A posição do PS sobre as declarações de Marco Rubio quanto ao uso da Base das Lajes é absolutamente incompreensível, quer do ponto de vista do histórico atlantista do partido, quer mesmo do ponto de vista eleitoral. Um dos grandes valores da Política Externa portuguesa é precisamente o alinhamento entre o PSD e o PS, em particular a relação que ambos têm mantido com um aliado importante como os EUA.
Primeiro, Eurico Brilhante Dias disse que o Governo português submeteu o país a uma “humilhação de escala planetária” e que o Governo “agachou-se sempre” nesta matéria. Depois, foi o próprio líder do PS, José Luís Carneiro, a dizer que o Executivo colocou o País numa “posição lamentável” e ainda atirou: “Um dos dois [Rangel ou Rubio] está a faltar à verdade”.
Na base de tudo isto estão declarações do secretário de Estado dos Estados Unidos à Fox News, em que Marco Rubio disse o seguinte: “Para ser justo, há países da NATO que foram muito úteis para nós. Vou só dizer um: Portugal. Disseram que sim mesmo antes de perguntarmos o que quer que fosse”. Na resposta, o Governo português disse que o pedido a Portugal só foi feito “depois do ataque ao Irão” e que o Executivo “só aceitou mediante condições que foram logo tornadas públicas”. Há, portanto, duas versões.
O PS podia ter chamado, como fez, o ministro dos Negócios Estrangeiros ao Parlamento, para esclarecer o tema, mas foi completamente despropositado no tom das declarações que fez. O primeiro erro socialista é que — num momento em que o mundo diplomático desconfia das versões apresentadas pelos membros da Administração Trump — o PS prefere acreditar em Marco Rubio em detrimento de Paulo Rangel. Isso, só por si, é um péssimo serviço prestado à diplomacia portuguesa.
As declarações do PS são também um erro porque não trazem os ganhos eleitorais e podem até causar dano. José Luís Carneiro tem crescido nas sondagens, precisamente, ao centro. A moderação e o sentido de Estado é o que têm colocado o secretário-geral do PS como uma alternativa credível à AD. Nesta matéria, a retórica do PS não fugiu muito da do Bloco de Esquerda. Como Brilhante Dias e Fabian Figueiredo falaram um a seguir ao outro é fácil perceber a similaridade do discurso. Podia, claro, ser uma estratégia da direção do PS de captar votos à esquerda, mas à esquerda do PS os votos são poucos e, se não se convenceram com Pedro Nuno, não é Carneiro que os vai entusiasmar.
A somar a isto, José Luís Carneiro ainda se sujeitou a um ralhete público do seu antigo responsável pelas Relações Internacionais, Francisco Assis, que em declarações ao Observador disse não serem aceitáveis os termos “excitados e inapropriados” a que o PS recorreu. Assis classificou mesmo as declarações do PS como “retórica infantil e extremista” e sugeriu que o partido se deixou contaminar por um “radicalismo ideológico assente na rejeição da importância das relações transatlânticas”. Depois da ida à Venezuela é a segunda vez que Carneiro ouve das boas de Assis e o eurodeputado está longe de estar sozinho no PS.
O PS devia também ter algum decoro quando diz, através do seu líder parlamentar, Eurico Brilhante Dias, que o Governo português “agachou-se sempre”. O ataque pode fazer ricochete. O que ficou provado — e há telegramas com autenticidade verificada a confirmá-lo — é que o Governo PS, então liderado por José Sócrates, secundado por Luís Amado, autorizou os voos da CIA que transportavam detidos para Guantánamo. Os telegramas, como este revelado pelo El País, assinados pelo então embaixador dos EUA em Portugal, Alfred Hoffman, são clarinhos. À luz do Direito Internacional, este foi um agachamento complicado.
Aliás, Paulo Pisco, que José Luís Carneiro colocou à frente de um novo Departamento que criou no PS (o das Comunidades) foi apanhado nesses mesmos telegramas em amena cavaqueira, e de forma muito patriótica, a criticar Ana Gomes por exigir transparência nos voos da CIA numa reunião com Hoffman na embaixada dos EUA em Lisboa.
