Esta publicação, inédita entre nós por parte duma instituição pública deste tipo, não é uma história crítica, digamos até: não é uma “autobiografia” crítica, que seja ao mesmo tempo o indispensável exame da diacronia museológica e museográfica — e como evoluíram nos últimos cem anos! — e uma avaliação do desempenho dos seus principais diretores, aqueles que uma sensata governação manteve no cargo num arco temporal suficientemente alargado para serem determinantes, mas também aqueloutros cujo ímpeto renovador, ainda que breve, marcou o museu e a sua equipa de conservadores e historiadores da arte. Muito menos é o elogio destes, ainda que claramente o merecessem enquanto gerações formadas já a partir dos anos 1980 e que tão boas provas têm dado ao país nestes domínios, inclusive em cargos diretivos deste e de outros museus.
Enquanto narrativa, Museu Nacional de Arte Antiga 1884-2024 merece ser escrutinado com profundidade, porquanto, desde há oito décadas pelo menos, a ampliação e valorização do Museu tem sido assunto recorrente (v. 1973 p. 154, 1983 p. 170) e agora está em clara evidência neste fecho durante dois anos para obras que só o PRR veio permitir e ainda ficam aquém do desejado. Inúmeras intervenções públicas de alguns diretores, por exemplo as de Joaquim Oliveira Caetano, em maio de 2023 (bem recentes, portanto), evidenciando constrangimentos graves do Museu Nacional de Arte Antiga, foram eclipsadas desta narrativa.

Muito mais ainda, foi ignorado — mas como?!! — o livro de António Filipe Pimentel MNAA 2010-2019. Para a História do Museu Nacional de Arte Antiga (2019, 310 pp.), justamente consignado, em grande parte, a urgência dessa ampliação, atenta à dinâmica renovação de grandes museus europeus. A questão — centralíssima — da autonomia dos museus nacionais na decisão e meios de aquisição de obras para o seu acervo, não passa uma só vez por estas páginas. Também não é preciso ser-se sequer um pequenino sabichão para notar que à bibliografia da p. 23 falta o livro de Joana Baião sobre José de Figueiredo, diretor de 1911 a 1937 (Museus, Arte e Património em Portugal. José de Figueiredo (1871-1937), Caleidoscópio, 2016, 439 pp.), um estudo sobre João Couto e o livro sobre os 100 anos do Grupo de Amigos do Museu Nacional de Arte Antiga (2012, 86 pp.; v. p. 215). A tese de Emília Ferreira, apenas referida enquanto tal, saiu em livro — aliás lançado no próprio Museu, se bem me lembro a 21 de novembro de 2019…
Certos trabalhos reclamam bem mais do que cabeça no ar e um simples esticar de braço, bastante mais que o abrir insone de velhas e poeirentas caixas de arquivo. Fica-se com a estranha, inesperada sensação de que não foi entendido assim. Além disso, a grelha adotada por Sónia Teixeira Pinto (a sua missão como designer gráfica, note-se, foi exigente) desfaz qualquer possibilidade de hierarquização — todavia óbvia, indispensável e irrefutável — entre as realizações do Museu a cada ano consignadas, fazendo crer, a uma primeira leitura, que tudo se equivale a tudo, bastando seguir o calendário. Ora, não podia ter sido feito assim. Importava ter destacado marcos históricos da vida e obra do Museu Nacional de Arte Antiga.


Exposições tão relevantes como Os Primitivos Portugueses, Tapeçarias de Pastrana e Do Tirar pelo Natural. Inquérito ao Retrato Português (retomando importante projeto de José-Augusto França vetado em 1969), entre outras, ou, mais ainda, em 1961, a exibição preliminar duma parte da coleção de Calouste Sarkis Gulbenkian antes da construção do Museu que justamente se tornou uma referência internacional, mereciam mais, muito mais. E se o bom livro do italiano Antonio Tabucchi sobre os painéis de Hieronymus Bosch (Quetzal, 1989, 99 pp.) foi justamente lembrado na p. 180, nada justifica que tenha sido esquecido o majestoso estudo de Dagoberto Markl (1939-2010) — sendo, para mais, um homem da casa… — sobre o Livro de Horas de D. Manuel, outro dos tesouros do Museu, dado aos prelos por ocasião da XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura (Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1983, 309 pp.). Do mesmo modo, causa apreensão que em 1988, sobre os quadros em que João Vieira reinterpreta os Painéis de Nuno Gonçalves — um poderoso, impactante diálogo de contemporâneos e primitivos ou antigos, sem antecedente na história do MNAA — o destaque fotográfico tenha sido dado à visita à exposição pelo presidente da república Mário Soares (p. 178)…
Nas escassas 8 páginas que dedicam à história do Museu, José Alberto Seabra Carvalho e Maria João Vilhena de Carvalho consideram seis períodos: 1884-1910, 1910-40, 1940-62, 1962-75, 1975-99 e, por fim, 2000-24 (“o MNAA do terceiro milénio”, já com seis diretores num quarto de século), correspondentes a outras tantas fases da administração, rearranjos no edifício e organização de galerias para exibição das coleções, sem que, em nenhuma delas, especial foco tenha sido dado à equipa digamos científica da instituição, enquanto produtora de conhecimento dispondo de biblioteca própria a partir de 1946 (o Boletim, criado em 1939 e mantido até 1966, não tem ainda livre acesso em-linha disponível, o que se diria expectável nos dias de hoje).



O papel dos Amigos do Museu, generoso em doações e em sinergias, fica bastante negligenciado nesta narrativa histórica, que também deixa de lado o modo como o MNAA reagiu ou não reagiu aos dois anos da pandemia de Covid-19, salvaguardando à distância, de modo criativo, o contacto do público com as suas coleções. Ainda que o desempenho do designer Sebastião Rodrigues esteja identificado, de finais dos anos 60 a 70, o mesmo não sucede com José Brandão e João Bicker, entre outros, mesmo que este último tenha dedicado parte do seu doutoramento à reflexão teórica sobre o seu trabalho em exposições do MNAA, e aquele tenha melhorado exponencialmente a qualidade dos catálogos do museu, desde aquele, de 1986, sobre Biombos Nambam, que é um salto olímpico após o desastre visual das publicações da XVII Exposição (o seu nome ou do atelier B2 está omisso, entre outros, na referência aos catálogos A Faiança da Fábrica do Juncal e Outro Mundo Novo Vimos, pp. 193 e 195).
Sem prejuízo de se considerar este livro útil e conveniente, até agradável, fica a faltar-lhe algo para que seja uma boa obra de referência sobre o nosso principal museu. A ausência dum índice onomástico e duma cronologia sistematizadora também penalizam o desempenho dos autores e das equipas que no MNAA e na Imprensa Nacional deles se ocuparam. Estamos ainda — também nisto — a larga distância de um padrão internacional, todavia acessível a todos. Basta querer.
Apresentação esta segunda-feira, dia 18 de maio, Dia Internacional dos Museus, pelas 17h, na biblioteca da Imprensa Nacional, Rua da Escola Politécnica, 135, a cargo de Marcelo Rebelo de Sousa. E a 3 de Junho, quarta-feira, no auditório sul da Feira do Livro de Lisboa, também às 17 h.