Quem já assistiu a um espetáculo de stand-up comedy conhece o resultado de escolher os lugares na primeira fila de assentos. Estar perto do palco significa sujeitar-se a investidas do comediante em palco, isto é, ser vítima de crowdwork. A interação com os espectadores é uma estratégia muito utilizada para aquecer o público que assiste e fazê-lo rir sem qualquer preparação — afinal, ninguém pode prever os sujeitos que tem à frente ou a sua resposta sob a pressão do holofote.
Quer se goste ou não de ser alvo de piadas, há que reconhecer a capacidade de improviso necessária à transgressão dos limites do texto. Parece uma habilidade inata a algumas pessoas, mas precisa de treino e já provou ter efeitos terapêuticos para quem sofre de ansiedade social e insegurança debilitante no confronto com o outro. Em Portugal e no estrangeiro já existem clínicas de psicologia com tratamentos inspirados no mandamento do “Sim, e…”, a resposta obrigatória de um improvisador a qualquer situação, que demonstra uma recetividade em relação às ideias do outro pouco usual na vida quotidiana.
Por esse motivo, a comédia de improviso é cada vez mais procurada por curiosos e empresas interessadas em exercícios de team building e que visam a aproximação dos colaboradores. No panorama português, esta prática artística permanece fora do radar dos apaixonados por teatro, apesar dos benefícios que tem para quem vê e pratica. O Observador foi conhecer os grupos profissionais e amadores de improviso ativos no país.
Commedia à la Carte
Realeza da comédia de improviso em Portugal, o grupo fundado por César Mourão, Carlos M. Cunha e Ricardo Peres celebrou o 25º aniversário no ano passado. Após a morte precoce de Peres, o colombiano Gustavo Miranda passou a integrar o grupo, que promete a maior digressão de toda a carreira, com 44 espectáculos só na temporada de 2026/27.
Com um formato consagrado por sucessivos anos de salas esgotadas, o trio humorístico acolheu um quarto membro nas últimas apresentações: um sistema de inteligência artificial (IA) que leva o esforço de improvisação mais longe. “O espetáculo mantém-se igual na sua essência, mas tem um grande acréscimo[, uma vez que a IA serve de] auxílio à nossa imaginação, porque realmente as imagens aparecem com uma grande rapidez, baseadas nas improvisações”, explicou César ao Observador, entrevistado para uma reportagem sobre a interação entre humor e inteligência artificial.
A nova aposta dos improvisadores, e a mais ambiciosa de sempre, é o novo festival MEO Commedia à la Carte, previsto para os dias 29 de setembro a 1 de outubro de 2026. Jerry Seinfeld é o maior destaque do cartaz, que vai muito além da comédia de improviso.
Os Improváveis
Pedro e Marta Borges fizeram a mesma licenciatura em Comunicação Empresarial, onde descobriram uma paixão em comum pelo teatro. Após uma pós-graduação na área e uma série de cursos e workshops com artistas de referência, decidiram fundar Os Improváveis, um dos grupos profissionais de improviso mais reconhecidos no país. Desde a estreia no já extinto Teatro Casa da Comédia, em 2008, Pedro e Marta diversificaram a atividade, que atualmente abrange também a “pesquisa e ensino”, para além da participação em eventos corporativos, palestras e programas de televisão.
“Já todos improvisamos na vida, naturalmente, mas é possível aprender a improvisar melhor, não só em palco, mas também na vida pessoal e profissional”, admitiu Pedro no Juntos Fazemos a Festa, emitido pela TVI em 2016. Essa é a premissa dos cursos anuais de improviso, disponíveis em presença e online (as inscrições para a 19ª edição já estão abertas), e também dos workshops que organizam para empresas: “Pomos as pessoas a ouvirem-se melhor, a aceitarem-se, a não se criticarem, a serem um bocadinho mais atrevidas e corajosas”, acrescentou Pedro, enfatizando o potencial terapêutico das práticas, que também promovem maior união entre colegas de trabalho.
