Esperar por likes numa foto sua a comer um brunch ou que Cate Blanchett vista uma camisa desenhada por Diogo Miranda? Entre estes dois cenários, não hesitaria um segundo na resposta, porque o alvo do tiro é a eternidade. Ao longo de 16 anos de moda em nome próprio, a partir do atelier em Felgueiras, desenhou cada coleção “como se fosse a última”, para garantir que as imagens que ficariam do derradeiro ensaio a solo não teriam prazo de validade.
Em janeiro de 2023, a notícia chegou de forma discreta: “All good things must come to an end” (ou, em português, todas as coisas boas têm de chegar ao fim), partilhava o designer, que por essa altura ponderou abandonar o setor de vez. Mas com a sua renda intrincada, o destino estava pronto para as próximas etapas. Apenas dias depois de fechar portas, um convite direcionava-o para a THE ESTHE e para o universo Farfetch. Seguiu-se uma pausa de meses que deixou bem claro que estar parado é trabalho para outros. Qual candidato emergente sem curriculum, fez chegar o seu porftolio à A Line, uma das marcas sob a alçada do grupo Spring, com mais de 20 anos de experiência na indústria têxtil. Conhecida pela alfaiataria clássica e peças intemporais, a etiqueta tinha quse tudo — só faltava uma visão criativa para coroar a solidez da estrutura, na certeza de que viver da moda em Portugal exige tanta vontade quanto lucidez. “Até posso querer fazer camisas só com um botão, mas o público tem que gostar. No final do ano tenho uma reunião com os patrões para apresentar contas.”, admite Diogo, que superintende todas as áreas do projeto, dos shootings aos conteúdos que são partilhados nas redes sociais, ou à conta de Spotify. E que, no fim de contas, tem o mesmo desejo das clientes. “As pessoas já têm muita coisa na vida delas. Só querem um tecido que não seja difícil de passar a ferro”.
Como é que divide o seu tempo entre Lisboa e Porto?
Estou de segunda a quinta no Porto, e de quinta a domingo em Lisboa. É o melhor dos dois mundos.
A parte de trabalho mais concentrada a norte?
Sim, a fábrica é em Paços de Ferreira. Lisboa é muito diferente do Porto. Acho que se passasse cá mais tempo, ficava igual às pessoas que cá estão.
De que forma?
Acho que no Porto as pessoas são mais humanas e mais amigas e se precisares de alguma coisa ajudam-te, mesmo desconhecidos. E há aquele mindset de, pá, let’s make it happen. Aqui em Lisboa parece que todos os dias é férias, não é?
Mantêm-se o clichê, sente isso?
Sim, sim. Quando estive cá a montar a loja, tudo era complicado, enquanto no Porto se eu preciso de uma coisa para hoje a coisa aparece feita, ou consigo fazê-la. Aqui às vezes até para imprimir uma fotocópia, ou um cartão, era um Deus me livre. Chegou uma altura que eu disse mesmo, se sou atropelado na rua ninguém me assiste. [risos] Tinha mesmo essa sensação, sabes? Foi quando eu comecei a pensar que não posso ficar aqui mais, porque vou ficar igual a estas pessoas.
Lisboa mudou muito nos últimos anos. Sente o mesmo no Porto?
A cidade mudou muito. E o Porto acho que está ótimo, mas infelizmente acho que vai acabar por ficar como Lisboa. Ainda vai demorar para ir uns dois ou três anos, mas acho que vai acabar por ficar igual. É o contra das cidades crescerem e de as pessoas evoluírem.
Não vê também um lado positivo, de abertura, de cosmopolitismo, de maior espaço para marcas como a sua?
Sim, sim. A nossa loja no Porto é na [Rua] Miguel Bombarda, visitam-nos muitos turistas que sabem ao que vão, há ali uma série de galerias, de lojas, de craftmanship. E aqui em Lisboa também, mas acho que lá no Porto é um bocadinho mais de nicho. Quando tu aqui tens 50, lá tens 10. É a escala da cidade.
Hoje especula-se se há espaços a mais, nomeadamente quando falamos de restaurantes. O cenário estende-se às lojas e marcas?
Portugal cresceu muito, ganhou uma notoriedade. O que é que eu sinto? Hoje em dia, qualquer pessoa que está farta do seu trabalho, despede-se e abre um restaurante, sem ter formação, ou sem saber não sei o quê. Está farta e abre uma loja e só por ter meia dúzia de marcas portuguesas…
Faz uma concept store?
