Numa camisa Valentino amarela mostarda com mangas balão e calças pretas de cintura marcada, José Condessa vestiu a sua pele sevilhana para o evento de lançamento da série Berlim e a Dama Com Arminho, da Netflix, em meados de maio. “É da secção de mulher”, conta-nos o ator, que garante gostar de “sair dos estereótipos”, também motivado pela parceria com a stylist Joyce Doret. A dividir a passadeira vermelha com outras estrelas de produções da plataforma, como os espanhóis Pedro Alonso e Álvaro Morte, que vivem Berlim e o Professor em La Casa de Papel; assume a responsabilidade de representar Portugal, e vestir — literalmente — a camisola nacional. Na press junket da terceira temporada de Rabo de Peixe, escolheu uma camisola de tricô de Mafalda Simões, a vencedora da mais recente edição do concurso Sangue Novo, promovido pela ModaLisboa. Passou seis horas a fazer entrevistas com a peça da jovem criadora. “Ganho muito mais do que eles, acredito eu, mas espero também ser um bocadinho um palco para o trabalho deles”, afirma, depois de destacar nomes como Béhen, o alfaiate Paulo Battista ou a marca de calçado Mariano.

José Condessa fala com o Observador dias depois de apresentar a sua nova parceria com a Seaside, outra marca portuguesa. Nesta campanha, feita à sua medida, escolhe pares de sapato que representam as suas várias versões. E afinal, esta faceta fashionista que se viu em Sevilha (e não só) também dá lugar à do jogador de futebol, do filho que admira o pôr do sol do Alentejo ou do lisboeta que só quer sair à rua nos Santos Populares — o que parece cada vez mais difícil de conciliar com a carreira internacional. O ator que começou no teatro e passou pelas novelas, nos últimos anos tem estado um pouco por todo o lado, entre o streaming e o cinema — em 2023 entrou em Estranha Forma de Vida, curta-metragem de Almodóvar, e em junho chega ao grande ecrã norte-americano com Honeyjoon. Recém-chegado do Brasil, onde esteve durante quatro meses a gravar a nova série da Netflix, Os 12 Signos de Valentina, confessa uma certa ânsia por férias. “Tinha prometido a mim mesmo que este verão ia aproveitar para descansar”, diz, garantindo que “pelo menos até agosto vou estar sossegado”. De conversa solta, defende as suas posições com empatia, despido de preconceitos, e a transparecer esta aura de bom rapaz. “Claro que a rede social ajuda a criar a nossa imagem pública, mas quando faço declarações às pessoas de que eu gosto, sejam familiares ou amigos, não o faço por pensar que fica bem. Tem de ser genuíno.”
Fez uma espécie de curadoria de alguns modelos da Seaside para a nova campanha da marca. Como recebeu o convite e como encarou a tarefa?
A coleção já existia, e fui desafiado a escolher os meus modelos favoritos, aqueles com os quais eu me identificava. E o slogan da campanha é: “Sou as minhas escolhas”. Ou seja, o caminho que nós traçamos também é definido por aquilo que nós vamos escolhendo ao longo da vida. E tendo isso em conta, eu fui escolher aqueles que eu considerava serem os modelos que mais simbolizavam as várias versões de mim. Desde uma coisa mais clássica, descontraída, que é aquilo que eu sou no dia-a-dia, como também um lado mais profissional e às vezes de trabalho.
E para a sessão fotográfica, também trouxe algo do seu universo?
