(c) 2023 am|dev

(A) :: Figuras de Ursula

Figuras de Ursula

Gabar-se de ter energia 100% renovável é como gabar-se de saber andar de bicicleta com rodinhas. As centrais a gás que somos obrigados a ter em stand by para evitar apagões são rodinhas muito caras.

José Diogo Quintela
text

A minha filha está a estudar para o exame de Português do 9.º ano. Tem algumas dificuldades com figuras de estilo e ontem pediu-me ajuda. Queria um exemplo de eufemismo. Teve sorte, porque eu estava justamente a pensar naquele ocorrido no passado dia 10 de Março, em Paris, quando Ursula von der Leyen afirmou que o desinvestimento em energia nuclear da Europa foi um “erro estratégico”. Mesmo louvando a humildade da Presidente da Comissão Europeia em admitir o engano da UE, a confissão peca por defeito. O que Ursula referiu não é bem “erro estratégico”.

Vamos lá ver, erro estratégico é pedir peixe cozido num rodízio brasileiro. Erro estratégico cometeu o tipo que optou por se dedicar à pintura em vez de fazer parte dos Beatles. Erro estratégico é Napoleão ter invadido a Rússia. “Erro estratégico é eu ter-te pedido ajuda para estudar Português”, interrompeu a minha filha. “A explicação está a ficar um bocadinho maçadora”, atalhou, mostrando que afinal domina o conceito de eufemismo e o aplica correctamente na conversa. Levantou-se e foi-se embora. Mas eu já não conseguia parar, tinha aberto a porta à minha monomania predilecta.

Isto que a Europa fez de recusar uma fonte de energia abundante, fiável e facilmente disponível para apostar antes em fontes intermitentes e não despacháveis, não é um mero erro estratégico, está noutro patamar de engano. Em combinação com a desindustrialização voluntária, enquadra-se mais na definição de “cretinice existencial”.

Está ao nível daquela tribo africana que optou por não aprender a dominar o fogo, pois era apenas “uma moda passageira”, o fumo fazia tossir, as cinzas sujavam imenso e a comida cozinhada queimava a língua. “Que tribo era essa, Zé Diogo? Lá estás tu outra vez a aldrabar, numa patética tentativa de tornar a tua crónica interessante. O ChatGPT não encontra referências a essa tribo”. É justamente esse o meu ponto: não existiu. É impossível existir uma tribo tão burra. E, se existiu, extinguiu-se. Nenhum grupo de pessoas optaria conscientemente por descartar um avanço tecnológico crucial como o fogo. No entanto, quando o Ocidente quis trocar as fontes de energia, excluiu a mais óbvia, mais limpa, mais abundante e mais barata.

Antes disso, nunca, na história da humanidade, se tinha verificado uma transição energética em que a principal fonte passasse de uma forma de energia mais densa para outra claramente menos densa. E, já agora,  ainda bastante emissora de CO2: em kilos por gigawatt/hora gerado, a eólica onshore gasta 5 vezes mais betão e aço (duas matérias-primas altamente dependentes de combustíveis fósseis) do que a nuclear. A solar gasta 1,5 vezes mais.

Em termos de eficiência, é como contar a história dos Três Porquinhos e dizer que o bácoro que fez a casa com tijolo é quem merece censura, ao contrário do mano que edificou com palha, um construtor que apresenta uma habitação mais eficaz contra sopros de lobos.

Entretanto, a guerra no Médio Oriente e o fecho do estreito de Ormuz encareceram o preço da energia. Instantaneamente, começou-se a dizer que isto prova que a Europa tem de acabar com a dependência dos combustíveis fósseis. O que é uma meia-verdade. A Europa tem de acabar com a dependência de combustíveis fósseis, sim, mas só com os que vêm daquela parte do mundo. Para isso, deve começar a explorar as suas reservas (incluindo na nossa costa e ZEE) Não o fazer é mais um dos eufemísticos “erros estratégicos”. É que independência de combustíveis fósseis é uma impossibilidade física. Por muito que os entusiastas das renováveis digam o contrário, são desmentidos por notícias como esta, da semana passada: “Por mais potência solar e eólica que seja instalada, a geração de fontes renováveis é instável e imprevisível. Muita da eletricidade verde consumida em Portugal é gerada nas centrais hidroelétricas cujo nível de produção pode cair muito em anos de seca. O facto de estarmos interligados a um único país, Espanha, cujo sistema elétrico também está exposto a estas variáveis, reforça a necessidade de manter as centrais a gás disponíveis mesmo quando não estão a produzir”.

