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(A) :: Do coelho branco de Alice a Napoleão, do novo Swatch às coleções milionárias: a corrida contra o tempo do relógio de bolso

Do coelho branco de Alice a Napoleão, do novo Swatch às coleções milionárias: a corrida contra o tempo do relógio de bolso

Pioneiros na portabilidade, foram usados como pingentes, necessários no campo de batalha, e mantêm-se ponto de honra entre as grandes marcas de relojoaria. Do século XVI a David Beckham.

Maria Ramos Silva
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Caos e imprevisibilidade. Podíamos falar do fim de semana que passou mas no conto fantástico de Lewis Carroll a marcha implacável do tempo é-nos lembrada por um coelho branco. Alice arrisca-se na toca da peculiar criatura, com o seu relógio de bolso, que parece estar sempre atrasado. Central na trama, o objeto tem outros momentos de glória e simbolismo na cultura pop. Em Por Quem os Sinos Dobram, surge quebrado na posse do americano Robert Jordan, espelho maldito desse desfazamento imposto pela guerra civil espanhola. Com o capitão Koons, em Pulp Fiction, agrava-se o peso da memória e sacrifício. No pescoço de Hermione, em Harry Potter, concretiza a magia de participar em várias aulas em simultâneo. E nas filas do Centro Comercial Colombo e Norte Shopping é mais um momento viral que pode acabar na Vinted, Olx, eBay, ou outras plataformas de revenda.

A teia do tempo começa a desenhar-se bem lá atrás. A figura histórica mais frequentemente creditada como o inventor do relógio de bolso é o relojoeiro alemão e serralheiro Peter Henlein (1485-1542), que terá lançado os primeiros modelos compactos projetados para serem usados no corpo, na sua oficina em Nuremberga, em 1510. Henlei ajudou a tornar a consulta do tempo, até então dominada por auxiliares fixos como as torres de igreja, um exercício portátil, ainda que as criações originais mais parecessem à luz dos nossos dias pequenos objetos de culto e decoração.

Inicialmente em forma de tambor, assemelhavam-se a caixas de latão ornamentais, com movimentos primitivos, feitos de ferro ou aço dentro. Correntes drapeadas suspensas permitiam usar as peças em volta do pescoço e em bom rigor estes relógios pioneiros tinham pouco de veículo fiável para estar a par das horas. A forma arredondada que ganharam posteriormente valeu-lhes o rótulo de ovos de Nuremberga, que também haveriam de ser introduzidos por essa altura em Portugal. “Em 1507, morreu em Lisboa Wolfgang Behaim. No seu testamento faz-se referência a relógios despertadores portáteis. A família Behaim, estabelecida em Nuremberga, tomou contacto nessa cidade com os primeiros relógios mecânicos portáteis, os chamados “Ovos de Nuremberga”, que usam a mola helicoidal como força motriz.” escreve Fernando Correia de Oliveira na tese de mestrado A Introdução do Relógio Mecânico em Portugal (2022). “A invenção, na zona, data de cerca de 1500, mas há indícios de relógios com mola helicoidal cerca de um século antes. De qualquer forma, Portugal terá sido dos primeiros países da Europa a ter este tipo de relógio importado de Nuremberga, à época importante centro de produção de instrumentação científica. A portabilidade do Tempo torna possível o uso do relógio como objecto pessoal, mas ainda raro e caro, exclusivo de poucos. Objecto de aparato e de estatuto, era normalmente usado pendurado por corrente, ao pescoço.”, continua.

O futuro traria ainda derivações com variantes mais surpreendentes, como livros, animais, frutas, flores, insetos, cruzes e até crânios, para uma nota fúnebre, ou uma romã. A vida e redescoberta do Pomander Watch é tão fascinante como as suas origens. A peça em cima enfrentou inicialmente o cepticismo quando surgiu em 1987 num antigo mercado em Londres. O relógio foi mudando de dono com o tempo, sempre desconhecendo o seu real valor, até que em 2002 um colecionador privado adquiriu o relógio. Em 2014 seria avaliado por um comité de especialistas que confirmaram a sua autenticidade e a autoria atribuída a Henlein, sendo considerado o relógio de bolso mais antigo do mundo.

