1 “Ando entretidíssimo! Não paro um minuto”. O desabafo aterrou há dias sem pré-aviso, passava da meia-noite.
Não estranhei: desde o dia 9 de março de 2016 que esperava este momento sabendo que ele não poderia deixar de chegar quando tudo acabasse. Se havia coisa que eu metera na cabeça a partir do minuto em que – sem o meu voto – Marcelo Rebelo de Sousa entrara no Palácio de Belém, estava eu no Brasil, era que nunca me consentiria deitar fora uma amizade tão antiga e bem recheada, com a água do banho presidencial.
Talvez tenha conseguido.
2 No intervalo ficaram dez anos vividos por ambos entre uma distância claramente assumida da sua parte – nunca fui convidada para ir à Presidência da República – e uma frequente e ativa crítica pública com a minha assinatura. Aprendi com Vítor Cunha Rego que “as coisas são o que são”. Foi o caso.
3 Eram duas menos vinte da madrugada quando os telemóveis sossegaram e eu reencontrara o Marcelo de sempre. Com quem muito me encontrei e desencontrei, trabalhei, ri, discuti. (E que, inesquecivelmente, foi o autor de um sonoro elogio, quando um dia, após Ricardo Costa ter apresentado um livro meu, o então Presidente da República subiu inesperadamente a um dos palcos da Gulbenkian, evocou com argúcia o livro e foi generosíssimo com a autora.) Mas é dele que se trata e não de derivações sentimentais alheias. E ele “está na maior”.
4 “Sempre quis fazer diferente dos meus antecessores quando saísse de Belém, já tinha há muito começado a construir uma rede de iniciativas e programas. Não tenho um minuto livre”.
O telefonema daquela noite era a sua resposta noturna a um email que lhe mandara nessa mesma tarde sugerindo finalmente reencontrarmo-nos, juntando os amigos do costume, o melhor era que me ligasse.
“Estou muito realizado. Os portugueses adoram os mortos, para eles são sempre todos formidáveis quando morrem! E então os mortos-vivos como eu, não há palavras como adoram. Acolhem-me, festejam-me… Onde tenho ido a festa é sempre total, com multidões. Apesar de ter muito que fazer, consegui passar de mil à hora para seiscentos e já não ‘me’ morrem militares nem bombeiros… Cansei-me da política. Sim, política nunca mais!”
5 O ritmo era veloz, o verbo imparável e o “política, nunca mais” fora imperativo. Seguiram-se projetos, nomes, calendários, listas, etapas, moradas, lugares, e mil e mil convites, como se ele quisesse certificar-me da sua renúncia ao ar que respira.
Cansaço da política? Uma novidade.
A segunda foi ver o fogoso empenho com que se contou a ele mesmo, nesta nova encarnação. E o detalhe com que o fez: a rede de escolas onde irá ou já foi (“é lá que se decide o futuro”); a sua vontade em estar atento “à educação, à vocação, ao futuro” dos alunos; em pôr o foco na leitura e “na preparação que sobre ela os professores fazem nas aulas”; nos debates que “os estudantes fazem com eles próprios”.
Sim, claro, o Ministério da Educação está ao corrente, algumas bibliotecas também:
“A juventude dá vida!”, garantia-me ele, cavalgando certezas.
“Faço programas trimestrais das idas às escolas que me convidam, são centenas. Vou diariamente ao meu gabinete, a equipa é pequena, há muito trabalho… É que estou pelo menos quatro dias por semana em escolas!”
6 Continua a contar-se (“não, não são só as escolas que me ocupam, há mais”).
Há: em curso estão já algumas iniciativas de “natureza social”, campo onde se sabe ter tido ininterrupta presença desde a adolescência; e outras ainda, em quatro ou cinco “domínios culturais”, prometendo Marcelo a sua “presença” em fundações, museus, conselhos literários.
Além de recentes idas a concertos, espetáculos, teatros…
“Tenho também ido muito a concertos, espetáculos, vou ao aniversário do Teatro Aberto, já tenho bilhetes para o Diogo Infante, no Trindade…”
Aparentemente, um carrossel onde ele entra incessantemente e do qual só sai para entrar na rodada seguinte. Racionalmente, uma forma de continuar convictamente com atividade pública ao serviço do país. Mesmo que por enquanto de forma algo acelerada.