O que me deixou, acima de tudo, muito feliz, foi não ser uma campanha meramente publicitária ou apenas com o foco no produto; e sim uma extensão do meu trabalho como ator. Então o Gonçalo Claro, que é o fotógrafo e foi quem pensou na ideia criativa, pensou numa ideia mais existencialista e poética, baseada em alguns textos do Sartre. E um lado um bocadinho mais teatral — o próprio cenário foi um hotel abandonado, onde existiam várias vidas passadas, desde o papel de parede que estava destruído, as portas de madeira… E foi um bocadinho uma ideia teatral, quase um happening ou uma performance. Tenho uma fotógrafa que admiro muito, há muitos anos, que não é muito conhecida. Chama-se Francesca Woodman. Ela fez os primeiros autorretratos, ainda com aquelas câmaras que tinham que ter o cordel para tirar a chapa. Foi das primeiras revolucionárias, a nível artístico, na fotografia com nudez. Mas acima de tudo com uma ideia muito política, de liberdade e anti-nazi. Eu mandei como referência ao Gonçalo essa fotógrafa, porque o trabalho dela tem muito esta coisa de sítios abandonados, dos papéis de parede, de te misturares com os elementos que existem nos lugares. E acabou por ser um bocadinho o que nós também fizemos com os escadotes; aquela porta de madeira que nós vimos na sessão fotográfica. Era uma porta de madeira que estava lá caída e que eu amei e decidi tentar perceber o que aquilo daria, em contrapeso. Uma porta bastante pesada, mas que dá uma fluidez de movimento interessante. E não ser só aquela pose que eu não sei fazer tão bem, que é de modelo.
Sente que as campanhas publicitárias precisam de estar associadas à sua identidade?
Eu acredito muito e estou completamente ciente que a questão da moda, as redes sociais e as marcas, tudo isso, faz parte cada vez mais do nosso trabalho enquanto atores. Mas também estou completamente ciente e tenho isto bastante claro, sempre tive na minha cabeça, qual é a hierarquia das coisas. Eu, acima de tudo, sou ator. Tudo o resto vem por consequência do trabalho. Ou seja, é bastante importante para mim que esta questão da moda, as fotografias das marcas, que seja uma extensão também daquilo que é a minha identidade. Daquilo que nós às vezes falamos até em tom de brincadeira, mas que eu acho que é bastante sério, que é a nossa impressão digital. O que é que nós realmente queremos dizer. E com a noção de que tudo o que nós fazemos deve ter um propósito. Não fazer por fazer.
Neste tema, dá preferência por trabalhar sempre com a mesma equipa?
A equipa criativa normalmente são pessoas da marca. Mas a equipa de styling, fotografia, até cabelo e maquilhagem, tento sempre ter a minha equipa com quem vou trabalhando. Isto porque são pessoas que já me conhecem, e porque eu acho que há mérito no trabalho das pessoas. E que é no mínimo uma obrigação moral para mim tentar que continuem a crescer comigo, já que eles me ajudam a crescer. Isto é uma parte um bocadinho mais pessoal.
Tem critérios para escolher as marcas às quais se associa?
É muito importante para mim, sim, o posicionamento da marca. Como é óbvio, cada vez mais. É indissociável a questão social e política das marcas hoje em dia, e eu acabo por ser um porta-voz, ou um altifalante para a sociedade. Não nos podemos nunca esquecer deste lado, que o artista tem e deve ter. Acho que é importantíssimo escolher com quem trabalhamos. E aquele cliché, mas que é bastante verdade: os ‘nãos’ que nós dizemos são muito mais importantes do que os ‘sims’.
E que tipo de critérios valoriza?
Por exemplo: a Seaside é uma marca portuguesa, que é uma coisa que me faz sentido a nível mais pessoal; e ser uma marca que é acessível a toda a gente. Claro que ao longo da minha carreira tenho tido a oportunidade de trabalhar também com marcas internacionais, até em termos de ser embaixador, como sou da Saint Laurent, que são marcas de luxo e que também são uma parte da minha vida. Mas não esquecendo que trabalho para um público que gosta de mim, que também me segue de alguma maneira, e que não vai comprar botas ou sapatos de 500 euros todos os meses. A Seaside é esteticamente muito versátil, produz tanto para homem como para mulher ou criança, chega a vários gostos diferentes, e tem um lado muito acessível em termos de preços. Também chegam a certos sapatos de 200 e tal euros, mas temos os sapatos de 30, 40 euros, que são as coisas diárias, com qualidade, e que servem as pessoas. E conheci o dono da marca (Acácio Teixeira) e a sua mulher, a dona Ana, também. Ficou bastante claro que eles poderiam sempre subir os preços, pela qualidade que apresentam, mas que é obrigatório para eles e para a identidade da marca não subir os preços mais baixos, porque há pessoas que não chegam lá. Então há um lado muito social e muito de comunidade. Apesar de eles terem crescido enquanto marca, não se esquecem de onde vêm, de quais são as raízes, de chegar a toda a gente, e que começa com uma questão quase até de aldeia em aldeia, de distribuição inicial, e foi crescendo uma marca mais que nacional, internacional, mas que não esquece de ser acessível a todos. E acho que esses são valores com que eu me identifico muito.
