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(A) :: A América, afinal, era um mito?

A América, afinal, era um mito?

Durante décadas parte de nós olhou para os Estados Unidos como uma referência na regulação da vida política e económica. Terá sido uma ilusão?

Helena Garrido
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A 2 de Abril de 2025 o presidente dos Estados Unidos anunciou aquilo que designou como “Liberation Day”, com uma lista de tarifas sobre praticamente todos os países do mundo. Os mercados bolsistas afundaram, como seria de prever. A 9 de Abril, logo pela manhã, Trump escreve na sua rede Truth Social, em maiúsculas, que esta é uma altura óptima para comprar. E cerca de quatro horas depois anuncia a pausa nas tarifas, com exceção para a China, provocando valorizações bolsistas históricas. Com apostas prévias à comunicação de que o mercado iria subir, apesar de ter estado em queda nos últimos dias.

Este é um de muitos casos em que se suspeita do uso de informação privilegiada nas decisões de investimento bolsista e um dos que está mais documentado. Há cartas de senadores democratas a pedirem informações e uma investigação  à entidade de supervisão dos mercados a Securities and Exchange Commission (SEC), sem sucesso.

A BBC fez recentemente um levantamento de vários casos, com os mais recentes a incidirem no mercado do petróleo, na sequência da guerra com o Irão. Um deles é de 9 de Março de 2026. Cerca de 47 minutos antes de se saber que Trump tinha dito, à CBS News, que a guerra com o Irão estava praticamente concluída, assiste-se a uma subida acentuada de apostas de que o preço do petróleo iria cair, como caiu.

Esta semana ficámos igualmente a saber que Donald Trump  fez transações bolsistas de centenas de milhões de euros com algumas das maiores empresas norte-americanas, entre elas a Tesla, Nvidia, Apple, Meta ou Boeing. A notícia é dada pelo Financial Times na sequência da divulgação obrigatória desses dados. Boa parte dos presidentes dessas empresas acompanharam o presidente dos Estados Unidos na visita à China. O argumento oficial é que os investimentos do Presidente são realizados por uma empresa independente.

Juntemos a isso o avião que Donald Trump aceitou do Qatar ou ainda o que tentou fazer ao presidente da Reserva Federal Jerome Powell, com a ameaça de o processar, e temos um quadro que não reconhecemos como sendo a América à qual estávamos habituados. Para não falar, obviamente, de tudo aquilo a que temos assistido nas relações da administração Trump com a Europa. E que passou inclusivamente pela ameaça de anexação da Groenlândia.

O que causa a maior das perplexidades neste resumo de acontecimentos é que a América como a conhecíamos deixou de ser capaz de garantir que as regras se cumprem. Quem estudou por livros de economia de professores norte-americanos, e seguiu as últimas décadas da vida económica e financeira do outro lado do Atlântico, via um país em que as instituições políticas e económicas conseguiam garantir o respeito pelas regras concorrenciais de mercado, gerir com a regulação as falhas de mercado e eram implacáveis com quem violava as normas. A terra das oportunidades tinha regras.

É verdade que começaram a existir sinais de alguma diluição dessa ideia da América com a crise financeira de 2008. Mas, talvez ingenuamente, parecia que a própria América estava a encontrar um antídoto para salvar o capitalismo de si próprio através dos princípios ESG – Ambientais, Sociais e de Governação – aplicados à gestão. Por esta via tenta-se, ou tem-se tentado, que as empresas sejam menos extrativas e mais equitativas. Mas muitas empresas aproveitaram a desvalorização, que a administração Trump fez destes objetivos, para se afastarem deles, sem perceberem que precisam de ser salvas da sua ganância.

Todos estes casos só são possíveis pelo aparente colapso dos pesos e contra-pesos que tanto apreciávamos na Democracia na América. Nos exemplos concretos sobre os mercados bolsistas e do petróleo, a ausência de acção dos reguladores reflecte a fragilização da SEC e de várias outras instituições que são supostas avançar para investigações em casos de suspeitas de corrupção. O famoso DOGE (Department of Government Efficiency) dirigido por Elon Musk teve um importante papel nesta fragilização das instituições.

O que se está a passar desafia-nos a pensar no que se está a passar com a América. Porque nada pode acontecer numa democracia sem que o povo deixe que isso aconteça. E o povo, dos mais modestos às elites, está a permitir, nem que seja por omissão, que tudo isto aconteça. Vimos como foi fácil controlar, por exemplo, a academia, universidades de referência em todo o mundo. Diríamos certamente que estaria louco aquele que, num exercício de previsão, nos dissesse que alguns destes acontecimentos iriam ocorrer nos Estados Unidos sem nenhuma reacção. Mas é isso que está a acontecer.

A América como a conhecemos não foi uma ilusão. Mas o que se está a passar mostra bem como as instituições democráticas podem ser frágeis e como, quando elas deixam de funcionar, todos acabam amedrontados e a pensar mais no seu ganha-pão dos que nos seus valores. Há uma degradação moral generalizada, seja por acção ou omissão, e o desesperante é que não podemos ter a arrogância de culpar quem se protege. No fim de tudo estão os sinais, que a História já nos mostrou noutros casos, que apontam para um tempo de decadência.