Já do século XVII saíram pequenas obras primas e mestre relojoeiros como o francês Nicolas Forfaict, o alemão Johann Posdorfer, ou Nicholas Vallin, filho de um relojoeiro flamengo que se tornou um dos maiores artesãos do género fixado em Londres; e ainda coordenadas que se tornaram legítimas capitais como a germânica Augsburg, conhecida pela multiplicidade de relógios de bolso que deu ao mundo (enquanto Nuremberga ficou célebre pelos primeiros relógios wearable de bolso, dali saíram inúmeros prodígios ao nível da navegação e astronomia, das bússulas aos relógios de mesa).

Os anos seguintes trouxeram a sofisticação dos mecanismos e avanços; a associação de gadgets outrora práticos como um cortador de charutos ou pequenos chaveiros, e uma multiplicidade de correntes com diferentes elaborações, que permitiam prender a diferentes pontos. De resto, a evolução da moda acompanhou a presença de instrumentos como estes e fomentou até a renovação da sua modalidade de uso.

Dos fatos de Carlos II ao bolso estratégico de Levi Strauss

Decisiva para certa transição terá sido uma novidade introduzida na corte de Carlos II em Inglaterra, que reinou entre 1666 e 1685: um novo traje masculino traçava a devida emancipação face aos ditames da moda francesa. Despedindo-se do gibão de pendor jacobino, o colete e o casaco consagravam-se como elementos de virilidade e cortavam a direito com a subserviência ao continente nesse tiro de partida para a era georgiano. Em paralelo, a introdução do vidro reforçava a durabilidade dos relógios, que se foram popularizando em toda a Europa e América do Norte. A mudança de modas foi gradual, com o tamanho do colete a ir encolhendo com os anos, mas quando alcançamos já o período vitoriano, alguns séculos adiante, a foto em baixo é bem expressiva da imagem clássica em vigor — e não falta nesta indumentária o relógio que aqui nos traz.

O discreto bolso do colete convidava a acomodar um relógio arredondado e achatado, sem bordas afiadas, coberto por mostrador. Escusado será dizer que a peça se mantém pelo menos até à segunda metade do século XVIII como um item de luxo, enquanto as senhoras mantinham o hábito de os utilizar como pingentes, prática seguida até ao século XX. A introdução de um escape de alavanca, inventada por Thomas Mudge em 1755, aumentou os níveis de precisão. É desse ano o primeiro relógio de bolso Vacheron Constantin, de prata, assinado J. M: Vacheron Um Genève, único conhecido que identifica o fundador do Maison pelo seu primeiro nome. Antes, já Jehan-Jacques Blancpain, que começou a fabricar relógios em 1735 em Villeret, Suíça, reivindicava o título da marca de relógios mais antiga registada, cujos primeiros relógios de bolso primavam pela artesania.

O século trouxe ainda o impulso saído do xadrez militar e estratégico. Que o diga Napoleão Bonaparte, um dos clientes mais famosos do mestre relojoeiro suíço Abraham-Louis Breguet (1747-1823), conhecido pai da relojoaria moderna, inventor do turbilhão, e do primeiro modelo automático. Em 1798, antes da campanha no Egito, o imperador comprou três peças: um relógio repetidor, um relógio de viagem e um relógio perpétuo. Consta aliás que em junho de 1815, na batalha de Waterloo, o imperador tinha um Breguet no bolso. Não terá sido por ele que perdeu o embate mas consta que tinha por hábito queixar-se do desconforto de ter que ir sempre ao bolso ver as horas.

