(c) 2023 am|dev

(A) :: "No meio do caos" provocado por Trump, a amizade (ou alinhamento estratégico) entre Xi e Putin é a "calma"

"No meio do caos" provocado por Trump, a amizade (ou alinhamento estratégico) entre Xi e Putin é a "calma"

Menos de uma semana depois de receber Trump, Xi abre os braços a Putin, com alfinetadas aos EUA. Mesmo sem serem aliados ou amigos, a 25.ª visita de Putin a Pequim consolidou a relação sino-russa.

Madalena Moreira
text

Cumpre-se, no próximo dia 16 de julho, o 25.º aniversário da assinatura por Jiang Zemin e Vladimir Putin do Tratado de Boa-Vizinhança e Cooperação Amigável. Passados 25 anos, Putin é novamente Presidente e rumou esta terça-feira a Pequim para assinalar o momento com o “amigo” Xi Jinping. A visita acontece menos de uma semana depois de um outro Presidente, também de visita à capital chinesa, ter colado o mesmo rótulo na relação com o Presidente chinês.

Mas a relação de Xi com Donald Trump está longe de ser comparável com a que mantém com Putin. Não só estes dois chefes de Estado já se encontraram mais de 40 vezes — algo que Putin fez questão de destacar nas declarações públicas esta quarta-feira —, como mantêm uma relação pessoal particularmente calorosa. E ainda que esta possa ser em grande parte uma postura pública diplomática, terá pelo menos um fundo de verdade, a julgar pela conversa descontraída apanhada pelos microfones no último encontro entre os dois, em setembro de 2025, quando discutiram a possibilidade de os desenvolvimentos tecnológicos permitirem alcançar a imortalidade.

Porém, não são as conversas entre os chefes de Governo que sustentam a relação entre uma potência que desafia hoje a hegemonia norte-americana na ordem internacional e uma que o fez durante mais de 40 anos, mas um alinhamento estratégico em relação ao Ocidente. Foi precisamente este traço da relação sino-russa que esteve em destaque durante o encontro desta quarta-feira entre Xi e Putin. Nas declarações públicas depois da assinatura de uma série de acordos, os dois líderes fizeram questão de salientar a importância das relações bilaterais entre Pequim e Moscovo no mundo atual — que o Presidente chinês caracterizou mesmo como “a calma no meio do caos“.

Ao todo, em cima da mesa, estiveram mais de 20 acordos, que vão da cooperação na área da energia à educação, passando pela cultura. Ainda assim, a 25.ª visita oficial de Vladimir Putin a Pequim não foi suficiente para reparar uma assimetria e uma dependência que se têm acentuado na relação entre os dois países nos últimos quatro anos. Xi Jinping abriu os braços ao seu homólogo russo — que pode mesmo ser “amigo” — mas isso não anula a sua busca pela estabilidade na relação com Ocidente — e especialmente com os EUA de Donald Trump.

https://observador.pt/especiais/xi-jinping-quer-que-trump-passe-de-rival-a-parceiro-mas-nao-abdica-da-ameaca-de-taiwan/

Na comparação entre Putin e Trump, “ficou bem claro quem é amigo e quem não é”

Dois chefes de Estado caminham numa passadeira vermelha na praça Tiananmen. Primeiro, passam as tropas em revista. Depois, são recebidos por um mar de crianças chinesas, que cantam “Bem-vindo” em mandarim, enquanto acenam uma bandeira chinesa e uma bandeira azul, branca e vermelha. A receção formal termina com uma reunião bilateral no Grande Salão do Povo. Foi este o cenário vivido por Vladimir Putin em Pequim na manhã desta quarta-feira (madrugada em Lisboa). Mas a descrição é exatamente a mesma da receção feita a Trump na semana passada.

