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(A) :: A herança, as contradições e as visitas ao trilho. Os indícios que levaram o filho do dono da Mango a ser suspeito de matar o pai

A herança, as contradições e as visitas ao trilho. Os indícios que levaram o filho do dono da Mango a ser suspeito de matar o pai

Jonathan Andic foi detido esta terça-feira mais de um ano e meio depois da morte do pai. O herdeiro do império Mango e de uma das maiores fortunas de Espanha terá premeditado o crime pela herança.

Martim Andrade
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A parte mais complicada do trilho já tinha ficado para trás. Isak e Jonathan, pai e filho, encontraram-se na manhã de sábado, dia 14 de dezembro de 2024, para caminhar em conjunto até ao Mosteiro de Monserrat, a cerca de 45km da cidade de Barcelona. Não era algo inédito, os dois homens da família Andic eram visitantes assíduos do percurso Les Feixades e iam equipados a rigor, preparados para as duras condições deixadas pelo mau tempo nos dias anteriores. No regresso, depois de terem já passado pelos principais caminhos estreitos e íngremes que permitem uma das melhores vistas da capital catalã, o quer suposto ser uma caminhada pacífica de fim de semana transformou-se numa tragédia. A poucos metros do parque de estacionamento onde tinham deixado o carro, Isak caiu de uma altitude de 150 metros.

A chamada para os 112 foi feita poucos momentos depois, a partir do telefone de Jonathan, que relatou ter ouvido o barulho de pedras a moverem-se, o que o fez olhar para trás e assistir à queda fatal do pai. O corpo de Isak foi recuperado naquele dia e, após uma breve uma investigação liderada pelos Mossos d’Esquadra, concluiu-se que se tinha tratado de um acidente, causado por um “deslize” do homem que fundou um dos maiores grupos de moda: a Mango. Rapidamente os ficheiros acabaram arquivados.

Mas esta certeza de que se tratava de um acidente não durou muito. Ou talvez nunca tenha sido mesmo uma certeza. No final de janeiro o caso da queda de Isak foi tratado como acidental, mas em março o parecer já era outro, porque os indícios se avolumavam.

O processo voltou assim a ser reaberto no dia 4 de março do ano passado, menos de três meses depois da morte do dono da Mango, a pedido do Tribunal de Instrução n.º5 de Martorell. Como testemunha única do alegado acidente, Jonathan foi interrogado mais do que uma vez pelas autoridades catalãs. Estes testemunhos, de acordo com os Mossos d’Esquadra, não terão sido consistentes com as declarações prestadas logo naquela tarde de dezembro em que se deu a tragédia. Estes primeiros indícios justificaram, em outubro de 2025, uma mudança formal do estatuto do herdeiro da Mango: passou de testemunha a suspeito de ter matado o pai.

Cerca de um mês antes, Jonathan Ardic tinha também disponibilizado o seu telemóvel para análise das autoridades, que procuravam possíveis motivos para o filho do empresário espanhol ter decidido matar o pai.

Mas a decisão do tribunal não foi bem recebida pela família e mesmos os advogados responsáveis pela execução da herança de Isak vieram publicamente em defesa de Jonathan. Pediram “respeito” pela família enlutada. Outros altos quadros da Mango criticaram o parecer da Justiça.

Foi a partir daqui que os interrogatórios deixaram de se limitar a Jonathan. Judith e Sarah Andic Raig, as outras duas filhas de Isak (com uma vida pública muito discreta), a atual  mulher, Estefanía Knuth, o seu irmão, Nahman e ainda o homem que ocupou o cargo de CEO da Mango, Toni Ruiz, foram alguns dos convocados pelos Mossos d’Esquadra para prestar esclarecimentos adicionais.

O objetivo, como esclarecia o La Vanguardia, era compreender os contornos da relação entre Jonathan e Isak e se existia alguma disputa que pudesse ter motivado o filho a matar o pai naquela caminhada. Quase um ano depois da queda de Isak Andic, as duas opções estavam em aberto, mas esta terça-feira, as autoridades confirmaram indiretamente que o episódio que foi declarado inicialmente como um acidente, afinal, terá sido mesmo um homicídio.

