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Grupo francês quer produzir na Figueira da Foz combustível verde para aviação usando biomassa. Investimento pode chegar a 1.200 milhões

Investidores franceses preveem investir entre 800 e 1.200 milhões de euros. Unidade construída de raiz aposta na biomassa como matéria-prima para produzir SAF, combustível sustentável para a aviação.

Ana Suspiro
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O grupo francês Elyse Energy apresentou um projeto para a construção de uma unidade de produção de combustível sustentável para a aviação a localizar na Figueira da Foz. Pretende a instalação de uma fábrica de raiz dedicada à produção de SAF (Sustainable Aviation Fuel) através da conversão de metanol produzido a partir de biomassa.

A unidade industrial Lusitânia envolve um investimento entre 800 milhões e 1,2 mil milhões de euros e será, caso avance, a segunda unidade dedicada à produção deste combustível em Portugal além do projeto da Galp, mas, ao contrário deste, não estará associada a qualquer refinaria. Todo o complexo industrial será construído de raiz. Para a matéria-prima, o projeto prevê a produção de e-biometanol a partir da valorização de resíduos biológicos, nomeadamente biomassa. A zona centro é muito afetada por incêndios e tem instaladas várias unidades de pasta e papel.

O acesso a biomassa foi um dos fatores que atraiu o grupo francês para esta localização, explicou ao Observador Benoît Decourt, diretor-geral de assuntos públicos e estratégia da Elyse Energy. Outros motivos de atração foram a ligação com capacidade à rede elétrica e a proximidade de portos, como o da Figueira da Foz e o de Aveiro, já que o projeto aposta na exportação. Esta localização em particular é ainda próxima de uma linha ferroviária renovada que pode acolher comboios de mercadorias de grande dimensão.

Portugal, acrescenta Benoît Decourt, tem recursos para desenvolver este tipo de combustíveis, apontando para a abundância de eletricidade de origem renovável e para a disponibilidade de resíduos vegetais. O grupo espera fechar a decisão final de investimento até final de 2029 com o objetivo de iniciar a produção em 2032. A unidade deverá criar 100 postos de trabalho.

A Câmara da Figueira da Foz já aprovou um procedimento de reclassificação do solo rústico para uso industrial de forma a permitir a instalação desta unidade na freguesia da Marinha das Ondas, junto à Navigator e aos pavilhões da Lusiaves. Esta reavaliação já motivou um esclarecimento da autarquia liderada por Santana Lopes para assegurar que a câmara não deu ainda a autorização definitiva à instalação desta indústria.

Segundo a documentação submetida à Agência Portuguesa do Ambiente, o metanol a usar como matéria-prima do SAF será produzido na mesma unidade, a partir da gaseificação de biomassa e da incorporação de hidrogénio renovável. O biometanol será convertido em querosene sintético pelo processo methanol-to-jet. A produção prevista é de 200 mil toneladas por ano de jet fuel sustentável.

É uma quantidade inferior à estimada para a unidade de produção de biocombustíveis avançados, HVO, que a Galp está a instalar em Sines, mas esta combina a produção de gasóleo e de SAF que pode variar em função do mercado. Aliás, se produzir só jet para a aviação, a unidade da Galp terá uma produção inferior — de 180 mil toneladas por ano.

O complexo integrará as unidades de produção necessárias à gaseificação de biomassa e à sua incorporação, produção de hidrogénio renovável, síntese de metanol e conversão em combustível para a aviação, constituindo-se como “uma unidade integrada de produção de moléculas de baixo carbono”, lê-se na proposta de definição de âmbito do estudo de impacte ambiental que é a primeira fase para a avaliação ambiental do complexo. A unidade de eletrólise integrada no projeto da Elyse Energy é de 220 megawatts para produzir 30 mil toneladas de hidrogénio verde por ano, bem como oxigénio gasoso.

A produção aposta na valorização da fileira da biomassa florestal e agrícola, tirando partido dos resíduos florestais numa zona com elevada percentagem de floresta e marcada pela ocorrência de grandes incêndios. A biomassa lenho-celulósica será a principal matéria-prima para produzir o gás de síntese, que irá, por sua vez, ser usado para fabricar e-metanol. Estima-se o consumo de 100 mil toneladas de biomassa seca por ano, cuja principal origem serão as atividades de gestão e limpeza florestal.

