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Operação Marquês. Advogado comprou 2.374 exemplares do livro de Sócrates por instrução de Santos Silva: "Toma e vai lá comprar livros"

Gonçalo Trindade Ferreira confirmou que o empresário dava dinheiro a pessoas para adquirirem obra do ex-primeiro-ministro. Arguido voltou a ser confrontado com entregas de dinheiro e a casa de Paris.

João Paulo Godinho
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“Toma e vai lá comprar livros”. Foi desta forma que, segundo o advogado Gonçalo Trindade Ferreira, o empresário Carlos Santos Silva deu instruções a várias pessoas à sua volta para comprarem exemplares do livro “A Confiança no Mundo — Sobre a Tortura em Democracia”, de José Sócrates. A obra foi, em 2013, um êxito de vendas, ao vender cerca de 20 mil exemplares, mas muitas dessas vendas foram, de acordo com a tese do Ministério Público (MP), impulsionadas pelo amigo do ex-primeiro-ministro — uma tese confirmada esta quarta-feira no julgamento do processo Operação Marquês.

No segundo dia do seu depoimento, Gonçalo Trindade Ferreira voltou a ser confrontado com o contrato de aluguer da casa de Paris entre Carlos Santos Silva e José Sócrates — um contrato que teve, confessou esta terça-feira, datas falsificadas. Desta vez foi recordado que o contrato só tinha sido assinado depois das primeiras notícias do jornal Correio da Manhã sobre a morada de Sócrates em Paris, sendo que o advogado  admitiu igualmente que o nome do ex-primeiro-ministro como arrendatário foi ocultado por Santos Silva numa primeira fase.

Como Gonçalo Trindade comprou 2.374 exemplares da obra de Sócrates

Gonçalo Trindade Ferreira foi confrontado com a compra de 2.374 exemplares (segundo a acusação do MP), para os quais usou até cartões de desconto de outras pessoas em lojas Bertrand e FNAC. “Apercebi-me de que havia muita gente a comprar o livro. O eng. Carlos Santos Silva entregava-nos o dinheiro e nós entregávamos os livros ao engenheiro ou à eng. Inês do Rosário [mulher de Santos Silva]”, referiu o arguido.

Gonçalo Trindade justificou também essa perceção com os exemplares acumulados “no escritório”, ainda que longe dos números indicados: “Não tinha a perceção da quantidade de livros. Já disse que comprei livros, não tinha ideia da quantidade“, enfatizou.

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Instado a dar conta do que lhe parecia a mobilização de Carlos Santos Silva para a aquisição de um livro do antigo primeiro-ministro, depois de já ter declarado que o empresário teria uma “simpatia política”, Gonçalo Trindade Ferreira atribuiu esse envolvimento num contexto de “muita amizade”.

“Achei que um amigo estava a fazer um favor a outro amigo para ficar com o livro em primeiro lugar. Com muita amizade… Ou então haveria algo por detrás que eu desconhecia. Eu pensei que era por uma questão de prospeção política, de vaidade. Carlos Santos Silva não me disse nada, só pediu para comprar. Quero crer que nenhum dos intervenientes terá perguntado”, indicou.

Recorde-se que na 21.º sessão do julgamento, a 7 de outubro de 2025, a testemunha Rosário Ribeiro, inspetora da Autoridade Tributária que participou na investigação deste segmento da acusação, recordou ao tribunal que foram vendidos cerca de 16 mil exemplares — em quatro edições — do livro “A Confiança no Mundo — Sobre a Tortura em Democracia”. O inspetor testemunho que a investigação analisou somente a compra de 6.779 livros. E porquê? Porque os inspetores valorizaram apenas os talões de compra em que o número de unidades compradas era superior a 5 ou se existia a interferência de alguém que estivesse envolvido no processo. Rosário Ribeiro declarou ainda ter sido apurada a mobilização de cerca de 117 mil euros para esta compra massiva de livros. “Até pode pecar por defeito”, vincou.

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“Houve muitas interceções telefónicas e foi isso que permitiu perceber que houve um grande frenesim”, explicou.

O esquecimento de 40 mil euros depositados por Santos Silva na conta

Gonçalo Trindade Ferreira voltou a ser questionado sobre levantamentos em numerário e entregas e voltou a confirmar, por exemplo, a entrega de 10 mil euros num envelope ao antigo motorista de Sócrates, João Perna, bem como outros dois envelopes a Sofia Fava, ex-mulher do antigo governante.

Contudo, sobre um depósito de 40 mil euros de Carlos Santos Silva na sua conta, realizado em 8 de maio de 2014, o advogado assumiu não se lembrar: “certamente há uma justificação para este valor, mas não me recordo. Mas haverá documentação da sociedade ou emails meus”.

De seguida, enfatizou que todo o dinheiro levantado foi entregue a Carlos Santos Silva, após ser confrontado com três levantamentos individuais de 10 mil euros, que perfazem um total de 30 mil euros, em pouco mais de uma semana de junho de 2014.

