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O que a Roma de Séneca nos ensina sobre o nosso tempo

Em 2023, as Edições 70 tinham publicado 6 dos 10 Diálogos de Séneca e em 2026 chegaram os restantes 4, providenciando uma visão da Roma do século I d.C. e pistas para a compreensão da atualidade.

José Carlos Fernandes
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Sobre o filósofo romano Séneca (Lucius Annaeus Seneca, c.4 a.C.-65 d.C.), as contradições entre a vida que levou e a filosofia que pregou, o propósito e natureza dos seus Diálogos, a perenidade dos seus ensinamentos, o contexto cultural, social e político do seu tempo e a relevância da filosofia de Séneca para o nosso tempo já se escreveu aqui quando da publicação, em 2023, pelas Edições 70, do vol 1 dos Diálogos, contendo seis de um total de dez textos (ver Séneca: Um filósofo pop do século I?, A filosofia da Antiguidade tem alguma utilidade no século XXI? e O brilhante professor Séneca e a filosofia de um aluno duvidoso).

Diálogos vol. 2, agora publicado, contém os quatro textos restantes, ou seja, “Consolação a Márcia” (Ad Marciam, de consolatione, redigido c.40 d.C.), a “Consolação a Hélvia” (Ad Helvia matrem, de consolationem, c.42-43 d.C.), a “Consolação a Políbio” (De consolatione ad Polybium, c.43-44 d.C.) e “Da ira” (De ira, c.45 d.C.), e repete a Introdução do vol. 1 (o que permite a quem só aceda ao vol. 2 ficar elucidado sobre o contexto da obra original e os critérios da presente edição). A tradução e anotação foram repartidas entre Alexandra Flôr Caroço, Ana Cristina Pereira, Luís Coelho e Ricardo Duarte e a coordenação científica do projecto coube a Ricardo Duarte. Os elogios dispensados, nos artigos acima mencionados, ao rigor, minúcia e clareza do trabalho de edição do vol. 1 são aplicáveis ao vol. 2 (salvo um pequeno detalhe, tratado no capítulo 10 deste artigo).

O contexto das “consolações”

As três “consolações” distinguem-se dos outros textos que formam os Diálogos por terem destinatários individuais e por terem por propósito declarado aliviar a dor causada naqueles pela perda ou afastamento prolongado de um ente querido. A “consolação” como género literário latino, mesclando elementos da carta íntima e do ensaio filosófico, teve por obra inaugural a Consolatio escrita por Cícero (Marcus Tullius Cicero) em 45 a.C., como forma de “fazer o luto” pela sua filha Túlia, mas tinha antecedentes na literatura grega, cuja “consolação” mais antiga foi redigida por Crantor (c.325-c.275 a.C.), e na filosofia estóica, que advogava a aceitação da inevitabilidade da morte e a libertação do jugo das paixões. A Consolatio de Cícero perdeu-se, sendo apenas conhecidos alguns fragmentos citados por autores posteriores, pelo que as “consolações” de Séneca são, na literatura romana, as mais antigas que nos chegaram.

Se a Consolatio de Cícero tem a particularidade de ser dirigida a si mesmo, a “Consolação a Hélvia” também envolve pessoalmente o autor, pois a dor que pretende consolar é a de Hélvia, sua mãe, por ter perdido a companhia de Séneca, que, em 41 d.C., fora condenado pelo imperador Cláudio ao exílio na Córsega. As razões para este exílio prendem-se com o emaranhado de intrigas numa corte imperial que mais parecia um poço de víboras: Séneca e Júlia Lívila, sobrinha de Cláudio e irmã de Calígula (o imperador que precedera Cláudio e reinara de 12 a 41 d.C.) foram acusados de adultério por Valéria Messalina, a nova esposa (a terceira) de Cláudio, e condenados à morte, pena depois comutada em exílio.

O desterro não era uma experiência nova para Júlia Lívila, que, dois anos antes, como punição pela participação numa conspiração (falhada) para derrubar o seu irmão, já tinha sido exilada nas Ilhas Pontinas, no Mar Tirreno, para onde foi novamente remetida no seu segundo exílio. Já Séneca foi enviado para a Córsega, lugar que o filósofo descreveu em termos nada lisonjeiros: “Poderá encontrar-se algo tão despido como este rochedo? Ou mais estéril em recursos? Ou mais selvagem no que toca à sua população? Ou mais áspero quanto à sua geografia? Ou mais inclemente devido ao clima?” (pg. 106).

Roma acrescentara a ilha aos seus domínios logo em 238 a.C., após a I Guerra Púnica, que se saldou com a expulsão dos cartagineses da Córsega, da Sardenha e da Sicília, mas a disposição insubmissa dos seus habitantes, o relevo acidentado, a pobreza dos solos e a ausência de recursos valiosos – “não é rica em árvores viçosas e frutíferas; […] nada produz que os outros povos queiram, sendo fértil apenas o suficiente para nutrir os seus habitantes; não se extrai o valioso mármore aqui, não se escavam minas de ouro e de prata” (pg. 113) – levaram a que, na prática, o controlo exercido por Roma se restringisse ao litoral, deixando parte do interior entregue aos “bárbaros”, e nunca tivesse investido no desenvolvimento da ilha. A situação pouco evoluiu durante os seis séculos em que a ilha esteve, formalmente, sob controlo romano.

Refrigério para os sofredores ou lisonja aos poderosos?

Apesar de, na “Consolação a Hélvia”, Séneca argumentar que o exílio não o privara de nada realmente importante, é óbvio que, estando acostumado ao luxo, às mordomias e à intensa vida social de Roma, o filósofo ressentiu duramente o desterro na Córsega; e é óbvio que a “Consolação a Hélvia” e, mais ainda, a “Consolação a Políbio”, que inclui grandiloquentes e despropositadas lisonjas a Cláudio, tinham também (ou principalmente) por fito obter o perdão do imperador. O facto de Séneca ter decidido dirigir uma “consolação” a Políbio (Gaius Julius Polybius), explica-se por este (um escravo liberto) ser, há muito, secretário pessoal de Cláudio e, com a ascensão deste ao trono, se ter tornado num dos quatro libertos gregos que detinham os pontos-chave da administração imperial (Políbio acumulava funções de chefe de gabinete, conselheiro, bibliotecário e responsável pela apreciação e filtragem das petições dirigidas ao imperador).

O perdão de Cláudio só chegou em 49 d.C., quando Agripina, irmã de Júlia Lívila e sobrinha de Cláudio, se tornou na quarta esposa do tio e, entendendo que Séneca era a pessoa educada para educar o seu filho Nero, persuadiu Cláudio a deixar Séneca regressar a Roma. Nero, nascido em 37 d.C., tinha por pai Cneu Domício Enobarbo (um sobrinho de Augusto), que falecera quando ele tinha três anos, e viria a ser adoptado por Cláudio em 50 d.C., por insistente pressão de Agripina. Os elevados ideais de vida propalados (mas não praticados) por Séneca parecem ter tido nulo efeito na formação do carácter do jovem Nero, que, em 54 d.C. subiu ao trono, por morte de Cláudio (possivelmente envenenado por Agripina), e se converteu num tirano narcisista, caprichoso e depravado. Em 65 d.C., Nero, enfadado com o seu velho tutor e conselheiro, ordenou-lhe que se suicidasse, alegando o seu envolvimento numa conspiração para o assassinar (ver O brilhante professor Séneca e a filosofia de um aluno duvidoso).

A “Consolação a Márcia” foi, presumivelmente, redigida antes do exílio e ainda durante o reinado de Calígula e, mais uma vez, parece ter tido segundas intenções: Márcia era filha do reputado historiador Aulo Cremécio Cordo (Aulus Cremecius Cordus) e pertencia a uma das mais ricas e influentes famílias de Roma; é possível que, com esta “consolação” (que enaltece a memória de Aulo), Séneca pretendesse cair nas boas graças da família e obter um apoio prestigiante para uma carreira que, à data, começava a desabrochar.

A “Consolação a Márcia” teve por pretexto a morte do seu filho Metílio, ocorrida três anos antes. A “Consolação a Políbio” teve por pretexto a morte de um irmão deste, cujo nome nunca é revelado, mas, uma vez que esta obra nos chegou em forma truncada, faltando os 19 primeiros capítulos (de um total de 37) e o início do vigésimo, é possível que o irmão de Políbio fosse nomeado na parte que se perdeu. Em ambos os casos, o estilo sóbrio, a retórica elaborada, o distanciamento em relação às figuras directamente envolvidas (por exemplo: nunca se menciona em que circunstâncias morreu Metílio) e as copiosas menções a elementos históricos e geográficos de índole genérica não evidenciam real empatia pelos destinatários das “consolações” e nem sequer deixam perceber se Séneca teria privado com aqueles e se teria sequer conhecido os falecidos. A verdade é que mesmo na “Consolação a Hélvia”, que tem a mãe por destinatária, não abundam sinais de intimidade e calor humano.

Entre os polos da carta íntima e do ensaio de natureza abstracta, as três “consolações” inclinam-se nitidamente para o segundo, o que reforça a hipótese de elas terem sido redigidas com intenção de obter benefícios para o autor – os favores de uma família poderosa no caso da “Consolação a Márcia”, o perdão do imperador no caso das outras duas.

