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(A) :: Uma empresa venezuelana, uma consultora espanhola e um ex-chefe de Governo no topo da pirâmide. 6 respostas sobre a investigação a Zapatero

Uma empresa venezuelana, uma consultora espanhola e um ex-chefe de Governo no topo da pirâmide. 6 respostas sobre a investigação a Zapatero

Alegados crimes terão ocorrido durante a pandemia, muito depois de Zapatero abandonar a Moncloa. Antigo líder espanhol insiste na inocência e diz que trabalhou apenas como consultor para um amigo.

Madalena Moreira
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Passaram cerca de dois meses desde que José Luis Rodríguez Zapatero compareceu no Senado, a pedido do Partido Popular (PP), para esclarecer a comissão de inquérito ao “Caso Koldo” sobre a sua relação com um empresário de Alicante. Julio Martínez Martínez tinha sido detido em dezembro de 2025, no âmbito de uma investigação da Unidade de Crimes Económicos e Fiscais (UDEF) a uma companhia aérea venezuelana, a Plus Ultra. Perante os deputados, Zapatero negou qualquer envolvimento ou sequer conhecimento de esquemas fraudulentos perpetrados por Martínez.

Esta terça-feira, a UDEF realizou buscas no escritório do antigo chefe de governo e na empresa das filhas e o Tribunal Nacional fez cair uma bomba sobre a política espanhola, ao indiciar Zapatero nesse mesmo caso. Nos 51 anos de democracia espanhola, é a primeira vez que um antigo líder do executivo é envolvido numa investigação por corrupção e as reações dos vários partidos políticos não tardaram. Porém, tal como fez em março, quando foi ouvido na qualidade de testemunha, o antigo líder do PSOE sublinhou a sua inocência. “Nunca possuí uma empresa, seja diretamente ou por meio de terceiros, seja em Espanha ou no estrangeiro, nem participei em qualquer operação desse tipo“, afirmou, num vídeo publicado logo na terça-feira.

https://www.youtube.com/watch?v=H-gfgsXPeQ8

Zapatero liderou o governo espanhol entre 2004 e 2011, mas os crimes pelos quais está a ser investigado terão acontecido muito depois, durante a pandemia de Covid-19. O caso resulta de uma investigação mais abrangente realizada pelas autoridades espanholas a uma série de irregularidades em contratos e financiamentos atribuídos por Madrid durante esse período — investigação da qual resultou o “Caso Koldo”, que chegou no mês passado a tribunal. No curto vídeo de reação, o socialista disse ainda que quer “cooperar com o sistema judicial”. Zapatero será presente a tribunal para depor no dia 2 de junho.

O que está em causa na investigação?

O caso que envolve José Luis Zapatero remonta a março de 2021, quando o Conselho de Ministros espanhol aprovou um resgate de 53 milhões de euros para a companhia aérea venezuelana Plus Ultra, ao abrigo da Empresa Estatal de Participações Industriais (SEPI). O financiamento tinha como objetivo compensar as empresas por perdas financeiras resultantes da pandemia e a Plus Ultra foi sinalizada pelo Executivo de Pedro Sánchez como uma empresa “estratégica”.

A Plus Ultra é alvo de uma investigação alargada, com várias ramificações, escreve o El Español. A empresa foi investigada por alegadamente operar como uma empresa de fachada para lavagem de dinheiro do regime chavista venezuelano em diferentes países — os acionistas maioritários desta empresa, empresários venezuelanos, são visados por esta investigação. Estava também a ser averiguado um possível desvio dos fundos atribuídos pelo Governo espanhol: e é neste ponto da investigação que surge o nome de Zapatero.

No processo, citado pela imprensa espanhola, o Tribunal Nacional estabelece como objetivo apurar se o suposto esquema utilizou empresas de fachada, documentos falsificados ou canais financeiros indevidos “para exercer influência ilícita, ocultar a origem e o destino dos fundos e obter benefícios financeiros para terceiros e para a própria rede”.

Quem está acusado de pertencer ao esquema?

O nome de Zapatero é apenas o mais recente a ser incluído na investigação. Indiciados no âmbito do mesmo processo estão outros nomes relevantes: o presidente, o diretor-executivo e o advogado da companhia aérea, Julio Martínez Sola, Roberto Roselli e Santiago Fernández Lena, respetivamente, outros advogados e acionistas da empresa e ainda o administrador de consultoria da Análisis Relevante, Julio Martínez Martínez.

