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Um pacto de valores: o futuro do Centro e da Direita Democrática

Foi a matriz democrata-cristã e humanista que inspirou pais fundadores como Robert Schuman e Konrad Adenauer a erguer o projeto europeu, rejeitando o nacionalismo e o coletivismo.

Rafael Amorim
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Ao assinalarmos meio século de democracia em Portugal, impõe-se uma reflexão sobre os alicerces que ditarão o nosso futuro político. Quando olhamos para o espaço político não-socialista no nosso país — compreendendo o centro, o centro-direita e a direita democrática —, o diagnóstico é claro: existe um capital ideológico que precisa de articulação para potenciar a sua capacidade de afirmação face aos radicalismos emergentes.

Para garantir a solidez deste espaço, é fundamental regressar às suas bases, ancoradas no humanismo de matriz cristã e na Doutrina Social, destituídas de caráter confessional. Falamos de princípios que colocam a dignidade da pessoa humana no centro da ação política: a subsidiariedade, que exige reforçar a governação multinível através das diversas administrações do Estado, mas também na relação entre o Estado e os atores privados ou cooperativos; a solidariedade intergeracional; a defesa das liberdades individuais e a promoção da economia social de mercado.

Importa lembrar que estes não são apenas os princípios orientadores de uma área política; são os valores fundacionais da própria União Europeia. Foi esta matriz democrata-cristã e humanista que inspirou pais fundadores como Robert Schuman, Konrad Adenauer e Alcide De Gasperi a erguer o projeto europeu, rejeitando o nacionalismo e o coletivismo.

Em Portugal, ao longo destas os cinco décadas, vimos esta matriz inspirar diversas correntes políticas. Vimo-la até no próprio Partido Socialista, onde existiram, e existem, deputados e militantes que comungavam desta matriz e defendiam a Doutrina Social como antídoto para derivas marxistas. Se mesmo fora do seu espaço natural este património teve influência, é imperativo que o centro e a direita democrática o saibam capitalizar em conjunto.

O que o país exige hoje é ir além das coligações eleitorais que marcaram a nossa história. O objetivo de aproximar as forças do centro e da direita democrática não deve resumir-se a uma conveniência de calendário para alcançar o poder, mas impulsionar a construção de um pacto transformador onde os valores partilhados se materializem em medidas capazes de ajudar a modernizar o Estado e a erguer novas estruturas de confiança na sociedade portuguesa.

Esta ambição de um pacto estrutural não é uma utopia; é o modelo de sucesso da principal força política europeia. O Partido Popular Europeu é a casa agregadora que, à escala continental, consegue harmonizar no seu seio democratas-cristãos, conservadores e liberais, provando que a união em torno destes valores cria a âncora de estabilidade da Europa.

No resto do continente, as provas dão-se de igual forma. Olhemos para o caso da Suécia e a sua “Aliança” (Alliansen), que uniu conservadores, democratas-cristãos, centristas e liberais. Sem perderem a sua autonomia, formaram uma estrutura que governou o país com estabilidade durante oito anos (2006 a 2014). Pensemos na capacidade da direita democrática em França para criar estruturas confederativas num bloco operativo, desde a UDF em 1978 até à UMP em 2002. Mais recentemente, temos o exemplo da Polónia, onde nas eleições de 2023 uma aliança centrista conseguiu mobilizar a sociedade, apresentar um projeto sustentado nos valores europeus e derrotar o isolacionismo.

Em Portugal, não precisamos de começar do zero, pois a nossa história democrática já demonstrou a eficácia desta agregação em momentos cruciais. A Aliança Democrática (AD) de 1979 com Sá Carneiro — que uniu o PSD, o CDS e o PPM —, a coligação Portugal à Frente (PàF) no tempo de Pedro Passos Coelho e a atual reedição da AD, com Luís Montenegro, provam que, quando o espaço não-socialista converge, consegue mobilizar o país e liderar reformas. Contudo, o desafio da próxima década é garantir que este esforço não se esgote em entendimentos eleitorais de conjuntura, mas que evolua para o alicerce definitivo da nossa vida pública.

Uma estrutura agregadora desta natureza reconhece que as diferentes sensibilidades da direita democrática e do centro são complementares. Do pensamento liberal, este pacto herda o motor da iniciativa privada; do conservadorismo, a ponderação e o respeito pelas instituições; e da matriz democrata-cristã, a garantia de que o Estado assegura a igualdade de oportunidades.

Além do plano programático, este pacto deve também recuperar um traço fundamental da cultura democrata-cristã: a virtude da praus. Longe de representar passividade ou fraqueza, a praus é uma força controlada e tolerante. É a postura indispensável para substituir a agressividade e a polarização tóxica que corroem o debate contemporâneo por uma atitude de diálogo, firmeza serena e respeito institucional.

Num momento em que os extremos se alimentam do medo, oferecendo respostas fáceis para problemas complexos, Portugal precisa de confiar em soluções maduras. Cinquenta anos depois de Abril, é tempo de o centro, o centro-direita e a direita democrática construírem um pacto sólido, assente nos valores que fundaram a Europa e que guiam o nosso país.