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23 de Maio - Manifestis Probatum: a Certidão de Nascimento que chegou cinquenta anos atrasada

Portugal tem uma relação histórica complexa com a sua própria legitimidade: em 1128 venceu a batalha, em 1143 assinou o tratado, e esperou mais trinta e seis anos pela validação externa.

Nuno Nabais Freire
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Portugal é, possivelmente, o único país do mundo com três datas de independência.

A 24 de Junho de 1128, D. Afonso Henriques derrotou o exército da sua mãe no Campo de São Mamede e criou de facto um território autónomo. A 5 de Outubro de 1143, o Tratado de Zamora formalizou politicamente essa separação perante o Reino de Leão. E a 23 de Maio de 1179 cinquenta e um anos depois do campo de batalha de Guimarães, o Papa Alexandre III emitiu a Bula Manifestis Probatum e disse ao mundo o que Portugal já sabia há meio século: que existia, que tinha direito a existir, e que ninguém lho podia tirar.

Manifestis Probatum. Está claramente demonstrado.

A escolha das palavras não foi acidental. Alexandre III era um dos papas mais cultos da Idade Média, professor de direito e teologia antes de ser eleito, arquiteto da teoria da supremacia papal sobre todos os reis da Europa, o mesmo homem perante quem Henrique II de Inglaterra se prostrou em penitência pelo assassínio de Thomas Becket. Quando este papa dizia está claramente demonstrado, não estava a conceder um favor. Estava a emitir uma sentença jurídica depois de examinadas as provas. E as provas eram D. Afonso Henriques: setenta anos de vida, cinquenta de combate, um reino construído palmo a palmo com a espada e a diplomacia.

I. O Rei que Esperou Meio Século

D. Afonso Henriques intitulava-se rei de Portugal desde 1129. Não esperou por ninguém para se coroar. Ganhou a batalha, assumiu o título, e começou a governar como se a questão estivesse resolvida, porque, do seu ponto de vista, estava. O problema era que o Papado não reconhecia a legitimidade da adopção do título real em 1139 e continuava a considerá-lo vassalo de Leão.

Durante décadas, Portugal existiu numa espécie de limbo jurídico internacional: independente de facto, contestável de direito. Os reis de Leão e Castela podiam, a qualquer momento, invocar a autoridade papal para reclamar soberania sobre o território português. E enquanto Roma não se pronunciasse claramente, essa ameaça permanecia real.

O Tratado de Zamora de 1143 resolveu o problema ao nível bilateral, Leão aceitou a independência portuguesa. Mas no século XII, a palavra de um rei valia o que a Igreja deixasse valer. E a Igreja manteve-se deliberadamente ambígua durante trinta e seis anos mais.

O que mudou em 1179?

Mudou o Papa. E mudou o contexto geopolítico europeu.

II. A Geopolítica por Trás da Bula

No mesmo ano em que emitiu a Bula Manifestis Probatum, Alexandre III convocou o 3.º Concílio de Latrão, no qual a Santa Sé voltou a afirmar-se como árbitro da Europa. O reconhecimento de Portugal e de D. Afonso Henriques constituiu, portanto, um sinal de afirmação da sua própria autoridade.

A bula não foi um acto de generosidade papal. Foi um movimento político calculado.

Alexandre III encontrava-se em guerra aberta com o Sacro Imperador Romano-Germânico Frederico I, o Barbarossa, que apoiava uma sucessão de antipapas para desestabilizar o Vaticano. Durante anos, o Papa legítimo governou quase em fuga, exilado em França, dependente da boa vontade dos reis europeus para sobreviver. Reconhecer Portugal era reconhecer um aliado: um reino devoto, militarmente activo contra os muçulmanos, estrategicamente posicionado no extremo ocidental da Europa, fora do alcance imediato de Barbarossa.

Portugal precisava do Papa. O Papa precisava de Portugal. A bula foi o contrato que formalizou essa necessidade mútua.

O preço da soberania ficou documentado: 2.500 marcos de ouro pagos de imediato, e uma tença anual de 500 gramas de ouro pagável directamente à Santa Sé. D. Afonso Henriques tornava-se vassalo de Roma, o que pode parecer uma limitação, mas era exactamente o oposto: ao colocar-se sob a alçada directa do Papa, Portugal tornava qualquer agressão externa numa afronta à autoridade papal. O escudo custava ouro, mas era impenetrável.

III. O Documento e os Seus Segredos

A bula começa com uma saudação que é, por si só, um documento de identidade: “Alexandre, Bispo, Servo dos Servos de Deus, ao caríssimo filho em Cristo, Afonso, ilustre Rei dos Portugueses, e a seus herdeiros, in perpetuum…”

In perpetuum. Para sempre. Não era apenas o reconhecimento de um homem, era a blindagem de uma dinastia. O documento confirmava o título de rei atribuindo-o também aos seus sucessores, concedendo ao monarca português o domínio dos territórios conquistados e a conquistar aos Mouros, o que representava um importante estímulo à expansão territorial.

Este detalhe, a garantia de posse sobre terras ainda não conquistadas, é talvez o mais revelador de todos. A Manifestis Probatum não era apenas um documento de consolidação. Era uma licença de expansão. O Papa estava a dizer: conquista o que puderes aos mouros, e é teu. Nenhum príncipe cristão pode reclamar o que ganhares com a espada.