Sobreviver à infância

Embora os textos introdutórios desta edição dos Diálogos não o façam, é pertinente situar as “consolações” no contexto da vida e da morte no século I d.C., nos territórios do Império Romano.

No mundo desenvolvido do século XXI, damos quase como certa a vida até aos 80 anos – a esperança média de vida à nascença na Europa ronda os 81.5 anos (84 para as mulheres, 79 para os homens), um pouco menos nos EUA, com 79 anos (81-87 anos (para as mulheres, 75 para os homens), um pouco mais no Japão, com 85 anos (87 para as mulheres, 82 para os homens). A taxa de mortalidade infantil (até um ano de idade) na Europa ronda hoje as 3.3 mortes para cada 1000 nados-vivos. Hoje, a Nigéria é o país do mundo com mais baixa esperança média de vida – 54.5 anos – e cabe ao Afeganistão o topo do podium da mortalidade infantil com 103 mortes por cada 1000 nados-vivos.

No tempo de Séneca, a esperança média de vida era de 22-33 anos, ainda que este valor deva ser lido à luz da elevadíssima taxa de mortalidade infantil, que fazia com que um quarto a um terço dos bebés (250 a 333 em 1000) não chegassem ao seu primeiro aniversário; os que sobreviviam a este arriscado período podiam contar, em média, com uma esperança de vida de 45-50 anos; ainda assim, a taxa de mortalidade entre um ano de vida e o início da adolescência era muito elevada pelos padrões modernos. Este cenário não foi, durante séculos a fio, muito diferente nas outras civilizações da bacia mediterrânica, ou na Pérsia, Índia e China, com as inevitáveis diferenças pontuais resultantes de variações regionais e da ocorrência ou não de “pestilências” devastadoras.

Entre os romanos, a taxa de mortalidade infantil era, naturalmente, mais baixa entre as classes possidentes, que não estavam expostas à fome e às intempéries; viviam em casas amplas, arejadas e situadas longe das zonas insalubres; podiam mudar-se para as suas villae no campo quando as cidades eram assoladas por epidemias; e não tinham de executar trabalhos extremamente desgastantes, perigosos ou nefastos para a saúde (se se aplicassem os critérios de uma autoridade para as condições de trabalho do nosso tempo, é provável que nem um estabelecimento industrial e comercial de Roma escapasse à ordem de encerramento).

Ainda assim, a taxa de mortalidade infantil entre as elites romanas era muito alta pelos padrões dos países desenvolvidos modernos, pelo que, como forma de se resguardarem emocionalmente da elevada probabilidade de virem a perder os seus filhos, os romanos adoptaram práticas de algum distanciamento. Por exemplo, só era atribuído nome aos bebés quando tinham oito ou nove dias de vida (consoante fossem raparigas ou rapazes) e a morte de crianças que não tivessem atingido um ano de idade não tinha associada um período de luto; este aumentava progressivamente com o seu tempo de vida, a partir de um ano, sendo equiparado ao luto por um adulto quando atingia os dez anos – estima-se que apenas metade dos nascituros chegasse a esta idade.

Nas elites romanas, boa parte da educação e do cuidado das crianças era confiado a amas e tutores, muitos dos quais eram escravos, o que também contribuía para atenuar o apego emocional entre pais e filhos. A combinação do imperativo da continuidade da linhagem familiar masculina com a elevada taxa de mortalidade infantil (e até juvenil) fomentou a prática da adopção entre as elites: o paterfamilias confrontado com a incapacidade para gerar filhos varões, ou com a morte sucessiva destes, adoptava um herdeiro, que podia ser já homem feito e provir de um ramo lateral da sua família (era frequente a adopção de genros). Ao contrário da adopção como hoje a entendemos, que é determinada sobretudo por razões afectivas, a adopção entre os romanos era uma decisão pragmática e calculista, que visava assegurar que o nome, as propriedades, a riqueza e as tradições (o culto dos antepassados) da família fossem preservados. Entre muitos exemplos possíveis, pode tomar-se o de Gaio Octávio (63 a.C.-14 d.C.), também conhecido como Octaviano: este era sobrinho-neto de Júlio César, que, tendo apenas uma filha legítima, Júlia, e um filho ilegítimo, Ptolomeu XV César (conhecido como Cesarião), cuja mãe era Cleópatra, designou, em testamento, Octaviano como filho adoptivo em 44 a.C.; após o assassinato de César, Octaviano assumiu o nome do (falecido) pai adoptivo (Caio Júlio César), seguindo a prática usual; após desembaraçar-se dos rivais na luta pelo poder, foi aclamado pelo Senado, em 27 a.C., como Augusto e foi este nome que acabou por prevalecer na maioria dos livros de história.

Há que realçar que as mortes que serviram de pretexto à redacção da “Consolação a Márcia” e da “Consolação a Políbio” ocorreram na idade adulta – a morte de crianças era tão comum que nem as famílias costumavam ficar prostradas pelo luto, nem um filósofo iria redigir um texto com o fito de aliviar a sua dor.

A morte como experiência banal

Mesmo depois de chegado à idade adulta, a vida do cidadão romano comum continuava ameaçada por riscos que hoje nos pareceriam inaceitáveis: qualquer viagem por terra envolvia a possibilidade de encontros com salteadores e animais selvagens, de ingestão de água contaminada e alimentos deteriorados e de contracção de doenças ao passar por paragens insalubres (é bom lembrar que a malária, por exemplo, era endémica em boa parte da bacia mediterrânica e, em particular, em Itália). As viagens por mar, mesmo que em tempo de paz e restritas às águas conhecidas e relativamente policiadas do Mediterrâneo, facilmente poderiam levar a encontros fatais com escolhos, piratas ou tempestades. Apesar de os romanos se terem distinguido pelos monumentais e meritórios empreendimentos no campo da salubridade – abastecimento de água, evacuação de águas residuais, latrinas e banhos públicos e privados, drenagem de pântanos – os padrões de higiene eram pavorosos pelos padrões actuais, sobretudo nas zonas habitadas pelas classes mais baixas, que, nas grandes cidades, se amontoavam em insulae (prédios de apartamentos) de fraca qualidade de construção, que eram frequentemente destruídas por incêndios e derrocadas (em resultado de terramotos ou, simplesmente, de deficiências estruturais). E se as batalhas, as prisões e o cadafalso faziam razias entre os homens, as mulheres morriam frequentemente ao dar à luz (estima-se que a taxa de mortalidade materna fosse de 2%, enquanto hoje, nos países desenvolvidos, é inferior a 0.01%).

Na Antiguidade Clássica, as capacidades efectivas da medicina para curar maleitas e tratar fracturas, ferimentos e concussões eram limitadas e alguns procedimentos até agravavam a saúde do paciente – e esta situação pouco progrediria até às primeiras décadas do século XX.

Há também que considerar que acidentes, guerras, crimes e enfermidades não eram as únicas causas da abreviação da vida: apesar de o direito ser considerado como um dos mais meritórios legados da civilização romana e de numerosos países actuais fundarem nele o seu sistema legal, em Roma o governo tinha natureza autocrática (ou até mesmo despótica e caprichosa) e quem incorresse no desagrado do imperador, do Senado, de um governador de província ou de um alto magistrado poderia facilmente ser exilado, atirado para as masmorras, privado dos seus bens ou condenado à morte.

As “consolações” da Roma Clássica devem, pois, ser entendidas num contexto radicalmente diferente do nosso, em que, mesmo entre os privilegiados, o infortúnio e a morte podiam abater-se brutalmente e sem aviso sobre qualquer um. Este facto também explica a ênfase colocada pela filosofia estóica na aceitação da fugacidade da vida, tema a que Séneca regressa reiteradamente nos seus escritos.

“Vil é a alma que se compraz com coisas terrenas”

Outro argumento recorrente em Séneca e que ele aborda na “Consolação a Hélvia”, é o desprendimento das riquezas materiais: “De pouca importância são os bens exteriores, que não têm muita influência em nenhum dos sentidos: a prosperidade não eleva o sábio e a adversidade não o abate, porque ele sempre se esforçou por depender, tanto quanto possível, só de si mesmo e por obter de si toda a alegria” (pg. 103). A fim de fazer ver a Hélvia que o exílio não o fez perder nada de relevante, exalta a fruição do prazer simples e ao alcance de todos, em todos os lugares, que é a contemplação da natureza e do universo: “Vil é a alma que se compraz com coisas terrenas: é preciso conduzi-la para aquelas coisas que em toda a parte são iguais e que em toda a parte resplandecem com o mesmo brilho” (pg. 113), ou seja, que tanto estão acessíveis na cosmopolita Roma como na inóspita Córsega. Àqueles que se bastam com “o conhecimento das coisas divinas e humanas”, Séneca contrapõe os que vivem obcecados com a acumulação e exibição de riqueza e alerta para que “as coisas terrena se interpõem aos bens genuínos […]. Quanto mais as pessoas estendem os seus pórticos, quanto mais altas constroem as torres, quanto mais largos escavam os caminhos, quanto mais profundas escavam as suas grutas de Verão, quanto mais monumentais erguem os tectos das salas de jantar, tanto mais cortam a visão do céu” (pg. 113).

