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(A) :: Jhonatan continua a dar asas a uma Emirates de ego ferido: Narváez faz história com terceiro triunfo neste Giro, Eulálio segue líder.

Jhonatan continua a dar asas a uma Emirates de ego ferido: Narváez faz história com terceiro triunfo neste Giro, Eulálio segue líder.

Depois de ter perdido os líderes, a Emirates continua a dominar o Giro, com Narváez a completar um hat-trick que, desde 2007, só esteve ao alcance de Pogacar. Eulálio leva uma semana na liderança.

Tiago Gama Alexandre
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Afonso voltou a domar o impossível e a surpreender tudo e todos. Depois do segundo dia de descanso, o português da Bahrain-Victorious iniciou a segunda semana da Volta a Itália com a camisola rosa na sua posse, mas por pouco tempo. Era o que a maioria da opinião pública esperava, incluindo o próprio Eulálio, dado que a margem de 2.24 minutos parecia ser suficiente para Jonas Vingegaard (Visma-Lease a Bike) assumir a liderança da corsa rosa. Contudo, o ciclista de 24 anos nascido na Figueira da Foz voltou a ir ao limite e superou-se, fazendo o melhor contrarrelógio da sua carreira num longo esforço de 50 minutos. No final, o português conservou a camisola da liderança, assim como a da juventude, e partiu para a 11.ª etapa com 27 segundos de avanço para o dinamarquês. Ao que tudo indica, Eulálio deverá conseguir conservar o primeiro lugar até sábado, altura em que a alta montanha volta a um Giro d’Italia que tem tido mais surpresas do que certezas.

https://observador.pt/2026/05/19/nao-faltam-gannas-a-um-afonso-que-quer-voar-italiano-dominou-e-eulalio-segurou-a-rosa-com-contrarrelogio-fabuloso/

“Fiz o que nunca pensei fazer: manter a camisola rosa. Tenho a noção de que, provavelmente, o Vingegaard não esteve nos seus melhores dias. Não estava nada à espera. O dia de hoje [terça-feira] para mim foi pffff… acima de tudo penso que é mais difícil de sofrer num contrarrelógio de 40 quilómetros do que de fazer uma subida de 40 quilómetros. Nunca acreditei porque os meus contrarrelógios são sempre maus, termino quase sempre nas últimas posições e pensava que não havia nada a fazer. No final, [os diretores] começaram-me a dizer que tinha 30 segundos [de vantagem] e eu apenas continuei a acreditei. Fui com tudo, como fiz nos 40 quilómetros. Era sofrer para manter a camisola branca ou lutar pela geral. Manter a camisola [rosa] é o que me vai dar mais força para continuar a lutar todos os dias”, explicou o líder da geral no final da etapa.

“Terrível, foi terrível. Foi um contrarrelógio plano muito longo. Não é a minha especialidade fazer um contrarrelógio plano desta forma. Nunca fui muito bom nisto. Para ser honesto, acho que estive muito bem hoje. Acho que um contrarrelógio completamente plano como este beneficia um pouco mais os ciclistas maiores. Quanto mais potência tens, melhor és. Rosa? Acho que estou num bom lugar neste momento. Estou muito perto da maglia rosa. Claro que teria sido bom ter a camisola rosa, porque acho que cada dia com uma camisola é um prazer e algo que te deixa feliz. Também estou feliz com a camisola azul. Isso não é um problema. No final acho que estou num bom lugar”, assumiu Vingegaard.

https://twitter.com/giroditalia/status/2056978226765869251?s=20

A 11.ª etapa do Giro ligou Porcari e Chiavari num percurso de 195 quilómetros e 2.850 metros de desnível acumulado, com a cidade da região da Ligúria a acolher uma chegada da competição 68 anos depois. O início parecia ser tranquilo, ao contrário do final, que era técnico e com três subidas categorizadas, o que favorecia a fuga. Depois de 93 quilómetros no litoral, o percurso mudou aquando da mudança para o interior, em direção a La Spezia. Foi aí que surgiram as duas primeiras subidas — não categorizadas —, de La Foce (2,6 km a 6,8%) e Pignone (2 km a 7,2%). Ao quilómetro 108 aparecia o Passo del Termine (7,4 km a 4,9%), já a “valer”, seguindo-se o Colle di Guaitarola (9,9 km a 6,2%). A partir daí seguiam-se 25 quilómetros em descida em direção ao Colla dei Scioli (5,7 km a 6,3%) e ao Cogorno (4,6 km a 6,4%), onde se encontrava o “quilómetro Red Bull”. Os últimos quatro quilómetros incluíam a descida e a reta final de 400 metros.

Como seria de esperar, a etapa foi atacada desde o quilómetro zero, incluindo por Nelson Oliveira (Movistar) e António Morgado (UAE Team Emirates-XRG) que, apesar das tentativas, não conseguiram integrar a fuga do dia. Com a média da primeira hora a bater o recorde desta edição (50,6 quilómetros), Chris Harper (Pinarello Q36.5), Aleksandr Vlasov (Red Bull-Bora-hansgrohe) e Alberto Bettiol e Diego Ulissi (XDS Astana) fugiram ao pelotão, compondo a fuga de 12 elementos, já depois de Davide Ballerini (XDS) ter caído e abandonado. Ainda assim, os ataque continuaram a surgir na primeira metade da etapa, com destaque para Enric Mas (Movistar) e Lennert van Eetvelt (Lotto Intermarché), que saíram do pelotão antes do Passo del Termine, e conseguiram “fazer a ponte” para a frente, seguindo-se Jhonatan Narváez (Emirates). Pouco depois, o grupo voltou a crescer, com as entradas dos intermédios, onde seguiam Filippo Zana (Soudal Quick-Step), Warren Barguil (Picnic PostNL) e Christian Scaroni (XDS).

https://twitter.com/giroditalia/status/2057086871658725653?s=20

A partir daí, Netcompany Ineos, Bahrain e Visma assumiram as despesas do pelotão e mantiveram a distância controlada. Na parte final registou-se uma queda na frente numa das descida, com o grupo a passar a sete elementos e, na subida em direção ao “quilómetro Red Bull”, Mas foi o primeiro a atacar, levando consigo Narváez. Pouco depois, Harper juntou-se à dupla, mas perdeu o contacto a dois quilómetros do topo. O pelotão passou no alto a mais de três minutos da frente, numa altura em que Eulálio colocava-se na roda de Vingegaard, que procurava o melhor posicionamento. No último quilómetro, o equatoriano da Emirates aproveitou o trabalho do espanhol para se lançar ao ataque a 200 metros da meta, vencendo pela terceira vez neste Giro sem dificuldades de maior. Com este triunfo, Narváez é o primeiro Emirates a vencer três etapas numa Grande Volta desde 2007 e sem se contar com Tadej Pogacar. Para lá da quarta vitória da Emirates em 11 etapas, Jhonatan tornou-se no equatoriano mais vitorioso da história do Giro, desempatando com Richard Carapaz (5-4).

https://twitter.com/Eurosport_ES/status/2057116850438148178?s=20

Quanto a Enric Mas, o espanhol não ganha um sprint a dois desde 2019, tendo perdido os últimos seis para Primoz Roglic (dois), Pogacar (dois), João Almeida e, agora, Narváez. No terceiro lugar ficou Diego Ulissi, ao passo que o pelotão entrou a 3.24 minutos, o que faz com que Afonso Eulálio tenha agora sete etapas na liderança da Volta a Itália. O português vai partir para a 12.ª tirada com 27 segundos de vantagem para Jonas Vingegaard.