Mencionou o facto de a Seaside ser uma marca portuguesa. Tem essa preocupação de se associar a designers ou marcas portuguesas, ou de valorizar a produção nacional lá fora?
Sem dúvida. Por exemplo, a APICCAPS (Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Seus Sucedâneos) é a associação que defende o calçado português. Tive a oportunidade há dois anos de estar com eles. Acho que nós temos o dever e a obrigação de defender aquilo que também é nosso. E eu sou, acima de tudo, consumidor daquilo que é nacional. Por exemplo, no ano passado foi o casamento do meu primo, do qual eu era padrinho, e fiz questão de oferecer uma coisa que fosse calçado português. Fomos com o Mariano, na altura, que é uma marca de calçado português, através do Paulo (Gonçalves, diretor executivo da APICCAPS), que foi impecável em ajudar-me a escolher o sapato certo. E também a roupa seguiu a ideia portuguesa, com um fato do Paulo Battista. Mas também uso outras marcas de vestuário de vários preços, porque eu tenho a noção que a minha realidade não é a realidade comum, em termos de poder de compra. Não consumo só coisas portuguesas, estaria a mentir, mas dou muito valor e gostava de dar palco. Como fiz recentemente num trabalho em Espanha, em que eu fui só vestido com coisas portuguesas.


Tem a preocupação de escolher de propósito peças portuguesas para eventos internacionais?
Aconteceu no ano passado no Tribeca, em que eu também fiz questão de levar coisas portuguesas. Há algumas marcas que uso. A Béhen, por exemplo, que é uma que eu admiro muito. Com a promoção da terceira temporada de Rabo de Peixe, quase tudo o que usei eram peças de novos autores, do Sangue Novo, que são vários novos criadores com quem eu tenho o prazer de colaborar. Eu ganho muito mais do que eles, acredito eu, mas espero também ser um bocadinho um palco para o trabalho deles. E sei que algumas vezes fui, porque até fui recebendo esse feedback. Estive no podcast do Pedro Teixeira da Mota com um casaquinho em tricô que é amoroso, de uma designer chamada Mafalda Simões, que venceu o concurso Sangue Novo na ModaLisboa. E na press junket de Rabo de Peixe passei o dia todo a fazer aquelas entrevistas e vídeos promocionais, durante seis horas, com outra peça dela.
Já ouviu elogios ou comentários sobre a moda portuguesa em eventos internacionais?
As pessoas comentam, principalmente no Brasil. Estive a trabalhar no Brasil com a Giovanna Grigio, e o namorado dela é também um criador (o designer Guilherme Paganini, dono da marca Casa Paganini). E fomos comentando um bocadinho também sobre os novos criadores portugueses e há pessoas que eu admiro muito. E fomos falando, por acaso, que eu tinha acabado de usar Béhen numa festa da GQ. Tento sempre, de alguma forma, dar voz, e acima de tudo ser consumidor e comprador, que eu acho também importante esse lado, não ser só o usar em eventos, mas também comprar peças. Se bem que nós, quando estamos lá fora, felizmente falamos mais sobre o trabalho, não falamos sobre a moda. O que também é um bom sinal para mim como ator.
Mas a forma como se veste também comunica essa identidade…
Sem dúvida, a estética é importantíssima. Acho que faz parte daquilo que é também a minha profissão. Eu sei que há coisas em que arrisco um pouco, que não são tão esteticamente seguras, digamos assim, mas que fazem parte da minha essência. Acho que a moda é por vezes muito escrutinada e criticada por muita gente. Para mim a regra, se é que existe uma regra, é aquele lugar onde te sentes confortável. E eu sinto, pelo menos como ator, que também os meus gostos e aquilo que eu gosto de vestir, ser e estar, vão mudando ao longo do dia-a-dia, como é óbvio, e ao longo dos anos. É uma extensão minha como artista.
Já teve alguma escolha visual da qual se arrependa?
