O cabaz alimentar tem vindo a ser notícia nos últimos meses, e não pelos melhores motivos. São 63 produtos, entre carne, pescado, frutos, hortícolas e outros, considerados indispensáveis a um bom estado de desenvolvimento e de saúde.
Atualmente, e de acordo com a DECO PROteste, o cabaz alimentar custa cerca de 260 euros, tendo registado oscilações semanais marcadas sobretudo por aumentos sucessivos. Ainda assim, na última semana de abril de 2026 verificou-se, pela primeira vez em vários meses, uma descida de cerca de 2 euros, fixando o valor do cabaz nos 258 euros. Nas últimas semanas, o cabaz atingiu o valor mais elevado (261,89€) desde o início da sua monitorização, em 2022, representando um aumento de aproximadamente 70€ face ao valor registado nessa altura.
Em termos práticos, o preço do cabaz alimentar não é apenas um indicador económico ou de inflação. Ele é também o reflexo de um problema de saúde pública em construção, que afeta toda a comunidade, em particular, os mais vulneráveis. Perante um cenário em que o acesso a produtos básicos, como o pão ou o leite, se encontra condicionado pelo preço, passa a estar em causa o direito a uma alimentação saudável e equilibrada.
Neste contexto, apesar de mais informados, muitos consumidores veem-se obrigados a fazer escolhas entre o que “faz melhor” e o que “custa menos”, que cada vez se encontram mais distantes. Estas escolhas forçadas implicam reduzir quantidades ou substituir alimentos frescos por opções mais económicas e, geralmente, menos equilibradas ou, em alguns casos, abdicar de alimentos essenciais.
A Ordem dos Nutricionistas tem vindo a assumir uma posição firme nesta matéria. Há já mais de um ano que temos vindo a alertar, de forma consciente, para as repercussões dos aumentos verificados, agravados pelo aumento de combustíveis decorrentes da situação geopolítica e pelas repercussões das tempestades que assolaram o país no início de 2026, sobre o estado nutricional e, consequentemente, da saúde da população. O acesso à alimentação está a tornar-se, de forma progressiva, cada vez mais desigual. Um direito básico e fundamental começa a tornar-se um privilégio, acessível apenas a alguns.
Tendo presente que esta situação não pode ser ignorada, a Ordem dos Nutricionistas tem partilhado, junto dos decisores políticos, a sua preocupação com este problema e apresentado medidas concretas no sentido de o mitigar. Entre elas, a proposta de isenção do IVA aplicada a alimentos essenciais tem vindo a ser alvo de discussão em sede de Parlamento, sendo uma medida apresentada de forma recorrente por alguns grupos parlamentares, pese embora tenha sido uma proposta recusada em sede de orçamento de estado para 2026 e continue a ser negada, para já, por parte do Governo, a possibilidade de a implementar.
Para além desta proposta concreta, que resultaria num alívio financeiro para o orçamento das famílias, desde que se garantissem medidas efetivas de controlo de preços na cadeia alimentar, tem sido também reforçada a necessidade de políticas públicas de saúde estruturantes, que promovam e garantam a segurança alimentar, salvaguardando o acesso a alimentos de qualidade, independentemente dos recursos económicos de cada um.
Para além disso, há que reconhecer que, através destes mecanismos, podem desenvolver-se meios eficazes e efetivos no âmbito da educação alimentar, tão necessária, tendo em conta o baixo nível de literacia em saúde da população. A promoção de hábitos alimentares saudáveis, o estímulo ao consumo de produtos locais e sazonais e a sensibilização para a importância da gestão e do planeamento da alimentação são exemplos de estratégias de fácil aplicabilidade, rentáveis do ponto de vista económico e de retorno garantido em ganhos em saúde. Interessa, no entanto, não esquecer que a literacia alimentar, por si só, não resolve o problema quando as condições económicas são determinantes para a escolha do que se coloca no prato.
Este cenário, que hoje é um cenário real, levanta, por isso, uma questão fundamental: até que ponto pode a responsabilidade pela escolha alimentar recair exclusivamente sobre o indivíduo? Num contexto em que os preços continuam a aumentar e o poder de compra não acompanha esse ritmo, torna-se evidente que a solução exige uma abordagem transversal e coletiva.
Não é aceitável que o acesso à alimentação dependa da capacidade financeira; a alimentação é um direito universal, consagrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, o que impõe o envolvimento ativo do Estado, das instituições e da sociedade. As suas consequências refletir-se-ão na esfera económica, inevitavelmente, e pelos piores motivos. Pelo aumento de doenças crónicas, como a obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares, que se traduzirão em maiores custos para a saúde, maior absentismo profissional, um maior peso para a segurança social, em suma, contribuindo para o empobrecimento do país.
O preço do cabaz alimentar não pode, por isso, ser visto como um assunto apenas de custo de vida. Se nada for feito, tornar-se-á também um desafio de saúde pública com implicações a curto, médio e longo prazo.
Em síntese, o preço do cabaz alimentar deve obrigar-nos a repensar prioridades. Quando o acesso ao que é essencial falha, estamos perante um sinal claro de desequilíbrio económico e social. Como temos vindo a alertar e assim continuaremos, a garantia de uma alimentação saudável e acessível para todos não é apenas desejável, é indispensável.
Afinal, numa sociedade justa e democrática, comer bem não deve ser um luxo, mas uma condição básica de saúde e dignidade.