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(A) :: A Revolução numa ópera para os 50 anos do Teatro Aberto

A Revolução numa ópera para os 50 anos do Teatro Aberto

A partir do romance "Os Memoráveis", de Lídia Jorge, a ópera "Por Todos Nós" celebra meio século da instituição e do 25 de Abril, em parceria com o Teatro de São Carlos. Estreia-se a 20 de maio.

Ricardo Ramos Gonçalves
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É no coro que muitas vezes se concentra a dimensão coletiva e simbólica das narrativas de uma ópera. Quando a história parte de um acontecimento tão profundamente marcado pelo coletivo como a Revolução dos Cravos, esse coro adquire uma expressão ainda mais pertinente e sensível face à matéria histórica que convoca. É justamente dessa dimensão que devemos partir para abordar Por Todos Nós, a ópera do Teatro Aberto, numa produção em parceria com o Teatro Nacional de São Carlos, que celebra os 50 anos da revolução portuguesa, bem como as cinco décadas da inauguração deste teatro, a 25 de maio de 1976. Estreia esta quarta-feira, dia 20.

O projeto resultou de um convite do Ministério da Cultura dirigido, em 2024, às companhias históricas de teatro. Daí surgiu a ideia de criar uma ópera a partir de Os Memoráveis (2014), de Lídia Jorge – romance que se debruça sobre o 25 de Abril de 1974 e as suas repercussões na sociedade portuguesa contemporânea. “O livro foi, por acaso, apresentado neste teatro e foi, desde logo, aquele com que mais cumplicidade senti, na medida em que vivi o 25 de Abril. Era uma visão que tinha e que até aí nunca tinha visto assim escrita”, começa por explica o encenador e fundador do Teatro Aberto, João Lourenço. O libreto é assinado pelo próprio, em conjunto com Vera San Payo de Lemos, juntando-se-lhes ainda a música de Eurico Carrapatoso, a direção musical de João Paulo Santos e o cenário de João Mendes Ribeiro.

Ao contrário do que sucedera anteriormente, quando Os Memoráveis foi adaptado ao teatro, João Lourenço quis agora transformá-lo em ópera, por considerar que o romance encontraria na música uma forma mais plena de expressão. “Quando agora escuto o final da ópera sinto, de facto, algo dentro de mim que senti naquele mesmo dia. [A música] toca-nos mais, e aquelas palavras pediam essa leveza e essa dimensão musical”, explica.

A escolha não surge por acaso. Como sublinha Vera San Payo de Lemos, trata-se de um romance polifónico, composto a várias vozes: “As de quem viveu aquele dia e as daqueles que contam o que aconteceu depois, 30 anos depois, e revisitam o 25 de Abril”. A isso junta-se ainda a presença do coro, “os representantes da pólis que é o povo”, que acompanha e amplifica as palavras das personagens. É também daí que nasce o título Por Todos Nós: de um impulso coletivo, quase de um grito comum, em que as palavras ganham corpo através da voz e da música. “Foi por todos nós que os militares fizeram a revolução, mas a população também aderiu e de facto o 25 de Abril acabou por ser feito por todos nós”, sublinha a dramaturga e tradutora ao Observador.

O Teatro Aberto recebeu “carta branca” de Lídia Jorge. A escritora reconhece, num breve texto que acompanha a apresentação da ópera, que o próprio romance já continha uma dimensão operática latente, ainda que se admita surpreendida pela produção: “No palco da transfiguração em que pretendia que a História se transformasse em mitologia, as figuras evocadas falariam como num teatro falado, e as suas vozes e movimentos seriam operáticos. Nunca, porém, imaginei que um dia, passados mais de dez anos, um encenador tão qualificado olhasse para esse texto e o imaginasse em figurino de ópera. Tratou-se de uma surpresa, e de uma alegria.”

A juntar a todos os estes elementos, Vera San Payo de Lemos recorda ainda o facto de terem sido duas canções a servirem de senha para o golpe militar e, em seguida, muitas outras que celebraram e incentivaram a revolução e a construção da democracia. “Foi também uma pedra de toque o facto de a música ter sido a senha do 25 de Abril e muito do que se cantou, sobretudo nos anos seguintes”.