Apesar das semelhanças, a imprensa russa faz questão de notar a diferença de contexto e distanciar o líder do Kremlin do seu homólogo norte-americano. A visita de Trump é descrita como “uma visita de Estado, o mais alto nível de uma visita diplomática”, enquanto a passagem de Putin foi uma “visita oficial de apenas um dia”. “E ainda assim, ficou bem claro quem é amigo e quem não é”, pode ler-se no semanário russo com ligações ao Estado, Argumenty i Fakty. “Xi referiu-se ao Presidente russo como ‘um velho amigo’. O Presidente dos EUA não recebeu os mesmos elogios da sua parte“, continua o correspondente. Apesar de estes detalhes serem vincados pela imprensa russa, a verdade é que o protocolo de receção chinês se aplica às diferentes visitas diplomáticas e que Xi já se referiu a Trump como amigo noutras ocasiões.

"[A China e a Rússia são] as grandes potências responsáveis [que combatem] o bullying unilateral e as ações que revertem a história."
Xi Jinping, em declarações ao lado de Vladimir Putin

A mesma publicação destaca ainda que durante a visita de Trump à zona privada da Cidade Proibida, o Presidente dos EUA questionou Xi sobre que outros líderes já tinham tido a mesma honra. “Poucos. Putin, por exemplo”, terá dito o líder chinês. Outros títulos da imprensa de Moscovo criticam ainda a falta de conhecimentos de Trump sobre a cultura chinesa e a falta de “conquistas concretas” no fim da visita — limitações que dizem não encontrar na visita de Vladimir Putin.

25 anos depois da assinatura do Tratado de Boa-Vizinhança e 30 anos depois do acordo de parceria estratégia, a verdade é que Moscovo e Pequim têm uma história de boas relações muito mais longa que qualquer um dos dois com os Estados Unidos. E os dois líderes fizeram questão de ressalvar este triângulo de poder nas suas declarações, tendo ambos destacado que as relações sino-russas alcançaram “o nível mais alto de uma parceria compreensiva estratégica” (nas palavras de Xi) ou “um nível sem precedentes” (nas palavras de Putin).

“Um dia separados parecem três outonos”, caracterizou o Presidente russo, utilizando uma expressão idiomática chinesa que expressa um sentimento de saudade. Mais pragmático (e menos poeta), Xi exaltou a relação entre a China e a Rússia — as “grandes potências responsáveis” — por contraste com o “bullying unilateral e as ações que revertem a história”, num mundo “complexo e volátil, com hegemonia unilateral desenfreada”. Apesar das alfinetadas aos EUA, os especialistas destacam que Pequim continua a precisar da estabilidade que cultivou na semana passada. Afinal, e apesar das palavras de Xi e da História em contrário, neste momento, a China dialoga de igual para igual apenas com os EUA e não com a Rússia.

Educação, comércio, cultura e o Power of Siberia 2: os acordos entre Moscovo e Pequim

A primeira reação de Trump e Xi às negociações da semana passada foi “positiva”. Os CEO das maiores empresas norte-americanas, que viajaram a bordo do Air Force One, fizeram uma leitura semelhante. Contudo, passado uma semana, os detalhes sobre que tipo de acordos ficaram fechados são menos claros: através de declarações de ambas as partes, sabe-se que a China se comprometeu a gastar anualmente 17 mil milhões de dólares em importações de produtos norte-americanos e que ficou acordada a criação de uma “câmara de comércio”, cujo modelo de funcionamento não foi detalhado.

No caso sino-russo, os resultados são mais evidentes. Os ministros russos assinaram mais de 20 acordos com os seus homólogos chineses, em diversas áreas, principalmente educação e cultura — foram assinados, por exemplo, acordos para cooperação na preservação de monumentos, investigação científica, proteção de propriedade intelectual e promoção da indústria cinematográfica — mas também investimentos conjuntos na indústria automóvel e na resposta a catástrofes naturais, segundo relatou a agência noticiosa russa RIA.

Entre a longa lista de acordos, o porta-voz do Kremlin destacou um em particular.”Existem os parâmetros básicos de acordo para o gasoduto Power of Siberia 2. Isto inclui tanto o mapeamento como o método de construção”, declarou Dmitry Peskov, que salientou que “ainda não há um prazo claro” para avançar com o projeto. “Alguns detalhes têm de ser acertados, mas, de um modo geral, já existe um acordo”, elaborou.

