Cuidamos dos animais, mas, acima de tudo, cuidamos das pessoas. As múltiplas valências e abrangências da medicina veterinária protegem a saúde pública, garantem a segurança alimentar, acompanham os equilíbrios sanitários e preservam uma relação ancestral entre a humanidade e o mundo animal. Os médicos veterinários exercem uma profissão exigente, científica e profundamente vocacional e, no entanto, apesar da sua relevância estratégica para a sociedade contemporânea, continuam, demasiadas vezes, a não receber o reconhecimento proporcional à dimensão da sua função. Este será o mote para este texto.
Numa sociedade onde o conceito One Health assume um papel cada vez mais primordial, a medicina veterinária deverá ter o reconhecimento proporcional à sua relevância. Seja no campo, nos centros de investigação, nos laboratórios, nas clínicas e hospitais, na indústria alimentar, nos serviços oficiais, na saúde pública ou na investigação biotecnológica, os médicos veterinários representam uma das primeiras linhas de defesa da saúde coletiva. O velho princípio latino e hoje esquecido Hygia pecoris, salus populi – a saúde animal é condição para a saúde do povo – nunca foi tão atual. Bastaria para isso relembrar – porque por vezes enquanto sociedade temos memória curta – a origem da pandemia Covid 19, ou ainda mais actual o caso do Antavirus no cruzeiro transatlântico. Ambas zoonoses ( doenças com que afectam homem e animais), ambas doenças onde os médicos veterinários serão porventura a primeira linha de defesa e prevenção.
Num tempo marcado pela inteligência artificial, pela digitalização acelerada, pela biotecnologia e pela globalização sanitária, a veterinária afirma-se não como um legado do passado, mas como uma ciência do futuro. Como já referido, as epidemias recentes, os debates sobre segurança alimentar, o impacto das alterações climáticas, a resistência antimicrobiana, a sustentabilidade da produção pecuária ou a emergência de novos modelos alimentares colocam os médicos veterinários no centro das grandes discussões éticas, científicas e políticas do século XXI. Urge pois que enquanto sociedade interiorizemos isso mesmo.
Portugal conhece bem esta realidade. Um país historicamente moldado pelo território, pelo mar, pela ruralidade e pela relação com os animais compreende, talvez melhor do que muitos outros, a importância desta profissão. Desde a veterinária de campo nas explorações pecuárias do interior, à medicina de animais de companhia em amplo desenvolvimento nas cidades e vilas; desde a inspeção sanitária até à investigação universitária; desde a conservação da fauna selvagem até à segurança alimentar, os médicos veterinários portugueses têm desempenhado um papel silencioso, mas absolutamente decisivo.
Agostinho da Silva escreveu que “o homem só é verdadeiramente homem quando compreende a sua ligação ao todo”. Poucas profissões traduzem de forma tão concreta essa interdependência como a medicina veterinária. Porque nela cruzam-se ciência, ambiente, alimentação, economia, ética e humanidade. A visão integrada e agora mais generalizada de “Uma só Saúde” veio apenas dar nome científico àquilo que os veterinários sempre preconizaram: a saúde humana, animal e ambiental são inseparáveis.
A veterinária portuguesa conhece bem essa dimensão. O médico veterinário rural, muitas vezes invisível aos grandes centros urbanos, continua a ser um agente de proximidade, de estabilidade económica e de coesão territorial. Em muitas regiões, é simultaneamente clínico, conselheiro técnico, autoridade sanitária e interlocutor humano de comunidades inteiras.
Mas a profissão mudou. E continuará a mudar.
A sociedade contemporânea desenvolveu um novo sentimento relativamente aos animais. Os animais de companhia assumem um lugar emocional sem precedentes nas famílias modernas, funcionando frequentemente como resposta à solidão, ao isolamento social e, ainda que menos assumido, à fragmentação das relações humanas. Já não temos donos nem proprietários de animais. Temos tutores ou “pais” de cães e gatos que são “filhos”. Concordando ou não, é com esta nova realidade motivada pelo papel que os animais acabam por adoptar nas famílias pelas razões atrás descritas, com que temos de lidar.
Paralelamente, cresce o debate sobre bem-estar animal, direitos dos animais, sustentabilidade da produção pecuária, necessidade de proteína alternativa e carne cultivada em laboratório. Trata-se de uma transformação cultural profunda, que exige equilíbrio, conhecimento científico e responsabilidade ética. Temos que conseguir encontrar estas respostas sob pena de não conseguirmos alimentar o mundo nas próximas décadas.
Nesse contexto, os médicos veterinários não podem limitar-se ao papel técnico tradicional. Devem afirmar-se também como participantes ativos no espaço público, contribuindo para um debate informado, racional e cientificamente sustentado. A sua intervenção torna-se essencial para evitar simplificações ideológicas e garantir que as decisões futuras sobre alimentação, ambiente, saúde pública e convivência com os animais assentem no conhecimento e não apenas na emoção ou na pressão mediática.
Os médicos veterinários devem fazer-se ouvir. Devem ser ouvidos pela sociedade, pelo poder político e pelos decisores. Não o fazer é correr o risco de, enquanto sociedade, optarmos pelo caminho errado.
A profissão de médico veterinário encontra-se, assim, numa posição singular: simultaneamente herdeira de um saber ancestral e protagonista de uma nova era científica. Poucas áreas conjugam de forma tão evidente tradição e inovação. Da clínica à inteligência artificial aplicada ao diagnóstico; da epidemiologia molecular à gestão sanitária; da cirurgia avançada à produção animal sustentável, a medicina veterinária continuará a ocupar um espaço estratégico nas próximas décadas.E talvez resida aí a sua maior nobreza. Não seremos substituídos pela IA. Tal como muitas outras profissões seremos reforçados e fortalecidos enquanto agentes de saúde pública.
Porque desde os primeiros aglomerações de humanos, quando alguém aprendeu a tratar a ferida de um animal que garantia a sobrevivência da comunidade, até aos modernos laboratórios de diagnóstico e centros clínicos altamente diferenciados, a essência da profissão permanece intacta: proteger a vida.
Eça de Queirós escreveu que “a suprema arte é a de tornar os outros felizes”. Há profissões cuja missão se aproxima mais silenciosamente dessa definição. Sem grandes alarmes ou holofotes a medicina veterinária é uma delas. Não apenas porque cuida dos animais, mas porque, através deles, protege famílias, comunidades, economias e gerações futuras. E se não é desta forma que podemos fazer os outros felizes, como será?
Num tempo frequentemente dominado pela velocidade, pela superficialidade e pelo ruído digital, importa recordar o valor das profissões discretas que sustentam verdadeiramente a sociedade. A medicina veterinária pertence a esse património silencioso de competência, serviço e responsabilidade.
Os médicos veterinários levam alimento seguro às mesas, saúde às populações, equilíbrio aos ecossistemas e dignidade ao vínculo milenar entre o ser humano e os animais. Poucas missões serão mais exigentes. Poucas serão mais indispensáveis. Poucas serão, também, tão primordiais.