De férias no Algarve num supermercado aparece o Zé Pedro. Pega no nosso filho do meio e pergunta: “Posso comprar-te?”. O Francisco, 5 aninhos, sem perceber muito bem a proposta, sorri, maroto. No final das compras, já nos tínhamos esquecido do assunto, rompe o silêncio da aventura em que estivera mergulhado e avança: “Compras-me outra vez?”. É a “adrenalina” da monotonia. Não fosse o arcebispo católico americano Fulton Sheen, eu não teria chegado ao alcance dela. É por estas e por outras que a sua beatificação está marcada para Setembro.
Ganhou popularidade nos anos 50, milhões assistiam na TV ao seu Life is worth living. Muito barroco, cheio de rendas e púrpuras – mais um personagem de um filme de mistério e terror do que um santo -, com quem tenho privado no Instagram. Tenho verificado a intuição de que vale a pena conhecer este homem de olhar penetrante de quem em tempos comprei um livro, Moods and Truths.
O homem moderno odeia a repetição, com a mesmo força que ama o choque e a novidade. E fá-lo porque entende que a vida é movimento para uma nova direção e por isso, e sem o aparato e o lightning e os trovões do Sinai, muda de mulher, de trabalho, de “guerra” (como faz Trump, dizem), de sexo, de carro, mas, importa sublinhar, escrevendo para si novos dez mandamentos. Não conheceu telemóveis mas a ideia do popular comunicador aplica-se ao scroll que nos tem invadido , uma procura desenfreada pela novidade que contudo vem apenas a redundar num amargo de boca.
Tal como o Francisco, também eu à minha avó materna nunca critiquei o facto de me contar pela enésima vez a mesma história. “If you tell the child a delightful fairy story, the child will never say, ‘Ó, that is an old one’… But he will say, ´Tell me again”. Ou seja, aqueles que gozam da vida em plenitude – the child, God and His Incarnate Son, Our Blessed Saviour – “find a positive thrill in monotony”. Eureka, digo eu. Nunca entendi tão a fundo porque ganho entusiasmo nas minhas monotonias. Eu posso imaginar Deus com aquela alegria do Francisco dizer ao sol cada manhã: “Do it again”. Ou à noite às estrelas, e à lua: “Do it again”. E o americano continua com evidentes exemplos, a mostrar que Deus não nos deixou ao abandono tendo por isso enviado o Seu Filho para nos ensinar as lições da monotonia – e são várias, como desenvolve num dos ensaios do livro que referi, The thrill of Monotony.
Enquanto comíamos um fantástico bife enchi-me de curiosidade com a Margarida, a nossa mais velha, que é meio americana: Como é que traduzes “Thrill”?, e olhei-a naqueles seus olhos curiosos, mas também literalmente gigantes e não demorou muito a encontrar a palavra portuguesa: “Adrenalina?” .
“É isso mesmo”, e logo santo Agostinho se juntou ao “Banquete”: duas adrenalinas fizeram duas Cidades, e falei-lhe da Cidade de Deus, no célebre livro XIX, de como o filósofo aí distingue entre o amor de si que sabe pôr as coisas no seu lugar, do outro amor de si completamente desorbitado. São adrenalinas que levam a cidades opostas, a da paixão que cedo acaba, e a da construção sólida que vive da monotonia da boa repetição ontológica. Até porque mãe, diz ela e muito bem, ‘não é a monotonia que mata uma relação’. O que mata uma relação é o ela ser reduzida à adrenalina que se consome em lume efémero, e não à adrenalina que dá vida em abundância. “Uma relação dá trabalho, exige presença, intenção e esforço dos dois lados”, conclui.
O problema é que quem não aprendeu a lição desconhece o que é e para que serve a vida. Em vez de passar no exame, o homem moderno, pagão, farta-se e muda os testes; em vez de trabalhar para um ideal, muda o ideal; em vez de tender repetidamente em direção a um ponto fixo, altera o seu ponto de vista e batiza-o de progresso.
Pelo contrário, aquele que aprende a reconhecer os sinais da existência e da vida não tem lugar para o tédio, mas antes, todo o passo que dá – e mesmo o recuar pode ser recuperado – tem o olhar erguido, é um caminhar em direção à meta, num exercício de repetição após repetição comparável ao do músico, ao do escultor, ou do atleta… Seja no meio das correrias do tempo, seja na vida da clausura trapista (que conheço de perto, vim há semanas do Mosteiro do Palaçoulo), quem assim vive testemunha uma intensidade que contagia incendiando tudo e todos, há séculos…
Há quem diga – outra vez Javier Cercas – que a descoberta de um sentido não depende de mim, que é uma questão de fé. Mas quem disse que a fé é apenas um dom ou um sentimento? Não foi Fulton Sheen, nem S. Tomás, seguramente. Há todo um trabalho inteligente e livre sobre os indícios de credibilidade que as coisas e as pessoas nos dão. A começar “em casa” vale a pena interrogar as razões do meu interesse por determinadas monotonias, e não por outras. Por exemplo, sei lá, porque vou ao barbeiro de sempre?
Numa das suas emissões Fulton Sheen disse que passava diáriamente uma hora junto ao Sacrário, junto a Jesus que o tinha salvo dando-se em resgate pelos homens. E como o Francisco, as time goes by, viro-me também para esse Senhor do tempo e da História, quero agradecer-Lhe e pergunto-Lhe: “Compras-Me outra vez?” E assim Life is worth living!