As aquisições cumpriam um duplo propósito: em primeiro lugar, e acima de tudo, na sua ascensão meteórica através das fileiras da vida social e política, Napoleão procurou possuir objetos refinados, símbolo de poder e status social; e, em segundo lugar, por razões puramente práticas, os seus planos e investidas exigiam relógios sólidos e confiáveis. O relógio dava jeito em tempos de guerra mas também de paz — e estratégia amorosa. Para a história passaram criações como a joia em forma de coração que Napoleão ofereceu à imperatriz Josefina, mais uma raridade com o selo do mestre Breguet, que apenas encontra rival no lendário Toi et Moi, o anel com que selou o seu noivado, em 1796.

Napoleão, ou melhor uma cabeça de prata de Napoleão, teve o devido apontamento num outro modelo lendário, o Turnip, como Winston Churchill chamava carinhosamente ao seu relógio de bolso. O famoso Breguet 765, originalmente comprado em 1890, fora herdado do seu avô, o 7.º Duque de Marlborough, trata-se de um cronógrafo e repetidor de minutos altamente complexo e foi um constante companheiro do antigo primeiro-ministro britânico, também em tempos de guerra. Verdadeiro amuleto de boa sorte, Churchill usou-o até o fim de sua vida, acusando uma pesada corrente de colete dourada decorado com lembranças significativas, incluindo o presente de casamento de sua esposa Clementine, e um emblema “V for Victory”. O relógio original está em exposição permanente nos Churchill War Rooms em Londres, ao lado do seu icónico retrato de Yousuf Karsh.

Também Maria Antonieta foi das maiores entusiastas e patronas de Breguet, assídua na sua oficina no Quai de l’Horloge, no coração de Paris, arauta das suas criações, que recomendou a meia Europa. Em 1792, no ano anterior à sentença da guilhotina, a rainha de França haveria mesmo de receber na sua cela na prisão do Templo, “um simples relógio Breguet”, que anos mais tarde chegaria à coleção de Sir David Salomons juntamente com a obra-prima de Breguet, o célebre relógio No 160 conhecido como “Marie-Antoinette”, que a soberana de origem austríaca nunca viu concluída. Terá sido encomendado em 1783 pelo seu amanate Axel von Fersen the Younger, e o relógio deveria incorporar cada refinamento, complicação e função conhecida na época. A.-L. Breguet completou o relógio muitos anos após a Revolução Francesa e manteve-o num lugar seguro, testemunhando a sua lealdade à monarca caída em desgraça. O  modelo “Marie Antoinette” permaneceu na posse da Breguet até ser vendido a Sir Spencer Brunton em 1887, chegando por fim à coleção de Salomons, especialista na marca, na década de 1920. Claro que faltava uma mudança no guião vertiginosa, tal como a vida da rainha. O relógio foi roubado do L.A. Mayer Institute for Islamic Art, em Jerusalém, em 17 de abril de 1983, juntamente com outros 105 relógios raros da coleção Salomons, um mistério que levou 25 anos a ser resolvido. O responsável do furto foi Naam Diller. A peça haveria de ser avaliada em 30 milhões de dólares e em 2025 seria exposta no Museu da Ciência, em Londres, na mostra Versailles: Science and Splendour, naquela que seria a primeira saída de Israel depois do escândalo do roubo.

O apelo da praticalidade estender-se-ia mais tarde a profissões como as dos marinheiros, os motores da Revolução Industrial aceleraram a massificação do relógio de bolso junto das classes inferiores, e gigantes de consumo associados ao vestuário de trabalho aproveitariam o momento de forma sábia.