Arrepender, por acaso, não. Mas já usei coisas que foram comentadas negativamente. Por exemplo, usar umas botas de salto alto em 2021 (na gala dos Globos de Ouro). Lembro-me que foi uma questão para muita gente. É uma coisa que eu adoro e uso, porque esteticamente acho que faz sentido. Já posso ter gostado mais ou menos de uma coisa, mas de arrepender, de ter vergonha, acho que não.
Nos últimos anos cresceu esta tendência das peças sem género. Sente-se à vontade em usar peças de coleções femininas?
Sim, claro que sim. Acho mesmo que as peças não têm género, e é um perigo quando o fazemos. Acho que esse lugar da moda de que eu estou a falar também vem daí, de eu não olhar para as peças com género. Na festa da Netflix em Sevilha, na semana passada, usei uma parte de cima amarela que é Valentino, da secção de mulher. Para mim era a peça mais bonita daquele fim de semana. Ou seja, tenho zero preconceito com isso. Acho que é ridículo ainda continuarmos a pensar na moda dessa maneira. Porque isso é uma extensão daquilo que nós somos. Acho que temos que nos identificar com o desenho, com a peça, com o momento também, e não olhar para essa questão. Felizmente não o faço.


Escolhe sozinho o que veste para os eventos?
Quem pensa tudo isso e com quem trabalho há muitos anos é a Joyce Doret, stylist e amiga. Mas participo sempre. Ela já me conhece tão bem que estamos muito alinhados. E também nestas pequenas coisas de que eu gosto, de sair dos estereótipos, como usar o fato sem nada por baixo, o boné para trás, as mangas cavas, tricôs, as camisas de gola de padeiro, como se diz. Ela está sempre um passo à frente, e quando nós começamos a usar, quando começa a virar moda, nós já estamos depois a usar outra coisa.
Refere-se à Joyce também como amiga. Desde quando trabalham juntos?
Comecei a trabalhar com a Joyce quando ela fez a primeira temporada de Rabo de Peixe. Ou seja, ela era a stylist e figurinista da série. E nós temos uma amizade muito grande desde aí. Admiro o trabalho dela — ela não trabalha com muita gente, tenho a sorte de ela querer trabalhar comigo. E ela tem sempre uma visão muito alinhada com aquilo que eu sou. Está sempre um passo à frente, acompanha o que é feito lá fora, está sempre atualizada. Quando comecei a trabalhar com ela foi engraçado, porque eu tive a minha nomeação para os Globos de Ouro, que era uma coisa muito importante para mim, na altura uma personagem muito importante para mim de teatro. E pedi-lhe ajuda, e desde então continuamos sempre a trabalhar juntos.
Acompanha as semanas da moda? Costuma ver as coleções?
Tento acompanhar. Mas vem de um lugar muito natural, ou seja, não me “obrigo” a acompanhar. Assisto principalmente em Portugal, quando estou cá. Mas não estive cá as últimas duas vezes na ModaLisboa, nem consegui ir ao último Portugal Fashion.
Diz que o interesse em moda é algo natural. Sente o mesmo com esse trabalho nas redes sociais?
Não é tão natural para mim, mas também não vejo como uma obrigação. Porque isso parte do pressuposto de que nós temos que estar sempre a fazer alguma coisa. Acho que o espaço para o silêncio também existe. Eu não sigo trends, é uma coisa que me tira muito tempo, e se calhar dava mais anos de vida. Por isso, normalmente, chego atrasado a tudo isso. E tento partilhar aquilo que eu acredito que é o meu dia-a-dia, o trabalho e momentos importantes na minha vida. Mas, acima de tudo, uso as redes sociais para falar um bocadinho do coração. Escrevo muito, tenho muitas declarações de coisas que eu penso ou de que gosto, ou pessoas. Como eu sei que me ocupa um bocadinho de tempo, não o faço todos os dias.
Antes de fazer uma publicação pensa demais? É muito cauteloso com aquilo que partilha?
