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(A) :: "Palhaçada" e "hábitos circenses". PSD e Chega trocam acusações sobre boicote dos Patriotas a sessão que distinguiu Cavaco

"Palhaçada" e "hábitos circenses". PSD e Chega trocam acusações sobre boicote dos Patriotas a sessão que distinguiu Cavaco

Bugalho acusa o Chega de não se distinguir do BE e de ser anti-patriótico por não assistir à distinção de um português. Tânger Corrêa diz que ordens são "palhaçada" e critica legado de Cavaco.

Rui Pedro Antunes
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João Porfírio
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O Chega, bem como todo o grupo dos Patriotas, decidiu boicotar a homenagem aos laureados com as ordens europeias que distinguiram na terça-feira figuras como o português Cavaco Silva. O PSD, através do porta-voz dos eurodeputados, Sebastião Bugalho, diz que a atitude lhe despertou um “sentimento de alarme“, até porque os “hábitos circenses a que se assiste em Lisboa” por parte do Chega “costumam estar mais distantes” do Parlamento Europeu. Já o eurodeputado António Tânger Corrêa diz que as ordens atribuídas não passam de um “palhaçada” e acusa o Parlamento Europeu de ter colocado “figurantes” nas cadeiras deixadas vazias pelos eurodeputados. Roberta Metsola já lembrou que a sessão “estava suspensa”.

Na troca de acusações, Bugalho diz que não consegue “perceber de que lado é que o partido Chega quer estar quando em Portugal diz que é a favor da Ucrânia e da democracia e da liberdade, e no Parlamento Europeu sai da sala quando é homenageada a luta pela democracia e pela liberdade.”

Voltando a dar uma componente nacional ao despique, o porta-voz dos eurodeputados do PSD diz que “não deixa de ser peculiar que um partido que anda a exigir reformas ao governo em Lisboa não tenha conseguido homenagear aquilo que foi o primeiro-ministro mais reformista da democracia portuguesa, que é Aníbal Cavaco Silva”. Bugalho deixa ainda questões provocadoras: “O que é que distingue aquilo que disse a Catarina Martins ontem daquilo que disse o embaixador Tânger Correia hoje sobre o prémio da ordem de mérito europeu? Não distingue. Saíram os dois da sala, boicotaram os dois a cerimónia. Qual é a diferença entre o Chega e o Bloco de Esquerda sobre as reformas dos portugueses? Nenhuma.”

Já Tânger Corrêa diz que Cavaco Silva não merecia receber a distinção “porque foi bom aluno da União Europeia, mas destruiu a pesca em Portugal, destruiu parte da agricultura, a indústria do mar, marinha mercante, em troco de betão, eu penso que agora estamos a pagar esse preço. Temos betão, mas depois não temos o resto.” Questionado depois se não era pouco institucional para um ex-embaixador, e até anti-patriótico, não ir a uma cerimónia em que um português é distinguido. E aí já admitiu ter tido outra atitude se as distinções não fossem atribuídas em bloco: “Não era só ele [Cavaco Silva], se fosse só ele, podíamos eventualmente pôr isso em causa, mas não era só ele.”

O eurodeputado do Chega está contra toda a atribuição de ordens. Tânger Corrêa considera que o Parlamento Europeu não é “uma instituição soberana” para poder atribuir ordens, daí que considere as distinções uma palhaçada”. E acrescenta: “Estamos a desvirtuar aquilo que são ordens honoríficas e repare que eu tenho 40 anos de carreira diplomática e sei do que é que estou a falar, portanto, isto é uma palhaçada. Ainda por cima nós não fomos consultados, não houve votos no plenário, não houve nada, os deputados não foram chamados nem tidos para isto, o que me parece ser altamente irregular”.

Tânger Corrêa acusou ainda o Parlamento Europeu de colocar “figurantes” nos lugares dos deputados do grupo dos Patriotas que boicotaram a sessão. O Observador pôde verificar pelas imagens que a maioria dos lugares estava, efetivamente, vazio naquele momento, apesar de aqui e ali haver umas pessoas isoladas naquela área do hemiciclo, até em pé.

O Parlamento Europeu deu a sua versão em resposta aos jornalistas portugueses, começando por explicar que “a sessão plenária foi oficialmente suspensa e, por isso, o Parlamento Europeu permitiu a entrada de convidados, incluindo familiares dos laureados e também funcionários que contribuíram para o evento. Foi pedido aos eurodeputados que se sentassem à frente e havia lugares livres.” O gabinete remete ainda para as justificações dadas em plenário pela presidente do Parlamento Europeu, Robeerta Metsola: “Ontem, toda a gente soube que a sessão foi suspensa por mútuo acordo durante a cerimónia de atribuição da Ordem de Mérito. Isto permitiu a entrada de convidados na Câmara, incluindo os laureados, que de outra forma não teriam permissão para entrar, os seus familiares e alguns funcionários que trabalharam no evento. Como é habitual nos eventos do Parlamento Europeu, os eurodeputados que desejassem assistir à cerimónia tiveram, naturalmente, prioridade na escolha dos lugares, como de facto aconteceu. E penso que todos concordamos que este foi um momento de orgulho para esta câmara e gostaria de agradecer todos os serviços que trabalharam arduamente para que este evento se concretizasse.”

Já Catarina Martins, perante as acusações de Bugalho de que BE e Chega são próximos, destaca que “o acordo previsto para esta noite sobre o regulamento do retorno, um regulamento à margem dos fundamentos mais básicos do direito internacional e internacional, negociado entre o PPE e as forças de extrema-direita são elucidativas de quem é que tem “acordos” e conivências neste parlamento”.

O jornalista do Observador viajou a convite do Parlamento Europeu