Moulin é grave e taciturno como uma câmara mortuária. O oposto absoluto do filme de época aprumado e elegante. Foi rodado em 35mm, como antes aqui se referiu. Passa-se em França, durante a II Guerra Mundial, em 1943, quando Jean Moulin, líder da Resistência, chega a Lyon para reorganizar a dita Armée Secrète, sob a última das muitas identidades falsas (Jacques Martel) que usou na que se tornaria a sua última missão. A célula seria traída e desmantelada com especial crueldade pelo oficial nazi Klaus Barbie, que passou para a história como o “carniceiro de Lyon”.
Nemes assina o seu melhor trabalho de mise en scène desde que O Filho de Saul o apresentou ao mundo, procurando constantemente, na silhueta dos actores e no seu movimento no espaço, a obscuridade em que a Resistência se move, eternamente fixada no cinema por Jean-Pierre Melville em O Exército das Sombras. Há planos no filme cuidadosamente enquadrados em resposta ao clima opressivo que a situação exige, tantos são, e de qualidade tão notória que, de facto, quase dá vontade de elencá-los.

Mas há uma diferença assinalável de Melville para este filme de Nemes: Moulin traz a sugestão e o fora de campo da tirania para um primeiro plano visceral e de bruta violência gráfica. Por outro lado, a performance de Gilles Lellouche é física e tensa de contenção, sem qualquer exagero emocional; uma vez capturado, a forma como vai adiando a morte certa depende do que ele consegue esconder, já que o inimigo continua a duvidar da sua identidade.
Será interessante confrontar Nemes, em entrevista, com um reparo a ser feito: na esmagadora maioria dos filmes passados na II Guerra Mundial, a representação dos nazis é caricatural e, em Moulin, pese embora o esforço em contornar esse cliché, não se considera que se faça o suficiente. Há que não esquecer que o torcionário Klaus Barbie, quer a nível biográfico, quer dramático, é uma figura pelo menos tão complexa quanto Moulin. As cenas em que Lars Eidinger interpreta poderiam ter escavado mais fundo. Que isto não manche, contudo, um filme corajoso, capaz de espelhar o horror num rosto humano.
El Ser Querido, a primeira entrada espanhola a concurso
No duelo de interpretação masculina, Javier Bardem tem uma clara palavra a dizer neste festival por um filme que causou fortes reservas, o que se lamenta, tanto mais porque As Bestas, obra anterior do espanhol Rodrigo Sorogoyen, indiciara consideração pela obra futura. El Ser Querido é um filme sobre relações de poder e, mais especificamente, sobre relações de poder no cinema, em discussão que também se estende à desigualdade de género (homens no poder, mulheres em lugar subalterno) e à hierarquia familiar, já que Esteban Martínez, a personagem que Bardem interpreta, é um célebre realizador espanhol de meia-idade, prestes a contratar como actriz a filha que negligenciou (fruto de um primeiro casamento). Neste ponto, o filme toca parcialmente na trama de Valor Sentimental, mas com sentimentos mais exacerbados do que o filme nórdico porque a filha, aqui (Emilia/Victoria Luengo), encontra-se muito mais fragilizada (inclusivé a nível financeiro).

O que temos, afinal? Um filme dentro de filme (Estebán vai para as Canárias filmar uma história passada no Saara Ocidental, colónia espanhola até 1975) e uma história de rodagem a derrapar, com um realizador irado mas protegido pelo seu estatuto consagrado e metade da equipa com vontade de se meter no primeiro voo e ir embora. Mas Esteban acredita no cinema como se ele tivesse o poder de reparar tudo. Mais preocupado em salvar a relação com a filha do que com o filme que está a fazer, combate o remorso, sabendo, sem nunca o admitir com humildade, que não foi um bom pai.
O que é estafante e frustra num filme em que Bardem, honra lhe seja feita, dá o litro (como quase sempre o faz), é que El Ser Querido, à semelhança da estrutura patriarcal que critica, impõe ele próprio (e empola) um formalismo abusivo, em cenas que, quando não testam o limite das personagens, deixam-nas à beira de um ataque de nervos. É um melodrama ambicioso sobre o fosso que separa duas pessoas mas resulta pesado, enfartado por um dispositivo cinematográfico que se sublinha e se coloca em evidência.
O autor escreve segundo a antiga ortografia.