Todavia, Séneca não aplicou a si mesmo estes conselhos e preceitos, dado que, graças à fortuna familiar, a generosos benefícios concedidos por Nero, ao desempenho de funções oficiais altamente lucrativas e à prática da usura, se tornou num dos homens mais ricos do Império (ver capítulos “O filósofo milionário” e “Bem prega frei Tomás…” em O brilhante professor Séneca e a filosofia de um aluno duvidoso).

De qualquer modo, as críticas de Séneca à vida de dissipação a que as classes possidentes romanas se entregavam têm uma qualidade intemporal e assentam na perfeição ao nosso tempo de consumismo infrene, snobismo arrogante, ostentação estridente e competição feroz por status social. Veja-se, por exemplo, a censura que dirige aos gourmets, que, sob o pretenso refinamento, são movidos por “uma gula que depressa se enfastia”. “Querem encher as suas pretensiosas cozinhas com os animais caçados para lá do Fásis [o actual Rio Rioni, na Geórgia] e não têm vergonha de pedir aves dos Partos […]. Do mais remoto mar é trazida comida que os seus estômagos, debilitados por hábitos voluptuosos, dificilmente acolhem. Vomitam para comer e comem para vomitar e não se dignam digerir os petiscos que pilham por toda a Terra” (pg. 117).

Esta febre que nos queima as vísceras

A censura que Séneca faz da avidez desenfreada por luxos não se limita aos que se empanturram com vitualhas exóticas: “Ele anseia por mobiliário reluzente de vasos de ouro e por pratos antigos de prata, assinados por famosos artesãos, por bronzes que o apreço de uns quantos lunáticos tornou valiosos […], por mármores de todas as proveniências; ainda que se amontoasse tudo isso, jamais ele saciaria a sua alma insaciável; não mais do que um grande volume de água poderá satisfazer o homem cuja sede nasce, não da carência de água, mas de uma febre que nos queima as vísceras. […] Nem isto acontece apenas com o dinheiro ou a comida: a mesma característica é encontrada em cada desejo que desponta não da necessidade, mas do vício. Por muitas coisas que se acumulem à frente de tais homens, isso não marcará o fim da avidez, apenas um passo mais” (pg. 120-21).

Séneca foi, entre os grandes pensadores Antiguidade, aquele que sobre o tema do luxo e da dissipação produziu reflexões mais elaboradas e profundas, mas não foi uma voz solitária, nem foi a primeira. No final da República Romana, os valores sobre os quais esta fora fundada, como a pietas (reverência pelos deuses, pela família e pela comunidade), a gravitas (seriedade, decoro, contenção e consequência na acção e nas palavras) e a frugalitas (que aconselhava um modo de vida simples e rejeitava a ostentação), já se tinham tornado em letra morta, levando o poeta Propércio (c.50 a.C.-c.15 d.C.) a verberar os hábitos dissolutos e o gosto pelo fausto: “Perguntas por que é tão dispendiosa a noite passada com mulheres gananciosas e por que o teu pecúlio, esgotado por Vénus, se queixa dos rombos. A causa de tão grande ruína é clara e indubitável: tornou-se demasiado livre a estrada do luxo”. Noutro poema, Propércio adverte que “a orgulhosa Roma está a ser destruída pela sua própria riqueza”.

Já no reinado de Augusto, Ovídio (43 a.C.-c.17 d.C.), o mais aclamado poeta do seu tempo, denunciou, na Ars amatoria (redigida c.2 a.C.), a radical mudança operada na sociedade: “Dantes, havia uma rude simplicidade; agora, Roma é dourada e possui as vastas riquezas do mundo que conquistou. Comparai o que é hoje o Capitólio com o que foi; dir-se-ia que pertence a outro Júpiter”.

O apetite pelo luxo foi crescendo nos primeiro tempos do Império, levando o historiador Plínio o Velho (c.23-79 d.C.) a lamentar, na sua História Natural, que a Índia, a China e a Península Arábica sugassem anualmente ao Império Romano pelo menos 100 milhões de sestércios, em troca de frivolidades como seda, pérolas, pedras preciosas, perfumes, especiarias e outros artigos de luxo. O poeta satírico Juvenal (55-128 d.C.) teceu considerações análogas: “agora padecemos dos malefícios de uma longa paz; um luxo mais implacável do que as espadas reina sobre nós e vinga o mundo que conquistámos” (in Sátira VI).

Nos Anais, que fazem a história do Império entre Tibério e Nero (14-68 d.C., aproximada), Tácito (56-120 d.C.) apontou a ganância pelas coisas materiais e o amor pela opulência como causas do declínio das virtudes cívicas e da integridade dos indivíduos e perguntou-se: “Por onde deverá começar a reforma? Qual é a primeira coisa que deverei proibir ou cercear de forma a retornarmos à simplicidade de outrora? A área extravagante das nossas mansões? O número de escravos provenientes de todas as nações da Terra? O peso das nossas baixelas em ouro e prata? […] As vestes efeminadas envergadas por homens efeminados? Ou a peculiar extravagância do outro sexo, que, em troca de alguma pedras sem valor, canaliza as nossas fortunas para as mãos de estrangeiros, ou até de inimigos da nossa nação? […] Que foi feito das numerosas leis concebidas pelos nossos antepassados e pelos estatutos de Augusto? [refere-se, provavelmente, às leis anti-sumptuárias (sumptuariae leges)] As primeiras tornaram-se obsoletas e foram esquecidas; os segundos, com inacreditável desplante, foram escarnecidos e torneados; o resultado é que o luxo é hoje mais insolente do que alguma vez foi”.

O estilo de vida dos abastados foi tornando-se mais magnificente à medida que as “virtudes republicanas” se tornavam em memórias remotas e cada novo excesso era assimilado como “normal” e pedia outro que o superasse. Alguns imperadores são hoje recordados, não pelos seus feitos e obras, mas pela imoralidade e excentricidade do seu estilo de vida – é o caso de Heliogábalo (Elagabalus, formalmente Marcus Aurelius Antoninus), que subiu ao trono com 14 anos e foi assassinado aos 18 (reinado: 218-222 d.C.) e de quem se conta ter organizado um banquete sumptuoso em que o tecto do recinto se abriu e deixou cair sobre os convidados tal quantidade de pétalas que alguns terão ficado sufocados.

A massificação do consumo conspícuo

Quando Séneca e outros intelectuais romanos lançaram ásperas censuras contra o frenesim consumista, o alvo era uma elite minúscula, já que a sociedade romana era profundamente desigual: segundo algumas estimativas, os ricos representariam 1-2% da população, a classe média cerca de 10% e todos os restantes seriam pobres; outras estimativas nem sequer admitem a existência de uma classe média e repartem a sociedade entre 0.6% de ricos, 0.4% de militares (um Estado belicista está obrigado a remunerar razoavelmente quem faz a guerra) e 99% de pobres e remediados. Segundo Luke Kemp, em A maldição de Golias: A história, o colapso das sociedades e o futuro (2025), “cerca de um terço da produção económica era propriedade de apenas 1.5% das famílias mais ricas”.

Entretanto, dois mil anos de história e, sobretudo, a eficaz articulação entre capitalismo e progresso tecnológico que ganhou forma na Europa Ocidental a partir do século XVII permitiram multiplicar por várias vezes a produção de riqueza: o PIB per capita no Império Romano tem sido estimado entre 600 e 2300 dólares/ano, enquanto o PIB per capita em 2024 (dados do Banco Mundial, em paridade de poder de compra) foi de 62.300 dólares na União Europeia e de 60.800 dólares em Itália. No século XX, no mundo ocidental, operou-se também uma apreciável redução de desigualdade, com um estudo de 2024 a indicar que, na União Europeia, a população se repartia, quanto ao rendimento, entre 7.5% de nível elevado, 64% de nível médio e 28.5% de nível baixo (sendo o nível médio definido como os valores entre 75% e 200% da mediana nacional).

A combinação da multiplicação da riqueza e da queda na desigualdade de rendimentos, levou a que a maior parte dos actuais habitantes dos territórios que em tempos fizeram parte do Império Romano possa desfrutar de bens e serviços que fariam a inveja dos romanos mais ricos – já não falando dos gadgets e mordomias decorrentes da inovação tecnológica que não seriam sequer concebíveis no final do século XIX, quanto mais no século I d.C.

Ainda que o “trem de vida” dos ricos dos países desenvolvidos no final do século XIX pareça pouco invejável aos remediados de hoje, a pulsão para o consumo das classes possidentes já tinha atingido, por essa altura, um estádio que levou o sociólogo Thorstein Veblen a cunhar, em 1899, no clássico The theory of the leisure class: An economic study in the evolution of institutions, o conceito de “consumo conspícuo”, i.e., a aquisição compulsiva de bens e serviços não pela utilidade prática que têm, nem pelo prazer objectivo que os compradores deles retiram, mas por proclamarem publicamente o elevado estatuto social dos compradores. Desde então, o consumo conspícuo não mais cessou de assumir novas formas e de conquistar novos mercados e é hoje a principal força motriz da economia em quase todos os países do planeta – mesmo os que se reclamam (formalmente) como marxistas, como seja a República Popular da China – e alastrou-se a quase todos os estratos sociais – incluindo a quem ganha o salário mínimo.