Mas há mais agachamentos. O Governo PS, pela mão de Sócrates e Amado, decidiu receber em 2009 dois ex-detidos de Guantánamo em Portugal. Fê-lo a pedido da então Administração Obama, que queria esvaziar a prisão. Tratavam-se de dois sírios. Um deles integrou-se bem, outro longe disso. Poucos dias depois do atentado ao Charlie Hebdo, já com a Europa em alerta máximo, Moammar Badawi Dokhan, um dos dois, dirigiu-se à redação do Diário de Notícias e pediu para falar com um jornalista. Foi comigo que esse ex-detido de Guantánamo acabou por conversar e, por isso, sei com detalhe o tipo de cuidado (ou falta dele) que houve nesse processo.
A reportagem acabou por ser publicada mais de um mês depois, após vários encontros com Moammar Dokhan, mas durante o processo apercebi-me que várias coisas que roçavam a negligência do PS: o Governo de Sócrates tinha decidido os ex-detidos de Guantánamo, mas não tinha legislação específica para os enquadrar; eles também não podiam sair do País, porque tinham sido acusados de terrorismo e nenhum outro os queria; não podiam ir para o seu país porque tinham a cabeça a prémio; e também não podiam ser monitorizados judicialmente porque não tinham tido um julgamento justo nem de qualquer outra ordem. Percebi também de que no currículo de Moammar estava ter feito parte do Syrian Group da Al-Qaeda e recaíam sobre ele acusações de ser bombista. Além disso, contou-me que era fã e já tinha tentado juntar-se ao Estado Islâmico — tendo sido intercetado na Turquia e enviado para Portugal novamente — e que nenhuma autoridade portuguesa o controlava ou queria saber dele. Depois da reportagem, onde contei tudo isso, incluindo que se sentia orgulhosamente talibã, nunca mais soube dele, nem das consequências dessas suas posições radicalizadas. Mas ficou evidente o resultado do que é uma abordagem negligente a pedidos de Washington. Havia aqui muito mais potencial para aquilo a que Eurico Brilhante Dias chama de “humilhação planetária”.
Há, depois, a questão histórica. O Partido Socialista, como Francisco Assis fez questão de notar em declarações enviadas ao Observador, “sempre se distinguiu no contexto internacional pela sua clara opção por uma visão europeísta e atlantista.” É verdade que Kissinger chegou a considerar Mário Soares fraco e dizer-lhe que seria o “Kerensky português”, mas também eram evidentes as boas relações entre Soares e Frank Carlucci e o interesse dos EUA, em pleno verão quente, na afirmação de um novembro que chegaria em 1975.
Kerensky foi um líder russo em destaque na revolução que pôs fim ao regime czarista, mas depois acabou afastado do poder pela revolução bolchevique. O próprio Kissinger acabaria por admitir que se enganou e que Soares não era um líder fraco. Aliás, o fundador do PS foi sempre próximo dos norte-americanos e, a nível mais institucional, visitou três Presidentes: Reagan, Bush pai e Clinton. Já na fase final da sua intervenção política escreveu artigos contra o belicismo da NATO e foi crítico de alguma dependência do país aos EUA, mas em contra-ciclo com a versão oficial do PS. Para não falar de outros líderes socialistas, como Guterres, que foram sempre defensores do atlantismo, além da boa relação com os Clinton (o que mais tarde o ajudaria a ser eleito secretário-geral da ONU). É verdade que Sampaio foi crítico sobre o Iraque e a cimeira das Lajes, mas como Presidente, não como secretário-geral do PS.
A posição oficial do PS tem sido sempre mais próxima do PSD do que dos seus antigos parceiros de geringonça. Desta vez, o PS está mais próximo de BE e PCP. José Luís Carneiro — que tem subido nas sondagens com uma política ao centro — vê a hipótese de vir a ser primeiro-ministro depender de duas realidades que não deve esquecer: conquistar votos ao centro e convencer o PSD a viabilizar a força mais votada. Se é certo que não pode (nem quer) ser bolchevique, também convém não ser Kerensky.