Jonathan Andic foi detido em sua casa, em Barcelona, e levado algemado para tribunal para prestar as primeiras declarações enquanto suspeito oficial de homicídio do pai. Depois do testemunho, a juíza ficou convencida que Jonathan teve uma “participação ativa e premeditada” e usa no despacho judicial a expressão que o filho do fundador da Mango tinha uma “obsessão pelo dinheiro” e uma longa disputa com pai por causa da empresa e da herança.

Jonathan ficou sujeito a uma série de medidas de coação: terá de se apresentar semanalmente ao tribunal que fica a poucas dezenas de quilómetros do local onde Isak morreu em 2024. Está impossibilitado de abandonar o país até ao final da investigação e o seu passaporte foi confiscado. E foi-lhe decretada uma de um milhão de euros, que foram pagos prontamente para que pudesse sair em liberdade.

https://observador.pt/2026/05/19/filho-do-fundador-da-mango-detido-em-espanha-por-suspeita-do-homicidio-do-pai/

As negociações pela herança, as críticas públicas e a “sucessão antecipada” que conturbou a relação entre pai e filho

A família foi rápida a reagir à detenção de Jonathan, confirmando que o filho mais velho de Isak estava a testemunhar “no âmbito do processo relativo ao acidente de 14 de dezembro de 2024”, mas que não podiam adiantar mais informações porque a investigação está “sob sigilo”. Porém, garantem que a sua cooperação com a justiça “tem sido e continuará a ser absoluta”, cita o jornal El País. Quando Jonathan já estava diante a juíza, um porta-voz da família Andic já foi mais taxativo nas suas declarações.

“Não há provas legítimas contra [Jonathan], nem serão encontradas”, afirmou, expressando que a família está convicta de que “a sua inocência é absoluta” e que tudo ficará provado no final do processo. A opção é mostrar uma família unida. Mas a relação familiar, ao longo dos últimos anos, tem mostrado ser tudo menos simples — e esse tem sido um foco das autoridades nesta investigação, de acordo com a imprensa espanhola.

Segundo os investigadores, Jonathan terá pressionado o pai durante anos por uma herança em vida. Isak Andic acabou por aceitar algumas exigências para preservar a relação com o filho. O conflito agravou-se quando o fundador da Mango começou a ponderar alterar o testamento e criar uma fundação solidária para canalizar parte da fortuna familiar. Os Mossos acreditam que Jonathan soube dessa intenção em meados de 2024 e que, a partir daí, tentou uma aproximação ao pai. A tensão entre ambos tinha raízes antigas e sobretudo empresariais.

A morte de Isak mostrou também que a relação entre Estefanía Knuth, com quem o fundador da Mango estava casado há seis anos, e os filhos de Andic (as duas filhas e Jonathan eram do seu primeiro casamento, com Neus Raig), tem enfrentado algumas dificuldades. Isak definiu a sua herança logo no verão de 2023 após as pressões do filho: a sua fortuna, a quinta maior em Espanha, seria dividida igualmente pelos filhos. Jonathan, Judith e Sarah herdariam cada um 31,66% da Mango — o que os obrigava a entenderem-se permanentemente.

Já Knuth, segundo o El País, não terá ficado satisfeita. A antiga golfista profissional e herdeira de uma rica família catalã-alemã ligada ao setor hospitalar, mantinha uma relação estável mas intermitente com o fundador da Mango desde 2018. Nunca viveu oficialmente com Andic, mas era tratada socialmente quase como viúva do empresário. Após a morte do fundador da Mango, herdou cinco milhões de euros, valor que terá considerado insuficiente. Segundo a imprensa espanhola, chegou a reclamar cerca de 70 milhões. A partir da abertura do testamento, em março de 2025, as relações entre Estefanía e os filhos de Andic deterioraram-se profundamente e passaram a comunicar sobretudo através de advogados.

Assim, o período de luto ficou marcado por negociações infindáveis entre as equipas legais da viúva e dos filhos, com o intuito de tentar resolver esta situação de forma “amigável”. Isak morreu em dezembro de 2024 e, em outubro de 2025, quando Jonathan foi declarado suspeito do homicídio do pai, as duas partes ainda não tinham chegado a um acordo. As negociações aceleraram numa altura em que o caso passou de um acidente indiscutível para um possível homicídio, no final do ano passado. Os bens foram redistribuídos e, para satisfação de Estefanía Knuth, os cinco milhões de euros que lhe foram prometidos sextuplicaram, tendo passado a receber aproximadamente 30 milhões de euros do património do marido.