Não, não sou. Quando é uma questão de descrição, escrevo quase sempre à primeira e revejo. Não estou ali a pensar o que é que escrevo e o que não escrevo. Principalmente quando são textos mais personalizados, escrevo de coração. E o que eu digo que demora mais tempo, às vezes, é porque levo tempo a escolher as fotos. Faço uma seleção de 10 ou de 15, e é isso que demora mais tempo. Não edito as fotos, porque o resto tem que ser o mais verdadeiro possível. Sente-se quando as coisas não são poluídas; e de uma forma sincera. Isso transparece.
As redes sociais são também um espaço para ter mais proximidade com o público?
Sim. De coisas de que nós gostamos, de coisas de que nós temos saudades. A minha forma de ser é um bocadinho sentimental, gosto de dizer que gosto das coisas, das pessoas. Gosto de fazer declarações de carinho e de amor. E acho que a rede social, para mim, é esse lugar. É um lugar onde, infelizmente, vemos muito ódio e discriminação e que deve ser no sentido oposto. Pelo menos a minha rede social, que é o meu canal para as pessoas, quero que seja esse lugar.
Também uma plataforma para refletir a sua identidade.
Sim, daí é que eu estava a dizer que não deve ser fabricado e não deve ser tão pensado. Temos que ter noção de que há uma pessoa do lado de lá que nos lê. Qualquer comentário que nós façamos, por mais alegre que seja e sincero da nossa parte, temos que ter noção de que há pessoas que podem estar a passar outras fases. Mas acho que deve ser uma coisa sincera. Claro, ajuda a criar a imagem de quem eu sou porque falo muito do meu trabalho, mas acima de tudo aquilo de que eu gosto do lado do ser humano. As pessoas acompanham muito o nosso trabalho e fica às vezes meio incógnito o que é que nós somos enquanto pessoas e acho que serve também a rede social para isso.
Falou sobre as redes sociais serem um espaço em que se vê ódio e discriminação. Recebe muitas críticas?
Nunca tive nenhuma situação de incompreensão ou de crítica. Por acaso até sou bastante acarinhado pelas pessoas.
Recebe o feedback das pessoas, a dizerem que se identificam com o que partilha?
Muito. Tento responder sempre às pessoas. Às vezes é um bocadinho difícil porque são centenas de mensagens, mas eu vou respondendo. Desde coisas simples como alguém que vai fazer aniversário e que tem uma ocasião especial e eu tento fazer um vídeo de parabéns ou coisas que as pessoas partilham. Eu às vezes falo muito, por exemplo, do Alentejo, que é a terra da minha família, onde eu me sinto muito bem. Até escrevo muito sobre isso, sobre o quanto eu gosto de ver o pôr do sol. E vou recebendo mensagens de muita gente, pessoas do Alentejo que estão em Lisboa, que vieram à procura de trabalho ou de estudar para uma vida melhor e seguir os seus sonhos e que se reveem de alguma forma nessas saudades. Mas depois também tenho o lado do desporto. Também sou fã de desporto e jogo futebol. Sinto que tenho vários tipos de perfis e de pessoas a seguir-me por motivos diferentes. Claro que a rede social ajuda a criar a nossa imagem pública, mas quando faço declarações às pessoas de que eu gosto, sejam familiares ou amigos, não o faço por pensar que fica bem. Tem de ser genuíno.
A rotina internacional obriga-o a abrir mão de momentos como os que citou, sentir falta no Alentejo?
Sim, obriga, mas é uma escolha minha. Estou bastante à vontade com isso. Faz-me simplesmente estar a aproveitar mais quando os tenho. Nestes momentos de descanso, em família e quando volto ao Alentejo, ou até em Lisboa com os meus irmãos, os meus sobrinhos. Aprendes a dar valor a esses momentos.
Mas ainda joga futsal em Nisa.