Faz uma concept store e trabalha à consignação. Portanto, nem sequer está a ajudar as marcas portuguesas. Porque não está a comprar, porque não quer fazer investimento. Acho que existe uma mão cheia de nada. Temos um caso diferente, da Amorim, que efetivamente tem um fundo de maneio grande para fazer isso, mas na realidade é o único grupo que está a fazer uma coisa como deve ser.
Já trabalhou com a marca Paula.
Exatamente, a marca da Paula [Amorim] fui eu que a fiz. Queremos fazer as coisas, mas primeiro há que estudar. Tive uma marca 16 anos, fiz a Semana de Moda de Paris, fiz showrooms em Nova Iorque, em Paris, em Berlim, em Londres. Hoje na A Line, e até é uma coisa bastante interessante, estou muito mais focado, não na criatividade, que é óbvio, mas em ações, e desenvolver a marca a nível comercial.


Pensar mais na estrutura completa?
Sim, há erros que se calhar eu cometi no passado que não vou cometer hoje.
Por exemplo?
Às vezes, se calhar vestires uma celebridade que depois o feedback não vai ser aquilo que tu queres em termos do teu público-alvo; ou estares associado a um showroom ou fazeres um trade show em que se calhar o investimento vai ser maior do que o retorno. Nós começámos agora a trabalhar com a Loja das Meias, em Cascais, e está a ser uma coisa surreal. Foi um contacto que eu fiz.
Costuma ter esse lado proativo?
Lá está, eu estou muito mais nesse lado de operações, de fazer acontecer, eu não gosto de estar ali sentado à espera que as coisas aconteçam, eu vou para a rua. E nós começámos a trabalhar com eles em maio, tive uma reunião com eles, houve logo uma abertura imensa, por causa do produto, e decidiram pôr um corner nosso ao lado do Jacquemus e do J.W. Anderson. Já fizemos três vezes o restock de peças. Todos os dias alguém me está a mandar mensagem, preciso de mais roupa, preciso de mais roupa…
Que cliente tipo é esse?
O cliente que frequenta a Loja das Meias já tem algum poder de compra. E o facto de, em três semanas ou quatro semanas, já termos feito o restock de muitas peças, quer dizer que o cliente que compra aquele produto, considera A Line no mesmo ponto. E o que é que temos? Não vou puxar a brasa à minha sardinha mas a verdade é que nós temos uma qualidade lá na empresa surreal, que nenhuma marca portuguesa tem, ou que poucas têm. Porque depois há sempre alguma coisa que falha.
Quando entrou na marca, a A Line já existia desde 2016.
Sim, quando entrei na A Line, a line já tinha uns seis, sete anos. Mas faltava sempre alguma coisa.
O que faltava?
Quando entrei na A line, eu próprio disse, a vossa qualidade é incrível mas falta a comunicação. Nós trabalhamos private label e por isso é que eu também tenho acesso a estas matérias-primas, exímias, etc.
Só para explicarmos a quem nos lê, quando falamos de private label…
Private label é trabalhar para outras grandes marcas internacionais.
Algo que os portugueses muitas vezes não têm noção.
Exatamente, e as peças são feitas na mesma cá. Também se não fosse assim, eu acho que A Line também não tinha este fundo de maneio de conseguir fazer coisas.
A marca desenvolve-se dentro do grupo Spring.
Foi fundada pelo Hélder Gonçalves e pela Alexandra Cardoso, que são os meus patrões e que considero amigos. Ele nunca me diz que não a nada, é sempre “vamos, eu acredito em si”, devíamos ter mais empresários como eles.

Como é que se conheceram? O Diogo fechou o atelier em 2023.
Eu estava cansado, fazia tudo, tinha uma equipa de 5 pessoas, parece muito, mas era uma empresa pequena, senti que já não ia conseguia crescer mais em Portugal, já eram 16 anos…Ou tinha um investimento gigante ou não dava mais…Eu nem sequer, tive gap year, quando acabei o curso comecei logo a trabalhar.
Nem com a paragem forçada da Covid?
Até foi o ano em que trabalhei mais, depois do desconfinamento as pessoas estavam todas loucas com as festas. Nunca trabalhei tanto como nessa altura. Na altura já era muito complicado arranjar mão de obra, porque é tudo manual, era tudo eu, estava muito cansado. Chegas a casa e ainda continuas a trabalhar até às três da manhã. Então deu-me ali o clique e disse, ok, vou fechar isto.
Falou da eventualidade de um bom investidor por trás. Ainda nos falta muito ativar essa sinergia?