As invectivas de Séneca e dos seus contemporâneos tinham por alvo alguns milhares de patrícios; hoje a “carapuça” assenta, no espaço da União Europeia, a 34 milhões de ricos e a 290 milhões de cidadãos de classe média. A “febre que nos queima as vísceras” não poupa os pobres, pois os modernos meios de comunicação de massas mantêm-nos a todos – mesmo aos que vivem nas regiões mais remotas, desempenham os trabalhos mais humildes e vivem de forma mais frugal – a par dos mais ínfimos detalhes do estilo de vida dos abastados, o que faz fermentar a inveja e acicata os apetites. A este aguilhão soma-se outro ainda mais poderoso e que era desconhecido das eras anteriores: o marketing, que, por conhecer a fundo as fraquezas do ser humano, ganhou um poder incomensurável para moldar comportamentos. O marketing 1) tem como funções primordiais manter-nos a par dos incontáveis luxos e extravagâncias que a sociedade de consumo incessantemente inventa e persuadir-nos de que todos esses luxos e extravagâncias são, na verdade, necessidades vitais; 2) tem ao seu dispor ferramentas de sedução de tremenda sofisticação, perversidade e insídia; e 3) é alimentado por orçamentos copiosos, a ponto de haver produtos cujo custo global de produção, distribuição e comercialização é bem inferior ao investimento nos meios para persuadir o consumidor a adquiri-los (ver Edward Bernays, a arte da propaganda e os donos (invisíveis) disto tudo).

O estoicismo conquistou alguns discípulos entre as elites romanas, mas nunca foi uma filosofia popular e acabou por ser definitivamente suplantada pela ascensão do cristianismo. Todavia, por defender que as necessidades naturais do homem são simples e fáceis de satisfazer, acaba por ganhar uma inesperada pertinência na sociedade actual, que está profundamente empenhada na competição por status mediada pela aquisição de bens e serviços e universalmente obcecada com o crescimento do PIB (sempre demasiado “anémico” para as ambições de governantes e governados, de empresários e sindicalistas, de políticos da extrema-direita à extrema-esquerda), mas que começa a tomar consciência dos danos e tensões que o crescimento ilimitado gera nos sistemas biofísicos, sem que, no entanto, pareça dar-se realmente conta da crescente incompatibilidade entre as suas aspirações e os seus receios.

As previsões sombrias do polémico estudo The limits of growth, encomendado pelo Clube de Roma e publicado em 1972, podem ter sido desacreditadas pela passagem do tempo (ver capítulo “O paradoxo que explica o impasse” em Areia, sal, ferro, cobre, petróleo e lítio: Como os transformámos nos pilares da civilização?), mas o seu falhanço não significa que não existam limites para o crescimento e que não se deva tentar moderar o consumismo e a dissipação de recursos e ajustar o nosso “trem de vida” às capacidades biofísicas do planeta, seguindo os sábios preceitos estabelecidos por Séneca num tempo em que o mundo ainda parecia infinito e capaz de suportar e reparar todos os desmandos dos humanos: “Quem permanece dentro dos limites fixados pela natureza não conhece a pobreza; quem exceder esses limites será perseguido pela pobreza, independentemente de quão rico for” (pg. 121).

Sob o Império da Ira

Se, como se argumentou acima, eram múltiplas as causas naturais que, no século I d.C., conferiam carácter precário à vida humana, a verdade é que muitas das figuras a que Séneca faz menção no vol. 2 dos Diálogos não morreram de morte natural, espelhando um padrão corrente na sociedade romana e que, longe de poupar as elites, era particularmente letal nos círculos do poder, onde campeavam a prepotência, a intriga, a cobiça, o ciúme, a suspeita e a paranóia (ver Pão, circo, veneno e punhaladas).

Quatro anos após a “consolação” que lhe foi dedicada, Políbio foi executado por ordem do imperador Cláudio, sob a acusação de “deslealdade”, ainda que as más-línguas atribuam a sua desgraça a intrigas de Valéria Messalina, a terceira esposa de Cláudio e (alegadamente) ex-amante de Políbio. Se foi Messalina quem arquitectou a morte de Políbio, teve pouco tempo para desfrutar da “vitória”, uma vez que ela mesma foi executada em 48 d.C. por envolvimento em conspirações contra Cláudio, juntamente com o seu co-conspirador, amante e esposo Gaius Silius (o desprezo que Messalina votava a Cláudio era tal que, na ausência de Cláudio em Ostia, se casara com Silius em Roma, numa cerimónia pública). Quando, no último momento, Cláudio vacilou na decisão de executar a esposa infiel e conspiradora, Narciso (Tiberius Claudius Narcissus), outro dos libertos gregos no topo da administração imperial, tratou ele mesmo de providenciar a pronta eliminação de Messalina (que era temida e odiada nos círculos do poder, quanto mais não fosse por ter intrigado junto de Cláudio para obter o exílio ou a morte de vários senadores e membros da família imperial).

Narciso também acabaria executado, em 54 d.C., por ordem da maquiavélica Agripina, a quarta esposa de Cláudio, poucos dias após a morte deste (presumivelmente envenenado pela própria Agripina), de forma a remover empecilhos à sucessão de Cláudio pelo seu filho Nero. Os outros dois libertos gregos que tinham controlado a “Administração Cláudio” também não faleceram por causas naturais: Calisto (Gaius Julius Callistus) morreu envenenado a 13 de Outubro de 54 d.C., no mesmo dia do falecimento de Cláudio, o que sugere, mais uma vez, a mão de Agripina. O liberto Palas (secretário do Tesouro de Cláudio) escapou à “Grande Limpeza de 54 d.C.”, pois tinha-se tornado aliado de Agripina, e continuou, durante a regência desta, a ser uma das figuras mais relevantes da administração imperial. Porém, a sorte virou-se contra ele em 55 d.C., quando as relações entre Agripina e Nero azedaram e Nero assumiu o poder absoluto e tratou de demitir Palas, que se retirou para gozar o fabuloso pecúlio que tinha amealhado durante os reinados de Calígula e Cláudio. Esta saída de cena de Palas não foi, claro, suficiente para aplacar o rancor, a paranóia e a cobiça de Nero, que, após ter eliminado a mãe, em 59 d.C. (culminando várias tentativas falhadas), acabou por ordenar a execução de Palas em 62 d.C. e apropriar-se da sua fortuna para pôr em marcha os seus projectos urbanísticos sumptuários.

Se a taxa de mortalidade entre os membros dos executivos das democracias modernas fosse similar à destes tempos, seria muito difícil encontrar quem quisesse ser ministro ou secretário de Estado…

O curriculum de Nero como exterminador implacável não se ficou pelas altas figuras da administração nem pelo seu ex-mestre e conselheiro (convidado a suicidar-se em 65 d.C., como já foi referido). Os assassinatos dentro do círculo familiar incluíram, além da mãe:

1) O meio-irmão Britânico, envenenado, aos 13 anos, por ser um rival de Nero à sucessão de Cláudio;

2) A primeira esposa (53-62 d.C.), Cláudia Octávia, por instigação da amante, Popeia Sabina, que, não contente em ter conseguido que Nero se divorciasse da primeira esposa e a condenasse ao exílio, acabou por exigir a cabeça da rival;

3) Popeia Sabina, que se tornou na segunda esposa (62-65 d.C.), mas cujo idílio nupcial terminou quando, estando grávida de Nero, foi pontapeada no ventre pelo dilecto esposo;

4) O primo Fausto Cornélio Sula Félix, assassinado no exílio em Massilia (Marselha), também por suspeita de conspiração (a cabeça foi enviada a Nero);

5) Cláudia Antónia, viúva de Fausto Cornélio Sula Félix, que Nero escolheu para sua terceira esposa, mas teve a audácia de recusar tal “honraria”, o que levou o despeitado Nero a acusá-la de “rebelião” e ordenar a sua execução;

6) O cônsul Marco Ático, esposo de Estacília Messalina, a quem Nero ordenou que se suicidasse para que ele pudesse fazer de Estacília Messalina, que já era amante do imperador desde 65 d.C., a sua terceira esposa (66-68 d.C.).

Não se depreenda daqui que Nero era um monstro completamente desprovido de sentimentos: parece ter ficado genuinamente arrependido de ter matado a sua querida Popeia Sabina a pontapés, de forma que quando, em 66 d.C., de passagem pela Grécia, encontrou um jovem escravo cujo rosto lhe fez lembrar a falecida segunda esposa, ordenou que fosse castrado e casou-se com ele algures em 66-67 d.C. – ainda que estivesse casado com Estacília Messalina.

Os morticínios de Nero não se ficaram pela administração imperial e pelo círculo familiar – aliás, muita da sua má fama póstuma decorreu da perseguição que moveu aos cristãos, a quem atribuiu a culpa pelo Grande Incêndio de Roma de 64 d.C. Esta atitude levou a que os escritores cristãos dos séculos seguintes exagerassem os seus desmandos e crueldades e o identificassem como o Anticristo referido no Livro do Apocalipse. Porém, houve imperadores que moveram perseguições aos cristãos mais mortíferas e abrangentes do que as de Nero, que terá restringido a sua actuação à cidade de Roma. Mesmo admitindo que Nero foi demonizado nas fontes cristãs, há fontes não-cristãs que atestam que os cristãos a quem Nero imputou o Grande Incêndio de Roma foram, por sua vontade, alvo de suplícios cruéis: uns foram queimados vivos, outros crucificados e outros despedaçados por feras.