Em 20 de maio de 1873, Levi Strauss apresenta uma inovação que se tornaria lendária até hoje, um pequeno e distintivo bolso localizado no lado direito da frente das calças de ganga da marca Levi’s que muitos julgam ter sido criado para guardar moedas – mas na verdade servia para aconchegar em segurança o relógio de bolso, uma tendência seguida até ao final do século XIX. Os relógios de pulso e os smartphones podem ter rendido as velhas versões de bolso mas este apontamento de design foi mantido pela marca de jeans e é hoje apropriado para guardar elementos como as moedas (agora sim). Ou chaves, como ilustrava um dos muitos anúncios saídos de uns anos 90 do século seguinte, ousados na publicidade. “O quinto bolso, menosprezado desde 1873.”, assim termina o vídeo de 1996 sobre as 501 que tem em destaque um “pool boy”. Na pequena trama, veem-se seguranças a vigiar uma mulher atraente a apanhar sol à beira da piscina. Um rapaz a usar umas Levi’s segura uma rede na água e chama a atenção da mulher, que mergulha na água para reemergir perto do homem e depositar uma chave na sua mão. Os seguranças captam a cena e são ágeis a atacá-lo, vasculhando-lhe os bolsos dos jeans, mas sem grande resultado —faltou esvaziarem o providencial mini bolsinho lateral.O anúncio popularizou-se na época, apesar de não ser realmente fiel aos factos: o discreto pequeno bolso não é o quinto, antes um detalhe decisivo no design original, que somava já 150 anos de existência e fora até patenteado.

Algumas décadas após a invenção de Strauss, foi de novo por razões de funcionalidade, e devido a grandes arcos como a I Guerra Mundial, que o relógio migrou para o pulso, da mesma forma que invenções como os óculos Ray Band ou o trench coat antes usado nas trincheiras haveriam de fazer furor mais tarde entre civis de todo o mundo. Ainda em 1889, a Vacheron criava um dos primeiros relógios de pulso para o público feminino, advento que causou grande agitação. Também as senhoras adotariam os novos códigos no universo da relojoaria, de tal forma que em meados do século XX a versão de bolso vai aproximando-se de uma nostálgica relíquia, como uma peça de família que se herda do avô, ou surgindo de forma pré-vintage em editoriais de moda. Mas afinal, parace que há um eterno retorno à casa de partida.

No final do ano passado, e mais recentemente em abril, foram a leilão dois exemplares que encerram em si camadas de história. Os mais fascinados com o naufrágio do Titanic, em 15 de abril de 1912, terão seguido com entusiasmo a reaparição no mercado, e licitação milionária, de um relógio de bolso de dois passageiros que não sobreviveram ao desastre: Isidor Straus e o John Jacob Astor, uma prova extra de um interesse renovado nestes objetos mais do que centenários.

Um mundo de opções para trazer no bolso

O aviso à navegação antecipava a loucura: “Só pode ser comprado um relógio por pessoa, por dia e por loja”, informava a Swatch na semana passada, no anúncio da mais recente colaboração com outro peso pesado suíço da relojoaria. A coleção ficou disponível mundialmente a 16 de maio, e as filas chegaram também às lojas Swatch do Centro Colombo, em Lisboa, e do NorteShopping, no Porto. Voou entretanto das lojas, mas há-de ser reposta, já que não se trata de uma edição limitada – o que não impede que alguns dos primeiros compradores já tenham colocado à venda no mercado secundário alguns destes items, por preços muito superiores.

Pouco ou nada fazia prever tal corrida, mas para entusiastas do setor há, de facto, alguns pontos de interesse extra: é a primeira vez que a Swatch fez parceria com uma maison fora do seu próprio grupo (que inclui marcas de todos os segmentos, da Harry Winston e Omega à Flik Flak), e a primeira vez que a Audemars Piguet autoriza um design Royal Oak a ser produzido fora de Le Brassus, o mítico vilarejo de Vallée de Joux onde há 150 anos são concebidas as peças da marca.

A coleção Royal Pop aposta em oito relógios de bolso coloridos, com a forma icónica do Royal Oak, movidos por uma nova versão de corda manual do movimento SISTEM51. Oito modelos, um por cada lado da luneta octogonal que tornou o Royal Oak numa lenda — o mesmo Royal Oak lançado em 1972 por Gérald Genta, que revolucionou a relojoaria. Estão disponíveis em dois estilos: Lépine, com a coroa às 12 horas e mostrador de dois ponteiros (Jean-Antoine Lépine (1720-1814), que serviu como relojoeiro da corte francesa, revolucionou a construção do relógio) e Savonnette, com a coroa às 3 horas e um pequeno submostrador dos segundos às 6 horas. Seis modelos – Orenji Hachi, Ocho Negro, Blaue Acht, Green Eight, Huit Blanc e Otto Rosso – são Lépine, a 385 euros. Os dois restantes – Otg Roz e Làn Ba – são Savonnette, a 400 euros.