Tens alguns grupos [ têxteis] como o Cães de Pedra, proprietário da Decenio, Lion of Porsches. Mas a verdade é que é isso que falta. Há muito no Brasil. Aqui tens a Paula, que está a fazer um ótimo trabalho, também para aquele público, para aquele nicho. Acho que nós, A Line, também estamos a fazer um ótimo trabalho a nível de posicionamento e estamos a ter uma faturação na loja do Porto incrível. A marca sempre se focou um bocadinho no mercado internacional e agora estamos mais focados no mercado nacional, e estamos a ser super surpreendidos, porque as pessoas estão a gostar.
No seu ADN pessoal já trazia aquela ideia de “fazer roupa vestível”?.
Eu tive de me adaptar um bocadinho a essa parte mais ready to wear, do dia a dia, mas tem corrido super bem. Há alguns dias que eu estou na loja, e as pessoas querem sugestões de looks, não querem ter que pensar.
Costuma estar na loja?
Sim, costumo estar na loja, às vezes até marco com amigas e clientes. Faço questão. É aquele momento em que estão ali, tomam um café, e estamos lá um bocadinho a conversar. Depois tu pões a camisa com o cinto, com a t-shirt e depois com o blazer, e veem o que podem vestir. Temos vendido muito mais assim, looks inteiros, antigamente era ‘ah, vou levar esta camisa’. Temos sempre pessoas que levam mais do que uma peça. Isso tem sido super interessante.
Mas só voltando atrás, é o Diogo que aborda o Hélder depois de fechar o atelier?
Eu estava cansado, fechei o ateliê numa terça-feira.
Tinha o dia previsto mesmo?
Não, devia ser o final do mês, calhou. E depois recebi uma mensagem de uma amiga minha, que era cliente, brasileira que morava em Londres, e que ia estar no Porto. Perguntou-me se queria almoçar e almoçámos na quinta-feira no Cafeína. “Vou lançar uma marca e quero-te contratar.” Eu tinha deixado a minha marca há dois dias.


Ela sabia disso?
Sabia, disse que era perfeito: “Começas amanhã” [ri-se]. Pediu-me para lhe enviar um valor por whatsApp e fechámos aquilo. Foi assim uma coisa surreal. Ela aceitou logo, e começamos a trabalhar. Era a mulher do José Neves da Farfetch [Daniela Cecílio], que lançou a marca dela, a THE ESTHE. Estava entre Porto e Londres, portanto, imagina, eu fechei a minha marca, tive um dia de descanso e comecei a trabalhar para ela. Trabalhei meio ano e depois aquilo em fevereiro explodiu, e ela pôs a marca adormecida.
Pensou que nessa altura é que ia descansar?
Pois, entretanto, eu pensei assim: bem, se calhar é um sinal para eu ir descansar. Descansei mais ou menos, de fevereiro até junho. Consegui não fazer nada. Depois estava a começar a precisar de fazer coisas. Comecei a a ver propostas a nível internacional, mas depois comecei a pensar que não me apetecia ir para fora.
Nunca pensou reabrir o seu atelier ao longo dessa fase?
Não, não, não. Eu sinto que foi mesmo um ciclo que se fechou. E acho que as coisas acontecem na nossa vida por alguma razão… E nem penso nisso, obviamente que às vezes dá-me saudade, mas sinto mesmo que fechou. E não quero reabri-lo sequer, a não ser que me apareça uma proposta gigante em que eu…
Um momento Tom Ford [que salva a Gucci nos anos 90, fundou a sua marca homónima em 2005 e em 2022, vendeu-a ao grupo Estée Lauder], e a acabar a fazer cinema, algo de que também gosta.
Sim, sim, mas estamos em Portugal, não é? [ri-se] Então comecei a ver umas marcas aqui em Portugal, umas marcas com que eu me identificava, e uma amiga minha tinha uma amiga que trabalhava na A Line. Eu já conhecia a marca, mas nunca tinha mergulhado na loja, etc.. Um dia eu fui à loja, e senti que estava ali tudo mas faltava aqui uma linha.
A marca tinha alguma direção criativa?
Era uma coisa muito vaga. Contratavam sempre um designer de fora, vinha cá fazer uma coleção, e depois ia embora, e para o próximo vinha outro e já fazia outra coisa. Cada um metia a sua opinião, era uma salada de fruta. Então mandei um e-mail para o geral do site, com o meu portfólio, e disse que gostaria de marcar uma reunião para ver se podíamos trabalhar juntos. O Hélder respondeu-me logo. Eu nem sabia quem ele era. Marcámos um café no dia a seguir. Ele explicou-me o que se estava a passar na marca naquele momento, os medos, os receios. E eu cheio de vontade de trabalhar, do género, vamos.
