Foi quase uma conjugação cósmica, sim, mas nem por isso o planeta do futebol mundial deixou de abraçar o feito como uma das histórias mais fascinantes num Campeonato do Mundo que pela primeira vez se realizou a meio da temporada. Tudo começou num grupo com Croácia e Bélgica que parecia escrito, tudo continuou com as eliminações de Espanha e Portugal, tudo acabou frente à França nas meias-finais – mas nem por isso deixou de ser a primeira equipa africana de sempre a entrar no top 4 da competição. A partir desse ano de 2022, Marrocos não mais voltaria a ser a mesma seleção. Nem para dentro, nem aos olhos de outros. E houve muita história a correr ao longo de três anos e meio, que foi moldando uma nova cara dos Leões do Atlas, tão focados no presente como no futuro a médio/longo prazo. Afinal, são um dos co-organizadores em 2030.
Tudo foi mais à frente do que era suposto, o que ajuda também a explicar a participação mais modesta na Taça das Nações Africanas seguinte, em 2023. Marrocos foi tentando consolidar um projeto onde o futebol era mais do que um fenómeno desportivo mas também um pêndulo de coesão social que ajudasse a definir a construção de uma identidade, algo reforçado com a vitória da candidatura ao Mundial-2030 com Espanha e Portugal. Mas o país com mais de 36 milhões de pessoas, que tem o objetivo paralelo de se projetar no plano internacional, não queria ficar por aí, iniciando um outro tipo de recrutamento alargado em muitas ligas europeias para puxar para si muitos jogadores com família ou ascendência marroquina.
Esse foi outro dos grandes trabalhos de Walid Regragui, o herói que liderou no banco a campanha histórica dos Leões do Atlas no Qatar. O técnico foi um dos elementos com maior taxa de sucesso da seleção mas, após o insucesso revertido na secretaria na Taça das Nações Africanas de 2025, organizada por Marrocos, acabou por ceder à pressão que estava a crescer em torno do seu futuro. Regragui foi quase vítima do seu próprio sucesso, com os adeptos e a Federação a elevarem e muito a fasquia de uma equipa que não tem um currículo extenso mas que prometia muito. Ainda ficou, numa fase em que o triunfo do Senegal em campo acabaria por ser retirado na secretaria depois de toda a novela na final, mas a menos de 100 dias do Mundial apresentou mesmo a sua demissão. Aquilo que podia originar uma crise transformou-se numa oportunidade.
Mohamed Ouahbi, um belga desconhecido de 49 anos que passou várias épocas no Anderlecht como adjunto e técnico da formação, acabou por ser promovido à equipa A de Marrocos depois do trabalho feito na equipa Sub-20, que em 2025 ganhou o Mundial da categoria. Apesar do grande resultado no Qatar, os Leões do Atlas estão a preparar uma renovação de toda a base da equipa com muitos jogadores jovens que estiveram a ser disputados por outras seleções mas que acabaram por optar por Marrocos. Problema? O pouco tempo de trabalho que Ouahbi terá de preparação e conhecimento da equipa, que vai logo defrontar o Brasil no início do Mundial-2026 e tem de seguida uma espécie de “final” com a Escócia antes do jogo com o Haiti. São essas duas partidas, em Nova Iorque/Nova Jérsia e Boston, que ditarão o resto da prova.
BI
- Ranking FIFA atual: 8.º (a 1 de abril de 2026)
- Melhor ranking FIFA: 8.º (desde janeiro de 2026)
- Patrocinador: Puma (desde 2019)
- Alcunha: Os Leões do Atlas
- Presenças em fases finais: 6
- Última participação: 2022 (meias-finais, França)
- Melhor resultado: meias-finais em 2022 (França)
- Qualificação: 1.º lugar do grupo E da CAF (24 pontos em 8 jogos com Níger, Tanzânia, Zâmbia, Congo e Eritreia)
- O que seria um bom resultado? Regressar às meias-finais (ou até mesmo entrar nos quartos)

