Portugal vive hoje um paradoxo político difícil de ignorar. O Governo da AD venceu eleições sem maioria absoluta, assumiu funções com legitimidade democrática, mas rapidamente demonstrou uma incapacidade estrutural para construir estabilidade parlamentar. E numa democracia parlamentar, governar sem capacidade de entendimento é, quase sempre, governar com prazo de validade.
O problema não está apenas nos números da Assembleia da República. Está sobretudo na cultura política que se instalou desde o primeiro dia da legislatura. A AD entrou em funções com uma narrativa de mudança, responsabilidade e moderação. Porém, ao invés de procurar pontes, consensos mínimos e equilíbrios institucionais, optou frequentemente por uma lógica de afirmação política permanente, como se continuasse em campanha eleitoral. O resultado está à vista: um ambiente político crispado, negociações bloqueadas e uma crescente sensação de ingovernabilidade.
A política portuguesa sempre viveu de entendimentos. Mesmo nos momentos de maior polarização, houve quase sempre consciência de que o sistema político português exige diálogo. Nenhum Governo minoritário consegue sobreviver muito tempo apenas com discursos de firmeza ou com a esperança de desgaste da oposição. O atual executivo parece ter subestimado precisamente isso.
A relação com o Partido Socialista tornou-se rapidamente tóxica. Com o Chega, existe uma ambiguidade permanente: rejeita-se oficialmente qualquer aproximação, mas alimenta-se simultaneamente um espaço político onde o conflito beneficia ambos. À esquerda, o diálogo praticamente desapareceu. E no centro político, que historicamente funcionava como zona de compromisso institucional, instalou-se um vazio.
O país começou assim a entrar num ciclo perigoso: um Governo sem margem parlamentar efetiva, uma oposição sem incentivo para viabilizar medidas estruturais e uma Assembleia transformada num palco de bloqueios sucessivos.
Tudo isto acontece num momento particularmente delicado para Portugal.
A economia europeia abranda. As tensões geopolíticas aumentam. O custo de vida continua elevado. Os serviços públicos acumulam sinais de desgaste. E o país precisa de reformas profundas em áreas críticas como saúde, habitação, justiça, imigração ou produtividade económica. Mas reformas exigem estabilidade política. Exigem previsibilidade. Exigem capacidade de negociação. E é precisamente isso que hoje parece faltar.
Há também um erro estratégico que começa a tornar-se evidente dentro da própria AD: a ideia de que a fragilidade parlamentar poderia ser compensada através da comunicação política. Como se o controlo da narrativa pública pudesse substituir a construção de maiorias políticas reais. Não pode. Governar não é apenas comunicar bem. É criar condições para que o sistema funcione. É garantir aprovações parlamentares. É construir confiança institucional. E isso exige concessões, maturidade política e, muitas vezes, capacidade para descer do palanque partidário.
A sensação crescente em Lisboa é simples: o país entrou novamente em modo pré-eleitoral.
Os partidos já comunicam a pensar em novas eleições. As posições endurecem. Os discursos radicalizam-se. As linhas vermelhas multiplicam-se. E cada votação importante passa a ser vista não como uma oportunidade de governação, mas como um ensaio para uma futura campanha.
Historicamente, quando a política portuguesa entra nesta lógica, o desfecho tende a repetir-se. As eleições antecipadas deixam de ser um cenário remoto e passam a ser apenas uma questão de timing. O mais preocupante é que o país parece caminhar para esse cenário sem verdadeiro choque institucional, sem crise dramática e sem ruptura evidente. Apenas por desgaste progressivo. Por erosão política contínua. Por incapacidade de entendimento.
E talvez esse seja o maior sinal de fragilidade do atual ciclo político português: ninguém parece verdadeiramente surpreendido com a possibilidade de voltarmos às urnas. Porque, no fundo, quase todos já perceberam que este equilíbrio dificilmente durará muito mais tempo