Que medos eram esses?
Acho que o maior receio que eles tinham era aquela coisa de começar outra vez do zero, de refazer, mas tínhamos mesmo de fazer isso. Eu ia-me associar a uma marca, do zero, obviamente que tinha que respeitar o ADN da marca e o passado, mas também imprimir o meu ponto de vista.
Usar a experiência mais como bagagem do que vício?
Tive atelier durante 16 anos. Sempre tive muito contato com o público, para mim é muito fácil perceber o que as pessoas querem, o que as pessoas não querem, o que querem esconder, o que querem que sobressaia no corpo. Eu entrei em 2024 na A Line, a primeira coleção que eu fiz foi verão de 25. Nós no final desse ano já tínhamos faturado 100 mil euros naquela coleção. Portanto, eu acabado de chegar a uma empresa e a ter de adaptar-me a uma equipa que não era a minha. As coisas não são assim muito fáceis.

Por ser uma estrutura bem maior?
Sim, e eu hoje ainda tenho algumas pessoas que não gostam de mim, mas eu tenho que trabalhar com elas.
O que corre pior?
Porque eu sou muito profissional. Não é tipo, isto está torto, mas dá para ir. Não, não dá, percebes? Mas sinto que com a A Line foi um match perfeito. No atelier, quando eu tinha a minha marca, havia coisas que não conseguia fazer.
Abriram-se outras possibilidades.
Sim, não tinha experiência em algumas coisas nem pessoas especializadas para isso. Eu quero fazer umas calças de ganga, agora tenho uma empresa que as faz. Quero fazer alfaiataria, tenho uma fábrica de fatos que faz. Todas estas empresas a que agora tive acesso trabalham para grandes marcas. A fábrica que faz os nossos sobretudos e blazers trabalha para a Balmain, trabalha para a Dior. É completamente diferente. É isso que eu acho que falta imenso às marcas portuguesas.
Por exemplo?
Não vou generalizar, mas nós sempre fomos muito bom a receber ordens. Não sabemos vender produto, não sabemos vender marca, estamos sentados à espera que alguém nos diga ‘faz isto’. Temos que ser um bocadinho mais proactivos. Quando cheguei à empresa e a trabalhar com uma equipa nova, senti que as pessoas não estão habituadas e não querem.
Há resistência a mudar processos?
É difícil, muitas pessoas pensam “ah, mas nós sempre fizemos assim.” Há uma resistência à mudança e às vezes é preciso limpar e voltar e fazer de novo. Essa parte dos recursos humanos acho que acaba por ser um bocadinho mais complexa.
Mas com os patrões houve uma certa carta branca?
Sim, sim, sim, foi fácil. Eu já fechei verão 27, e vou começar a fechar inverno 28. E é muito mais fácil agora, porque eu também já sei o que é que o nosso público quer, o que é que nós vendemos mais. As duas primeiras coleções foram para apalpar terreno. Tinha que estar ali o meu ponto de vista. Nesta última coleção, o Hélder disse-me ‘nós queremos ver onde é que está o Diogo aqui na marca’. E isso é bastante gratificante. Uma cliente disse-me que tenho roupa para todas as pessoas e idades, o que eu acho bastante importante, porque tu não podes ter roupa só para um género, não é?
Tem saudades do registo mais de festa? Continuam a pedir-lhe isso?
Nós ultimamente na loja temos tido imensa procura, só que não temos.
Admite que possam vir a ter?
Não acho que vamos ter, não acho, acho que temos sempre aqueles slip dress, que é algo que se vende sempre imenso e as pessoas procuram, mas não acho que a A Line seja isso. Eu, na altura, quando comecei na A-Line, fiz ali uma perninha que se chamava A-Line Série 00, que foi quando fizemos umas camisas de seda e umas camisolas de caxemira. Até poderá existir, mas acho que no momento certo. A logística depois também não é assim tão fácil. Mas penso que há uma abertura para isso.
Algo mais custom, eventualmente?
Sim, sim, há uma abertura para isso. Eu penso muito nas coisas antes de as fazer. Mesmo, vou dar um exemplo. O Fernando Santos ofereceu-nos a galeria, e nós já lá fizemos um evento, e ofereceu-me a galeria para fazer um almoço, que é uma coisa que eu queria fazer com os clientes e os amigos, e alguma imprensa. E até era para fazer em dezembro do ano passado, só que ainda não senti que fosse o momento certo. Eu aguardo os sinais para fazer. Prefiro ter a certeza absoluta que é o momento certo.