Nero também se encarniçou contra as figuras públicas adeptas do estoicismo que tiveram a coragem de reprovar o seu comportamento e que Nero passou a ver como um entrave aos seus caprichos e uma ameaça ao seu poder. Muitas delas, hoje conhecidas colectivamente como “Oposição Estóica” (ainda que não constituíssem um grupo organizado), foram eliminadas por Nero; além de Séneca, há a contabilizar:

1) Rubélio Plauto, primo distante do imperador e homem assaz abastado, que foi condenado ao exílio na Ásia Menor em 60 e executado em 62, devido a boatos de que estaria a conspirar contra o imperador;

2) Musónio Rufo, um dos mais respeitados mestres do estoicismo, que foi condenado ao exílio em 60, autorizado a regressar em 62 e novamente exilado em 65 (só regressaria a Roma após a morte de Nero);

3) O senador Trásea Peto (Publius Clodius Thrasea Paetus), discípulo de Musónio Rufo, que foi executado em 66 por “traição”; pela mesma altura, o seu genro Helvídio Prisco e o seu amigo Pacónio Agripino foram ambos condenados ao exílio;

4) O senador Barea Sorano, governador da Ásia Menor, que foi acusado de ser amigo de Rubélio Plauto e de conspirar com este para derrubar o imperador e foi condenado à morte, c.65-66, tal como a sua filha Servília e o seu genro Ânio Pólio, estes acusados de recorrer aos serviços de magos – acabaram por cometer suicídio os três,

O encarniçamento de Nero contra a “Oposição Estóica” não foi caso isolado: o facto de o estoicismo ser avesso à autocracia também levou a que fosse perseguido pelos imperadores Vespasiano (reinado: 69-79) e Domiciano (reinado: 81-96).

Nero teria, por sua vez, um fim violento em 68 d.C., no término de uma guerra civil que lhe foi desfavorável – o que não é de estranhar, dado que a sua brutalidade indiscriminada não lhe granjeou amigos. Não é claro se suicidou ou se, faltando-lhe a coragem para o fazer, ordenou ao seu secretário que o matasse (ver capítulo “Nero” em Pão, circo, veneno e punhaladas).

É certo que Nero ficou gravado no imaginário como paradigma do imperador romano depravado e cruel, mas poucos foram os imperadores que não cometeram desmandos e iniquidades. Para não irmos mais longe no tempo, tome-se o caso de Cláudio: antes de ascender ao trono era visto no círculo da elite romana como inerme e meio tolo e, nos seus primeiros tempos de governação, foi elogiado pela forma leniente como tratou os conspiradores que tinham assassinado Calígula (apenas mandou executar os cabecilhas e perdoou os restantes), pela anulação de parte das leis iníquas e dos impostos decretados por Calígula e pela rejeição das honrarias deliberadas pelo Senado (sempre disponível para bajular imperadores) que se lhe afiguraram excessivas; e desfruta hoje de uma imagem favorável por ter sido retratado de forma benévola por Robert Graves nos seus populares romances históricos de 1934-35 (I, Claudius e Claudius the God).

Esta imagem de Cláudio está muito distante da realidade, uma vez que foi responsável por muitas mortes entre os seus familiares e a elite romana, umas por instigação das suas esposas e dos seus conselheiros, outras por motu proprio. Estima-se que tenha ordenado a execução ou o suicídio de um total de 35 senadores e de três centenas de membros da ordem equestre (equites, a classe abaixo dos senadores), a maior parte deles por alegadas conspirações. O próprio Séneca, que, enquanto Cláudio foi vivo, o aspergiu com encómios, denunciou, depois, as suas práticas cruéis, como, por exemplo, num trecho do texto “Da clemência”, em que, dirigindo-se ao jovem imperador Nero, lembra que “o teu pai, durante cinco anos, mandou pôr dentro de sacos e costurá-los muito mais condenados do que aqueles que ouvimos serem contados nos séculos precedentes” (Séneca refere-se à punição de fechar o condenado num saco de couro e atirá-lo ao mar ou a um rio, que Cláudio terá aplicado liberalmente).

O imperador que precedeu Cláudio, Calígula, goza de reputação similar à de Nero – porventura ainda mais tenebrosa – e com a particularidade de tê-la construído num período muito breve: a segunda metade do seu reinado de menos de quatro anos (37-41 d.C.). O próprio Séneca escapou por uma unha negra de ser uma das suas vítimas: Calígula, invejoso da fama granjeada por Séneca como orador, considerou ordenar-lhe que se suicidasse, mas, ao ser (erradamente) informado de que o filósofo (e senador) se encontrava gravemente enfermo, presumiu que a doença iria dar cumprimento à sua intenção e deixou o tempo correr. Foi certamente com grande alívio que Séneca recebeu a notícia de que Calígula tinha sido assassinado, a 24 de Janeiro de 47 d.C., por um grupo de conspiradores liderado por dois tribunos da Guarda Pretoriana que tinham sido repetidamente humilhados pelo imperador; na ocasião, a esposa e a filha de Calígula foram também trucidadas pelos conspiradores.

Deve assinalar-se que também o autor da primeira “consolação” latina, Cícero, não morreu de morte natural. Em 43 a.C., no contexto da renhida e enredada disputa pela sucessão de Júlio César, assassinado no ano anterior, Cícero pagou caro os discursos e textos contra Marco António e o apelo a que este fosse declarado “inimigo do Estado”, pois, em resultado de uma reviravolta nas alianças entre os rivais pelo poder, foi ele mesmo colocado na lista de “inimigos do Estado”. Foi capturado quando deixava uma das suas villae, em Formiae, a fim de apanhar um barco que o levaria para a Macedónia, e degolado ali mesmo; por ordem expressa de Marco António, foi decapitado e foram-lhe decepadas as mãos, que tinham escrito tão verrinosas palavras contra si.

Há finalmente que referir o historiador Aulo Cremécio Cordo, pai da destinatária da “Consolação a Márcia”, que também pagou com a vida ter falado contra figuras susceptíveis em posição de poder – neste caso, o alvo foi Sejano, prefeito pretoriano durante o reinado de Tibério, que, de acordo com Séneca, Cordo censurou por ter mandado fazer uma estátua de si mesmo; Cordo foi acusado de crimes contra o Estado romano e antevendo o desfecho do processo, escolheu antecipar-se e deixar-se morrer de fome.

Há que entender esta orgia de ira e desumanidade entre as elites romanas à luz da natureza violenta do próprio Estado romano. Kemp, em A maldição de Golias, compara Roma a “uma máquina autocrática que transformava cereais em espadas. Entre 410 e 101 a.C., a República Romana esteve em guerra mais de 90% do tempo. O Império Romano foi o maior sistema esclavagista que alguma vez existiu, escravizando entre 100 e 200 milhões de pessoas durante a sua vigência”. Por outro lado, “a execução arbitrária dos seus cidadãos [foi], em tempos, a demonstração de poder por excelência. É um acto que eleva o governante acima da moralidade comum. Entidades políticas de todo o mundo chegaram à mesma conclusão relativamente à importância da violência [arbitrária] para legitimar os governantes” (Kemp).

Os outros impérios da Antiguidade não foram menos belicistas e extractivistas para com outros povos, nem menos tirânicos para com o seu próprio povo, nem as suas cortes foram palco de menos intrigas, golpes palacianos e assassinatos; só não tiveram a combinação de vasta dimensão territorial (5 milhões de km2) e de longa duração que Roma alcançou (500 anos como república, e outros tantos como império).

A mais perniciosa e violenta das perturbações da alma

O sanguinolento rol de vítimas acima apresentado dá a ver uma sociedade em que as paixões fervilhavam descontroladamente e em que qualquer discordância, melindre, afronta, mal-entendido, inveja ou suspeita podia redundar em actos de uma violência brutal e implacável pela parte dos poderosos. Não é de estranhar que Séneca, adepto do estoicismo, que favorecia a razão em detrimento da emoção, que tinha por virtudes capitais a prudência, a temperança, a justiça e a coragem perante a adversidade e via como sábio quem fosse capaz de libertar-se das paixões (atingindo a apatheia), dedicasse o mais extenso texto dos Diálogos à ira, que classifica como “a mais perniciosa e violenta” das “perturbações da alma” e da qual tem uma acepção lata, que vai da indignação à fúria infrene e cega. De ira ocupa três livros (154 páginas, na presente edição), sendo possível distinguir duas partes, uma que vai do início do Livro I até ao capítulo XVII do Livro II, preenchida por reflexões teóricas sobre a natureza e manifestações da ira, e outra que vai do capítulo XVIII do Livro II até ao fim do Livro III, onde se fornecem conselhos sobre como lidar com a ira – a própria e a dos outros.