“Charlie”, “El Campeador” e o “Oficial de Bronze”

Seguindo a linha narrativa do romance de Lídia Jorge, a ópera acompanha Ana Maria Machado, uma repórter portuguesa radicada em Washington que, em 2004, é convidada a realizar um documentário sobre a Revolução de 1974, considerada pelo então embaixador norte-americano em Lisboa como um dos momentos mais raros da história contemporânea. Ao aceitar o projeto e regressar a Portugal, Ana Maria reencontra dois antigos colegas e, juntos, iniciam um percurso de entrevistas a protagonistas e testemunhas da revolução.

A investigação parte de uma fotografia tirada durante o Verão Quente de 1975, descoberta por Ana Maria em casa do pai, o jornalista António Machado, imagem que funciona como detonador da memória e fio condutor. Mantendo um dos dispositivos centrais do romance, a ópera preserva igualmente os nomes-código criados por Lídia Jorge para as figuras históricas evocadas, nomeadamente Salgueiro Maia que surge como “Charlie”, Otelo Saraiva de Carvalho como “El Campeador” e Vasco Lourenço como “Oficial de Bronze”.

A tarefa de transformar o romance em libreto passou inevitavelmente por um exercício de “concisão”, sublinha Vera San Payo de Lemos, preservando ainda assim o entrelaçar entre o documentário de Ana Maria Machado e a complexa relação desta protagonista com o pai. “São muito menos palavras, porque estas vão ser expandidas pela música. Esse é o grande desafio de fazer um libreto”, sustenta. O resultado é uma estrutura composta por prólogo e epílogo, intercalados por 16 cenas inspiradas no romance.

A música e o Anjo da História

Mantendo o foco nas tensões psicológicas e nas diferentes camadas temporais da narrativa — onde coexistem 16 personagens principais — coube a Eurico Carrapatoso compor uma partitura capaz de criar unidade dentro dessa pluralidade. O compositor português, que conta já com cinco óperas no seu catálogo, explica ter construído “uma família de temas condutores, de leitmotivs, não necessariamente associados a personagens específicas, mas atravessando os temas psicológicos que pairam sobre a ópera”. “Foi sobretudo um trabalho de unidade e coerência”, resume.

Construída através de uma sucessão de quadros, a ópera organiza-se assim em torno de um jogo de simetrias conduzido, uma vez mais, pelo coro. “Talvez, para mim enquanto compositor, o coro seja o verdadeiro protagonista, até porque importa não esquecer que foi esse povo que se juntou à revolução, e isso está espelhado na música”, realça Carrapatoso. A essa dimensão coletiva juntam-se ainda dois outros eixos fundamentais da composição: o motivo musical associado à relação entre Ana Maria e o pai — “o fio condutor mais operático”, nas palavras do compositor — e a dimensão mais interior da protagonista, refletida na figura do seu alter ego, aqui designado como “Anjo da História”.

Por contraste com o romance, o libreto introduz esta nova personagem, o Anjo da História. A figura remete simultaneamente para o anjo que desce pela Escada de Jacó — permanentemente presente em palco — e para os anjos errantes de As Asas do Desejo, de Wim Wenders. Também aqui a revolução é projetada para um plano mais simbólico e espiritual. “No romance alude-se à ideia de que, naquela altura, passou certamente um anjo por Lisboa. Queríamos que alguém dialogasse com a protagonista, daí a inclusão desta figura que não é, efetivamente, uma personagem presente no livro”, explica João Lourenço.

A referência a esta figura funciona como uma espécie de mediador entre a personagem de Ana Maria e a história recente em Portugal. Convoca, como explica Vera San Payo de Lemos, o célebre “Anjo da História” de Walter Benjamin, que contempla as ruínas do passado enquanto é empurrada para o futuro. “Tal como Ana Maria viaja em direção ao passado, este anjo acompanha-a nessa procura pelos vestígios da Revolução”, completa a dramaturga.

Neste olhar sobre o passado, mas consciente do presente, Por Todos Nós torna-se também uma celebração do próprio Teatro Aberto, inaugurado há 50 anos. “Já tínhamos começado a pensar em algo e a fazer algumas coisas, mas tudo isto deve-se ao 25 de Abril”, recorda João Lourenço, referindo-se ao Grupo 4, formado ainda nos anos 60 pelo próprio Lourenço, Morais e Castro, Irene Cruz e Rui Mendes. A ópera regressa assim a esse ponto de origem, não apenas o da revolução, mas também o das possibilidades culturais e artísticas que dela nasceram. Entre memória coletiva, revisitação histórica e dimensão mítica, Por Todos Nós coloca também o próprio teatro na história de um país transformado.