Galp, Fnac, Sonae ou CP são apenas alguns dos clientes empresariais do duo de atores, que também já participou em dezenas de festivais na Europa e no mundo — e tem viagens agendadas para Valência, Amesterdão, Saragoça, Polónia e São Marino em 2026. Mas não é preciso ir tão longe para ver Os Improváveis ao vivo. O grupo faz espectáculos frequentes em território nacional e não há limites para a criatividade, evidente na diversidade de formatos: desde o fado a conversas intimistas com as celebridades preferidas dos portugueses e performances para crianças, prometem uma experiência memorável.
Os Impromix
Ganharam popularidade no palco do Got Talent Portugal em 2024 e continuam imparáveis, apesar da eliminatória nos quartos de final do concurso. Hoje, o projeto fundado por Pedro Pedroso dois anos antes alcançou novas alturas: com três atores coadjuvantes — Tiago Negrão Pinheiro, Mariana Trindade e Rafael Zink — e uma variedade de projetos frequentes e acessíveis ao público lisboeta, o grupo continua a expandir a sua influência no meio das artes performativas e a afirmar o lugar do teatro de improviso na capital.
https://www.youtube.com/watch?v=SXuw2FcmVUE
Para além das sessões semanais na Fábrica Braço de Prata, estão previstas apresentações no Teatro Bocage nos dias 31 de maio e 5 de junho — onde apresentam o espetáculo [Inserir Título] — e uma noite de improviso no espaço cultural Com Calma, agendada para o próximo dia 11. Os mais curiosos e destemidos podem mesmo experimentar o curso anual organizado pelo grupo que promete ajudar “os participantes a ganharem mais confiança na hora de improvisar e de se entregarem ao inesperado”. As inscrições para a temporada de 2026/27 já estão abertas.
Coletivo Ervilha no Topo do Bolo
O nome do próximo grupo não podia ser mais ilustrativo de um dos mantras do teatro de improviso: é preciso aceitar o erro, cujo potencial cómico é inesgotável. Em vez de uma cereja, o projeto fundado no Porto propõe uma ervilha… e serões muito animados com epicentro no norte do país.
Ultrapassada a descolagem atribulada por alturas da pandemia, o coletivo constituído por quatro atores e uma produtora estende as asas para outros destinos. O orgulho nortenho não impede uma passagem pela capital, onde o curso para iniciantes em técnicas de improviso oferece “um espaço para jogar, arriscar e onde a falha é bem-vinda”. Dinamizado pelo ator João Parreira na editora de discos e espaço cultural Groovie Records, começou no passado mês de fevereiro — mas antecipam-se novas edições no futuro.
Até lá, os interessados podem assistir ao espetáculo Quantos-queres, que faz improviso a partir do origami infantil com o mesmo nome. Regressa dia 13 de junho ao Teatro Sá da Bandeira do Porto, após uma temporada em cena, com o objetivo de converter o imaginário do público numa “narrativa imprevisível, única e irrepetível a cada espetáculo!”
Coimbra Impro
“O que acontece quando deixamos de controlar e nos permitimos estar verdadeiramente presentes?” Não é o subtítulo de um livro de autoajuda, mas o convite do grupo Coimbra Impro, o “maior e mais famoso” da cidade e pioneiro a dar aulas de improviso numa loja de produtos a granel e biológicos.
Para além da oferta educativa, em curso no presente ano letivo, o coletivo faz apresentações frequentes (e a preços bastante acessíveis) e ainda workshops pontuais, como o Laboratório Palhaçaria, realizado em dezembro. Tudo indica que a experiência é enriquecedora: mesmo que pareça uma “confusão organizada, acaba por fazer sentido”, nas palavras de uma antiga aluna.
Outra acrescenta: “As aulas de impro são libertadoras em todos os sentidos, um ato de criação e de unir pessoas com experiências muito diferentes. Deixam um trago de saudades.” Um exemplo de cultura descentralizada que merece atenção.