Ao Observador, Benoît Decourt explica que o processo industrial pode recorrer a outras fontes de biomassa como os resíduos da agropecuária ou até importação. O projeto foi concebido para usar um leque alargado e diverisificado da matéria-prima, de forma a evitar uma concorrênca direta com outras indústrias que processam produtos florestais, como a madeira e a pasta e papel. O objetivo, realça, não é desviar recursos florestais valiosos de setores existentes, mas valorizar resíduos que são subaproveitados.

A Lusitânia — Unidade de Produção de SAF já deu entrada na Câmara da Figueira da Foz em fevereiro deste ano de um pedido de informação prévia para o projeto de arquitetura. Iniciou também o processo de avaliação ambiental junto da Agência Portuguesa do Ambiente. O promotor está a preparar a candidatura a Projeto de Interesse Nacional (PIN), mecanismo que facilita o processo de autorizações e licenciamentos, junto da AICEP (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal). Segundo o diretor-geral de estratégia da Elyse, o principal objetivo da candidatura é obter “reconhecimento do ponto de vista político para a importância do projeto” e não apoios públicos.

Há projetos europeus para produzir SAF com origem em resíduos, mas China está mais adiantada

A Elyse Energy é uma empresa de capital francês que opera em França, Espanha e Portugal, tendo como principal atividade o desenvolvimento, financiamento e operação de unidades de combustíveis sustentáveis.

Criada em 2020, a Elyse Energy descreve-se no site institucional como uma PME industrial francesa independente. Tem como principais acionistas a Falkor e a Vol-V, empresas francesas ligadas ao desenvolvimento de energia e gases renováveis. Em 2024, foi feito um acordo com parceiros financeiros que incluem fundos em infraestruturas para assegurar o financiamento dos investimentos.

A procura por combustíveis sintéticos de baixo carbono (emissões reduzidas de CO2) está a ser alimentada pelas metas europeias de descarbonização dos transportes e pelos objetivos fixados para o setor de aviação que está obrigado a incorporar percentagens crescentes de SAF no jet fuel — 2% este ano, 6% em 2030 e 20% em 2035. Para cumprirem, as companhias aéreas têm de encontrar fornecedores que dentro da Europa são insuficientes, o que cria oportunidade para estes novos investimentos. Até agora, diz Benoît Decourt, na Europa ainda não se produz SAF com origem em resíduos vegetais e biomassa, apesar de existirem vários projetos em pipeline.

A incerteza sobre a estabilidade da regulação europeia e o cumprimento dos prazos fixados pela União Europeia é a principal preocupação para quem quer executar estes investimentos.

Em causa está não apenas o desafio da sustentabilidade e das alterações climáticas, mas também a segurança energética europeia, destaca o diretor da Elyse, lembrando que quase todo o jet consumido na Europa vem de fora, importado diretamente ou produzido a partir de petróleo importado. Uma fragilidade que ganhou mais visibilidade com o bloqueio do Estreito de Ormuz.

“O que queremos promover na Europa já está a ser feito pela China pelas mesmas razões”, indica, acrescentando que mais uma vez os chineses estão um passo à frente.

Com sede em Lyon, a empresa é presidida por Pascal Penicaud e está a desenvolver outros projetos de produção de combustível sustentável para aviação e setor marítimo, em França e Espanha. Benoît Decourt indica que todos os projetos da Elyse estão ainda em desenvolvimento. O mais avançado é uma unidade no vale do Rhône para produzir e-metanol associado a uma plataforma da indústria química, tendo ainda como objetivo oferecer uma solução de descarbonização para a marinha comercial.

Em Portugal, a Elyse Energy é acionista do Rega Group que tem vários projetos de descarbonização industrial na região centro, tendo por base gases renováveis. Mas as duas operações são distintas.

O processo industrial de produção de jet fuel desenrola-se em cinco etapas: a preparação e secagem da matéria-prima, a produção de gás síntese através da gaseificação da biomassa, a produção de hidrogénio através de eletrólise da água, a síntese de e-biometanol a partir do H2 (hidrogénio) e gás síntese, e produção de SAF.