Martínez Martínez foi detido em dezembro do ano passado, juntamente com alguns dos responsáveis da Plus Ultra, suspeito de facilitar contactos e pagamentos entre a companhia aérea e o governo venezuelano de Nicolás Maduro, através dessa sua empresa de consultoria. A sua detenção expôs também uma relação próxima com Zapatero, através de quem se aproximou dos círculos do poder em Madrid. Os dois homens costumavam encontrar-se para correr na capital espanhola, desde a saída de Zapatero da Moncloa, relataram fontes próximas do antigo líder do governoao El País, na altura da sua detenção. Foram vistos juntos pela última vez, três dias antes da detenção do empresário.

Esta amizade, somada ao facto de ter efetuado alguns serviços de consultoria para a Análisis Relevante, levou Zapatero a ser chamado pelo PP à comissão de inquérito. O socialista reconheceu a amizade, mas recusou qualquer envolvimento no esquema. “Reitero que nunca me pediu nada de estranho”, insistiu. Ainda assim, admitiu que não voltara a falar com o amigo desde que fora indiciado, por uma questão de precaução.

"Nunca recebi nenhuma comissão da empresa. Julio Martínez, na qualidade de acionista maioritário, propôs que eu fosse consultor, e eu sugeri que as minhas filhas também participassem."
Zapatero, durante a comissão de inquérito ao "Caso Koldo", em março de 2026

Qual a importância da Análisis Relevante?

A empresa de consultoria foi fundada em fevereiro de 2020, por Martínez Martínez. Quando chamaram Zapatero ao parlamento, os deputados do PP insistiram que a empresa era apenas uma fachada que servia como canal financeiro da Plus Ultra para o antigo chefe do governo, algo que este negou. “Nunca recebi nenhuma comissão da empresa. Julio Martínez, na qualidade de acionista maioritário, propôs que eu fosse consultor, e eu sugeri que as minhas filhas também participassem”, explicou. As filhas de Zapatero foram portanto contratadas para trabalhos de marketing através da firma de que são sócias, a Wha The Fav.

No processo, o juiz responsável pelo caso escreve agora que a Análisis Relevante não “segue uma lógica de negócio independente”, mas um “padrão de esforços que têm como objetivo a atribuição de subsídios públicos”. Alegadamente, a empresa “simulou serviços de consultoria, gerou contratos e faturas que davam aos pagamentos uma aparência de legalidade e canalizou fundos de empresas com interesse em obter subsídios públicos para membros da rede”, pode ler-se no documento do tribunal.

Como é que Zapatero está envolvido e de que é que está acusado?

O tribunal identifica Zapatero não apenas como o interveniente, mas como o líder de “uma estrutura estável e hierárquica de tráfico de influência”, o topo do esquema, responsável por utilizar os seus conhecimentos para coordenar contactos institucionais e comerciais, preparar documentos e dar ordens aos restantes envolvidos. O antigo chefe do executivo é ainda identificado como o principal beneficiário fiscal do esquema, tendo recebido cerca de 1,5 milhões de euros. Uma parte do dinheiro, no valor de 490.780 euros, foi pago pela Análisis Relevante, por alegados serviços de consultoria, tendo o restante valor vindo das empresas Gate Center e Thinking Heads.

A empresa de marketing das filhas de Zapatero, a What The Fav, também foi alvo de buscas na terça-feira, depois de ter recebido cerca de 423 mil euros por pagamento de serviços das mesmas empresas.

O líder socialista está agora a ser investigado pelos crimes de tráfico de influências, falsificação de documentos e participação em organização criminosa.

O juiz José Calama e a Procuradoria Anticorrupção sustentam que há indícios de que José Luis Rodríguez Zapatero atuava como intermediário em negócios ligados ao petróleo venezuelano. Mas as autoridades consideram que o eventual esquema vai muito além do resgate da companhia. Em janeiro de 2024, Martínez envia mensagens sobre “Coke” e pede a preparação de uma “LOI” (“Letter of Intent”).
Segundo os investigadores, “Coke” referia-se a “petcoke”, derivado do petróleo. A LOI seria o documento formal necessário para iniciar operações de compra de petróleo, escreve o El Mundo.

