A posição do PS sobre as declarações de Marco Rubio e a atuação do Governo na autorização para o uso da Base das Lajes continuam a provocar discussão entre socialistas. Nos últimos dias, alguns dirigentes e até um antigo líder do partido vieram lembrar que não é a primeira vez que se endurece o tom em relação a uma ação dos Estados Unidos, apontando a moção de censura, em 2003, contra o apoio do governo português à guerra no Iraque como exemplo disso mesmo. A mensagem tem um duplo alcance: tal como então, o PS quer agora marcar uma linha vermelha em relação à “complacência” com Washington, mas também lembrar a alguns dos críticos de hoje que, em 2003, foram críticos da posição dos EUA.
Há uma semana, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, elogiou Portugal por ter sido um dos países da NATO “que foram muito úteis” no ataque ao Irão, referindo que o país disse “‘sim’ antes mesmo de lhes dizermos qual era o assunto”. A declaração de Rubio fez o PS avançar com um pedido para ouvir o ministro dos Negócios Estrangeiros no Parlamento, em termos violentos que motivaram críticas internas, como as de Francisco Assis. Mas há quem, como o antigo líder Eduardo Ferro Rodrigues, tenha vindo lembrar que o partido deve “manter a verticalidade nas posições”.
Eduardo Ferro Rodrigues era o secretário-geral do PS em 2003, altura em que o partido apresentou, no Parlamento, uma moção de censura contra o governo liderado por José Manuel Durão Barroso “pelo seu apoio ao desencadear de ações militares contra o Iraque de forma unilateral e sem apoio em resolução específica do Conselho de Segurança”. A imagem utilizada pelo partido para criticar o Governo nessa altura era, à semelhança do que acontece hoje no PS, de subserviência do país face aos EUA.
Num debate com José Manuel Durão Barroso, o então líder socialista chegou mesmo a perguntar: “Com que direito vem agora com falinhas mansas abrir as portas da Região Autónoma dos Açores a um Conselho de Guerra do qual saiu o ultimato ao Conselho de Segurança das Nações Unidas? Com que direito disse que ia ser uma cimeira para dar espaço à diplomacia e à paz? Foi enganado ou enganou os portugueses 48 horas antes da reunião das Lajes?”
A memória desta posição e da censura ao Governo começou a circular nos últimos dias, entre socialistas, através da partilha da edição do jornal oficial do partido, Ação Socialista, de março de 2003. E aconteceu na sequência da notícia do Observador com declarações de Francisco Assis sobre o tom “excitado” do partido em relação a Marco Rubio, mas também do que disse, na RTP-N, Paulo Pedroso, igualmente num tom crítico sobre a forma como o PS falou do uso das Lajes no ataque ao Irão.
Ora, em 2003, Francisco Assis e Paulo Pedroso eram deputados quando o partido censurou José Manuel Durão Barroso pelo papel que Portugal estava a desempenhar na guerra do Iraque. Pedroso tinha mesmo responsabilidades na direção do partido — surge, aliás, numa das fotografias dessa edição da publicação do Ação Socialista, em cima do palco ao lado de Ferro no comício em que o então líder socialista anunciou a moção de censura.

Eduardo Ferro Rodrigues tem sido dos mais indignados com as críticas internas à direção do PS nesta matéria. Ao Observador, o ex-presidente da Assembleia da República confirma a posição que tem partilhado com alguns socialistas de forma mais privada, lembrando que participou como secretário-geral do PS numa “manifestação contra invasão do Iraque à margem da ONU e do direito internacional” e “por muito menos do que isto”.
Nessa manifestação, recorda o antigo líder do PS, “participou António Guterres que, apesar desse ato, foi eleito secretário-geral da ONU uns anos depois, com apoio americano”. Argumento que Ferro usa para procurar refutar a ideia de que uma posição mais dura em relação aos EUA pode comprometer as relações futuras de Portugal com os norte-americanos. Para Eduardo Ferro Rodrigues, “os neocons eram uma piada comparados com Donald Trump”. “Mas se não mantivermos verticalidade nas posições do PS, o que andamos aqui a fazer?”, questiona o antigo secretário-geral do PS.