Na sua penetrante análise da natureza humana, Séneca chama a atenção para o facto de a razão nem sempre conseguir evitar que sejamos tomados pela ira: a razão “revela-se poderosa durante o tempo em que se mantém afastada das paixões. Mas, se se mistura com elas e se se corrompe, não pode conter aquilo que poderia repelir. […] A mente, estando perturbada e agitada, passa a estar sob o domínio daquilo que a estimula”. […] A alma não está do lado de fora do corpo a observar as paixões para que as não permita avançar além do que é conveniente, mas a própria alma deixa-se transformar por qualquer paixão e, por isso, não pode restabelecer aquela sua força, útil e salutar” (pg. 195-96). E adverte: “Que ninguém julgue que está a salvo da ira”, pois “também ela, aos que são calmos e pacíficos por natureza, incita à crueldade e à violência” (pg. 281).

Uma das razões por que a ira está tão disseminada é o facto de ela poder brotar de eventos insignificantes e fúteis: “Os motivos iniciais da ira são ténues e inofensivos! O que vês acontecer nos animais irracionais, o mesmo reconhecerás no homem: perturbamo-nos por motivos frívolos e inúteis. A cor vermelha excita o touro, a serpente eleva-se quando vê uma sombra, um simples pano é capaz de atiçar ursos e leões. […] O mesmo ocorre com os temperamentos inquietos e insensatos: sentem-se feridos com a desconfiança que têm em relação a todas as coisas, a ponto de, às vezes, considerarem ofensas pequenos favores” (pg. 320).

As faltas e a sua punição

O imperativo de controlar a ira não significa, claro, que todas as ofensas e crimes devem ser perdoados. Séneca dedica vários trechos à aplicação da justiça e sublinha a necessidade de os castigos serem adequados à magnitude das faltas e às circunstâncias que a eles conduziram: o juiz justo “não castigará com a mesma dureza um mesmo delito causado por duas pessoas, se uma delas o cometeu por negligência e se a outra teve intenção de causar dano” (pg. 215). Por outro lado, a punição deve ser decidida tendo em conta, não o passado mas o futuro, ou seja, aquela deve ter uma função dissuasora: “nenhuma pessoa prudente pune apenas porque foi cometida uma falta, mas para que estas não voltem a ser cometidas” (pg. 216). Não menos importante é que “aquele que tem de avaliar e julgar estas acções […] deverá estar livre de toda a perturbação, para se poder entregar com suma diligência ao poder de dar a vida e a morte”; todavia, lamenta Séneca, o que é mais frequente é “[confiar-se] a espada a um homem irado”.

Em geral, Séneca preconiza que o homem sábio não deve sentir ira pelos erros alheios: “ao género humano é devida indulgência. […] Nascemos sujeitos a esta condição: somos animais sujeitos a não menos doenças da alma do que do corpo, animais por certo não ignorantes nem inaptos, mas que se servem mal da inteligência, que são exemplo de vícios uns com os outros. Quem quer que vá atrás daqueles que seguem por um mau caminho, como não terá desculpa, uma vez que se enganou num caminho por onde seguia tanta gente?” (pg. 234). Recomenda, com base nos princípios da filosofia estóica, que “o sábio não se encolerizará com os que erram […] porque sabe que ninguém nasce sábio, mas torna-se; sabe que, em qualquer época, são pouquíssimos os que se tornam sábios, porque tem perfeito conhecimento da condição humana” (pg. 235). O sábio é quotidianamente confrontado com “muitos que se entregam ao vinho, muitos degenerados, muitos ingratos, muitos avaros, muitos que se agitam pelo furor da sua ambição” e “observará tudo isto tão benévolo como um médico observa os seus doentes” (pg. 236).

Interlúdio: Um castigo de requintada crueldade

Sobre o tema da desproporção entre faltas e punições, Séneca conta a história de Védio Polião (Vedius Pollio), que foi procônsul da Ásia Menor e amigo de César Augusto, e que ao receber este como convidado em sua casa, se irritou tanto com um escravo que partiu um copo de cristal que ordenou “que o fizessem morrer de um modo que nem sequer era habitual: foi mandado ser atirado a enormes amoreiras que ele criava num tanque”, mas o rapaz “refugiou-se junto dos pés de César, nenhuma outra coisa pedindo senão que pudesse morrer de uma outra forma, para não ter de servir de alimento” (pg. 333).

O autor do presente artigo, embora néscio em latim, atreve-se a providenciar uma solução alternativa para a mirabolante imagem de um tanque de amoreiras carnívoras alimentadas com escravos negligentes ou madraços.

Os romanos abastados tinham o hábito de manter tanques com moreias nas suas villae no litoral, não só para fins alimentares – eram petisco muito apreciado entre as elites – como na qualidade de animais de estimação; alguns destes criadores de moreias colocavam-lhes adornos e consta que o estadista e reputado orador Lúcio Licínio Crasso (140-91 a.C. – não confundir com Marco Licínio Crasso, que integrou um triunvirato com Júlio César e Pompeu, em 60-53 a.C.) – terá levado a afeição pela sua moreia favorita ao ponto de, por ocasião da sua morte, ter organizado um funeral e ter cumprido um período de luto. Há dúvidas quanto à veracidade deste episódio, havendo quem sugira que seja uma sátira ao estilo de vida excêntrico da elite romana; por outro lado, também corre a versão de que o episódio que teve lugar na presença de Augusto não terá sido um caso isolado e que Polião aplicaria usualmente esta punição aos escravos que incorriam no seu desagrado.

Acontece que a palavra latina para moreia é murena, que não difere muito (tal como em português) da palavra latina para amoreira, morus – e ainda hoje, na terminologia científica, as moreias são arrumadas no género Murenae e as amoreiras no género Morus. Sem esta troca não haveria justificação para a aflição do escravo – aliás, é certo que, se aos condenados à morte fosse dado escolher a modalidade da sua execução, todos optariam por serem atirados a um tanque de amoreiras.

Pedagogia para as crianças do século XXI

Séneca entende que é capital que o combate à ira comece em tenra idade. Na educação das crianças é necessário “ter o cuidado para não alimentarmos nela a ira, nem lhe reprimirmos a índole. […] O espírito engrandece com a liberdade e enfraquece com a servidão; ensoberbece, se é elogiado e se é levado a ter confiança em si, mas ambas as coisas geram insolência e iracúndia”. Para encontrar este delicado “meio-termo entre cada uma destas coisas”, recomenda que, “nas competições com os seus companheiros, […] todas as vezes que tiver vencido e tiver feito algo que seja digno de louvor, permitamos que se alegre, mas que não salte de contentamento, pois à alegria segue-se exultação, à exultação o orgulho e a exagerada estima de si mesmo” (pg. 249).

São palavras com grande pertinência para o nosso tempo, dominado pela cultura da “auto-estima” e em que correntes de pedopsicologia “fofinha”, assentes em noções equivocadas sobre a natureza humana, inculcaram nos pais, no sistema de ensino e em toda a sociedade uma atitude de ilimitada leniência para com os desmandos e birras dos petizes e instituíram a validação sistemática e hiperbólica das suas mais banais e pífias realizações.

A factura da elevação da criança ao posto de tiranete doméstico e da institucionalização do “ensino centrado no aluno” e da “educação holística” começa agora a ser cobrada e com juros exorbitantes. Entre os jovens, atingem valores inauditos as taxas de incidência da depressão, da ansiedade, da automutilação, das crises de pânico, da ideação suicida, da perturbação de hiperactividade e deficit de atenção, da perturbação do sono e das perturbações alimentares (anorexia, bulimia), e cresce também o fenómeno do bullying (físico ou psicológico, podendo o segundo ser exercido in situ ou através das redes sociais).

Perante este estado de coisas, a sociedade encara hoje a frequência do ensino secundário e superior como uma provação comparável ao destacamento para as trincheiras da I Guerra Mundial e os governos afadigam-se em guarnecer todos os estabelecimentos de ensino com brigadas de psicólogos, decretando-as zonas de catástrofe em termos de saúde mental. Apesar do crescente investimento em “tutoria”, “apoio psicológico” e “aulas de recuperação” (na verdade, a criação de um sistema de ensino paralelo, que equivale, implicitamente, ao reconhecimento do fracasso do sistema de ensino padrão) e do crescente facilitismo praticado na maioria dos cursos, as taxas de conclusão do ensino secundário e do ensino superior diminuem, o que deixa governantes e directores de instituições de ensino perplexos e incapazes de fazer mais do que anunciar novas estratégias de combate ao “insucesso escolar” e renovar os votos de fazer de cada jovem português um mestre ou um doutor, independentemente das suas inclinações e capacidades. Sintomaticamente, a “tutoria” e o “apoio” não cessam quando os jovens conseguem emergir da tribulação universitária munidos de um diploma, pois alguns pais zelosos coroam duas décadas e meia (ou mais) de “helicoptering” acompanhando-os às entrevistas de emprego (ver capítulos “O esvaziamento da universidade” e “A geração mais bem preparada de sempre” em Platão, Nietzsche e Mick Jagger: Entre guerras culturais e crises civilizacionais, capítulo “Da couve à couve-flor” em Ensino superior e investigação: Dentro da torre de marfim e capítulos “O terror de ‘ficar para trás’” e “Uma clamorosa falha civilizacional” em Civilização ocidental: O capítulo mais audaz da história do mundo).