Regressando ao dinheiro que entregou a João Perna, o MP pediu a reprodução de uma escuta, na qual o advogado pedia ao motorista para passar pelo escritório das empresas de Carlos Santos Silva, em Lisboa, para lhe entregar “documentos”. Antes, Gonçalo Trindade Ferreira vincou que não conhecia o ex-motorista de Sócrates — embora a chamada fosse posterior à elaboração de um contrato de trabalho que tinha feito anteriormente para João Perna — e que não associou o nome ao ex-primeiro-ministro.

“Ele disse que tinha de ir com o engenheiro”, realçou a juíza Susana Seca, após a reprodução da escuta de João Perna e Gonçalo Trindade Ferreira, com este último a desvalorizar esse aspeto: “Eu não questionei. No escritório são todos engenheiros“.

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Já sobre a entrega de dinheiro ou de documentos, após um curto debate com a juíza e o MP, o arguido concluiu que só poderia ser a combinação para a entrega de dinheiro, embora na escuta tivesse referido “documentos”. Face a uma aparente contradição, o advogado explicou que só se apercebeu que seria o dinheiro depois da chamada para João Perna.

“Provavelmente disseram-me para lhe ligar para entregar documentos… Quando me é entregue o envelope, percebi que tinha sido o mesmo envelope que eu tinha trazido do banco com 10 mil euros. Quando me dirijo a ele é que percebo que é o envelope que tinha entregado de manhã. Isso foi depois desta conversa”, notou.

Nome do “arrendatário” José Sócrates só foi conhecido mais tarde

O episódio do arrendamento da casa de Paris a José Sócrates voltou, igualmente, a merecer a atenção do MP na inquirição a Gonçalo Trindade Ferreira. Partindo da exibição do contrato em francês, cuja data do documento indicava 30 de dezembro de 2012, embora tivesse sido formalizado apenas “no início de 2014”, o advogado mencionou que todos os detalhes para o documento foram dados por Carlos Santos Silva.

“Foram as indicações do engenheiro Carlos Santos Silva, as datas foram todas transmitidas por ele”, observou. E quanto ao nome do arrendatário a colocar no documento, o arguido garantiu ter ideia que só deu a informação ao advogado francês que colaborou na elaboração do documento quando enviou o contrato. “Foi Carlos Santos Silva que me transmitiu toda essa informação. Está tudo na documentação“, reiterou.

Trindade notou ainda que “não era o primeiro contrato que um advogado fazia nestes termos” de retroatividade e que não associou então Sócrates e Santos Silva.

Foi então que foram recuperadas as suas declarações ao juiz Ivo Rosa, na fase de instrução, nas quais foi lembrado que o contacto para se fazer o contrato só surgiu após a divulgação de notícias no Correio da Manhã em janeiro de 2014. A juíza Susana Seca questionou então se o empresário lhe deu logo o nome de José Sócrates como arrendatário, mas Gonçalo Trindade Ferreira assegurou que isso só surgiu mais tarde.

“O pedido do contrato de arrendamento foi feito. Claro que a primeira coisa que o meu colega [francês] me perguntou foi quem era o senhorio, o arrendatário, o período de arrendamento, etc. Eu pedi isso ao engenheiro Carlos Santos Silva e veio tudo, menos o nome do arrendatário. O arrendatário só veio posteriormente“, finalizou.

O email ‘desconhecido’ do primo de Sócrates

Foi um dos momentos mais inusitados da sessão desta quarta-feira. Durante a parte da tarde, Gonçalo Trindade Ferreira foi confrontado com a exibição de um documento, mais concretamente um email, que lhe teria sido enviado no dia 7 de abril de 2014. O remetente? José Paulo Pinto de Sousa, primo de José Sócrates. O problema? O arguido garantiu categoricamente nunca ter visto aquele email antes.

Nunca vi este email. É a primeira vez que o estou a ver“, frisou Gonçalo Trindade Ferreira. Em causa estaria um depoimento de Helder Bataglia, sob a referência da sociedade de advogados Morais Leitão, que teria sido junto aos autos do processo Monte Branco pelo primo de José Sócrates, alegadamente sobre uma dívida do antigo administrador da Escom a José Paulo Pinto de Sousa. O advogado, porém, não soube explicar a existência deste email, enfatizando o seu desconhecimento sobre o mesmo.

Na reta final da sua inquirição, o MP procurou também confrontar Gonçalo Trindade Ferreira com contratos das sociedades XMI, XLM e Proengel com o grupo Lena, insistindo sobre os esclarecimentos em torno da atividade de ‘procurement’. Segundo a tese da acusação, esta atividade seria inexistente e os contratos serviriam para passar dinheiro do grupo Lena para a esfera de Carlos Santos Silva e, por inerência, para José Sócrates. Contudo, o arguido — que trabalhava como advogado de Santos Silva — vincou não ter tido intervenção na elaboração daqueles contratos.

O depoimento de Gonçalo Trindade Ferreira entrou entretanto na fase de respostas às perguntas das defesas e teve de ser interrompido, continuando na sessão de quinta-feira do julgamento do processo Operação Marquês, no Juízo Central Criminal de Lisboa.

(Artigo atualizado às 19h20 e corrigido no número de livros de José Sócrates que teriam sido adquiridos pelo arguido Gonçalo Trindade Ferreira sob instruções de Carlos Santos Silva. Onde antes se lia 784 livros está agora 2.374, por um valor de 37.984,16 euros, conforme o despacho de acusação do MP)