“Estamos firmemente na era agêntica do Gemini.” A afirmação é de Sundar Pichai, o CEO da Google, e serve de resumo a uma apresentação que, ao longo de duas horas, se centrou em inteligência artificial (IA) e em muitos agentes.
Não há divisão da empresa que escape à febre dos agentes de IA, a esperança da indústria tecnológica para automatizar (quase) todas as tarefas. A Google quer agentes na pesquisa, agentes para as compras e até agentes pessoais para fazerem o trabalho pelo utilizador.
Em Mountain View, na Califórnia, a conferência anual de programadores da tecnológica Google foi um desfilar de anúncios de modelos de IA, demonstrações com nervosismo à mistura e alguns suspiros de alívio quando a tecnologia colaborava. Mas também algumas indiscrições do Gemini — “queres fazer as tuas afirmações diárias agora?”, perguntou a uma das oradoras do Google I/O, que estava a ser acompanhado por muitos milhares em direto.
As respostas à Anthropic: a atualização da plataforma Antigravity e um rival para o Mythos
A Anthropic tem apenas cinco anos de vida mas não precisou de muito tempo para se tornar numa rival da Google na IA. Alguns dos anúncios feitos pela Google no I/O deste ano são respostas diretas a anúncios feitos pela empresa dos irmãos Amodei nos últimos meses.
Por exemplo, a Google apresentou uma nova versão da Antigravity, a sua ferramenta para escrita de código, que foi lançada em novembro de 2025. É um espaço onde tem de competir com o Codex da OpenAI ou o Claude Code, desenvolvido pela Anthropic.
A Antigravity 2.0 é uma plataforma “centrada em agentes” à qual é possível pedir para programar através de texto. Varun Mohan, o responsável pelo projeto, explicou que a plataforma conseguiu “desenvolver um sistema operativo funcional do zero”, ao “longo de 12 horas, com 93 sub-agentes”. Ou seja, a ideia é que haja uma automação de tarefas — enquanto o agente está a trabalhar, o humano pode estar a fazer outras coisas.
Mas não foi esta a única resposta da Google a produtos de outras empresas. Houve espaço na apresentação para falar sobre a “CodeMender, que encontra e corrige automaticamente vulnerabilidades”. Ou seja, algo semelhante ao que o modelo de IA Mythos, da Anthropic, faz.
https://observador.pt/especiais/apocalipse-de-vulnerabilidades-e-o-regresso-do-bug-do-milenio-mythos-deixou-o-mundo-em-alerta-e-com-razao-defendem-especialistas/
A Google explicou que “está a convidar hoje um grupo restrito de parceiros para testar a interface de programação de aplicações CoreMender”. Não revelou, no entanto, quem são as empresas envolvidas neste teste.
Spark, um agente “proativo” e a resposta ao fenómeno OpenClaw
A Google apresentou o Gemini Spark, que quer ser “o seu agente pessoal de IA”, resumiu Sundar Pichai. É um agente que “que trabalha mesmo com o computador desligado”, 24 horas por dia, sete dias por semana. Se a lógica do trabalho 24/7 parece familiar é porque é semelhante à proposta da OpenClaw, a plataforma que se tornou viral este ano.
“É possível trabalhar com o Spark da forma mais conveniente, através da app Gemini ou em breve através de email ou chat”, explicou Josh Woodward, vice-presidente do Google Labs e responsável pelo Gemini. Fez várias demonstrações das capacidades do agente, que consegue executar em simultâneo tarefas da vida profissional e da vida pessoal.
O Spark vai estar disponível no computador e também no smartphone (tanto para Android como para iOS), aceitando também pedidos por voz. No Android, vai ganhar em breve um espaço dedicado (Android Halo), para que o utilizador possa acompanhar o progresso das tarefas. Durante o verão, o Spark passará também a funcionar diretamente no Chrome.
Por agora, o Gemini Spark vai estar apenas ao alcance de um grupo de teste “fidedigno”. Na próxima semana, chegará uma versão beta aos subscritores dos planos Google AI Ultra nos EUA.

Mais e mais modelos: do Gemini 3.5 ao Omni para gerar vídeos
Não seria uma apresentação da Google sem atualizações de modelos e comparações sobre desempenho. Assim, Sundar Pichai apresentou o modelo Gemini 3.5, que promete ser “quatro vezes mais rápido” do que os rivais. É o modelo 3.5 que vai amparar uma boa parte das novidades apresentadas no evento deste ano.