A investigação suspeita que Zapatero funcionava como canal obrigatório para aceder ao petróleo venezuelano. O despacho do juíz refere que potenciais compradores tinham de enviar LOI’s dirigidas ao ex-chefe do governo. A polícia entende que Zapatero teria influência política direta junto do regime venezuelano através dos irmãos Domingo e Guillermo Amaro Chacón, ligados a um empresário chavista associado à PDVSA, a petrolífera estatal venezuelana. O texto refere ainda contactos com Delcy Rodríguez, designada nas mensagens como “a Dama”. Segundo a investigação, Delcy, agora a liderar o país, controlaria na altura a atribuição dos navios de transporte de crude.

O despacho menciona depois contactos com empresários suíços e chineses interessados em comprar petróleo venezuelano. Uma das frases destacadas refere uma empresa dependente do Partido Comunista Chinês. A UDEF encontrou uma carta de intenções enviada ao gabinete de Zapatero por uma empresa chinesa em outubro de 2023. Zapatero dirigia toda a estrutura a partir do seu gabinete em frente à sede do PSOE, em Madrid.

O despacho refere também outras áreas de negócio, em operações relacionadas com petcoke, ouro, compra e venda de ações e divisas.
Contudo, segundo o próprio texto, essas áreas não são desenvolvidas no despacho e poderão surgir em futuras investigações.

Como decorreu a investigação?

Depois de o Conselho de Ministros ter anunciado o subsídio de mais de 50 milhões de euros à companhia aérea venezuelana Plus Ultra, o caso começou a ser investigado em outubro desse mesmo ano, mas pelo Ministério Público de Genebra, na Suíça, que tinha identificado transferências bancárias ligadas a fundos venezuelanos no valor de 2.7 milhões de euros, descreve o diário ABC. Uma investigação estava a decorrer ao mesmo tempo em Madrid, mas o caso acabou arquivado em janeiro de 2023, depois da empresa ter ganho um recurso devido a um erro processual da juíza da primeira instância.

O novo processo decorria na justiça espanhola desde 2024, depois de as autoridades francesas e suíças terem enviado pedidos de cooperação internacional para realizar buscas e desmantelar uma organização criminosa de lavagem de dinheiro para o regime venezuelano. As acusações contra Zapatero no âmbito desta investigação foram tornadas públicas esta terça-feira, depois dos agentes da UDEF terem realizados novas buscas. O processo está a decorrer na 4.ª secção de instrução do Tribunal Nacional, sob o comando do juiz José Luis Calama.

Como reagiu o Governo espanhol ao caso?

Os alegados crimes de Zapatero aconteceram muito depois de ter abandonado o executivo espanhol, em 2011. Ainda assim, a reação do atual Governo foi escrutinada, dado o rol de acusações de corrupção em que o círculo do atual chefe do governo tem estado envolvido: já foram visados ministros, a mulher e o irmão de Pedro Sanchéz. Sendo Zapatero um dos socialistas mais vocais no apoio a Sanchéz, apontado muitas vezes como o seu principal conselheiro, o seu nome foi também arrastado para este círculo.

Novamente debaixo de fogo — quando ainda tentava recuperar da mais recente derrota política do PSOE nas eleições regionais da Andaluzia —, o chefe do governo espanhol manteve a mesma postura que teve em relação aos seus familiares e sublinhou o “respeito pela justiça e pela presunção de inocência”, tendo apelado ao seu Executivo que cerre fileiras sobre este tema, segundo escreve o El País. A declaração de Sanchéz surgiu horas depois de, em vídeo, Zapatero ter insistido que “nenhum recebeu nenhum pagamento da Plus Ultra” e que nem sequer sabia dos pagamentos da companhia aérea à Análisis Relevante.

Fontes próximos da Moncloa, ouvidas pelo mesmo jornal espanhol, agigantam a crise política que o caso pode desencadear para Sanchéz, mas asseguram que o chefe do governo se mantém irredutível na sua posição de deixar a justiça e a política correrem em caminhos separados e tentar ganhar tempo. Quer isto dizer que “a bomba política” de Zapatero em nada altera a posição oficial de Madrid: não vão ser convocadas eleições antecipadas.