A música é o coração da Eurovisão, só que as votações nem sempre seguem a melodia. Ao longo da história do festival, países vizinhos com fortes laços culturais e políticos foram atribuindo pontuações elevadas uns aos outros. Na edição de 2026, o júri da Moldávia fugiu à regra e não deu boas pontuações à Roménia nem à Ucrânia, dois países vizinhos, e a reação foi tão intensa que levou à demissão do diretor da estação televisiva Teleradio-Moldova, avançou a Moldpres.
Na competição cada país atribui dois conjuntos de pontos, um vem do júri e outro dos espectadores. Durante a final do festival, que decorreu este sábado, o público moldavo atribuiu 12 pontos à Roménia e 10 à Ucrânia, ambos países vizinhos. Em contrapartida, o júri da Moldávia deu apenas três à Roménia e zero à Ucrânia, atribuindo os 12 à Polónia e os 10 a Israel.
Esta situação gerou várias discussões online. Numa publicação do artista Satoshi, que representou a Moldávia na Eurovisão, podem ler-se vários comentários de desagrado: “Que vergonha Moldávia… 3 pontos? Nós demos 10… hipócritas” é apenas um dos exemplos.
Rita Engleza, a mulher que partilhou em direto a votação do júri da Moldávia, publicou uma declaração nas redes sociais após o programa. Engleza contou que, assim que soube as pontuações, quis recusar-se a apresentá-las, de acordo com o vídeo traduzido pelo Daily Romania. “Quando recebi os resultados (…) e vi ‘Roménia, 3 pontos’, fiquei chocada. (…) Primeiro, afastei-me por alguns minutos. Não sabia como me recompor, sabia que tinha que entrar em direto dali a meia hora. (…) Tenho uma audiência de 1,6 milhões de pessoas da Roménia. Não posso olhar para a câmara e dizer que lhes demos 3 pontos”, relatou.
https://twitter.com/daily_romania/status/2055975705469431835
Depois da reação negativa do público, Vlad Țurcanu, diretor da Teleradio-Moldova — emissora nacional de rádio e televisão — renunciou ao cargo na segunda-feira, descrevendo a falha do júri em reconhecer as “sensibilidades” entre vizinhos como “extraordinária” e “grave”, referiu o The Guardian.
“Embora nos tenhamos distanciado das decisões do júri (…), a votação realizada é da nossa responsabilidade e, principalmente, minha, como chefe da instituição”, disse Turcanu, citado pela Moldpres. No dia 17 de maio, a Teleradio-Moldova publicou um comunicado onde afirmou que “não influenciou de forma alguma a decisão do júri” e que “procurou garantir a transparência do processo”. Inclusivamente, descreveu as competências que os especialistas devem ter para assumir o cargo e mencionou o nome dos responsáveis nesta edição.
Alexandra Căpitănescu, artista que representou a Roménia, agradeceu aos fãs moldavos que votaram na música Choke Me. “Não estamos chateados com o júri moldavo, que pontuou da maneira que achou melhor, e não é normal que uma nação inteira seja responsabilizada pela decisão de sete pessoas”, afirmou, segundo o Romania Journal. Căpitănescu ficou em 3.º lugar na final.
Para Anatol Salaru, antigo ministro da Defesa da Moldávia, o que importa é o voto do povo. “Foi um voto entre irmãos! O resto são detalhes insignificantes. A reunificação não será votada por um júri, mas pelo povo e para o povo”, escreveu, numa publicação no Facebook.
No início do século XX, grande parte do território da Moldávia pertencia à Roménia. A Presidente da Moldávia, Maia Sandu, chegou a afirmar, no início deste ano, que votaria pela unificação com este país, caso um referendo fosse realizado, noticiou o The Guardian. Sobre as votações, Sandu afirmou: “Acredito que não devemos permitir que nada nem ninguém afete as relações entre os dois países. É importante que o povo da Moldávia demonstre o maior apreço pelos artistas romenos. Isso é o que mais importa”, citada pela ESC XTRA.
O país vencedor da 70.ª edição do Festival Eurovisão da Canção foi a Bulgária, com o tema Bangaranga, interpretado pela cantora Dara. É a primeira vitória do país, com 516 pontos.
https://observador.pt/2026/05/17/bulgaria-vence-70-a-edicao-do-festival-eurovisao-da-cancao-com-bangaranga/
Texto editado por Carlos Diogo Santos