Sim, agora a época já acabou. O próximo ano será outra aventura, não sei como vai ser a minha vida. Mas sim, jogo lá aos fins de semana. Está bastante claro, até com a equipa e com os treinadores, que infelizmente o meu foco não está lá. Tendo trabalho, e como aconteceu de estar a trabalhar agora no Brasil por quatro meses, não consigo estar nos jogos. Mas pronto, estou onde consigo estar, a acrescentar, tentar ajudar a equipa, que é o mais importante. E isso também me traz um lado muito humano, muito de pés na terra, que eu acho que mesmo que não tivesse o futebol, eu conseguiria encontrar noutras coisas, como o teatro amador. Voltar aos sítios onde ainda tenho ligação, à casa onde comecei a fazer teatro quando era pequenino, completamente amador. Ajuda a lembrar-me do que é que realmente é importante na vida, que são aquelas pessoas que foram o teu incentivo e o teu trampolim para tu atingires os teus sonhos, e acima de tudo, que te confortam, que te dão carinho e amor, e ajudam-te a descansar. Porque nesta vida corrida de viagens e de passar tanto tempo fora, cada vez mais tenho a certeza de que o importante é mesmo o nosso núcleo duro, aqueles nossos amigos e família que são quem nos suportam, quem nos ajudam a sonhar.

Quando tem tempo livre, a que lugares gosta de ir em Lisboa?
Há um sítio onde gosto muito de ver o pôr do sol, que é na capela de Santo Amaro, em Alcântara, que é muito perto da Academia de Santo Amaro, onde eu cresci. Ou seja, é um lugar que me diz muito. É sossegado, mas está cada vez mais conhecido, especialmente no fim de tarde, principalmente nesta altura dos Santos Populares. Tenho vários restaurantes mais locais, alguns deles até sem nome. Havia um que era o Jorge d’Amália, que era perto também de onde eu cresci. Um assim mais conhecido, a que eu vou muitas vezes e que, apesar da confusão de estar sempre cheio, sabe um bocadinho a casa, é o Solar dos Presuntos. Cresci em Belém, ou seja, tudo o que é museus ali, desde o Museu da Marinha, o Museu do Oriente, o da Eletricidade. Felizmente ia com os meus avós e com os meus pais muitas vezes, todas as semanas íamos a um lugar. O MAAT, a própria Champalimaud, para ver o pôr do sol. E vou a teatros, é o sítio onde mais vou. Fiz parte durante 15 anos do Teatro Experimental de Cascais, por isso vai ser sempre a minha casa.
Com a vida profissional tão intensa no estrangeiro, considera a possibilidade de viver fora de Portugal?
Não, por acaso não. Adoro trabalhar fora, acho que para além de serem desafios muito bons como ator, ajudam-me realmente a crescer, até como pessoa. Mas acho que não precisamos de viver fora. Felizmente já fazemos parte de uma geração em que não precisas de largar tudo e a tua família, o teu conforto, para ir à procura de uma oportunidade de trabalho, seja para o Brasil, seja para os Estados Unidos, seja até para Londres. Eu acho até o contrário: quanto mais tu trabalhas no teu país e mais reconhecimento tu vais ganhando, mais perto estás de ser a pessoa lembrada e escolhida quando alguém precisa de um português ou de um latino. Da experiência que eu tenho tido tanto em Espanha, como em Itália, como nos Estados Unidos, como no Brasil, os castings vêm porque já me conhecem, gostam de mim e querem trabalhar comigo. Isto para dizer que se eu fosse para outro país à procura de alguma coisa, eu seria mais um. E felizmente sinto que já conquistei aqui um lugar de trabalho e de prova também de profissionalismo, e se calhar até de qualidade, de que as pessoas se lembram porque continuamos a trabalhar. E acho que é triste e ingrato para muita gente que arrisca e vai lá para fora e nunca tem oportunidade. Por isso sinto que essa realidade de ir para fora só faz sentido se tiveres uma procura de trabalho seguida, como aconteceu agora no Brasil, em que estive quatro meses. Mas preciso de ter a minha vida bem rodeada dos amigos e familiares aqui, que é um lugar de conforto, é um lugar onde me preparo para essas pequenas aventuras de meses.
Então pretende continuar a apostar também em produções nacionais?
Sim, sem dúvida. Acho que é ingrato, lá está, voltamos ao início da nossa conversa, esquecer-mo-nos daquilo que nos ajudou a crescer. São produções do país, e que eu quero que melhorem, e quero muito poder ajudar nisso. Felizmente nós temos feito coisas já com bastante qualidade, acho que Portugal é um país com imenso talento, profissionalismo. E com esta abertura de fronteiras em relação às plataformas de streaming, vamos todos evoluir, e eu quero fazer parte disso.