Andar de autocarro, de elétrico ou de metropolitano, significa pertencer – pelo menos no hiato de tempo da nossa partilha comum do espaço rolante que ocupamos – , a um elástico e considerável conjunto de pessoas que, por variadas razões, se servem dos transportes públicos para ir concretizando e preenchendo, tão proficuamente quanto possível, o seu respetivo quotidiano: são milhões os cidadãos que diária e voluntariamente se sujeitam e abandonam às condições ofertadas pelas empresas, municipais ou não, que lhes asseguram essas movimentações.
Conhecendo de perto o plano de ação de cada um desses meios de transporte – não lhes escapando inclusive algumas informações pontuais ligadas aos vários condutores que os transportam -, alguns desses cidadãos chegam ao ponto de declinar de olhos fechados, sem esquecer nenhuma, todas as Paragens para acolhimento ou despejo dos clientes, constantes nas diferentes Linhas coloridas afixadas nas costas dos abrigos de referência: são obviamente poucos os que conseguem tal façanha, pelo que é inevitavelmente um extraordinário espetáculo aquele que é patrocinado aos que, bafejados pela sorte, assistem ao vivo a essa ladainha recitada por essa elite de colegas de viagem. Ainda não me aconteceu essa ventura, o que afinal não é difícil de entender tendo igualmente em conta a minha curta experiência enquanto passageiro menos irregular dos transportes públicos, mas no entretanto já me comecei a treinar para um excitante eventual confronto futuro: neste momento, sou capaz de identificar, nos dois sentidos, vinte dessas Paragens numa determinada Linha van goghiana.
No meio de tanta diversidade de propostas e destinos, sobressai mesmo assim uma interessante singularidade no que se refere aos autocarros lisboetas. A sua identificação numérica – desde 2006 – começa invariavelmente pelo número 7, a recordar-nos quantas são as colinas que embelezam a nossa capital: uma magnífica ideia, ainda por cima tratando-se de um número que nos traz à mente tantas outras belas imagens e reminiscências.
Cada um dos transeuntes, e só ele, é responsável pela escolha que venha a fazer no contexto das referidas alternativas. Se acaso se enganar, não se importa excessivamente com isso: o próximo veículo aparecerá, em média, no prazo de uns módicos quinze minutos após aquele que inoportuna e erradamente se abandonou. O «estar à espera», situação hoje quase insuportável na nossa vida feita de cliques e respostas imediatas, revela-se aqui, sobretudo nos mais idosos que já se fartaram de correr, mais uma oportunidade de, calmamente, recordar e confirmar o incalculável número das inesperadas contingências que vieram influenciar as suas respetivas vidas.
Irmanados embora na situação de comuns utilizadores daqueles serviços municipais, ou ainda mais precisa e objetivamente, na sua condição de seus íntimos co-proprietários – a esmagadora maioria dos utentes sendo com efeito detentora, com provável exceção dos ocupantes do famoso e turístico Elétrico número 28 (que já mereceu ser homenageado em publicação com texto de José Augusto França) do económico e conveniente “Passe” mensal – essa dinâmica comunhão converte-se, contudo e na prática, numa eloquente demonstração do vasto universo de diferentes vontades pessoais assumidas por cada um desses fiéis homens e mulheres que eu chamaria de “Felizes Transportados Públicos”.
Entre eles, chamou-me particularmente a atenção o modus operandi de uma divertida fração de seniores – reformados e jubilados- que nega categórica e ostensivamente a asserção de que ser-se idoso é forçosamente uma maçada.
É certo que eles já não fazem Les 400 coups do François Truffault, nem sequer o desejam: se forem 40, o gozo é pelo menos o mesmo. Cada um dos novos-velhos foliões, com ou sem farnel, sai de casa logo pela manhã, sem muitas vezes nenhum programa já concebido, não fazendo sequer ideia alguma sobre onde é que vai estar ou o que irá visitar durante o resto do dia. Basta saber que pode ir onde lhe apetecer, sabendo de antemão que o seu Cartão Navegante lhe cobrirá todas as suas extravagâncias.
Seja qual for o seu futuro imediato, ninguém tem nada com isso: este desprendimento, ele nunca o teve até agora, é uma espécie de anarquia da terceira-idade, uma prazenteira rebeldia. É certo que tudo se enquadra num contexto bem preciso, a saber, por um lado, os lugares por onde circula(m) o(s) meio(s) de transporte escolhido(s) nesse dia, e por outro, os horários de funcionamento do(s) “seu(s)” veículo(s): aquela maravilhosa sensação de liberdade acontece assim dentro desses estritos limites geográficos e temporais.
Numa visão obviamente redutora e demasiado sarcástica, alguém pode afirmar, a propósito, que «depois de um dia inteiro na brincadeira, voltam sempre a casa a horas de não serem castigados pelas suas tropelias». Que, no fundo, o que eles estão é “gágás”. Podem dizê-lo e repeti-lo esses rebarbativos opinantes, que os soi-disant aventureiros lhes sorriem sem maldade nem despeito por tamanha petulância, desculpando em simultâneo todos os homens e mulheres de mau-feitio com quem se cruzaram no decurso da sua vida: talvez que ainda sobre tempo para perceberem que não há nada como uma velhice descontraída: as ditas tropelias são como idas à Lua, golos de cabeça “à Ronaldo”, a vitória no Europeu de Futebol, os desfiles de carnaval como os de Torres Vedras- ou numa visão mais sofisticada, como os fantásticos e molhados desfiles de Veneza-, a nossa única vitória, pela voz do Salvador Sobral, do Festival Eurovisão da Canção, os quase dois milhões de jovens em Lisboa por ocasião da Jornada Mundial da Juventude.
E se não podem fazer noitadas pela madrugada adentro porque não há “carreiras” a todas as horas da noite, pois aplaudem de pé esse regresso a casa : com a idade que têm, preferem levantar-se cedo e gozarem as pessoas e paisagens à luz do dia, juntar-se à multidão em movimento, sentar-se por instantes em bancos de jardins para uma breve pausa, olhar para as pessoas e para as casas, entrar- só para uma vista-de-olhos- nas lojas dos souvenirs, ouvir- sem os entender- os estrangeiros em visita, olhar para o mar e pr`ás ondas. É isso que, para eles, é a buscada loucura: o normal e anónimo quotidiano das 8 às 20 transformado num espetáculo permanente, cada elemento afinal valendo a pena ser apreciado. E tudo isso, através do imprescindível apoio dos nossos transportes públicos que vão cumprindo civicamente as suas funções.
Se estranharem que estas linhas acabem com um breve elogio, pois talvez signifique que, com os anos, é coisa normal esquecermo-nos dos momentos mais ruins, que sempre os há.
Eu acho que vamos ficando mais inteligentes: já era tempo.