Na raiz do “ensino centrado no aluno” e da “educação holística” estão insensatas teorias desenvolvidas a partir do início do século XX, como a Pedagogia Waldorf, o Método Montessori e as Escolas Sudbury. Para se aquilatar da validade científica destas tendências, basta considerar que o fundador das escolas Waldorf, Rudolf Steiner (1861-1925), se distinguiu também como orientador espiritual, clarividente, esoterista, ocultista e pseudo-historiador; aderiu à teosofia, chegando a dirigir a sucursal austrogermânica da Sociedade Teosófica, que abandonou para fundar uma nova corrente, a antroposofia; Steiner foi também o fundador da medicina antroposófica, da agricultura biodinâmica e da euritimia (um movimento artístico), e é hoje reconhecido como precursor do movimento New Age – em suma, foram poucos os ramos do charlatanismo que não beneficiaram do seu contributo. Sem surpresa, os alunos das escolas Waldorf tendem hoje a apresentar, nos EUA e na Europa, taxas de vacinação bem abaixo da média nacional, pois a crença em teorias “holísticas” anda quase sempre de mãos dadas com a desconfiança em relação à ciência.

Durante algum tempo estas correntes pedagógicas mantiveram-se limitadas a um pequeno círculo de escolas privadas “alternativas”, mas foram, lentamente, infiltrando-se no “mainstream” e, no final do século XX já tinham tomado conta de boa parte do sistema de ensino, público e privado, e estão hoje a gerar fornadas de jovens que crêem que as galáxias giram em torno do seu umbigo, estão viciados em gratificação instantânea, dificilmente aceitam que os seus caprichos não podem ser integralmente satisfeitos, sobreavaliam grosseiramente as suas próprias capacidades, alimentam projectos frouxos, inconsequentes ou irrealistas e são incapazes de lidar com a frustração.

Estes resultados não são inesperados, pois a natureza profunda do Homo sapiens tem-se mantido inalterada, pese embora o progresso tecnológico e as profundas mudanças na sociedade, e, há cerca de 2000 anos, já Séneca tinha intuído que “quanto mais indulgente se é com os filhos únicos […], tanto mais se corromperão as suas mentes”, e que aquele “a quem nunca nada foi negado”, aquele “cujas lágrimas a mãe solícita sempre terá enxugado”, aquele “a quem se deu sempre razão na presença do pedagogo [paedagogus]”, “não poderá resistir às contrariedades”, e que “nada mais dá origem a iracundos do que uma educação branda e complacente”. Decorre daqui, segundo Séneca, que uma educação “saudável” requer “que a infância seja afastada para longe da adulação; que a criança ouça a verdade. Que, às vezes, sinta temor, que seja respeitadora em todas as ocasiões […], que não obtenha nada através da ira” (pg. 249-50).

Qualquer pedagogo moderno ficará horripilado perante a mera sugestão de que o “temor” possa ser uma componente da pedagogia, e, todavia, algumas formas controladas de temor são úteis na formação do carácter e na preparação para a vida – antes de mais para que se assimile que todos os actos e palavras têm consequências. O temor que inibe que se ignorem sinais e regras de trânsito, que se salte de cabeça para uma piscina de profundidade desconhecida, que se desinquiete um vespeiro, que se lancem provocações a matulões, que se plagiem trabalhos escolares, que se confronte abertamente a autoridade dos professores, ou que se fale em tom convicto de assuntos de que nada se conhece é salutar. Na ausência de alguma espécie de temor, floresce a insolência. Por outro lado, a pedagogia moderna tem de explicar por que, apesar de ter meticulosamente removido qualquer forma de temor da educação dos jovens, estes, quando inquiridos sobre o seu bem-estar mental, se dizem, em número crescente, assombrados por um medo difuso, indefinido, espectral, sem nome, rosto ou forma, como as criaturas tenebrosas dos contos de H.P. Lovecraft.

Uma indústria movida a ira

Ao contrário do que sugerem as notícias sensacionalistas que fervilham nos jornais tablóides, nos noticiários da trash TV e nas redes sociais (sobretudo nas contas afectas a partidos populistas cuja estratégia de conquista de poder passa por fazer crer que estamos à beira do colapso civilizacional), o mundo moderno é, pelo menos nas democracias do mundo desenvolvido, mais pacífico, seguro e previsível do que em qualquer outra época da História. A ira, que, como vimos acima, tinha rédea solta e era omnipresente na Roma de Séneca e nas outras civilizações da Antiguidade foi, em boa parte, controlada, regulada, canalizada e dissipada de forma a ser menos destrutiva.

Os governantes ainda intimidam e perseguem as pessoas que incorrem no seu desagrado ou que vêem como ameaça ao seu poder, mas, nas democracias, têm de recorrer a artificiosos expedientes legais, a truques de secretaria e a chantagem de natureza financeira para o fazer. A populaça ainda precisa de participar regularmente em rituais colectivos que funcionem como escape para a ira acumulada resultante das suas frustrações quotidianas e como espaço de recriação de um sentimento de pertença tribal num tempo em que a sociedade está cada vez mais atomizada, mas as competições ludopédicas (baseball, futebol americano ou cricket noutras paragens) e as polémicas (tão exaltadas quanto inanes) em torno das “incidências” do jogo são, em geral, menos sangrentas e obnóxias do que os jogos circenses romanos (que Séneca rotulou, na VII das Cartas a Lucílio, como “pura carnificina”).

Apesar desta “suavização” geral, a ira tem, no século XXI, vindo a recuperar força na sociedade, não tanto no espaço físico, mas no domínio das ideias e das palavras e, em particular, nas redes sociais (e na extensão destas que são as caixas de comentários dos mass media). Várias razões decorrentes da natureza e modo de funcionamento das redes sociais contribuem para isto:

1) A admissão nestas é livre, gratuita e não implica a adesão a um código de conduta ou qualquer assunção de responsabilidade;

2) Garantem aos intervenientes impunidade quase total e, se assim se desejar, anonimato;

3) Fomentam a ilusão de que, no espaço virtual, todas as opiniões, asserções e proclamações se equivalem, o que instila no cidadão comum uma sensação de poder inaudita, decorrente de se ver como equiparado aos mais renomados políticos e aos mais ilustres pensadores;

4) Uma vez que as suas receitas são proporcionais ao número de interacções e estas são estimuladas pela indignação e pelo conflito, os proprietários das redes calibraram os algoritmos que as gerem de forma a potenciarem a indignação e o conflito;

5) Por esta mesma lógica, os proprietários das redes são avessos à moderação de conteúdos, pois esta diminui os conflitos, as interacções e as receitas (ver capítulos “Pausa para café”, “O que separa a moderação de conteúdos da censura?” e Quem lucra com a toxicidade das redes sociais?” em História para amanhã pt.2: Migrações, sustentabilidade e redes sociais, capítulo “Internet e cidadania” em Como a inveja, o medo e a ambição moldaram o mundo e capítulo “Ofuscados por LEDs, néons e écrans” em A Idade de Ouro da ciência árabe pt.3: Um longo sono).

Assim sendo, é natural que o utilizador típico das redes sociais seja impelido a dar largas à sua ira, a empregar linguagem que não se atreveria a usar numa interacção presencial, a atribuir automaticamente intenções malévolas e torpes aos interlocutores, a partir para o insulto à mais pequena divergência, a rapidamente passar da discussão de ideias (tarefa para a qual, muitas vezes, não tem conhecimentos, nem disciplina, nem paciência) para o ataque ad hominem. Muitos dos utilizadores mais interventivos das redes sociais imaginam-se a si mesmos como cidadãos pugnando por ideias justas e virtuosas na ágora de uma cidade grega, mas estão muito mais próximos do membro da populaça que, num circo romano, urra de júbilo quando o secutor faz tombar o reciário e que, com o polegar voltado para baixo, exorta a que seja desferido o golpe de misericórdia (ver capítulos “Um caldo de cultura favorável a ideias tenebrosas”, “A ágora e o circo” e “A falácia da democracia digital” em Civilização ocidental: Luz negra para um mundo pós-humano).

As redes sociais têm em comum com os jogos circenses romanos o facto de serem movidas a ira e de serem de entrada livre, mas o seu modelo de negócio é radicalmente diferente: os segundos eram um tremendo sorvedouro de dinheiro, uma vez que eram integralmente pagos pelo imperador ou por altos magistrados (recorrendo ao erário público ou à fortuna pessoal), ou pelas elites mercantis e latifundiárias e estes mecenas só retiravam deles benefícios imateriais – manter a populaça entretida e alienada e dilatar a popularidade e o prestígio dos beneméritos (uma manifestação da competição por status). Já o circo das redes sociais gera fabulosas receitas pecuniárias para os empresários que os controlam, através da publicidade (247.000 milhões de dólares em 2025) e do mercadejo de informação sobre os utilizadores a partidos políticos, marcas comerciais, empresas de consultoria, organizações e agências de lobbying e outros grupos de interesses – o mercado das redes sociais representou um valor combinado de 1.63 biliões (milhões de milhões) de dólares em 2025 e estima-se que chegue aos 2.11 biliões em 2026 (segundo dados obtidos nesta síntese). As redes sociais produzem também um efeito não susceptível de ser quantificado, mas nem por isso menos valioso, que é a impregnação insidiosa das massas com ideias e atitudes que estão em consonância com a mundividência, os interesses e os desígnios dos proprietários das redes e da sua clientela.

