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(A) :: Saem os jovens qualificados, ficam os da Climáximo

Saem os jovens qualificados, ficam os da Climáximo

Longe de mim insinuar que os jovens da Climáximo não vão a lado nenhum. Não, estes jovens continuarão a ir a sítios. Nomeadamente a supermercados. Pelo menos enquanto houver produtos para furtar.

Tiago Dores
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Tenho de dar o braço a torcer — desde que concordemos não ser ao jeito das chaves de braço da Ronda Rousey (pesquisem; cultivem-se; vejam porrada, por amor de Deus). Entendidos sobre isto, dou o braço a torcer, de bom grado, e reconheço a eficácia do governo de Luís Montenegro. Anteontem, o primeiro-ministro afirmou querer que os jovens não saiam do país para aproveitarem o seu potencial aqui, e de imediato já é quase impossível apanhar um avião para sair de Portugal em qualquer um dos aeroportos nacionais.

É verdade que além dos jovens portugueses, também crianças, semi-idosos e velhos de todas as nacionalidades estão com dificuldades em abandonar o território nacional, por problemas lá com o sistema dos passaportes, ou o que é. Mas concentremo-nos no que realmente importa: os jovens portugueses estão ou não estão a abandonar o país a um ritmo inferior? Estão. Concordo que não é uma medida exactamente cirúrgica, mas que diabo, também não passámos de, num dia, andar sobre quatro apoios para, no dia seguinte, estarmos a fazer operações ao coração. É dar tempo a este governo. Pelas minhas contas, é dar mais cerca de 1,9 milhões de anos de mandato à AD para que nem mais um jovem, um que seja, volte a pôr um pé em Ayamonte.

Enquanto não chegamos lá, continuarão a sair jovens de Portugal. Mais grave ainda: os jovens que saem de Portugal são os jovens mais qualificados. Ainda mais grave ainda: como os jovens que saem de Portugal são os jovens mais qualificados, não só perdemos este jovens mais competentes, como é garantido que ficaremos, para sempre, com os jovens da Climáximo.

Atenção: não quero com isto dizer que os jovens da Climáximo não vão a lado nenhum. Nada disso. Os jovens da Climáximo continuarão a ir a sítios. Por exemplo ao supermercado. Pelo menos enquanto os estabelecimentos tiverem produtos para furtar. Podem demorar um bocadinho a chegar lá, os jovens da Climáximo, se pelo caminho lhes der vontade de se deitarem no chão a bloquear uma artéria rodoviária importante. Ou podem demorar um bocadão, se pelo caminho lhes der vontade de bloquear uma artéria rodoviária importante, por intermédio de se colarem ao asfalto com Super Cola 3. O que importa é que eles podem demorar um bocado a chegar lá mas, se é para escangalhar qualquer coisa que funciona minimamente bem — e em todo o caso infinitamente melhor do que em qualquer Cuba que veneram, mas para onde teimam em não emigrar — eles chegam lá!

Até bastante a propósito, o que também não vai a lado nenhum é o anti-semitismo. O anti-semitismo é o Toyota das discriminações: veio para ficar. Aliás, há quem diga que se o mundo acabar (é mais “quando”, mas tudo bem) a única coisa que sobrevive são as baratas, mas essa afirmação carece de rigor. Se o mundo acabar (já referi que é mais “quando”?), a única coisa que sobrevive são as baratas e o anti-semitismo. Que não faltarão destes insectos nojentos com desabafos do género: “Eh pá, é verdade que já não temos óptimos restos de comida humana para papar, mas pelo menos livrámo-nos dos judeus.” Enquanto tomam o lugar deixado vago pela extinção dos escaravelhos e ocupam o resto dos seus dias a empurrar bolas de cocó.

Estava longe de antecipar o fecho do parágrafo anterior, confesso… Mas enfim, a pena flui, o texto ganha vida própria e vem à baila matéria excrementícia. Não completamente a despropósito, diga-se, pois quero mencionar o Festival Eurovisão da Canção. Mais precisamente o boicote de Espanha, Irlanda, Eslovénia, Islândia e Países Baixos ao certame, por causa da participação de Israel. É que fala-se muito do poder da música para unir as pessoas, mas a verdade é que se a música tivesse o mesmo poder de unir as pessoas que tem o anti-semitismo, eu neste momento estava a trautear o Imagine do John Lennon. E não estou. Mais depressa trauteio A Internacional, como o Rui Tavares. Mas em muito mais afinado. Agora, no dia em que me apanharem a trautear algum destes hinos comunistas, mandem-me abater. Ou colem-me com Super Cola 3, ao lado dos Climáximos, na Segunda Circular em hora de ponta e dia de greve do metro.