7 Percebo porém que não quer que nada disto, nenhum programa, compromisso, ou calendário, tenha intervalo ou sofra interrupção. Trata-se de um leque de iniciativas pensadas e pré-preparadas com tempo e minúcia que passaram hoje a ofício substituto – e em full-time – deste (ex?)político.
Haverá porventura quem olhe para este súbito novo emprego de tempo e de vida como um “salva-vidas” da solidão, do súbito vazio; da desilusão; do reencontro dificílimo com a vida “normal” e dessa trivialidade quotidiana da vida fora dos palácios quando se acabou de sair deles.
Ou – pergunto a mim mesma – esta nova forma de vida será antes do mais o colete salva-vidas que não o deixará afogar-se nessa fininha, indizível melancolia do que poderia ter sido e não foi?*
8 E há a Igreja, claro. Fidelidade maior, inteira e intacta até hoje. Uma omnipresença que nunca conheceu quebra ou hesitação. O país viu o seu então Presidente escolher o Vaticano como destino da sua primeira visita oficial e ir a Roma nas vésperas de sair de Belém. Viu-o saber onde ir ou onde estar sempre que se tratava da Igreja e da representação ao mais alto nível do Estado português. E convicto e firme na sua atenção ao universo católico. A Igreja percebeu desde o primeiro minuto estar diante de um “católico proativo com quem poderia contar” – como me recordaria um dia alguém. E o Vaticano, também o percebeu: basta lembrar que o Papa Francisco veio a Portugal, duas vezes (2017/2023) nos mandatos presidenciais de Marcelo e que a relação entre ambas as instituições sempre foi séria e harmoniosa
Foi assim sem sombra de surpresa que ouvi o relato – como sempre veloz, neste telefonema sui generis – do almoço que o novo Núncio Apostólico, o espanhol D. Andrés Carrascosa Coso, rodeado da hierarquia religiosa portuguesa, ofereceu neste último abril ao ex-Presidente da República. (O anfitrião, amigo pessoal do Papa Leão XIV, renunciou aliás à sua vontade de, como previsto, se reformar este ano para aceitar o insistente convite do Papa para se mudar para Lisboa e ocupar a Nunciatura.)
“O Núncio é genial, inteligentíssimo”, entusiasmou-se Marcelo. E num fôlego:
“Convidou todos os cardeais, bispos e arcebispos, nem todos puderam ir mas estavam muitos, o ambiente do almoço foi excelente. Aproveitei para lhes deixar um alerta para esta ‘volta’ política e religiosa que está a ocorrer com os jovens entre nós e disse-lhes que não a podiam perder. Até insisti: olhem que esta onda não voltará…”
9 Eram já quase duas da manhã quando consegui a muito (muito) custo, que Marcelo ouvisse uma pergunta minha (nunca se pode deixar de perguntar). Era sobre o seu sucessor, e quem não perguntaria?
Ah “têm falado muito”. Mais ao telefone que presencialmente mas também já se viram algumas vezes: “Tem-lhe corrido tudo muito bem. Ainda não cometeu um só erro desde que está em Belém”.
Não? Nem a colocação da UGT como fiel da balança na negociação da Lei laboral? Nem as trapalhadas que irão certamente enredar o Pacto para Saúde? “Não”.
Taxativo: “Essas coisas foram ditas na campanha e não na Presidência da República. Em todas as campanhas eleitorais há o afã do falar, do dizer, cai-se sempre no “overacting”.
Marcelo dixit.
10 Quando percebi que com a mesmíssima velocidade com que falara durante uma hora e meia, poderia também, dado o adiantado da hora, desligar velozmente o telemóvel, quis saber quando é que o carrossel pararia: “É até eu aguentar fisicamente… Mas assim também não penso em mais nada.”
Tal e qual: “não pensar em mais nada” (o carrossel não pode parar?). Então – ainda sugeri – e quando nos vemos, todos juntos? “Deixa passar algum tempo”.
Também ficou tudo nesta resposta.
PS: A propósito deste reencontro telefónico de longa duração, poderia ter-me ocorrido um balanço dos últimos dez anos que ele assinou – e encenou – em Belém. Nem me pareceu o momento, nem a circunstância. Talvez um dia. Mas o que aqui contei – e obviamente não contei tudo o que ouvi – foi intencional: dar a conhecer o silencioso trabalho que o cidadão Marcelo Rebelo de Sousa anda a fazer pelo país. Serviço público. Desenvolvido com propósito, uma energia empenhada e um imenso – indisfarçável – gosto. Não duvidei que tinha de ser contado.