Como se gerem esses timings?
Ainda ontem recebi uma mensagem de Instagram de um showroom de Madrid a dizer que queria trabalhar connosco. Uma coisa que aprendi enquanto tive a minha marca foi a trabalhar pelos meus sonhos e objetivos, mas não demasiado. Porque quando os sonhos vêm ter contigo é diferente. E as coisas têm outro valor.
É aquela virtude se ser escasso e não parecer demasiado desesperado?
Exatamente, exatamente. Porque é diferente. Também já fiz imensos contactos para showrooms, para A Line, e todos dizem ‘Ah, a marca é um bocado semelhante às marcas que já temos’, etc, etc. É um bocadinho desagradável de ouvir, portanto, é sempre mais interessante ao contrário.
O que é que de facto hoje pode distinguir uma marca entre tantas, nomeadamente como a A Line?
Primeiro, tens de ter uma linguagem internacional. Speak global. Ponto número um. Aquelas marcas mais de resort, só os linhos para o verão, não dá, hoje em dia tens de vender o ano inteiro. E tens de vender para o mundo inteiro. Logo, a primeira coisa é uma imagem internacional, um lookbook com um grafismo e uma imagem internacional, modelos internacionais.
Começam logo por ter um nome internacional
Houve sempre, desde o início, um ponto muito internacional. Porque o Hélder depois tem outros negócios também, ligados ao imobiliário, ele próprio também viaja muito. Portanto, ele próprio sabe o que se passa lá fora. A opinião dele é muito importante nesse aspecto. E não olha só para a faturação, entende o nosso trabalho.
Como se materializa esse entendimento?
Nós agora na coleção de inverno investimos num cenário de papel de alumínio, uma folha de alumínio, e o que foi aquilo? Foi mil e tal euros. Mil e tal euros para o lixo. Depois desmontou-se e ficou lá arrumado. Se calhar nem eu, quando tinha a minha marca, fazia investimento de mil euros, não é? Mas lá está, eu mostrei a ideia, ele gostou e avançámos. Tenho muita sorte.
E o que é que a mulher hoje procura?
A mulher hoje procura…aliás, eu próprio hoje procuro um tecido easy ironing, que não seja muito difícil de passar a ferro. Acho que é isso, as pessoas não querem pensar, porque já têm muita coisa na vida delas, como nós temos. Eu ponho-me sempre muito no lado de fora. O que me levaria a comprar uma peça da A Line? A fazer parte daquela comunidade, a seguir o Instagram da marca ou o Spotify, porque todos os meses também lançamos uma lista de Spotify. Quando entrei para a marca quis fazer uma marca de lifestyle.
Importando esse conceito que vem da marca Paula e do conceito JNcQuoi?
Exatamente. Uma coisa de lifestyle. Porque nós não queremos só vender um produto, queremos vender uma experiência. Também temos velas, também temos acessórios.
E o facto de ser anfitrião muitas vezes na loja.
Sim, não estou sempre mas gosto de ir. Gosto eu próprio de fazer as montras. Para responder ainda à pergunta, as pessoas procuram uma roupa fácil. Nós temos imensa gente que precisa de roupa para dia a dia, pessoas que já mudaram um chip daquela coisa de ir à Zara e depois aquilo usa-se duas ou três ou quatro vezes e estraga-se. Acho que nós temos um price range bastante simpático entre qualidade e design. Procuram roupa distinta, com qualidade, com design. E já ouves muita gente a dizer com orgulho que está a vestir nacional.
Muito mudou desde 2007, quando começou?
Eu acho que era um mundo diferente….
Ainda rés vés boom das redes sociais.
Eu ainda apanhei essa parte. Aliás, tanto que o meu Instagram, o da marca, ainda está como Diogo Miranda Archive. Porque acho que era interessante deixar aquilo ali para as pessoas verem o que foi feito. Mas era diferente. Hoje em dia acho que é tudo muito mais volátil e até efémero. Hoje fazes algo, há aquele boom naquele segundo e amanhã já ninguém se lembra. É ingrato. Se calhar também não havia esta Gen Z que há agora que faz aqueles reposts e shares, mas depois na verdade espremes e aquilo não dá em nada.
Sente isso?