Chama-se energia “verde”, mas não é por ser ecológica, é por ainda não estar madura. Gabar-se de ter energia 100% renovável é como gabar-se de saber andar de bicicleta com rodinhas. As centrais a gás que somos obrigados a ter em stand by para evitar apagões são umas rodinhas muito caras.

Acabar com os combustíveis fósseis é acabar com estes back ups essenciais, com jet fuel (ainda não há aviões à vela), com fornalhas usadas na produção de aço e cimento, com o plástico e com os fertilizantes que usamos para cultivar os brócolos que os ambientalistas vegan comem.

Três dias depois de Ursula von der Lyen ter anunciado que a Europa ia voltar atrás na energia nuclear, faleceu Paul Ehrlich. Pode ter sido coincidência, mas desconfio que foi antes pelo choque. Ehrlich era um dos pais do eco-histerismo moderno, um aguerrido neomalthusiano que, logo desde a publicação do seu primeiro livro “A bomba populacional”, revelou-se um opositor do desenvolvimento humano, pugnando antes por políticas de controlo populacional e limitação de avanços tecnológicos na alimentação. Ehrlich achava que o planeta não tinha capacidade para alimentar uma população em crescimento. Em 1968, quando publicou o livro, a população mundial era cerca de 3.5 mil milhões de pessoas e Eherlich dizia que o máximo que a Terra aguentava era à volta de 2 mil milhões. Actualmente somos mais de 8 mil milhões, com menos pessoas a passarem fome, quer em percentagem da populacão total, quer em números absolutos. As teorias de Paul Ehrlich estiveram na origem de políticas de natalidade trágicas como a proibição de mais do que um filho na China (responsável por uma explosão de abortos e por assimetria de género, pois os casais privilegiavam rapazes) e de esterilizações forçadas na Índia. Enfim, consequências muito giras no 3.º mundo à conta do catastrofismo infundado de um ocidental.

A razão pela qual as declarações de Ursula von der Lyen poderiam ter chocado Ehrlich tem que ver com o facto de o biólogo, como bom alarmista, ser também contra a energia nuclear. O seu potencial de abundância assustava-o, ao ponto de ter um dia dito: “Giving society cheap, abundant energy would be the equivalent of giving an idiot child a machine gun”. Realmente, energia barata e abundante é trágico.

Paul Eherlich não foi o único alarmista a falecer nos últimos tempos. O cenário responsável por assustar toda a gente com as suas previsões catastróficas também se finou. O comité internacional responsável pelos cenários oficiais do IPCC declarou que os cenários de altas emissões (RCP 8.5) são implausíveis e devem deixar de ser tidos em conta. Nos últimos 20 anos, estes cenários, usados para fazer previsões, dominaram a investigação climática, as notícias dos jornais e a formulação de políticas restritivas como as que temos agora. Finalmente, o organismo das Nações Unidas reconhece que são cenários irrealistas: os desastres profetizados, os custos associados, as consequências das alterações climáticas, estava tudo inflacionado. No entanto, nas últimas duas décadas, foi com base neles que os governos decidiram todas as medidas empobrecedoras da chamada transição energética. Agora, acabaram. A humanidade é como alguém que, aos 50 anos, descobre que afinal não existe Papão, já pode espreitar por baixo da cama.

Resta saber o que vão fazer os militantes dos pânicos morais. Arranjar um catastrofismo que substitua este? É uma pena deixarem de intervir publicamente com os seus activismos, sempre tão originais e disruptivos. Como este: “Activistas do movimento Climáximo entraram nesta quinta-feira num supermercado no Campo Pequeno, em Lisboa, de onde levaram dezenas de produtos, sem os pagar, e foram distribuí-los por pessoas pobres, informou o colectivo, em comunicado”. É curioso que gente tão habituada a ser tremendista quando fala do clima (uma tempestade comum é um cataclismo, uma cheia recorrente é o dilúvio, uma onda de calor habitual é o apocalipse), seja tão contida quando fala de crimes. Um assalto passa a ser “entrar num supermercado e levar produtos sem os pagar”. Ainda chamei a minha filha para lhe dar mais um exemplo de eufemismo, mas ela já está farta desta minha conversa e fingiu que não ouviu.