Instantâneos
No ativo desde 2011, os Instantâneos afirmam-se como um grupo longevo e resiliente, que dispõe “de soluções versáteis e originais” para eventos corporate, “personalizados e sempre alinhados com os objetivos e necessidades do cliente”. Para além disso, a equipa de atores que fundou o primeiro e único festival internacional destinado ao improviso em Portugal — o Espontâneo, no Centro Cultural Olga Cadaval em Sintra —, organiza workshops de team building para funcionários de empresas.
A oferta disponível abrange o desafio de ideias “Impro Tank”, inspirado nos “tubarões” do programa de televisão para empreendedores, Shark Tank. A proposta de “uma experiência dinâmica que promove espírito de equipa, pensamento fora da caixa e inovação, com humor e colaboração”, soma-se ao workshop de improviso aplicado “Play” e à palestra interativa “Fora do Quadrado”. O website dos Instantâneos disponibiliza mais informações sobre o catálogo de oficinas artísticas.
Realizado anualmente em meados de fevereiro ou março, o festival Espontâneo pretende “aproximar o público da linguagem artística [do teatro ou comédia de improviso], promovendo a sua expansão e afirmação no panorama cultural português”. O evento já recebeu centenas de artistas de todos os continentes e exportou o formato de sucesso para o estrangeiro: o Espontâneo — 11ª Temporada Internacional de Impro de Bogotá, na Colômbia, está agendado para os próximos 20 de junho a 26 de julho.
Página em Branco Improv
Mário Bomba, Pedro Miguel Silva e Telmo Ramalho fundaram este grupo de improvisadores, que já marcou presença em vários programas de televisão nacionais e tem somado pontos no meio teatral com eventos para empresas, espetáculos ao vivo e cursos nos arredores de Lisboa.
O próximo desafio — para o público interessado, não para os atores, que já o levaram a cena antes — é o espetáculo (Quase)amento, agendado para o dia 24 de maio no Centro Cultural da Malaposta, em Odivelas. O evento promete fazer “‘futurologia’ sem cartas e sem búzios” e, a partir de informação adquirida sobre alguns membros do público, construir “a estória de uma possível relação” romântica entre dois espectadores. “O dia do casamento, a compra da casa, os filhos, as discussões, as pazes… Se resultará, o público é quem decide”, argumenta a descrição disponível. “Contamos o que [o casal imaginário] pode ser, baseados no que são agora.”
Para além da frequente atividade em cima do palco, os fundadores do projeto também destinam algumas horas à formação de novos génios do improviso. A 3ª edição do Workshop de Comédia de Improviso e Improvisação Teatral terminou no fim de abril com uma apresentação ao grande público. As aulas decorrem na Academia Recreativa de Linda-a-Velha e recomeçam depois do verão.
ITUM – Grupo de Teatro de Improviso da UMinho
Numa vertente mais académica e afastada da capital, a Universidade do Minho oferece um curso de verão dinamizado por Fabiano Assis da Silva, docente e investigador no instituto de ensino superior, com trabalho desenvolvido em torno das práticas teatrais. Após uma iniciativa de sucesso realizada em 2025 com a colaboração do Rodamoinho Teatro — e que ganhou o Prémio de Inovação Pedagógica IDEA nesse ano —, o grupo de investigação Cultura, Artes e Comunidades renova a aposta numa oferta curricular com foco na vertente artística.
https://www.youtube.com/watch?v=FaY2cPDGuVE
As inscrições para o curso de verão gratuito com início no próximo dia 3 de junho já abriram. As atividades destinadas a estudantes, professores e membros da comunidade acontecem no Instituto de Educação do Campus de Gualtar e preveem desenvolver uma série de competências nos participantes: “aceitação das ideias do outro, escuta ativa, criatividade, espontaneidade [e] colaboração em grupo”.
“O objetivo é criar uma experiência artística (teatro e música) colaborativa”, refere a descrição do curso, “que culminará numa apresentação integrada no Festival Recomeço, uma iniciativa organizada pelo Conselho Cultural da Universidade do Minho” a fim de assinalar o início do ano letivo.