Infelizmente também vivemos num país onde não há muito poder de compra. O reflexo que tu vês nas nossas semanas de moda, é uma coisa muito… Não posso dizer a palavra que eu queria dizer, mas é uma coisa muito triste. Quando espremes as semanas de moda nacionais, quem é que faz negócio com aquilo? Mesmo estas associações, eu próprio que estive anos numa, é preciso depois experimentar o fruto deste investimento e perceber que não é só dar esta plataforma aos criadores, fazer um desfile e depois de dar acesso a vídeos e fotos e não sei o quê, mas depois é preciso resultados, quantos clientes é que tiveste, as vendas… Eu sei que é uma coisa que demora muito tempo, demora anos, mas acho que deve ser feito, porque se não são os nossos impostos que estão a ser gastos ali. Eu próprio fazia isso. O que é que eu estou a tirar daqui? E se calhar também foi uma das coisas que me levou a fechar. Estava cansado, não conseguiria dar o salto.
A coleção Diogo Miranda de 23 já foi planeada como a última?
Fiz sempre as minhas coleções como se fosse a última. Quando fiz a última mesmo já sabia mais ou menos que ia fechar. E tinha ali umas coisas que eu sempre gostei de trabalhar. Aquele lado mais masculino-feminino, e como também fazia muitas noivas fechei com uma noiva. Eu pensei assim: eu quero olhar para isto daqui a dez anos e sentir orgulho. Fiz uma coleção intemporal. Mas eu sempre fui um bocadinho crítico em relação a mim, a nível profissional.

Ainda sabe o rasto daquele tranche metalizado com que se estreou no Bloom em 2007?
[ri-se] Não, mas eu tenho um arquivo em casa com as peças mais especiais, aquilo está nos arrumos lá no Porto, nunca mais lá fui. Aquelas peças que eu fazia para desfile, acho que ainda lá estão. Porque o resto eu fiz questão de despachar tudo para as minhas amigas, por 50 euros levavam. As coisas mais especiais, que eram aquelas coisas mais extravagantes, estão lá no arquivo, não que eu vá precisar daquilo algum dia, mas se algum dia tiver que fazer alguma coisa, até tenho lá muito material.
É uma velha discussão mas não precisaremos também dessa dimensão, lá está, mais espectacular, de desfile, de que a moda também vive?
Sim, sim, as pessoas querem um sonho, e eu sou apologista de sonho. Aliás, eu próprio também vim de fazer coleções, de fazer as pessoas sonharem, mas depois essa parte também era comercial. Eu até vendia muito mas acabava por ser uma coisa muito sazonal, mais no período das festas. E durante o resto do ano? Porque isto é uma coisa que fica muito caro. Imagina ter duas costureiras a trabalhar num vestido à mão durante duas semanas, é uma coisa louca.
É a tal mudança pragmática que a nova vida traz?
Tive que me adaptar ao novo mundo. Não me faz falta, não tenho saudades, vou ser sincero. Acho que prefiro mais esta parte onde eu estou agora, mais pronto a vestir, até porque acho que passei por tudo. Eu estagiei num atelier de alta costura em Sevilha, portanto…
Onde não gostava do excesso de folhos.
Não gostava dos folhos e não gostava dos pontos e não sei o quê.
Também passou pela Inditex, um grande grupo.
Exatamente, depois Inditex, portanto… E mesmo a Paula. Sinto-me um profissional completo. Tive a marca própria. Trabalhei num atelier de alta costura, trabalhei para mercado de massas. Para estar aqui, tive que passar por isto tudo. Mesmo no nível desta parte mais de cinema, arte, que é uma parte que eu acho super importante, e que tento sempre incorporar. Sobre esta [próxima] coleção de inverno, eu tinha ido para Veneza e já sabia que queria pôr ali umas plumas nos sobretudos. Estas viagens que eu faço, estas influências, lá está, é conseguir trazer alguns pormenores que não sejam demasiado extravagantes.


Há alguma auto censura natural que o mercado acaba por impor?
Acabo por ter algumas limitações. Não que me sejam impostas, mas eu próprio sei que não posso passar certas linhas, a roupa não pode ser demasiado extravagante. Já fica muito tempo na máquina e o preço já sobe. Eu sei que também tenho que respeitar ali um price range. Portanto, o que é que me sobra aqui? Se calhar brincar com o styling.
O styling é um processo que tem crescido bastante. É uma ferramenta que estava subvalorizada?