Não são conhecidos grandes detalhes da relação entre Knuth e Jonathan Andic. Sabe-se, no entanto, que Jonathan ligou primeiro à mulher do pai naquela tarde de sábado em dezembro, poucos instantes após ter assistido à queda fatal de Isak, antes de ter feito a chamada para as autoridades. O que foi discutido naqueles breves momentos não foi divulgado pela polícia, que teve acesso ao telefone de Jonathan no decorrer da investigação.

Apesar de não se saber os detalhes daquela chamada, fontes próximas da investigação relataram ao El País que o testemunho de Estefanía Knuth foi determinante para o avançar do caso. A viúva terá relatado que Isak e Jonathan passaram por períodos de “relações tensas”, dando o exemplo de um desentendimento em 2015 para sustentar o argumento.

No ano anterior, o fundador da Mango afastou-se do império que criou (nascido em Istambul, na Turquia, em 1953, numa família sefardita judaica, mudou-se em adolescente com os pais para Barcelona, onde começou a vender roupa e acessórios antes de fundar a Mango e construir o império da marca) para fazer um ano sabático a navegar pelo mundo no seu veleiro e deixou-o nas mãos do filho mais velho que tinha preparado para o suceder. Mas os resultados não corresponderam ao desejado por Isak, o que suscitou uma série de críticas à nova administração — visando principalmente a visão do filho —, face à nova direção que a empresa estava a assumir.

Jonathan Andic esteve à frente da empresa entre 2014 e 2018. Nestes quatro anos, o pai afirmou que a empresa teria perdido a sua “essência” e rumo estratégico e que os resultados negativos — os primeiros na história da Mango — foram provocados por uma “má gestão”.

A empresa “perdeu milhões” durante aquele período [as perdas foram de cerca de 100 milhões], o que fez Isak tomar a decisão de regressar ao comando da Mango e ir contra esta “sucessão antecipada” que tentou fazer acontecer. Toni Ruiz foi o nome escolhido pelo fundador da Mango para substituir o filho como CEO.

Ruiz, executivo vindo da Leroy Merlin, inicialmente contratado para controlar as contas da empresa, acabaria por salvar financeiramente a Mango. Ruiz ganhou rapidamente a confiança absoluta de Isak Andic, que dizia confiar “cegamente” nele. Sob a sua liderança, a Mango estabilizou financeiramente, reduziu dívida e voltou aos lucros. Em 2023, Ruiz tornou-se o único acionista fora da família Andic, ao receber 5% da empresa através da sociedade Ionian Investments. Uma decisão que foi também uma mudança histórica: pela primeira vez, a Mango deixava de estar diretamente nas mãos da família fundadora.

Jonathan acabou afastado da liderança executiva e regressou apenas à Mango Man, onde tinha começado, antes de sair definitivamente da gestão operacional. Fontes próximas da família descrevem esse afastamento como uma humilhação pessoal para o filho do empresário. Outras garantem, porém, que a relação entre pai e filho estava pacificada nos últimos meses de vida do fundador, escreve o El Español. Apesar disso, a investigação encontrou mensagens e testemunhos que apontam para ressentimento antigo, tensão financeira e conflitos familiares persistentes.

As críticas públicas e a retirada de confiança em tão pouco tempo terão por isso conturbado a relação entre pai e filho, como terá evidenciado depois a viúva em declarações às autoridades. Porém, no seu testemunho, não terá apresentado conflitos recentes que pudessem sugerir que o enteado tivesse matado o marido. Fontes próximas de Knuth garantem que o seu testemunho “não foi incriminatório”.

Já a juíza responsável pelo caso admitiu que existem indicações de se tratar de um ato “premeditado” e chega a apontar para possíveis motivos financeiros para Jonathan ter matado o pai. De acordo com a descrição citada pelo La Vanguardia, o filho mais velho do empresário teria essa “obsessão por dinheiro” e o medo de perder valor da herança para uma “instituição de solidariedade social” pode ter sido um motivo para ter avançado com o crime.

