2030 não é o futuro. É o ano em que metade das pessoas vai, finalmente, perceber que já não é relevante. Não por terem feito algo errado, mas porque o mundo mudou enquanto estávamos distraídos, como quem perde o último metro no Senhor Roubado, em Odivelas, pois ficou a ver notificações.
Durante anos, falámos do “futuro do trabalho” como quem fala do trânsito na Segunda Circular: todos comentam, mas quase ninguém resolve. Conferências, painéis, relatórios e vários rituais confortáveis para fingirmos que estávamos a preparar-nos. Spoiler: não estávamos e agora já não dá para fingir.
Os dados do World Economic Forum são claros ao ponto de serem quase escandalosos: até 2030, 40% das competências atuais deixam de ter valor real. Não desaparecem, certo. Simplesmente deixam de servir para nos distinguir dos outros. E num mercado onde toda a gente parece substituível, isso é praticamente o mesmo que desaparecer.
O Future of Jobs Report 2025 diz outra coisa que ninguém gosta de ouvir: 59% dos trabalhadores vão ter de se requalificar. Não é “uma oportunidade bonita”. É uma condição mínima para não sermos engolidos pela maré. O velho contrato de estudar, trabalhar bem e subir degrau a degrau desapareceu. E fê-lo sem cerimónia.
A Inteligência Artificial não vai “impactar o futuro”. Já está a passar a perna no presente. 86% das empresas admitem que a tecnologia vai mexer nas funções, cortar postos ou redesenhar equipas. E, sejamos honestos, muitas vão aproveitar para fazer aquilo que sempre quiseram: reduzir custos. A técnica deixou de ser porto seguro. Há sistemas que fazem o mesmo que nós, mas mais rápido, financeiramente melhor e sem precisar de férias.
O paradoxo é quase cómico: quanto mais avançada é a tecnologia, mais valiosas se tornam as competências que sempre foram tratadas como “acessórios”. Pensamento crítico, criatividade, adaptabilidade e curiosidade. Tudo aquilo que, durante anos, foi empurrado para o fim da lista. Hoje, são o que nos espera para nos tornarmos irrelevantes. É como no fado português: podemos ter técnica, mas se não tivermos alma, ninguém nos ouve.
E não, isto não é uma guerra entre humanos e máquinas. É uma guerra entre humanos que sabem trabalhar com a tecnologia e humanos que vão ser atropelados por ela. E a verdade desconfortável é simples: nem todos vão conseguir.
As empresas dizem que vão investir em requalificação – 77% delas, para ser precisa – mas muitas também admitem que vão cortar funções e que vão redesenhar papéis até deixarem de justificar uma pessoa. Haverá quem se adapte. Haverá quem fique preso no limbo: já não chega o que sabem, mas ainda não dominam o que vem a seguir.
É aqui que a conversa bonita da “aprendizagem ao longo da vida” perde o brilho. Porque aprender agora não é fazer mais um curso; é como os camaleões, que mudam de pele várias vezes. O profissional da próxima década não será o mais técnico, mas sim o mais adaptável, o que une a ideia e decide quando ainda não há regras.
No fundo, o World Economic Forum está apenas a afirmar aquilo que ninguém quer admitir: a maior vantagem competitiva não é ter acesso à melhor tecnologia; é não ficar para trás quando ela muda.
E isso deixa uma pergunta que deveria ser feita mais vezes, talvez até em voz alta, ali no miradouro da Graça enquanto sentimos a cidade a mudar: Quantas vezes conseguimos reinventar-nos antes de deixarmos de ser relevantes?