Quando, em fevereiro, fui assistir ao evento Séries em Série da RTP, afirmei neste fórum que 10 em 10, iria ver Novas Narrativas de Caça, “7 episódios independentes que exploram a busca de identidade e pertença de personagens negros, portugueses afrodescendentes”. Pois então, aqui estou eu, Manuel Acácio, com os episódios todos no bucho e com aquele sorrisinho presunçoso na cara de quem não passou frio, porque estava coberta de razão quando vaticinou que isto valeria a pena. A saber:
Episódio 1: “Moamba”
O primeiro episódio é realizado e escrito por Luís Almeida (Barman, Filhos do Meio — Hip Hop à Margem), o ideólogo desta antologia. E tenho que dizer que Moamba é o meu preferido. Luís usa o lado anedótico do racismo recreativo “que tanto aperta a mão a um branco, como o pescoço ao preto” e faz aqui um pot-pourri da branquitude vestida de boas intenções, com o preconceito a rebentar pelas costuras. Daniela (Carolina Picoito Pinto) vai apresentar o namorado Leandro (Gonçalo Cabral) aos pais (a sempre perfeita Custódia Gallego e o amoroso João Didelet).

Leandro está apreensivo com este almoço de família, mas a namorada garante-lhe: “Os meus pais são pessoas muito tolerantes”. E a partir daqui, é ladeira abaixo. A mãe admira a beleza do rapaz que “nem tem feições”, o pai garante que “não tem nada contra”. À mesa, serve-se uma boa moamba em homenagem ao convidado… que é descendente de cabo-verdianos. Mas como o pai de família atalha logo, “é tudo igual”. Leandro acaba a ser uma arma de arremesso usada pela namorada contra os pais e tudo passa a ser sobre ela e não sobre ele. Um clássico intemporal.
Episódio 2: “Recursos Humanos”
Realizado também por Luís Almeida e escrito pela portentosa Gisela Casimiro (que se não conhecem, não sabem o que estão a perder) Recursos Humanos tem um perfume de Black Mirror, um cheirinho a Sweeney Todd e, ainda assim, tresanda à realidade opressora de um mercado de trabalho que faz distinção pela cor, sim, e que mata a capacidade de sonhar com mais que um ordenado mínimo: “Estás na posição certa para as tuas capacidades”. Maya (Binete Undonque) é uma funcionária-modelo do “Chama Quente” e quer fazer mais do que virar hambúrgueres. No entanto, a promoção é-lhe consistentemente negada porque, segundo a loira gerente (Diana Nicolau) “o teu perfil não é aquele que os clientes querem, eles querem alguém mais parecido com eles”.

Por um acaso, Maya descobre um segredo nas arcas do restaurante e desaparece. Cinco anos depois, a irmã Taís (Nuna) volta para investigar o que aconteceu. Diana Nicolau e Nuno Nolasco servem com distinção um par de personagens absolutamente abjetas e Nuna tem uma expressão que fala mais alto do que cem linhas de diálogo. Embora a suspensão da descrença se vá desbotando um pouco com o aproximar do fim, Recursos Humanos é letreiro néon sobre como a precariedade é uma mordaça muito poderosa.
Episódio 3: “Once You Go Black”
Salomé (Catarina Amaral) e Miguel (Tiago Sarmento) estão a fazer um sexo gostoso e caliente, até que Miguel solta um “Once you go black, indeed”, revelando a sensibilidade de um alguidar. Salomé chuta o balde e atira-o para fora da cama, porque se sente fetichizada. Miguel, não satisfeito, acusa-a de usar a cor da pele para se vitimizar. Mais tarde, Salomé desabafa com as amigas: Amanda (Camila Cerqueira), uma emigrante brasileira, Isabel (Mariana Lencastre), uma beta tuga meio sem noção, e Julieta (Cirila Bossuet), uma mulher negra que não pede autorização para ocupar o seu espaço.

As amigas dão-lhe um bom banho de realidade like they should e chamam atenção para o facto de que ela própria “never went black”, isto é, só teve relações com homens brancos. Amanda e Julieta salientam como isso a pode colocar sistematicamente numa posição em que se confronta com o racismo estrutural dentro das relações. A beta revira os olhos, descupabiliza o macho e ainda atira um “já nem sei bem o que posso dizer ou não…” O acaso vai trazer um homem negro para o caminho de Salomé e a história toma um rumo de “rom-com” que, sinceramente, não me convenceu, ficou meio forçadinho e a realização e edição meio-telefilme também não ajudaram.
Episódio 4: “Limbo”
Fábio Silva assina guião e realização de um dos episódios mais bem conseguidos desta série. Nuno (Pedro Lopes) é um adolescente introvertido, que adora Saramago e fala um português que denuncia os seus hábitos de leitura muito acima do padrão da idade. Artur (Ivo Arroja) quer ir para a festa sacar damas, tem uma linguagem que vai entremeando português e crioulo e diz que um mano tem que ter “rijura”. Façam-me um obséquio: fechem os olhos e imaginem estas duas personagens. Agora, troquem. Sim, Nuno é negro e Artur é branco.