Jogos desde junho de 2025
- Jogo particular, 7/6: Noruega (casa)
- Jogo particular, 2/6: Madagáscar (casa)
- Jogo particular, 31/3: Paraguai (neutro), 2-1 (V)
- Jogo particular, 27/3: Equador (neutro), 1-1 (E)
- Taça das Nações Africanas, 18/1: Senegal (casa), 0-1 (D) e 3-0 (V, na secretaria)
- Taça das Nações Africanas, 14/1: Nigéria (casa), 0-0 e 4-2 g.p. (V)
- Taça das Nações Africanas, 9/1: Camarões (casa), 2-0 (V)
- Taça das Nações Africanas, 4/1: Tanzânia (casa), 1-0 (V)
- Taça das Nações Africanas, 29/12: Zâmbia (casa), 3-0 (V)
- Taça das Nações Africanas, 26/12: Mali (casa), 1-1 (E)
- Taça das Nações Africanas, 21/12: Comores (casa), 2-0 (V)
- Taça dos Clubes Árabes, 18/12: Jordânia (neutro), 3-2 a.p. (V)
- Taça dos Clubes Árabes, 15/12: EAU (neutro), 3-0 (V)
- Taça dos Clubes Árabes, 11/12: Síria (neutro), 1-0 (V)
- Taça dos Clubes Árabes, 8/12: Arábia Saudita (neutro), 1-0 (V)
- Taça dos Clubes Árabes, 5/12: Omã (neutro), 0-0 (E)
- Taça dos Clubes Árabes, 2/12: Comeres (neutro), 3-1 (V)
- Jogo particular, 18/11: Uganda (casa), 4-0 (V)
- Jogo particular, 14/11: Moçambique (casa), 1-0 (V)
- Qualificação CAF, 14/10: Congo (casa), 1-0 (V)
- Jogo particular, 9/10: Bahrain (casa), 1-0 (V)
- Qualificação CAF, 8/9: Zâmbia (fora), 2-0 (V)
- Qualificação CAF, 5/9: Níger (casa), 5-0 (V)
- Jogo particular, 9/6: Benim (casa), 1-0 (V)
- Jogo particular, 6/6: Tunísia (casa), 2-0 (V)
O onze
- 4x2x3x1: Bono; Hakimi, Riad, Issa Diop, Mazraoui; El Aynaoui, Saibati; Brahim Díaz, Ounahi, Abde Ezzalzouli e El Kaabi
O treinador
- Mohamed Ouahbi (belga, 49 anos, desde março de 2026)
- Outros clubes: Maccabi Brussels (formação), Anderlecht (formação), Anderlecht Sub-21, Anderlecht (adjunto), Marrocos Sub-20 e Marrocos Sub-23
- Títulos (1): Mundial Sub-20 de seleções (2025)

O craque
- Achraf Hakimi (27 anos, lateral dos franceses do PSG)
- Outros clubes: Real Madrid B, Real Madrid, B. Dortmund e Inter
A revelação
- Ayyoub Bouaddi (19 anos, médio dos franceses do Lille)
- Outros clubes: Lille (formação)
O mais internacional e o maior goleador
- Noureddine Naybet (115 internacionalizações) e Ahmed Faras (35 golos)

Os 26 convocados
- Guarda-redes (3): Bono (Al Hilal, Arábia Saudita), El Kajoui (Berkane, Marrocos) e Tagnaouti (Asfar, Marrocos)
- Defesas (9): Mazraoui (Manchester United, Inglaterra), Salah-Eddine (PSV, Países Baixos), Belammari (Al Ahly, Egito), Hakimi (PSG, França), El Ouahdi (Genk, Bélgica), Aguerd (Marselha, França), Riad (Crystal Palace, Inglaterra), Halhal (KV Mechelen, Bélgica) e Diop (Fulham, Inglaterra)
- Médios (7): El Mourabet (Estrasburgo, França), Bouaddi (Lille, França), El Aynaoui (Roma, Itália), Amrabat (Betis, Espanha), Ounahi (Girona, Espanha), El Khannouss (Estugarda, Alemanha) e Saibari (PSV, Países Baixos)
- Avançados (7): Abde Ezzalzouli (Bétis, Espanha), Talbi (Sunderland, Inglaterra), Rahimi (Al Ain, EAU), El Kaabi (Olympiacos, Grécia), Brahim Díaz (Real Madrid, Espanha), Gessime (Estrasburgo, França) e Echghouyabe (Eintracht Frankfurt, Alemanha)
O local do estágio
- Somerset Hills Hotel, Tapestry Collection by Hilton, Warren, em Nova Jérsia (treinos: Pingry School, em Basking Ridge)
A antevisão
A ligação a Portugal
- Entre os vários jogadores marroquinos que foram passando pelo futebol português (um deles, Hassan Nader, é tio de um campeão mundial de atletismo por Portugal, Isaac Nader), há um que ganha outro peso apesar de ter estado apenas duas temporadas na Liga: Nourredine Naybet, central que chegou do Nantes para o Sporting em 1994, é ainda hoje o jogador com mais internacionalizações pelos Leões de Atlas (115). Mais há outra ligação mais atual e estreita com o atual elenco, tendo em conta que João Sacramento, que esteve em algumas das melhores equipas técnicas europeias nos últimos anos (Tottenham, Roma ou PSG), é um dos adjuntos do novo selecionador de Marrocos, Mohamed Ouahbi.