É o embrião jurídico dos Descobrimentos. O mesmo modelo de bula papal, que concede a Portugal o direito sobre terras conquistadas a povos não-cristãos, será replicado séculos mais tarde nas grandes bulhas da era das navegações. Alexandre III, em 1179, estabeleceu sem saber o template legal que permitiria a Portugal chegar ao Brasil, a África e à Índia.

O detalhe do selo real. Na época, D. Afonso Henriques usava um selo pessoal onde a palavra PORTUGAL aparecia disposta em cruz à volta do seu brasão, imitando deliberadamente o formato das chancelarias papais. Era uma mensagem visual inequívoca: o poder deste rei vem de Deus e de Roma. Não de Leão. Não de Castela. De nenhum vizinho.

A originalidade deste gesto, copiar a linguagem simbólica da maior autoridade da época para dela se apropriar como legitimação própria, diz muito sobre a inteligência política do primeiro rei de Portugal.

IV. O que a Bula Construiu

O impacto imediato da Manifestis Probatum foi múltiplo e profundo.

Resolveu de uma vez por todas a questão da legitimidade dinástica: o filho de D. Afonso Henriques seria rei por direito incontestável, não por força das armas. Eliminou a dependência religiosa de Santiago de Compostela e de Toledo, elevando o Arcebispo de Braga como Primaz das Espanhas a igreja portuguesa respondia apenas perante Roma. Atraiu ordens militares estrangeiras, Templários, Hospitalários, que trouxeram capital humano, técnico e financeiro para um reino que precisava de se desenvolver a sul do Tejo. Permitiu a emissão de moeda própria sem contestação. Criou o precedente para a emissão de Cartas de Foral que fundaram vilas e cidades, o esqueleto urbano de Portugal está assente, em grande medida, na segurança jurídica que esta bula proporcionou.

E criou, quase como subproduto, o primeiro corpo diplomático português. Para negociar durante décadas com a Santa Sé, Portugal teve de inventar diplomatas. A arte da negociação com poderes supranacionais, aprendida na escola dura das antecâmaras vaticanas do século XII, tornou-se uma das competências nucleares do Estado português. Uma arma de sobrevivência que durou séculos.

V. O Que Isto Nos Diz Hoje

Portugal é um caso curioso na história mundial por ter na realidade três datas possíveis de considerar como a independência do Reino de Portugal.

Esta peculiaridade, três datas, um único processo, não é um acidente historiográfico. É um traço de carácter.

Portugal tem uma relação histórica complexa com a sua própria legitimidade. Somos um país que em 1128 venceu a batalha, em 1143 assinou o tratado, e esperou mais trinta e seis anos pela validação externa definitiva, sem a qual, aparentemente, a vitória não parecia suficientemente completa. Somos um país que em 1385, em Aljubarrota, afirmou a sua independência contra Castela com uma das vitórias militares mais extraordinárias da história medieval europeia, e imediatamente correu a selar a aliança com Inglaterra para ter um garante externo da sua sobrevivência. Somos um país que atravessou o mundo inteiro com as suas caravelas e, ao chegar a cada porto novo, tratou primeiro de obter a bênção papal e depois de negociar tratados com as potências vizinhas.

Há um padrão aqui.

Portugal não confia completamente em si próprio sem uma confirmação externa. Esta não é uma fraqueza, é uma estratégia de sobrevivência de oito séculos, desenvolvida por um rectângulo pequeno encurralado entre o Atlântico e a Castela, que aprendeu muito cedo que a soberania não é apenas o que se conquista com a espada mas também o que se consegue que os outros reconheçam como conquistado.

A União Europeia,  a que nos juntámos em 1986 com uma intensidade que ia muito além da racionalidade económica, é a versão moderna da Santa Sé de Alexandre III. Um poder supranacional sob cuja alçada nos colocámos voluntariamente, e que em troca nos oferece legitimidade, proteção e escudo diplomático goste-se ou não, umas vezes benéfica outras discutível é certo. Pagamos a nossa tença anual em contribuições líquidas e em política externa alinhada. E recebemos o que sempre soubemos precisar: a validação de que existimos, de que temos direito a existir, de que ninguém nos pode apagar do mapa. Claro, com as devidas distâncias, Portugal continuaria a ser um país reconhecido sem pertencer à União Europeia, mas penso que dá para termos uma ideia do que quero explicar. Não é cinismo. É pragmatismo histórico com oitocentos anos de consistência.

O problema não é a estratégia. A estratégia funcionou. Portugal existe, quando qualquer análise fria de 1128 sugeria que não devia. O problema é quando a busca de validação externa substitui a confiança interna. Quando esperamos que Bruxelas nos diga o que valemos, da mesma forma que esperámos cinquenta anos que Roma confirmasse o que as nossas batalhas já tinham provado.

D. Afonso Henriques sabia que era rei desde 1129. Não precisou de Alexandre III para o saber. Precisou de Alexandre III para que os outros soubessem, e tratou a bula como o instrumento político que era, não como a fonte da sua legitimidade.

A distinção é pequena mas decisiva.

Manifestis Probatum. Está claramente demonstrado, mas por quem, e para quem?

A resposta de 1179 é também a resposta de 2026: por nós, para o mundo. Nessa ordem. Nunca ao contrário.

Um país que dividiu o planeta em dois com uma linha num mapa, que sobreviveu a Castela, a Filipe II, a Napoleão, a Salazar, e ao grunge dos anos noventa, não precisa de esperar mais cinquenta anos por nenhuma certidão de nascimento.

A sua já foi passada. Está na Torre do Tombo. Em latim. Com o selo do Papa.