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Durão Barroso: "Cavaco Silva é um político excecional, que foi desprezado por uma certa elite lisboeta"

O ex-presidente da Comissão Europeia, que fez parte do júri que distingiu Cavaco Silva com medalha de mérito europeia, acredita que o antigo primeiro-ministro deu "contributo notável" à Europa.

Tiago Caeiro
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O ex-presidente da Comissão Europeia José Manuel Durão Barroso teceu esta quarta-feira elogios a Aníbal Cavaco Silva, que considera um político “excecional” e cuja opinião, diz, continua a ter um “impacto” junto dos portugueses. No programa da Rádio Observador Contra-Corrente, a propósito da atribuição da Medalha Europeia do Mérito ao ex-Presidente da República, Durão Barroso destacou a postura cada vez mais europeísta que foi sendo assumida por Cavaco Silva ao longo dos anos e criticou o que classificou como “a elite lisboeta de esquerda” que, defende, desvalorizou Cavaco quando este começou a ganhar protagonismo político, nos anos 80.

Cavaco Silva é um político excecional, que foi desprezado por uma certa elite lisboeta (até às vezes uma elite esquerda), que não gostava do meio de origem social dele, que o achava provinciano”, disse Durão Barroso, que exerceu funções governativas nos governos liderados por Cavaco Silva, entre 1985 e 1995. Foi Subsecretário de Estado no Ministério dos Assuntos Internos, Secretário de Estado dos Assuntos Externos e Cooperação e ainda Ministro dos Negócios Estrangeiros.

Durão Barroso lembrou que “não houve quem em Portugal quem tivesse tido quatro maiorias absolutas”, referindo-se a Cavaco Silva, que foi primeiro-ministro durante 10 anos e Presidente da República durante mais uma década.

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No que diz respeito à relação de Cavaco Silva com a União Europeia, Durão Barroso (que fez parte do júri que escolheu os primeiros 40 galardoados com Medalha Europeia do Mérito, distinguidos esta terça-feira em Estrasburgo) lembrou que o ex-primeiro-ministro Cavaco Silva era visto como um político com uma visão “crispada” em relação à União Europeia numa fase inicial — posição que foi evoluindo ao longo dos anos.

“Via-o cada vez mais europeísta. Houve uma evolução. Inicialmente, houve quem dissesse que tinha uma visão crispada. Depois ganhou confiança com Jacques Delores [ex-presidente da Comissão Europeia], Filipe González [ex-presidente do governo espanhol], e foi entendendo que a melhor maneira de defender o interesse nacional português era estar na primeira linha da defesa do interesse europeu”, realçou Durão Barroso. “É um europeísta, que deu um contributo notável para a União Europeia e também para Portugal”, sublinhou.

O também ex-presidente da Comissão Europeia, entre 2004 e 2014, defendeu que Cavaco Silva nunca atirou para Bruxelas a responsabilidade por eventuais insucessos internos, algo que, diz, alguns políticos costumam fazer. “Alguns políticos, à esquerda e à direita, fazem a europeização do fracasso e a nacionalização do sucesso. Quando as coisas correm bem o mérito é deles, quando correm mal, o mérito é de Bruxelas […] Cavaco Silva nunca cedeu a essa tentação de dizer que a culpa é de Bruxelas”, referiu Durão Barroso, defendendo que a opinião de Cavaco Silva junto da opinião pública (uma década depois de ter deixado o Palácio de Belém), ainda tem impacto.

“Intervém com alguma frequência, tem moderado as intervenções, mas tem tido impacto quando toma a palavra. Pela experiência e pelo prestígio que tem, o que diz tem impacto e é tomado em consideração pelos portugueses”, acredita Durão Barroso.