A febre não é inédita. Em 2023, a colaboração entre a Swatch e a Omega com o MoonSwatch ‘Mission to Moonshine Gold provocou longas filas em Times Square, e há mais de 40 anos que as parcerias criativas são um manancial para colecionadores. Mas num tempo de smartwatches e smartphones, como se explica o sucesso de uma peça que recupera os primórdios da portabilidade no que toca a ver as horas? Para já, se pensar nas possibilidades de styling da peça, uma delas passa por usar o relógio de bolso…à volta do pulso.

Os mais atentos saberão que as principais marcas de relojoaria têm sabido acompanhar o frenesim nos últimos anos. Uma passagem pelas principais coleções atesta que ter um modelo de bolso é praticamente um ponto de honra. E nas passadeiras vermelhas, o item tem tido o seu momento de revivalismo puro. Na Met Gala de 2025, por exemplo, contagiou nomes como Leon Bridges, Ayo Edebiri ou o influencer de origem senegalesa Khaby Lame, que se encheu literalmente de relógios de alto a baixo.

Depois, vêm os pedidos estratosféricos que adensam ainda mais a aura do objeto. 300 euros é uma bagatela comparada com o que terá pagado o dono (desconhecido) de um dos relógios mais complexos alguma vez criados. Em 2015, depois de oito anos de investigação e da visão de três mestres relojoeiros, a Vacheron Constantin apresentava a referência 57260, com um mostrador duplo, mais de 2800 componentes e 242 rubis. Entre outros prodígios, conseguiu conciliar o calendário perpétuo hebraico com o calendário gregoriano, Pela primeira vez na história da relojoaria dois ponteiros do cronógrafo funcionam em uníssono sem nunca se encontrarem, e o relógio de bolso oferece os modos de Grande Sonnerie e Petite Sonnerie, reproduzindo fielmente a cadência do “Big Ben”, o relógio do Palácio de Westminster.

A criação batia o Patek Philippe Calibre 89, uma edição comemorativa criada em 1989, para celebrar o 150o aniversário da empresa. Declarado pela Patek Philippe como “o relógio mais complicado do mundo” à época da criação, valia-se de 33 complicações. Para a história, da mesma marca, passou o Henry Graves de 1933 (no 198.385), um dos relógios de bolso mecânicos mais complicados já criados, em ouro de 18 quilates e com 24 complicações. Montado por Patek Philippe, foi assim nomeado em homenagem ao banqueiro Henry Graves, Jr., que supostamente o encomendou para tentar bater a fasquia do relógio de bolso James Ward Packard. Na altura, Graves e Packard contavam-se entre os principais colecionadores de relógios, alimentando o despique com encomendas regulares aos fabricantes.

Lançado em 2016, o Longines Equestrian Pocket Watch Jockey 1878, é uma réplica contemporânea de um dos primeiros relógios cronógrafos já produzidos pela empresa fundada em 1832 na cidade suíça de Jura de Saint-Imier por Auguste Agassiz e dois parceiros, e presta homenagem às suas raízes equestres (a Longines continua a ser o temporizador oficial para eventos como o Kentucky Derby — e não faltam opções vintage na ordem das centenas de euros). O Vintage PW1 é o primeiro relógio de bolso de Bell & Ross (na casa dos 3 mil euros), inspirando-se nos relógios de mão usados pelos aviadores nos anos 1910, antes das duas Guerras Mundiais terem estabelecido o relógio de pulso como o guardião do tempo de escolha nos cockpits. Na Baume & Mercier, o Clifton 1830 Pocket Watch é um tributo moderno a essas peças históricas e oferece um raro repetidor de cinco minutos como função de assinatura (pode chegar aos 54 mil euros). Conjugando séculos de observação astronómica, domínio técnico e artesanato, o 150 Heritage da Audemars Piguet combina o savoir-faire da manufatura num relógio de bolso complementado pelo Calendário Universal, um mecanismo lunisolar inovador alojado dentro de seu fundo de caixa — tudo isto tem um preço, e passa facilmente os dois milhões de euros (nada que chegue aos calcanhares do recorde batido em leilão pela mesma marca em dezembro passado). Por uns mais modestos 4.700 euros o Dandy da Chaumet pode vir parar ao seu bolso.