Os empreendedores há muitos séculos que desenvolveram estratégias para extrair lucro da soberba, da avareza, da inveja, da luxúria, da gula e da preguiça, mas foi preciso esperar pelo século XXI para que se descobrisse como fazer fortuna com a ira.

Interlúdio: Hércules furioso

Ainda que seja hoje conhecido sobretudo pelos seus textos filosóficos, Séneca foi também autor de uma dezena de tragédias, uma das quais tem a ira como tema central: Hercules furens (Hércules furioso ou A loucura de Hércules). Nela, Juno, esposa de Júpiter, exasperada com as múltiplas infidelidades deste, decide vingar-se no semideus Hércules, que era fruto de uma “escapadela” de Júpiter com a mortal Alcmena e pelo qual o esposo tinha grande estima. Juno faz enlouquecer Hércules e leva-o, num ataque de fúria, a matar a sua esposa, Mégara (filha de Creonte, rei de Tebas), e os filhos do casal.

Nalgumas versões do mito de Hércules, este mata apenas os filhos, nalgumas versões este episódio precede os “Doze Trabalhos de Hércules”, noutras, são os feitos heróicos de Hércules que exasperam Juno, que os vê como uma afronta ao poder dos deuses – sobretudo o 12.º trabalho, em que Hércules desce ao Hades e regressa ao mundo dos vivos trazendo consigo Cérbero, o temível cão tricéfalo que guarda a sua entrada –, e a levam a punir Hércules com a perda da razão.

O tema Hercules furens gozou de alguma popularidade na pintura da Renascença e do Barroco, já que proporcionava a criação de uma cena plena de dinamismo e drama.

Velocidade furiosa

Já aqui se escreveu sobre a pertinência e actualidade das reflexões de Séneca para a compreensão dos bizarros comportamentos que dominam as redes sociais (ver capítulos “Os que caminham em função do passo alheio”, “De acordo com o hábito das ovelhas” e “Um grande buraco no centro da vida” em A filosofia da Antiguidade tem alguma utilidade no século XXI?) e Da ira dá mais um precioso contributo neste campo: “A razão concede tempo a cada uma das partes, depois pede também para si um prazo para que tenha ocasião de examinar a verdade. A ira é apressada. A razão quer afirmar aquilo que é justo; a ira quer que seja considerado justo aquilo que afirmou” (pg. 212).

A aceleração – física e mental – da vida a que se foi assistindo ao longo do século XX, ganhou fortes impulsos adicionais com a adopção maciça do e-mail (a partir da segunda metade da década de 1990), das redes sociais (a partir da segunda metade da década de 2000) e do smartphone (a partir do início da década de 2010).

Como explica Daniel Kahneman em Pensar, depressa e devagar (2011), na mente humana sempre competiram duas linhas de “processamento”: o sistema 1, rápido, instintivo, simplista, assente em emoções e estereótipos e pouco penoso, e o sistema 2, lento, ponderado, atento à complexidade, assente na lógica e na análise e trabalhoso. No dia a dia, a maioria das pessoas tende a usar o sistema 1 na maioria das situações e o progresso tecnológico veio reforçar essa inclinação. A possibilidade da comunicação instantânea introduzida pela Internet, pelos smartphones e pelas redes sociais resultou, perversamente, no imperativo da resposta instantânea (ver capítulos “Navegar com metade do cérebro” e “O êxtase da velocidade” em Estaremos a andar depressa demais?).

Os fóruns de opinião e debate, as caixas de comentários dos mass media e as redes sociais pouco ou nada impõem, mas criam um caldo de cultura, fornecem modelos, moldam comportamentos, formatam reacções, disponibilizam raciocínios pré-preenchidos e guiões estereotipados e o utilizador acolhe-os com tanta maior facilidade quanto mais vazia e volúvel for a sua mente e mais inclinado seja a conformar-se ao espírito de rebanho (ver capítulo “De acordo com o hábito das ovelhas” em A filosofia da Antiguidade tem alguma utilidade no século XXI?). Num processo tão imperceptível quanto inexorável, ficou tacitamente estabelecido que cada utilizador das redes sociais (cujo número total ronda, em 2026, 5700 milhões ) tem o direito e o dever de opinar sobre tudo o que acontece no vasto mundo, por mais ignorante que seja do assunto e por pouco tempo que tenha dedicado a reflectir sobre o evento, as palavras ou os actos em apreço (no mundo da Internet tudo está, permanentemente, em “apreço”).

E há que exercer esse direito e dever quanto antes, pois a taxa de rotação das “breaking news”, dos “trends”, dos “memes”, dos vídeos virais, é vertiginosa e não se compadece com inquirições, verificações, meditações, hesitações e reapreciações. É a quente, em poucos minutos, por vezes mesmo antes de acabar de ler o primeiro parágrafo do post ou do artigo ou de chegar a um quarto da extensão do vídeo, que é preciso deixar o comentário, o “like” ou o “dislike”, o dito “espirituoso”, a observação chocarreira, a sentença lapidar, já que, dentro de poucos dias, o assunto perderá pertinência e será submergido por novos “trends” e novas “ondas de indignação”.

E se é certo que há efusões planetárias de ternura em torno do gatinho resgatado de um poço, ou do macaquinho rejeitado pela mãe, e sinceras manifestações de admiração pela menina coreana de sete anos de idade que toca Chopin e pelo reformado que construiu um modelo da catedral de Notre Dame em paus de fósforo, o tom dominante nas redes sociais é de indignação e de ira. A prevalência destas está também indissoluvelmente associada à tendência reinante no espaço digital para fazer proclamações definitivas, dogmáticas, tonitruantes, desabridas e acintosas, que (supostamente) conferem ao seu autor uma imagem de intrepidez, experiência, confiança, auto-suficência e poder. Bertrand Russell, que lamentava que “o maior problema do mundo é que os estúpidos sejam excessivamente seguros de si e que os inteligentes estejam cheios de dúvidas”, ficaria, provavelmente, desconsolado com o tom de “bluff”, intimidação e insolência que tomou conta da Internet.

Um remédio que ninguém pode dar-se ao luxo de tomar

Uma vez que o mundo digital cada vez mais monopoliza a nossa atenção e, concomitantemente, se assume como a força determinante na forma como as pessoas pensam, comunicam e agem, as tendências obnóxias que nele campeiam tendem a alastrar para o mundo físico e a causar reais explosões de ira e violência. Foi o que aconteceu, por exemplo, na campanha de limpeza étnica, iniciada em 2016, contra a minoria rohingya, em Myanmar, alimentada por campanhas de desinformação no Facebook; nos linchamentos que têm ocorrido intermitentemente na Índia, desde Maio de 2017, decorrentes da difusão de rumores sobre raptos de crianças e tráfico de órgãos no WhatsApp; nos tumultos anti-islâmicos no Sri Lanka, em Março de 2018, incitados por desinformação no WhatsApp e no Facebook; nos tumultos anti-imigração de Julho-Agosto de 2024 no Reino Unido, atiçados por boatos veiculados por figuras proeminentes da extrema-direita nas redes sociais. A influência da atmosfera de ira reinante nas redes sociais sobre o mundo real pode manifestar-se de forma menos trágica e mais insidiosa e difusa: uma diminuição da empatia, um pendor mais brusco, desleixado e descortês nas relações pessoais, uma tendência para interpretar todas as situações em termos dicotómicos e confrontacionais. Até a linguagem corrente vai sendo contaminada e o resultado de qualquer divergência, enfrentamento ou competição nos campos político, social, económico, desportivo ou cultural é descrito com termos como “arrasar”, “esmagar”, “atropelar”, “humilhar” e “banalizar” (no sentido de “reduzir à insignificância”).

Como poderemos nós diminuir a combustibilidade das redes sociais, desfazer este emaranhado feito de agressividade latente, necessidade premente de afirmação e de validação, sede de protagonismo, impulsividade, maniqueísmo e sectarismo? Séneca recomenda: “O melhor remédio para a ira é conceder-lhe tempo, para que a primeira manifestação de furor elanguesça e a obscuridade que oprime a mente diminua. […] Algumas dessas preocupações que te inquietam a mente atenuar-se-ão numa hora, nem um dia será necessário, outras desvanecer-se-ão por completo” (pg. 293).

É um conselho que poderia ser eficaz no século I, quando o mundo se movia num ritmo pausado, letárgico mesmo, quando comparado com o frenesim que é regra no século XXI e que levanta densas nuvens de pó que nos toldam a visão e o entendimento. Séneca diz-nos que “tudo aquilo que queiras saber exactamente como é, confia-o ao tempo; no meio da agitação não se consegue ver conscienciosamente” (pg. 294), mas tempo é precisamente o que mais nos falta hoje, apesar de, ironicamente, boa parte daquilo a que chamamos progresso consistir numa parafernália de máquinas, gadgets, programas, apps e procedimentos cujo principal fito, garantem-nos os seus fabricantes, comerciantes e embaixadores, é poupar-nos tempo.