídeo, com Giorgia Meloni a classificar as imagens como “inaceitáveis“. O ministro italiano dos Negócios Estrangeiros, Antonio Tajani, vai debater o caso com o embaixador de Israel no país.
https://twitter.com/GiorgiaMeloni/status/2057071603595317488
Outros países como França, Países Baixos e Canadá também anunciaram a convocação dos embaixadores israelitas nos países. “As imagens partilhadas pelo ministro extremista Ben-Gvir sobre os ativistas detidos da flotilha são chocantes e inaceitáveis”, classificou Tom Berendsen, ministro neerlandês dos Negócios Estrangeiros, na rede social X, que garantiu ter levantado a questão com o seu homólogo israelita, Gideon Sa’ar, e anunciou que iria convocar o embaixador de Israel no país.
Jean-Noël Barrot, ministro francês dos Negócios Estrangeiros, afirmou também no X pretende “exprimir indignação” ao embaixador de Israel em França e obter explicações” sobre o incidente, com a ministra canadiana dos Negócios Estrangeiros, Anita Anand, citada pela televisão CBC, a adiantar que o Governo do país está a atuar “com urgência absoluta“.
O Governo brasileiro também condenou o tratamento “degradante e humilhante” dos ativistas da Flotilha Global Sumud detidos pelas autoridades israelitas, “em particular pelo ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir”. “O Brasil demanda libertação imediata de todos os ativistas detidos, incluindo de quatro cidadãos brasileiros, assim como pleno respeito a seus direitos e a sua dignidade, em linha com os compromissos internacionais assumidos pelo Estado de Israel”, afirmou na noite de quarta-feira o Ministério das Relações Exteriores do Brasil em comunicado.
Este não é o primeiro incidente a envolver o ministro israelita da Segurança Nacional. Por exemplo, em outubro de 2025, Ben Gvir publicou um vídeo semelhante com ativistas detidos da flotilha humanitária, chamando-lhes “terroristas” e “apoiantes de assassinos”.