As críticas à posição oficial do partido no caso Rubio (como as de Assis e Pedroso) também caíram mal junto da atual direção socialista, que foi ao baú das memórias recuperar precisamente a censura ao governo de Barros, em 2003. Um destacado dirigente socialista também lembra ao Observador que Assis era deputado do PS e alinhou com a posição oficial do partido contrária à intervenção no Iraque e que Pedroso era porta-voz da direção de Ferro, altura em que apontava o dedo à guerra do Iraque por considerar não terem sido esgotadas as possibilidades de desarmamento pacífico no território antes de um ataque. Era, para o PS, uma guerra “desnecessária e ilegítima” e com a qual o país não devia ter “complacência”.
Nessa altura, Eduardo Ferro Rodrigues até ia mais longe e dizia que “Portugal, pela mão de Durão Barroso” estava a ser “um instrumento de divisão da Europa em benefício dos EUA”, apontando o dedo ao então primeiro-ministro por estar “alinhado com Aznar e Blair num apoio cego à administração Bush”. Foram também apresentadas moções de censura pelo PCP, Bloco de Esquerda e Os Verdes, todas chumbadas pela maioria formada pelo PSD e o CDS no Parlamento.
“Um país de cócoras e agachado”
Na última semana, Eurico Brilhante Dias, líder parlamentar do PS, descreveu Portugal como “um país de cócoras” e “agachado” no momento em que os norte-americanos pediram para utilizar a base das Lajes em operações ligadas ao ataque dos EUA/Israel ao Irão. O PS chamou o ministro Paulo Rangel ao Parlamento para esclarecimentos.
Numa declaração ao Observador, quando confrontado com a posição oficial socialista neste assunto, Francisco Assis admitiu a necessidade da “aclaração” pedida pelo PS ao Governo perante “declarações ambíguas” de Marco Rubio, mas também disse que não era aceitável que o fizesse nos “termos excitados e inapropriados a que incompreensivelmente recorreu”. “O PS nunca usou retórica infantil e extremista para abordar temas de política externa”, lamentou Assis.
Paulo Pedroso disse, na RTP-N, que se tratava de “um excesso de reação” do PS e dizia que a instrução dada pelo Governo sobre as Lajes “não terá estado muito distante do que aconteceu em relação a outras dadas com governos do PS”. “Portugal nunca recusou essa autorização”, assinalou, deixando a pergunta: “Como faria o PS se estivesse no Governo?”.
Esta terça-feira à noite, numa entrevista ao canal Now, o líder do PS já pareceu atenuar um pouco a questão, ao dizer que basta que Paulo Rangel diga no Parlamento que o que Rubio disse não é verdade — o que já aconteceu em declarações públicas — para a questão ficar sanada.
“O senhor ministro dos Negócios Estrangeiros transmite essa mensagem em sede própria e com certeza que as questões ficam esclarecidas”, disse José Luís Carneiro sobre a audição parlamentar pedida pelo PS, descolando-se das iniciativas de PCP e do BE, que exigiram uma comissão parlamentar de inquérito ao caso. “Não é necessária uma comissão de inquérito, porque é normal que o ministro dos Negócios Estrangeiros responda às perguntas que lhe são feitas pelos deputados”, assinalou o líder socialista. “Não justifica tanto nervosismo.”
Ainda assim, José Luís Carneiro não deixou de dizer que “países aliados de Portugal, como o Reino Unido, a Alemanha, a França e a Itália, atuaram de forma diferente daquela que foi a atuação do Governo português”, o que justifica mais esclarecimentos de Paulo Rangel.
Além disso, Carneiro, mesmo assumindo ter sido contactado pelo Governo português a propósito desse pedido de autorização, quer saber se as três condições exigidas a Washington para o uso da Base das Lajes foram ou não cumpridas. “Aquilo que nos foi transmitido não corresponde àquilo que foi transmitido pelo Secretário de Estado norte-americano”, notou o líder socialista.
https://observador.pt/2026/05/18/assis-ataca-termos-excitados-e-retorica-extremista-do-ps-sobre-os-eua-e-o-uso-das-lajes/