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O exemplo europeu de Cavaco Silva

O tempo governativo de Cavaco Silva está ligado a uma das maiores transformações da Europa: a criação da União Económica e Monetária, cuja fase final seria a criação do Euro. Hoje tudo parece óbvio.

Luís Marques Mendes
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O prémio europeu que Cavaco Silva vai receber hoje em Estrasburgo não distingue apenas uma personalidade. Presta também homenagem a três valores atualmente em crise na Europa: o reformismo, o europeísmo e a iniciativa política.

Cavaco Silva foi o PM mais reformador da democracia portuguesa. Claro que o seu consulado beneficiou muito das vantagens financeiras que a adesão à Europa oferecia. Mas o seu grande mérito foi o de perceber que despejar dinheiro em cima dos problemas não é solução estrutural nem projeto de vida. Por isso, a sua imagem de marca foi reformar. Reformar para transformar e desenvolver. Reformar no Estado, no sector financeiro, na economia, no plano social. Reformar com resultados especialmente impressivos: um crescimento do PIB que em média foi de 4% ao ano, durante uma década, quando a média europeia nesse período não passava dos 2,4%; uma convergência de 12,6 pp com a Europa, o que numa década é impressionante; uma taxa de inflação que baixou em dez anos de 19,5% para 4,2%; um avanço relevante na educação onde, por exemplo, o número de alunos no ensino superior quase triplicou (de 100 mil em 1985 para 290 mil em 1995); um salto qualitativo enorme no plano social, de que o 14º mês para pensionistas e reformados é exemplo paradigmático.

Nada disto foi milagre português. Foi capacidade reformadora e liderança com causas. Ser então um bom aluno na Europa não era imagem de subserviência. Era sinal de visão e estratégia. O que fortalece a democracia, a Europa e a cidadania.

O tempo governativo de Cavaco Silva está ligado a uma das maiores transformações da Europa: a criação da União Económica e Monetária, cuja fase final seria a criação do Euro. Hoje tudo parece óbvio. Mas, nesse tempo distante, eram muitos os que torciam o nariz a esta “revolução”. A começar por muitos empresários portugueses. Tinham-se habituado às desvalorizações do escudo como forma de obterem ganhos de competitividade nas empresas. É sempre mais fácil pedir uma desvalorização da moeda que apostar na inovação, na produtividade e na melhoria da qualidade dos produtos.

Cavaco Silva, ao invés, foi sempre determinado na defesa desta opção. Conhecia os riscos, sobretudo para os países mais frágeis. Mas tinha a noção clara de que ou a Europa dava este passo transformador ou definhava. O ideal europeu tinha que sobrepor-se a qualquer egoísmo nacional. E Portugal tinha razões para estar na primeira linha deste novo desafio. Até Jacques Delors o reconheceu, em 1997: “O caminho percorrido por Portugal desde a sua adesão às Comunidades Europeias é particularmente impressionante e a perspetiva de integrar a União Económica e Monetária desde o seu início é um sucesso indiscutível”.

Num tempo em que na Europa escasseia a iniciativa, Cavaco Silva recusou sempre estar à defesa ou ser um mero espectador. Se hoje o princípio da coesão económica e social é um princípio matricial da UE, a ele muito se deve. A ele e a Felipe Gonzalez, para sermos mais justos. Foi um combate duro que ambos travaram.  As oposições dos países mais ricos eram fortes. Mas as convicções eram ainda mais firmes. Em especial a convicção de que não há prosperidade sustentável sem solidariedade ativa entre todos.

Por tudo isto, a Ordem de Mérito Europeu assenta bem a Cavaco Silva. Como assenta bem aos demais laureados. Nunca é tarde para homenagear. Como nunca é demais recordar: sem reformismo, europeísmo e iniciativa, o ideal europeu desfalece. É tempo de elogiar os homenageados. Mas é sobretudo importante seguir os seus exemplos.