Ao longo de uma noite de festa, num apartamento de um qualquer subúrbio da Linha de Sintra, Nuno é confrontado com o defraudar das expectativas daqueles que têm as mesmas raízes que ele, ao mesmo tempo que se depara com a triste realidade: falar de Portugal como “o nosso país” não impede que o tratem como se esta terra não fosse dele. Tudo muito bem feito e, infelizmente, muito verosímil, incluindo a referência ao George Floyd. Fica-me na memória uma sequência musical em que Nuno e os amigos requebram ao som de uma kizomba que a dada altura é substituída por uma guitarra portuguesa. Na mouche.
Episódio 5: “Sobrevivente”
“Após anos de recessão, Portugal mergulha numa guerra civil. A elite conhecida como Os Vanguardas cria a Nova Capital, um território seguro longe do conflito.” Percebo o caminho escolhido por Dércio Tomás Ferreira que realizou e escreveu Sobrevivente. Faz todo o sentido incluir uma narrativa distópica e um universo pós-apocalíptico numa antologia como esta. Até porque as distopias, ao contrário do que parece, não são sobre o futuro, mas sim uma lupa do presente.

Claro que não é inocente que Sobrevivente se passe em Abril de 2174, num momento em que há uma tentativa de distorcer, manchar e atacar as conquistas do dia mais bonito. No entanto, fazer o espectador entrar e compreender um universo deste género leva tempo, recurso escasso num episódio de 22 minutos. Logo, grande parte da duração é gasta em não mais que uma exposição das causas e consequências que levaram a este estado de coisas. Fica chato, não vou mentir. E achei confuso e não me consegui ligar às personagens. Mas também pode ser um problema meu. Mais um.
Episódio 6: “Undeu”
Diogo Gazella Carvalho assina um episódio de que gostei muito e me deprimiu em igual medida. Três personagens tentam furar a bolha da periferia e a realidade rebenta-lhes na cara. Isaac (Mavá José) namora com Soraia (Suzana Francês). Ela é manicure no mítico Babilónia, centro comercial na Amadora, mas candidatou-se à faculdade para “ser engenheira”. Ele trabalha num armazém e perde o emprego por roubar um pacote de amendoins.

Lô é o amigo brasileiro que sofre por não poder visitar a mãe, que começa a dar sinais de demência. Quando Soraia diz a Isaac que está grávida, Isaac entra em desespero e a perspetiva de ter um filho traz à tona o trauma da relação com um pai abusivo e agressor. O medo de se transformar no seu próprio pai e a descrença de uma vida melhor, levam-no a tomar decisões que não têm volta. Muito bem escrito e realizado e muito triste. Mavá José entrega, talvez, a melhor interpretação de Novas Narrativas de Caça a par com a protagonista do último episódio.
Episódio 7: “Codé”
Codé é uma pérola de Cláudia Semedo. O episódio é protagonizado pelo nome mais sonante do elenco, Isabél Zuaa de O Agente Secreto. Zuaa interpreta a portuguesa Cíntia, filha do guineense Augusto (Daniel Martinho). Ela quer muito visitar Guiné-Bissau com o pai, mas ele recusa-se terminantemente e ela acaba por ir sozinha. Cíntia vai conhecer os tios, a cidade, o sabor da manga.

Vai aprender a preparar o caldo de mancarra — “tens que saber fazer a comida da tua terra” — e conhecer os motivos que levam o pai a não querer volta ao sítio que o viu nascer, mas onde quase morreu torturado — “tinha um grau tão profundo de anemia que os pés e as mãos tinham perdido a cor”. A recusa de Augusto fá-lo ausente neste momento de introspeção da filha, mas é o narrador sempre presente neste mergulho. Gostei muito, comovi-me bastante e apaixonei-me totalmente pela luz de Isabél Zuaa.
Em conclusão: não gostei de todos episódios por igual, como confessei, mas ao fim dos primeiros 5 minutos, confirmei o quanto estas Novas Narrativas de Caça faziam falta no audiovisual português. Amílcar Cabral dizia que “A luta pela libertação, é acima de tudo, um ato de cultura”. Virando a moeda, a cultura é uma forma de luta pela libertação de uma estrutura opressora como é o racismo que sim, é estrutural, não é um acaso. Está vivo e tem cada vez mais gente a recomendá-lo sem pudor. Fazer frente só é possível se outras cores ocuparem o seu espaço, como ocuparam o palco da Culturgest no dia da apresentação da série. À frente de uma plateia 99,9% branca, motivo bastante para nos fazer corar de vergonha. Eu, como guionista, sei que não seria capaz de escrever nenhum destes episódios. Estas histórias só podiam ser contadas por quem as vive na pele, pele que ainda dita demasiado do que são as suas vidas, por muito que vos faça dói-dói admitir que Portugal é um país racista. O título é inspirado num provérbio africano que reza assim: “Até que os leões contem as suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça”. Rugiram e bem.