Desde que lá estou, tenho estudado, estudado, trabalhado, etc. Se calhar analisado mais o styling do que propriamente antigamente. Porque antigamente fazias uma coleção inspirada no sci-fi, tipo futuro e não sei o quê, e fazia aquilo com os ombros assim e assado…Hoje em dia não, eu já penso se o meu público vai receber isto bem. Eu próprio também me adaptei ao que já existia da marca. Usa-se muito algodões, roupa mais fresca, dia-a-dia, sapatilhas. Pronto, ok. Mas sem deixar de imprimir ali uma imagem global. Quando lançámos a coleção de verão, tinha logo o stylist da Vogue Alemã a pedir-me umas peças e fotografar. E saiu na Vogue Alemã, um editorial. Eu sei que muita gente mesmo lá fora está de olho no que estamos a fazer.
Sente que os designers emergentes já têm mais consciência destes imperativos para vingar?
Não, acho que não. Acho que os miúdos novos querem todos ser estrelas e celebridades sem trabalhar. É o que tu vês, é o que tu recebes. Eu trabalhava horas seguidas. E mesmo, às vezes, na empresa, fico a trabalhar até às quatro da manhã. Se tiver um shooting… Aliás, o shooting que nós tivemos de inverno, eu fiz três shootings no mesmo dia. Com quatro manequins diferentes para aproveitar tudo. Temos o Vasco, que é o nosso PR [relações públicas]. Temos a Maria, que trata as nossas redes sociais. Portanto, temos que estar sempre a mexer… Porque a Maria depois precisa de conteúdo. O Vasco precisa de conteúdo…
E o Diogo coordena essas pontas todas?
Eu sou o chief creative officer, tudo tem que passar por mim. Acaba por ser uma visão e um trabalho vinte e quatro sobre vinte e quatro.
Hoje fala-se muito de conciliação, slow living, etc. Áreas e funções como esta continuam a exigir uma dedicação 360?
Uma parte das pessoas lá na empresa ainda é aquele funcionário que pica o ponto das nove às x. Eu saio daqui e continuo a trabalhar. E acaba por ser um bocadinho diferente.
Não é possível de outra forma?
Se não fosse assim, acho que também não teríamos o sucesso que temos tido. Porque uma coisa é ter sucesso e outra é ver o produto a sair e o dinheiro a entrar. Nós estamos a ter isso, felizmente. O que é bastante gratificante. Claro que se calhar a nível do investimento que estamos a fazer, não estamos a ter o retorno que deveríamos ter. É uma coisa que demora tempo até chegar lá, mas está a acontecer, o que é ótimo. Estás em Portugal numa altura em que o mundo está em guerra. E mesmo online funciona super bem a nível internacional.
Quando perguntava sobre os novos designers, pensava também se acha que se mantém aquele estigma de que ninguém veste a moda portuguesa?
Acho que os miúdos saem das universidades com a ideia de que moda é extravagância e não sei o quê mais. Isso existe lá fora. Só que lá fora, estamos a falar de outros países, em que o ordenado mínimo não são mil euros, e em que se as pessoas não venderem, se calhar têm outros incomes. Aqui os miúdos constroem um sonho em cima de uma nuvem que vai desvanecer. Por isso é que também quis sair pela porta grande. Tu vês designers a aparecer e depois ficam 3 ou 4 seasons sem aparecer e depois aparecem. Isso também não é saudável. Quando fechar, fechei e está feito.
E nunca ponderou ser o tipo de designer influencer?
Não.
Tem conta fechada no Instagram, por exemplo.
Sim, eu tinha conta aberta por causa da marca porque, lá está, as pessoas gostam imenso de ver onde andas, o que bebes, com quem andas, mas a partir do momento em que fechei a marca tornei a conta privada. Mesmo os posts que faço são muito relacionados com a marca. Ainda há pouco fiz repost de uma influencer francesa a quem enviei umas calças, que é mais importante do que fazer um post sobre o meu brunch. Já não tenho idade para isso [risos]
Gosta de cultivar esses envios?
Sim, eu próprio faço isso. Eu às vezes partilho uma série com o Vasco e o Vasco diz, olha, já contactei esta, já contactei aquela.
Quem gostava de vestir com a marca?
Não me ia aparecer, mas gostava de fazer chegar uma camisa branca à Cate Blanchett. É a minha preferida de sempre.
Lá está, mais foco e menos likes e número de seguidores?
Sim, acho que é um bocadinho mais isso, penso numa coisa mais eterna. Uma coisa muito efémera não dá para mim. A A Line é uma marca de camisaria. Nós tínhamos muito essa coisa, as pessoas iam à loja comprar uma camisa e perdias ali uma venda contínua. Estou a trabalhar mais nesse sentido, onde consegues montar o resto do look.
Como vai ser o inverno 26?
