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Da inveja

O sentimento que ninguém admite - mas que molda sociedades inteiras.

Paulo Finuras
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Há emoções que as pessoas confessam facilmente.

Medo. Ansiedade. Tristeza. Frustração.

E depois há a inveja.

Quase ninguém admite sentir inveja.

Mas basta observar a política, as redes sociais, as organizações ou mesmo muitas relações pessoais para perceber que ela está em todo o lado.

A inveja é provavelmente uma das emoções mais negadas da vida humana moderna – precisamente porque continua a ser uma das mais poderosas.

Durante muito tempo, a tradição moral e religiosa tratou a inveja como um vício moral menor, uma fraqueza de carácter ou um defeito espiritual. Mas talvez essa interpretação seja insuficiente.

Do ponto de vista evolucionista, a inveja não surgiu por acidente.

Nem é um simples “erro” psicológico.

A inveja é um mecanismo adaptativo de comparação social.

Durante quase toda a história humana, viver significava competir permanentemente por recursos escassos, como alimento, proteção, alianças, parceiros sexuais,

estatuto, reputação e acesso ao poder.

Num pequeno grupo ancestral, perceber rapidamente que alguém tinha mais recursos, maior prestígio ou mais influência podia ser literalmente uma questão de sobrevivência.

Quem ignorasse sistematicamente a própria posição relativa no grupo arriscava-se a perder acesso a cooperação, proteção ou oportunidades reprodutivas.

É por isso que os seres humanos não avaliam apenas aquilo que têm.

Avaliam sobretudo aquilo que têm relativamente aos outros.

E talvez seja aqui que começa uma das grandes ilusões modernas.

A modernidade prometeu abundância material. E, em muitos aspetos, cumpriu.

Nunca tivemos tanta tecnologia, tanto conforto, tanta segurança física ou tanto acesso à informação. Em termos históricos, a esmagadora maioria das pessoas vive hoje melhor do que reis, aristocratas ou milionários de há poucos séculos.

Mas há um problema. É que os mecanismos psicológicos humanos não evoluíram para avaliar abundância absoluta. Evoluíram para avaliar posição relativa.

O cérebro humano não pergunta apenas: “Tenho o suficiente?” Pergunta sobretudo: “Tenho menos do que os outros?”

E isso ajuda a explicar um paradoxo curioso das sociedades contemporâneas, ou seja, sociedades objetivamente mais ricas e confortáveis continuam profundamente dominadas por ressentimento, comparação social e perceção de injustiça.

A inveja é uma emoção relacional.

Ela raramente surge perante pessoas completamente distantes de nós. Ninguém inveja seriamente um bilionário árabe desconhecido ou um imperador romano morto há dois mil anos.

A inveja emerge sobretudo entre semelhantes, como colegas, irmãos, vizinhos,

amigos, profissionais da mesma área, membros do mesmo grupo social.

Ou seja, pessoas suficientemente próximas para servirem de referência comparativa.

E talvez nunca tenhamos vivido numa sociedade tão construída em torno da comparação permanente porque as redes sociais industrializaram a exposição ao sucesso alheio.

Hoje, qualquer pessoa pode passar horas a observar corpos mais atraentes, carreiras (aparentemente) perfeitas, viagens, riqueza, reconhecimento social, felicidade encenada, casamentos felizes, produtividade extrema, vidas cuidadosamente editadas. O resultado é um ambiente psicológico completamente anormal à escala evolucionista.

Durante centenas de milhares de anos, os seres humanos comparavam-se com algumas dezenas de pessoas do seu grupo.

Hoje comparam-se com milhões. E o cérebro não foi preparado para isso.

Talvez por isso as redes sociais não sejam apenas máquinas de comunicação. São máquinas de amplificação de comparação social. E, consequentemente, máquinas de amplificação de inveja.

Mas a inveja não atua apenas ao nível individual. Também molda sistemas políticos inteiros.

Muitas ideologias modernas compreenderam intuitivamente o poder político da inveja, mesmo sem o dizer explicitamente. Porque mobilizar ressentimento é frequentemente mais fácil do que mobilizar responsabilidade.

É mais simples convencer pessoas de que o problema fundamental da sociedade são os que têm mais” do que discutir produtividade, criação de riqueza, inovação, risco ou mérito diferencial.

A inveja tem uma enorme vantagem política: é emocionalmente intuitiva.

O sucesso alheio gera frequentemente suspeita automática.

Principalmente em sociedades onde coexistem desigualdade, baixa confiança institucional e culturas de ressentimento.

É por isso que tantas sociedades oscilam facilmente entre dois impulsos contraditórios que são admirar o sucesso, e simultaneamente desejar puni-lo, querer o que os outros têm e desejar que não tenham.

A mesma sociedade que celebra empreendedores pode rapidamente demonizá-los.

A mesma cultura que glorifica excelência pode ressentir-se profundamente de quem se destaca demasiado.

Nietzsche percebeu isto cedo quando descreveu o ressentimento como uma força moral e política central da modernidade.

Mas talvez o problema contemporâneo seja ainda mais profundo, porque a inveja tornou-se moralmente disfarçada.

Raramente aparece como inveja explícita. Surge frequentemente mascarada de indignação moral, virtude, justiça social seletiva, ataques à “arrogância”, crítica ao “privilégio”, hostilidade à competência, desconfiança perante as elites, cancelamento social, e um prazer subtil perante a queda dos bem-sucedidos.

Há algo profundamente humano e profundamente antigo no prazer coletivo perante a queda de quem estava acima.

A psicologia alemã até criou uma palavra específica para isso: “Schadenfreude”, i.e. o prazer perante o infortúnio alheio.

E talvez nenhuma emoção revele tão claramente a natureza competitiva da vida social humana.

O problema é que sociedades excessivamente dominadas por inveja tornam-se frequentemente sociedades hostis ao mérito, ao talento e à diferenciação.

Quando o impulso dominante deixa de ser “quero crescer” e passa a ser “não admito que o outro suba”, ou “quero ter” e passa a ser “não quero que o outro tenha”, instala-se uma cultura de nivelamento destrutivo.

E isso aplica-se à política, às organizações, às universidades, aos media,

e até às relações pessoais e familiares.

A inveja é uma emoção inevitável.

Não desaparecerá por sermos moralistas, modernos ou educados.

A verdadeira questão não será eliminar a inveja mas talvez civilizá-la.

Porque existem duas formas radicalmente diferentes de reagir ao sucesso alheio:

A primeira é destrutiva: “Se eu não consigo subir, então quero que o outro desça.” A segunda é civilizacional: “Se ele conseguiu, talvez eu também consiga.”

Sociedades saudáveis tendem a transformar comparação em inspiração. Sociedades ressentidas tendem a transformar comparação em hostilidade.

E talvez uma parte importante da crise psicológica, social e política e do desajustamento contemporâneo comece precisamente aqui: continuamos biologicamente preparados para pequenos grupos de comparação local, mas vivemos agora expostos a uma montra global permanente de estatuto, aparente sucesso e reconhecimento.

Sim, o mundo mudou. A natureza humana não.