Em outubro de 2022, um número limitado de 917 peças do New Railroad Pocket Watch celebrou o legado da Hamilton, criada em 1892, para garantir a cronometragem sem falhas nas primeiras ferrovias americanas, um eixo fundamental do sonho americano. Dois anos depois, a Citizen assinalava o centenário com um regresso ao seu primeiro produto, um relógio de bolso, agora melhorado, claro. No seio da própria Swatch, o Mille Sabords, uma versão náutica com um cordão vermelho, branco e azul, antecipou-se aos Royal Oak. E na Hublot, o que parece uma chave de carro é na verdade um dos exemplos mais modernos de relógio de bolso moderno, e o primeiro em cristal de safira, com uma reserva de energia de 10 dias e caixa de titânio, limitado a apenas 99 peças e com o design do artista contemporâneo Daniel Arsham.

Objeto de culto, simples capricho ou renovado interesse numa modalidade mais próxima da velha analogia, dir-se-ia que a capacidade de influenciar não começou nem acabou com Carlos II – mas não estranhe se nos guiar mais uma vez às cortes, agora contemporâneas. Desconhece-se se teve tradução literal no aumento das vendas mas certamente não prejudicou a popularidade dos relógios de bolso o momento em que David Beckham usou um Patek Philippe emprestado por George Somlo de Somlo Antiques no casamento do príncipe Harry e Meghan Markle. O ex-futebolista é aliás fiel ao estilo Peaky Blinder, série que graças às personagens de Tommy, Arthur, Michael e John reabilitou não só um certo dress code formal como os relógios de bolso. A estética é com frequência seguida por atores como Tom Hardy, que em 2025, na estreia “MobLand” no Odeon Luxe em Leicester Square, em Londres, combinou um look denim com um relógio de bolso, cuja corrente ficou visível nas imagens. Bom, e é inevitável convocar a cúpula da realeza britânica, não fosse esta apesar de tudo uma referência clássica, que se manifesta de forma mais contundente em eventos como Royal Ascot ou Cheltenham, quando o Rei Carlos III recupera do seu guarda-roupa os figurinos mais tradicionais, para um discreto apontamento da corrente.

Também o sucesso de sagas de época como Downton Abbey ajudou à festa, festa essa que tivera já um momento revivalista nos anos 70, quando os fatos masculinos de três peças ensaiaram um tímido regresso. No cinema, em 1968, Steve McQueen trocou seu casaco de motoqueiro para um terno inteligente de 3 peças completo com um relógio de bolso Patek Philippe em The Thomas Crown Affair. Este é um dos três relógios impressionantes que McQueen usa em todo o filme, mas em nossa opção, é o único a assistir! Fixado em seu terno por uma corrente de relógio de bolso de ouro correspondente, o Patek Philippe tornou-se um modelo muito procurado para fãs de McQueen.

Para quem prefere Robert Redford, na versão de 1974 de O Grande Gatsby, o ator também é visto na longa-metragem com um destes acessórios, mas em bom rigor é escusado renovar por completo o guarda-roupa ou aderir ao estilo vitoriano. Modelos como o Christopher Ward Alliance 02, o resultado de uma colaboração entre a marca com design britânico e o Studio Underd0g, mostram como um relógio de bolso pode ser usado com descontraídos ténis e outros aliados do street style urbano. Para quem não dispensa um clássico, como o Patek Philippe 783, um infalível saído de 1960, pelas mãos do visionário Gilbert Albert. Só precisa de dinheiro e tempo para conseguir agarrá-lo.