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Cultura de Lisboa dá 250 mil euros à SIC para espetáculo de stand-up do festival Tribeca

A EGEAC celebrou contrato para dois espetáculos de Chazz Palminteri no Cinema São Jorge, mas SIC confirma que apenas haverá um. Autarquia não esclarece se apoio será o único ao festival este ano.

Joana Moreira
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A Câmara Municipal de Lisboa, através da EGEAC (Lisboa Cultura), vai apoiar com 250 mil euros um espetáculo organizado pelo festival Tribeca que acontece no próximo dia 10 de junho no Cinema São Jorge. De acordo com o site oficial da sala lisboeta, trata-se de um espetáculo de stand-up comedy com o título A Bronx Tale: One Man Show, do ator Chazz Palminteri, que deu origem ao filme homónimo de 1993, com realização e interpretação de Robert De Niro.

O contrato, que está publicado no portal Base, foi celebrado a 19 de março entre a EGEAC e a SIC — Sociedade Independente de Comunicação, e não menciona o festival Tribeca, mas nas redes sociais o espetáculo é apresentado no âmbito do certame. Aliás, no comunicado enviado às redações a 29 de dezembro pode ler-se: “O Tribeca Festival Lisboa e a Ageas apresentam, pela primeira vez em Portugal, o aclamado A Bronx Tale: One Man Show”. Uma notícia do Expresso, jornal que é detido pelo grupo Impresa, tal como a SIC, indica que o evento é “apresentado numa parceria com o próprio festival”.

O acordo — realizado sob o regime de contratação excluída, um mecanismo que permite à EGEAC contornar a obrigatoriedade de um concurso público, justificando-o pela natureza artística e exclusiva do evento — estipula dois espetáculos, nos dias 10 e 11 de junho. No entanto, a menos de um mês da data prevista, apenas uma sessão está anunciada. O Observador contactou o gabinete de comunicação do grupo Impresa, que confirma: “Será apenas esta apresentação, única”. Os bilhetes oscilam entre os 20 e os 45 euros e a bilheteira reverte na proporção de 20% para a primeira contratante (EGEAC) e 80% para a segunda contratante (SIC).

O Observador dirigiu uma série de perguntas à EGEAC, nomeadamente sobre o critério para o apoio ao evento, bem como a verba atribuída — recorde-se que, este ano, a empresa municipal de cultura optou por não apoiar o Festival Política por entender que “era o momento de apoiar novos projetos”, mas atribuiu 75 mil euros ao evento privado “Um Domingo na Avenida”, o “chic-nic” no Parque Eduardo VII com bilhetes entre os 150 e os 300 euros.

Questionámos, desde logo, a razão para, ao contrário do que estipula o contrato, estar anunciada apenas uma data de A Bronx Tale: One Man Show, 10 de junho, e nenhuma sessão para o dia 11 de junho, como determina o documento. A EGEAC justifica que “é habitual, em projetos com artistas internacionais, prever contratualmente mais do que uma sessão” e que “a comunicação inicia-se, por norma, com o anúncio de uma única data, podendo outras sessões ser divulgadas posteriormente em função da evolução da procura” — possibilidade que, entretanto, o Observador confirmou que não vai acontecer. Até ao momento, o espetáculo não está esgotado.

EGEAC paga por um espetáculo o mesmo que atribuiu a um festival

Procurámos esclarecer também se os 250 mil euros agora transferidos para a SIC para a realização deste espetáculo constituem a única verba concedida pela autarquia a um evento do festival ou se está previsto outro apoio financeiro para uma edição do Tribeca a acontecer ainda em 2026, mas a EGEAC decidiu não responder à questão colocada, dizendo apenas que “se trata de uma iniciativa pontual associada ao universo Tribeca, não correspondendo à realização do Festival Tribeca Lisboa, cuja edição anual ocorre em momento distinto”.

Tentámos ainda apurar junto da EGEAC qual o apoio concedido ao festival Tribeca anualmente, uma vez que nenhum dos contratos é público. Em dezembro de 2024, uma investigação da revista Sábado dava conta que o grupo Impresa, que detém a SIC, beneficiou de um financiamento público no valor de 750 mil euros para organizar a primeira edição do festival Tribeca, uma verba distribuída em três parcelas iguais de 250 mil euros, uma delas proveniente da EGEAC. O Observador tentou confirmar esses valores junto do gabinete da EGEAC, que confirma que “relativamente ao Festival Tribeca Lisboa, em 2024 a EGEAC Lisboa Cultura assumiu um investimento de 250 mil euros no âmbito da coprodução”. Já em 2025, “manteve-se o enquadramento de coprodução, tendo a empresa assegurado exclusivamente componentes técnicas, administrativas e de comunicação, não tendo sido assumidos encargos financeiros”. Sabe-se agora, e de acordo com o contrato assinado em março, que a EGEAC financiou um espectáculo único com o mesmo valor que atribuiu ao festival organizado pela Impresa.

Em julho do ano passado, uma reportagem da revista Sábado revelava como o gabinete do presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, terá dado instruções ao grupo Impresa/SIC, responsável pela produção do Tribeca em Portugal, sobre como conseguir apoio financeiro do município para ajudar a pagar a organização deste festival de cinema. Na altura, a Assembleia Municipal de Lisboa recomendou à autarquia que implementasse “um regulamento transparente e objetivo” para a atribuição de apoios financeiros a eventos culturais, e que promovesse uma auditoria ao financiamento atribuído ao festival de cinema Tribeca. A proposta do PS foi aprovada com os votos contra de IL e Chega, a abstenção de PSD, PPM, MPT, CDS-PP e deputada não inscrita Margarida Bentes Penedo (que se desfiliou do CDS-PP), e os votos a favor de BE, Livre, PEV, PCP, PS, PAN e dois deputados independentes dos Cidadãos Por Lisboa (eleitos pela coligação PS/Livre).