A coleção de inverno foi muito pensada no dia-a-dia como eu acho que acabam por ser todas, e ao nível do styling. Nós temos sempre aquela dualidade do masculino-feminino, em que eu trabalhei imenso as camisas de algodão, dos quadrados, um bocadinho até com aquele feeling muito western. Quase como se fosse aquela camisa com que tu andas do namorado. E fizemos essa camisa em vários padrões e tecidos. A Line começou com um tecido de algodões, mas no inverno o algodão é frio.
Como resolveu?
Começámos muito a trabalhar as camadas, a fazer a camisola de gola alta, e depois os tank tops com as camisas, as camisolas atadas à cinta, e as overshirts, as nossas jeans boyish. Muito este lado workwear.
Não vos pedem linha assumidamente masculina?
A maior parte das peças até são unissexo, mas como os homens não veem as peças numa foto de homem acham que é de senhora. Estava a pensar fazer um editorial. Temos as lãs, tudo feito cá, as saias feitas com tecido reciclável, casacos gigantes, uma parte com sofisticação mas sem tecidos de festa, as gabardines, vestidos, é muito esta coisa das layers. Mais ready to wear não existe.
Tenciona apresentar de forma mais formal, ou mesmo em desfile?
Acho que a questão do desfile ainda vai surgir mas ainda demora um tempinho.

No Portugal Fashion?
No Portugal Fashion ou ModaLisboa. Não que tenha havido alguma abordagem mas pode acontecer. É o percurso normal, é uma marca portuguesa, acho que o convite vai aparecer um dia.
Mas qual seria a sua preferência? É que depois temos o país dividido entre esta velha questão, norte versus centro.
Fiz Portugal Fashion durante anos, porque fazia a Semana da Moda de Paris, e ali as coisas são mais profissionais. Aqui em Lisboa sinto que é mais um evento da cidade e que no dia seguinte já ninguém se lembra dele.
Mas não exclui?
Não.
Vamos imaginar que estamos aqui e recebe mensagem ao mesmo tempo dos dois lados.
Não sou só eu a decidir [risos]
Mas que lhe dizem os sinais que costuma seguir?
Não faço ideia, acho que os dois eventos têm coisas boas e más.
Talvez apresentar-se nos dois, quem sabe, promover essa aproximação de polos.
[ri-se] É e sempre foi uma rivalidade ridícula, porque devíamos estar a trabalhar para o mesmo lado. O Portugal Fashion agora está só com aquelas ações em julho, o que também é estranho porque uma marca não funciona só uma vez por ano. Mas não faço mesmo ideia, sinceramente, nem estou aqui numa de ir para um lado ou para outro. Se calhar antigamente fazia isso. Mas hoje estou numa posição mais “atenção, isto vai partir, vamos ver onde os cacos vão cair”, sou mais responsável nos efeitos secundários.
Está sempre a pensar no que pode correr mal?
Sim, e no que pode correr bem. Sou mais ponderado. Houve uma hipótese de fazer umas coisas com influencers, enviaram-me perfis de uma série delas e eu disse não. Não, não quero. Primeiro, nem sequer sabem falar. Depois, está-se a dar imenso palco a pessoas que nem percebem nada de moda, é um bocado triste. É a mesma coisa que ires a um médico que não estudou para isso, para ser médico. E ele vai receitar-te algo porque foi ao Chat GPT.
É pouco otimista nesta matéria?
Sinto que é um caminho um bocado assustador o que estamos a seguir. Ninguém quer estudar, aprofundar as coisas. Quando estive a fazer um PR da coleção foi uma semana a fazer e rever aquilo. E a coleção de 27 vai ser inspirada em Lisboa. E não dá para viver numa bolha, daí fazer questão de ir à loja. Eu posso querer fazer camisas só com um botão, mas o público se calhar não vai gostar. Até porque no final do ano tenho uma reunião com os patrões e tenho que apresentar contas e dizer o que faturámos. Dão-me todas as ferramentas, sinto que não posso falhar.
O Diogo usa design nacional ou depois é em casa de designer espeto de pau?
Uso imenso A Line, na verdade. Por acaso hoje não estou a usar mas eles fazem imensa roupa para mim, faço questão. Desenho uma camisa de senhora e peço para me fazerem para homem, já conhecem as minhas medidas. Está nos planos aliás lançar uma coleção mais unissexo, ou de homem mas ainda é precoce. Prefiro pôr tudo direitinho, tudo no caminho certo, para me dedicar a outro lado. Sempre fui assim obstinado.