As declarações contraditórias, a investigação em “sigilo total” e o telefone apreendido

Jonathan foi interrogado pela primeira vez poucas horas após a morte de Isak Andic. Nestas primeiras declarações aos Mossos d’Esquadra, o filho do fundador da Mango terá prestado depoimentos “vagos e incoerentes”, como escreve o El País. O que foi relatado não correspondia à realidade observada no terreno pelas autoridades, mas a polícia atribuiu as inconsistências no seu discurso ao impacto emocional natural que a morte de um pai causaria a um filho.

Mas o que foi dito não foi esquecido e, nos meses que se seguiram, Jonathan voltaria a ser convocado pelas autoridades para voltar a testemunhar, de modo a garantir, com toda a certeza, que o caso não passava de um acidente. Num segundo interrogatório, o empresário de 44 anos — já mais estável emocionalmente, como descreveram as fontes ligadas à investigação —, voltou a prestar declarações contraditórias. Jonathan não terá sido capaz de identificar corretamente o parque de estacionamento onde deixaram o carro que os levou até ao trilho naquele sábado de manhã.

Como referem as fontes citadas pelo El País, não se trataram de mentiras ou tentativas de cobrir um homicídio, apenas inconsistências nos testemunhos que foram levantando cada vez mais questões e justificaram as investigações adicionais.

A polícia catalã, ao longo deste período, fez visitas regulares ao local do acidente. Inspecionaram o trilho, os diferentes caminhos que podiam ter sido seguidos naquela manhã e até chegaram a simular as condições que pudessem ter provocado a queda de Isak Andic, atirando fardos de palha com o mesmo peso do mesmo local: em nenhum parecia possível que alguém escorregasse ali. Também perceberam que Jonathan Andic, na véspera deste encontro com o pai, teria estado no percurso a “preparar-se” para a caminhada, como escreve a imprensa espanhola. Pode, aliás, ter feito três visitas sozinho ao trilho de Montserrat nos dias anteriores à morte.

Estas pistas, recolhidas ao longo de meses, justificaram a transição do estatuto legal de Jonathan neste caso, que passou de única testemunha para suspeito — o que foi destacado após as autoridades terem abordado o herdeiro de Isak Andic na rua para ter acesso ao seu telefone. Este foi o primeiro passo dado em público, depois de meses de diligências em “sigilo total”, conforme requisitado pela juíza na reabertura do caso em março de 2025. A análise aos conteúdos do telefone de Jonathan demorou, mas a detenção seguiu-se poucos meses depois.

Segundo o jornal La Vanguardia, o telefone confiscado e o dispositivo recuperado ao lado do corpo de Isak Andic na base da ravina Torrente de la Salud mostraram registos díspares aos relatados por Jonathan. A rota descrita pelo filho do fundador da Mango não correspondia à exibida nos telefones analisados, o que levantou ainda mais dúvidas sobre os testemunhos do suspeito. A investigação acredita que Jonathan tentou criar “as circunstâncias mais discretas possíveis” para o encontro a sós com o pai em Montserrat.

A imprensa catalã nota também que a autópsia de Isak Andic também pode ter revelado algumas pistas. A ausência de ferimentos nas mãos, que são normalmente associados ao movimento natural do corpo para tentar amparar a queda — ou evitar que esta aconteça —, de acordo com um relatório citado pelo La Vanguardia, pode ser um indicador de que o empresário poderia já estar inconsciente quando “deslizou” do trilho. Como indicam especialistas citados pelo jornal, esta falta de feridas visíveis pode ser também um indicador de que Isak poderá ter sido empurrado naquela tarde de sábado e não escorregado. E a marca encontrada no solo sugere, segundo os investigadores, uma ação deliberada e não um simples acidente.

Jonathan Andic atravessava, aparentemente, um momento pessoal estável quando o pai morreu. Tinha casado discretamente com a influencer Paula Nata em setembro de 2024 e planeava uma grande festa meses depois, cancelada após a tragédia. O casal teve um filho em setembro de 2025, numa altura em que o processo judicial já ameaçava transformar-se numa crise familiar sem precedentes. Os amigos descrevem Jonathan como devastado pela morte do pai e ainda mais pelo impacto da investigação e do julgamento público que se seguiu.

O caso ameaça agora não apenas destruir definitivamente a relação entre os herdeiros da Mango, mas também reabrir uma guerra pela sucessão de um dos maiores impérios empresariais europeus.