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A Medicina primordial: Veterinária  

O velho princípio latino e hoje esquecido "Hygia pecoris, salus populi" - a saúde animal é condição para a saúde do povo - nunca foi tão atual.

Paulo Teixeira
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Cuidamos dos animais, mas, acima de tudo, cuidamos das pessoas. As múltiplas valências  e abrangências da medicina veterinária protegem a saúde pública, garantem a segurança  alimentar, acompanham os equilíbrios sanitários e preservam uma relação ancestral entre  a humanidade e o mundo animal. Os médicos veterinários exercem uma profissão  exigente, científica e profundamente vocacional e, no entanto, apesar da sua  relevância estratégica para a sociedade contemporânea, continuam, demasiadas  vezes, a não receber o reconhecimento proporcional à dimensão da sua função. Este  será o mote para este texto.

Numa sociedade onde o conceito One Health assume um papel cada vez mais primordial,  a medicina veterinária deverá ter o reconhecimento proporcional à sua relevância. Seja  no campo, nos centros de investigação, nos laboratórios, nas clínicas e hospitais, na  indústria alimentar, nos serviços oficiais, na saúde pública ou na investigação  biotecnológica, os médicos veterinários representam uma das primeiras linhas de defesa  da saúde coletiva. O velho princípio latino e hoje esquecido Hygia pecoris, salus populi – a saúde animal é condição para a saúde do povo – nunca foi tão atual. Bastaria para isso  relembrar – porque por vezes enquanto sociedade temos memória curta – a origem da  pandemia Covid 19, ou ainda mais actual o caso do Antavirus no cruzeiro transatlântico.  Ambas zoonoses ( doenças com que afectam homem e animais), ambas doenças onde os  médicos veterinários serão porventura a primeira linha de defesa e prevenção.

Num tempo marcado pela inteligência artificial, pela digitalização acelerada, pela  biotecnologia e pela globalização sanitária, a veterinária afirma-se não como um legado  do passado, mas como uma ciência do futuro. Como já referido, as epidemias recentes,  os debates sobre segurança alimentar, o impacto das alterações climáticas, a resistência  antimicrobiana, a sustentabilidade da produção pecuária ou a emergência de novos  modelos alimentares colocam os médicos veterinários no centro das grandes discussões  éticas, científicas e políticas do século XXI. Urge pois que enquanto sociedade  interiorizemos isso mesmo.

Portugal conhece bem esta realidade. Um país historicamente moldado pelo território,  pelo mar, pela ruralidade e pela relação com os animais compreende, talvez melhor do  que muitos outros, a importância desta profissão. Desde a veterinária de campo nas  explorações pecuárias do interior, à medicina de animais de companhia em amplo  desenvolvimento nas cidades e vilas; desde a inspeção sanitária até à investigação  universitária; desde a conservação da fauna selvagem até à segurança alimentar, os  médicos veterinários portugueses têm desempenhado um papel silencioso, mas  absolutamente decisivo.

Agostinho da Silva escreveu que “o homem só é verdadeiramente homem quando  compreende a sua ligação ao todo”. Poucas profissões traduzem de forma tão concreta  essa interdependência como a medicina veterinária. Porque nela cruzam-se ciência,  ambiente, alimentação, economia, ética e humanidade. A visão integrada e agora mais  generalizada de “Uma só Saúde” veio apenas dar nome científico àquilo que os  veterinários sempre preconizaram: a saúde humana, animal e ambiental são inseparáveis.

A veterinária portuguesa conhece bem essa dimensão. O médico veterinário rural, muitas  vezes invisível aos grandes centros urbanos, continua a ser um agente de proximidade, de  estabilidade económica e de coesão territorial. Em muitas regiões, é simultaneamente  clínico, conselheiro técnico, autoridade sanitária e interlocutor humano de comunidades  inteiras.

Mas a profissão mudou. E continuará a mudar.

A sociedade contemporânea desenvolveu um novo sentimento relativamente aos animais.  Os animais de companhia assumem um lugar emocional sem precedentes nas famílias  modernas, funcionando frequentemente como resposta à solidão, ao isolamento social e, ainda que menos assumido, à fragmentação das relações humanas. Já não temos donos  nem proprietários de animais. Temos tutores ou “pais” de cães e gatos que são “filhos”.  Concordando ou não, é com esta nova realidade motivada pelo papel que os animais  acabam por adoptar nas famílias pelas razões atrás descritas, com que temos de lidar.

Paralelamente, cresce o debate sobre bem-estar animal, direitos dos animais,  sustentabilidade da produção pecuária, necessidade de proteína alternativa e carne  cultivada em laboratório. Trata-se de uma transformação cultural profunda, que exige  equilíbrio, conhecimento científico e responsabilidade ética. Temos que conseguir  encontrar estas respostas sob pena de não conseguirmos alimentar o mundo nas próximas  décadas.

Nesse contexto, os médicos veterinários não podem limitar-se ao papel técnico  tradicional. Devem afirmar-se também como participantes ativos no espaço público,  contribuindo para um debate informado, racional e cientificamente sustentado. A sua  intervenção torna-se essencial para evitar simplificações ideológicas e garantir que as  decisões futuras sobre alimentação, ambiente, saúde pública e convivência com os  animais assentem no conhecimento e não apenas na emoção ou na pressão mediática.

Os médicos veterinários devem fazer-se ouvir. Devem ser ouvidos pela sociedade, pelo  poder político e pelos decisores. Não o fazer é correr o risco de, enquanto sociedade,  optarmos pelo caminho errado.

A profissão de médico veterinário encontra-se, assim, numa posição singular:  simultaneamente herdeira de um saber ancestral e protagonista de uma nova era científica.  Poucas áreas conjugam de forma tão evidente tradição e inovação. Da clínica à  inteligência artificial aplicada ao diagnóstico; da epidemiologia molecular à gestão  sanitária; da cirurgia avançada à produção animal sustentável, a medicina veterinária  continuará a ocupar um espaço estratégico nas próximas décadas.E talvez resida aí a sua  maior nobreza. Não seremos substituídos pela IA. Tal como muitas outras profissões  seremos reforçados e fortalecidos enquanto agentes de saúde pública.

Porque desde os primeiros aglomerações de humanos, quando alguém aprendeu a tratar  a ferida de um animal que garantia a sobrevivência da comunidade, até aos modernos  laboratórios de diagnóstico e centros clínicos altamente diferenciados, a essência da  profissão permanece intacta: proteger a vida.

Eça de Queirós escreveu que “a suprema arte é a de tornar os outros felizes”. Há  profissões cuja missão se aproxima mais silenciosamente dessa definição. Sem grandes  alarmes ou holofotes a medicina veterinária é uma delas. Não apenas porque cuida dos  animais, mas porque, através deles, protege famílias, comunidades, economias e gerações  futuras. E se não é desta forma que podemos fazer os outros felizes, como será?

Num tempo frequentemente dominado pela velocidade, pela superficialidade e pelo ruído  digital, importa recordar o valor das profissões discretas que sustentam verdadeiramente  a sociedade. A medicina veterinária pertence a esse património silencioso de  competência, serviço e responsabilidade.

Os médicos veterinários levam alimento seguro às mesas, saúde às populações, equilíbrio  aos ecossistemas e dignidade ao vínculo milenar entre o ser humano e os animais. Poucas  missões serão mais exigentes. Poucas serão mais indispensáveis. Poucas serão, também,  tão primordiais.