Na área de criação de vídeo, a Google revelou o Omni, um modelo multimodal que é capaz de gerar vídeos “a partir de qualquer input“, disse Demis Hassabis, da Deepmind. Há uma diferença em relação ao Veo, outro modelo de vídeo da Google: aqui pode apresentar um vídeo e pedir ao modelo para alterar coisas. Por exemplo, tem um vídeo de uma escultura no telemóvel — é possível carregar esse vídeo e pedir para que a escultura seja feita de bolhas.
A Google destacou que o Omni tem melhores noções sobre questões como “gravidade, energia cinética e dinâmica de fluidos”, permitindo obter cenas mais realistas.
A versão Flash está disponível a partir desta terça-feira, através da aplicação Gemini, na plataforma Google Flow e no YouTube Shorts.
https://youtu.be/KUyRq7szZsM
A caixa de pesquisa muda já — e passou pela “maior transformação em 25 anos”
Há já algum tempo que a Google usa IA para refinar os resultados de pesquisa. Mas é notório que, desde o ano passado, a IA deixou de estar apenas nos bastidores e passou a ser mais visível para os utilizadores. São exemplo disto os resumos com IA quando se faz alguma pesquisa (AI overviews) ou mesmo o Modo de IA. Segundo a tecnológica, este modo de pesquisa tem “mil milhões de utilizadores”.
Este ano, Liz Reid, a vice-presidente que tem em mãos a divisão de pesquisa da Google, voltou a subir ao palco para apresentar mudanças. Além de as pesquisas passarem a ser apoiadas pelo novo modelo Gemini 3.5, a Google lançou uma “nova caixa de pesquisa inteligente com IA”. Em comunicado, Liz Reid chama-lhe a “maior atualização em mais de 25 anos”. A Google diz que “reformulou” a caixa de pesquisa para ter uma ainda maior presença da IA.
Em palco, Reid explicou que se em tempos a caixa de pesquisa era estática, agora vai mudar e adaptar-se à forma como se está a pesquisar (texto, voz, imagem, etc).
As mudanças começam a ser visíveis já a partir desta terça-feira. E, mesmo que o utilizador comece uma pesquisa simples, poderá ser transitar para o modo de IA e fazer mais perguntas.
https://youtu.be/p6EBMG8OEBI
Além desta alteração, também a pesquisa não vai escapar aos agentes, só que serão “agentes de informação” na pesquisa. “São agentes de IA personalizados” que podem ser configurados para “trabalhar em segundo plano, 24 horas por dia e 7 dias por semana” para encontrar informação. Por exemplo, é possível ter um agente de pesquisa que funcionará apenas para alertas sobre novos ténis criados por artistas ou para encontrar uma casa à venda com determinadas características. O agente estará sempre à procura de novas ligações, notícias, etc, para enviar alertas ao utilizador. Os agentes de informação serão disponibilizados este verão, a começar pelos subscritores dos planos Google AI Pro e Ultra.
Depois de teasers há um ano, a promessa de óculos inteligentes com áudio “no outono”
Há um ano, a Google fez demonstrações em palco de óculos inteligentes, com um display integrado. Seria a partir daí que o utilizador podia ter indicações de navegação, ler emails ou mensagens diretamente nos óculos. E, na altura, foi anunciado que a empresa estava a trabalhar com a Samsung no desenvolvimento desta tecnologia.
https://observador.pt/especiais/google-em-modo-ia-inteligencia-artificial-em-quase-tudo-e-literalmente-a-frente-dos-olhos-com-oculos-inteligentes/
Um ano depois, a Google não revelou formalmente um produto para colocar à venda. Mas apresentou dois visuais de modelos de óculos: uns em parceria com a Warby Parker e outros, uns óculos de sol, em parceria com a Gentle Monster. Deixou os óculos com display para o fim do ano e, “para o outono”, terá os seus primeiros óculos com áudio. Ou seja, óculos sem ecrã mas que vão conseguir responder aos pedidos de voz do utilizador e, com uma pequena coluna, transmitir informações por áudio. Na demonstração foi exemplificado como é que os óculos conseguem, através de um toque prolongado, acionar o Gemini ou até procurar dados no smartphone. Para já, foi dito que estes óculos vão ser compatíveis com a app da Uber, o Google Maps ou o tradutor da Google.