Plataforma IMPROV
Com sede no Barreiro, a Plataforma IMPROV foi uma iniciativa dos atores Mário Abel, Ana Sofia Santos e André Sobral, destinada a levar o teatro de improviso à Margem Sul do Tejo. A oferta de atividades é vasta e baseada numa série de vantagens para aqueles que se expõem ao desconforto inerente ao imprevisto. Citando vários estudos e empresas com relevância internacional, o site online do projeto afirma que 35% dos improvisadores relatam melhorias na qualidade da comunicação, 74% admitem maior capacidade de escuta ativa e presença, tudo isto somado a uma redução do stress, evidente para 50% dos inquiridos.
As estatísticas são persuasivas e a oferta ainda mais. O grupo oferece aulas de improviso com quatro níveis progressivos de dificuldade, formações que visam atingir diferentes objetivos e ainda jogos de team building, indicados para equipas de trabalhadores. “O improviso organizacional não é improvisação no sentido pejorativo”, aparece citado na página web. “É a competência mais exigente que uma organização pode desenvolver: a capacidade de criar com os recursos disponíveis, em tempo real, em resposta a uma situação inesperada.”
É possível aprofundar o conhecimento sobre o tópico através do blogue da iniciativa, mas, como não basta aprender com base na teoria, o grupo propõe uma “noite cultural extremamente sofisticada, cheia de ponderação estética e reflexão filosófica profunda”. Trata-se do espetáculo em cena desde março, na cervejaria O Espaço. Bacalo Baco é um evento de improviso short-form de alta intensidade, “rápido, imprevisível e com um único objetivo: criar o máximo de mixurucas teatrais possível… sempre a partir das sugestões do nosso estimado (e potencialmente mequetrefe) público”, segundo a descrição.
Cardume — Colectivo de Impro
“A nadar nas águas do improviso desde 2015” é o slogan do grupo mais numeroso de Portugal, que faz apresentações frequentes no Auditório Orlando Ribeiro, em Telheiras (Lisboa). Com nove improvisadores de “diferentes origens e estilos”, o coletivo já exibiu as capacidades em palco dezenas de vezes, tendo participado em vários eventos e festivais no estrangeiro.
A mais recente investida foi o Ensaio aberto ao público, destinado a “mostrar de forma aberta e honesta o que é o teatro de improviso”. “Experimentámos, brincámos, desafiámos a audiência e ainda revelámos um pouco do que temos andado a preparar”, admitiram os atores numa publicação do Instagram. Sob a direção artística do ator Gonçalo Sítima, o Cardume não tem projetos agendados para os próximos tempos, mas deixou o bichinho do improviso naqueles que os foram ver. Oxalá, nadem depressa de volta ao palco!
Teatro de improviso na Boutique da Cultura
Gonçalo Sítima lidera um outro projeto com fins recreativos e educativos que já vai na 8ª edição: semanalmente na Boutique da Cultura, em Carnide, o ator e formador organiza aulas de iniciação, mas também destinadas a improvisadores mais avançados. Com dez ou vinte sessões, respetivamente, os workshops trabalham os princípios da improvisação teatral, “como a aceitação, colaboração, diversão e espontaneidade” e, no nível seguinte, o treino em palco e aplicação, perante a audiência, das aprendizagens adquiridas.
A atividade de Sítima vai além dos cursos para o público em geral e também se especializa na formação de atores profissionais e na preparação de palestras com fins corporativos, “personalizadas à realidade e objetivos de cada empresa, equipa ou grupo de trabalho”. Segundo a informação que consta no site online, a improvisação “é uma das formas mais eficazes e úteis para desenvolver soft skills essenciais para um bom desempenho profissional”.
Para os mais medrosos, é possível contactar com uma performance de Sítima sem pisar o palco: na agenda do improvisador constam as próximas atuações do grupo nível 3 da Boutique da Cultura, nos dias 21 e 28 de junho, e o espectáculo Peixar aos Pregos (que brinca com o nome da obra original do Padre António Vieira), a 19 de setembro.