Com um consumo de água estimado em 3,8 milhões de metros cúbicos por ano, estão a ser estudadas alternativas para otimizar recursos hídricos disponíveis que são necessários para a eletrólise e demais processos industriais, e que passam pelo aproveitamento de águas pluviais e reutilização após o uso industrial.

O promotor já tem um memorando com a Águas da Figueira para o abastecimento de água através da ETAR (estação de tratamento de águas residuais) de Leirosa. O aproveitamento das águas residuais envolve a necessidade de uma estação de tratamento para processar água desmineralizada, essencial à produção de hidrogénio verde através da eletrólise.

O complexo industrial será abastecido de energia elétrica pela subestação de Lavos através de dois painéis de linha de muito alta tensão que serão construídos pelos investidores, através de um acordo com a REN. A origem renovável da eletricidade consumida será assegurada através de um PPA (acordo de compra de energia a longo prazo).

Promotores acenam com redução do risco de incêndio. Câmara valoriza empregos, mas diz que não há ainda aprovação

A recolha de biomassa, segundo os documentos apresentados, permite reduzir a carga de combustível nos terrenos. Em particular, através “de intervenções estruturais de gestão ativa da floresta, promoção de mosaicos de gestão e dinamização de cadeias de valor para a biomassa residual” e reforçar a viabilidade económica destas intervenções, na medida em que esta depende de uma procura “estável e previsível para os resíduos recolhidos”.

O projeto, acreditam os promotores, pode assim contribuir para a valorização energética dos resíduos florestais, em benefício dos promotores florestais, e para “a redução do risco estrutural de incêndios”.

O tema da biomassa pode levantar dúvidas. Outro projeto de produção de combustível sustentável que o grupo tem para a região dos Pirenéus Atlânticos suscitou protestos na cidade de Pau com manifestantes a recearem que a indústria recorresse ao abate de árvores para a obtenção da biomassa que necessita de matéria-prima. O diretor-geral de estratégia da Elyse afasta esse cenário, sublinhando que tal não é permitido pela lei.

A intenção de instalar na Figueira da Foz (freguesia da Marinha das Ondas, junto à Navigator e aos pavilhões da Lusiaves) um projeto de produção de combustível para aviação gerou “alguns (poucos) posicionamentos”, diz a autarquia num esclarecimento divulgado há pouco mais de um mês.

Entre os factos esclarecidos pelo vereador do urbanismo e planeamento, João Martins, está a garantia de que não foi aprovada a autorização definitiva para a instalação dessa indústria. Deu-se luz verde apenas para “o início do procedimento de reclassificação do solo rústico para urbano (uso industrial), com a abertura da discussão pública e avançando-se para a realização de uma reunião com as entidades do Estado competentes para a matéria em apreço”.

João Martins garantiu que a decisão final sobre a reclassificação dos terrenos terá de ser analisada “pelas entidades do Estado com competências nas áreas da saúde, ambiente, proteção civil e ordenamento do território” e alvo de participação pública.

Salvaguardando que será feita uma avaliação técnica, territorial e ambiental, o comunicado dá conta dos impactos positivos deste projeto para o concelho nomeadamente ao nível do emprego. Está prevista a “criação de cerca de 100 empregos diretos, com preferência por residentes no concelho da Figueira da Foz ou por quem aqui venha a fixar residência, bem como a geração de emprego indireto em empresas locais, designadamente na área florestal para fornecimento de biomassa”. Considerando também a fase de construção e o conjunto de atividades associadas, estima-se a criação de cerca de 600 postos de trabalho no total.

A empresa mostrou intenção, segundo a Câmara, de formar técnicos na Figueira da Foz e trabalhar com empresas locais no fornecimento de biomassa e na prestação de serviços.

A autarquia termina com o aviso: “Não podemos ignorar que os territórios que rejeitam sequer discutir investimento acabam, inevitavelmente, por ficar para trás em termos de desenvolvimento económico, criação de emprego e dinamização local. O nosso dever é avaliar com transparência, exigir garantias e defender o interesse da Figueira da Foz”.