Para muitos, a “grande substituição” de Renaud Camus não passa de uma teoria conspirativa caricatural. Para outros, corresponde a uma realidade demográfica, comparável a tantas outras transformações civilizacionais ocorridas ao longo da história. Curiosamente, Jean-Luc Mélenchon, que anunciou recentemente a sua quarta candidatura ao Eliseu, parece subscrever o fenómeno. Contudo, evita o termo “grande substituição”, preferindo o conceito de “creolização”. Ou seja, em vez de lamentar a transformação demográfica e cultural da França, celebra-a como fundamento do que chama uma “Nova França”, inevitavelmente mais diversa e mestiça. Aquilo que Camus descreve como “substituição”, Mélenchon apresenta como uma recomposição benéfica e desejada e, cada vez mais, como um projeto político e eleitoral.
Rebobinemos um pouco. Nas eleições presidenciais de 2022, Mélenchon obteve resultados expressivos nas localidades com maior concentração de população imigrante. Estima-se mesmo que 69% dos franceses de confissão muçulmana tenham votado no candidato da La France Insoumise na primeira volta, uma mobilização inédita de um grupo sociocultural ou religioso específico. Nestes círculos eleitorais, constatou-se não apenas uma transferência de votos proveniente dos restantes quadrantes da esquerda, mas também a adesão de abstencionistas, muitos deles oriundos da imigração, outrora desinteressados e sem uma causa mobilizadora.
Assim, foi delineada uma estratégia para a fidelização de um eleitorado etnorracial, o famoso “islamo-esquerdismo”. Por um lado, através da promoção de medidas destinadas a atrair estas minorias, desde políticas sociais à defesa do direito do solo, desde a proteção do véu islâmico ao controlo mais apertado da atuação policial. Por outro, através da polarização e conflitualização permanente, sob disfarce de uma luta antiracista. O resultado foi que, durante a campanha para as eleições europeias de 2024, Mélenchon promoveu a ascensão de Rima Hassan – mediática ativista pró-Palestina, hoje alvo de investigações por apologia do terrorismo -, como símbolo da sua “Nova França”, procurando capitalizar eleitoralmente a causa palestiniana.
É aqui que a questão se torna interessante. Atualmente eurodeputada e uma das figuras mais influentes do partido, Rima Hassan protagonizou recentemente declarações polémicas numa entrevista, ao lamentar a sobre-representação de políticos etnicamente brancos nas fileiras do próprio partido, o que, argumenta, colide com a sua diversidade eleitoral.
Chegarmos aqui era inevitável. Na “Nova França” que idealizou, o próprio Jean-Luc Mélenchon parece já não ter lugar, pois aos olhos de figuras como Rima Hassan, será sempre burguês, branco e francês demais para encarnar a revolução identitária que procurou alimentar. Um dia, será ele próprio visto como representante do privilégio estrutural que o seu movimento diz combater. Já se imaginou tamanha ironia? O partido da luta contra “todas as formas de racismo” começa a assistir a dinâmicas de exclusão racial no seu próprio interior. O partido obcecado pela desconstrução de identidades nacionais, opõe agora uma “Nova França” multicultural, pluriétnica e moralmente legitimada a uma “velha França” excessivamente nativa e historicamente culpabilizada.
Mélenchon parece ter esquecido que o verdadeiro critério de admissão na sua “Nova França” passou a assentar na cor da pele, na origem, na religião ou na pertença comunitária. Acreditou ingenuamente que a velha máxima da Revolução Francesa – a de que a revolução devora sempre os seus filhos – não se aplicaria a si. Talvez os comunistas iranianos pudessem contar-lhe, se ainda estivessem por cá, o que aconteceu quando os mulás chegaram ao poder.