Power of Siberia 2 refere-se a um plano para a construção de um gasoduto entre os campos de gás natural da Sibéria e o interior da China, através da Mongólia. O plano é antigo e os seus avanços têm sido adiados por Pequim, mas a crise energética causada pelo bloqueio no Estreito de Ormuz podem ter levado o Executivo chinês a mudar de posição. “É uma conquista significativa“, rematou Peskov.

O encontro desta quarta-feira é mais um passo no aprofundamento da cooperação entre as duas partes, que Xi Jinping definiu como “um novo ponto de partida” nesta relação. O ponto de partida deste intensificar pode ser identificado na invasão russa da Ucrânia. Depois disso, alienado e debaixo de sanções dos países ocidentais, o Kremlin virou-se para Pequim à procura de apoio. Encontro atrás de encontro, o líder chinês continua a garanti-lo a Moscovo, apesar do desequilíbrio de forças.

https://observador.pt/especiais/depois-de-trump-putin-visita-pequim-procura-ser-util-e-ajudar-xi-a-afirmar-a-china-como-o-centro-da-ordem-internacional/

Por um lado, porque continua a apoiar economicamente um país que enfrenta cada vez mais dificuldades no campo de batalha contra a Ucrânia. Por outro, porque o coloca, perante o olhar internacional, no mesmo patamar que o Presidente da maior potência, económica e militar, do mundo. A complexidade desta relação (e dos motivos para ter sido aprofundada) não transparece nas palavras e interações de Xi Jinping e Vladimir Putin, que insistem numa relação “de igual para igual”.

"No meio da crise no Médio Oriente, a Rússia continua a manter o seu papel de fornecedor fiável de recursos, enquanto a China continua a ser um consumidor responsável desses recursos."
Vladimir Putin, sobre a guerra no Irão, um tópico pantanoso na relação com Xi Jinping

Contexto internacional: o tema que define a relação e é discutido à porta fechada

Tanto Putin como Trump classificam Xi Jinping como um “amigo”. Contudo, os especialistas apontam, de forma unânime que a China não mantém uma aliança com nenhum dos dois. Os EUA são um rival, com quem procuram alcançar estabilidade, enquanto a Rússia é um parceiro estratégico, com um alinhamento motivado por propósitos económicos e o enquadramento internacional.

Não é portanto surpreendente que o plano internacional tenha sido destacado por ambos os líderes. Contudo, esta é a área de ação em que Xi e Putin mais chocam de frente. Isto porque Moscovo está envolvido numa guerra na Europa e a apoiar a guerra do Irão contra os EUA, ao mesmo tempo que Pequim está a abrir as suas portas aos investimentos ocidentais e precisa de estabilidade para que sejam bem-sucedidos.

As declarações dos dois chefes de Estado sobre a guerra no Irão refletem bem este território pantanoso da relação. Por um lado, o tema é sempre enquadrado pelo ângulo do bilateralismo. “No meio da crise no Médio Oriente, a Rússia continua a manter o seu papel de fornecedor fiável de recursos, enquanto a China continua a ser um consumidor responsável desses recursos”, declarou Vladimir Putin.

Por outro, os apelos à paz são feitos de uma forma superficial, com críticas dissimuladas, sim, mas sem nunca pressionar diretamente Teerão ou Washington (ou fazer qualquer referência ao seu próprio envolvimento no conflito). “O fim total da guerra não admite demora, o reinício das hostilidades é ainda menos desejável e a persistência nas negociações é particularmente importante”, afirmou por sua vez Xi Jinping.

Contudo, à porta fechada, ambos parecem ter mais à vontade para discutir este tema abertamente. Durante a tarde desta quarta-feira (manhã em Lisboa), o conselheiro de política externa do Kremlin desvendou, em declarações à televisão russa, o menu de temas do último evento de Putin em Pequim, que será um chá privado e mais informal. “Ucrânia, Irão e as relações com os EUA“, resumiu Yuri Ushakov.