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(A) :: Um A. Ventura no orfanato da política

Um A. Ventura no orfanato da política

Entre o vazio do Chega, o cansaço do PSD e o congresso do CDS aqui me têm, pois, confessando mais uma vez a orfandade política.

Nuno Gonçalo Poças
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O sr. de Villefort, delegado do procurador régio que mandou encarcerar Edmond Dantès em Chateau d’If, dizia que Robespierre fez a igualdade que rebaixa e Napoleão a igualdade que eleva, o primeiro trazendo os reis à guilhotina e o segundo elevando o povo ao trono. O pensamento não vem do melhor dos homens que compõem o romance de Alexandre Dumas, mas não deixa de ser acertada a ideia de recusar ambas as perspectivas. A síntese, porém, tem feito escola ao longo de décadas e talvez seja hoje o centro do debate político ocidental, esta ideia anti-elitista e populista que é, em bom rigor, praticada e comungada por todos os sectores do espectro político, da esquerda à direita, dos alegadamente moderados aos afirmativamente radicais. Não deixa de ser uma mentira.

Entre nós, e porque a esquerda parece já, e por agora, incapaz de conduzir os reis à guilhotina, temos tido o prazer de ir observando em André Ventura o embuste da elevação do povo ao trono. Não há ideia alguma que, tendo o potencial de ser encarada como popular, não acabe por ele veiculada, por mais errada que seja, por mais mentirosa que soe, por mais que se besunte de contradições com outras ideias anteriormente apresentadas. O pai do delegado do procurador régio, o Sr. Noirtier de Villefort, bonapartista profundo, tinha, por seu turno, um mar de razões: em política não há sentimentos, há apenas objectivos. E Ventura sabe qual é o seu: governar. Para tanto, fará o que for necessário, nem que isso implique tornar-se no contrário de si mesmo. Não seria inédito, nem particularmente original. A sua mais recente descoberta, e não inútil ao seu propósito último, é a direita social. E devo, a esse respeito, confessar ao leitor que todos os meus radares se activaram imediatamente quando o ouvi acenar o conceito, por entre atoardas e acertos.

Nos idos de 2016, quando PSD e CDS ainda tentavam recompor-se do estalo da Geringonça, e com o país na ressaca da troïka, uma das minhas obsessões era, precisamente, a necessidade que a direita tinha de construir uma agenda social conservadora de base não estatista. Enfim, que sabia eu? Na altura, parecia-me relativamente evidente que existia em Portugal um vasto espaço político órfão, e que boa parte dele votava à esquerda, mas não devia ser negligenciado pela direita: gente conservadora, mas sem medo do futuro; pessoas cansadas da subsidiodependência, mas sem quererem demolir o Estado Social; portugueses que valorizavam autoridade, segurança e fronteiras sem se reverem em caricaturas musculadas da política; pequenas classes médias esmagadas fiscalmente, demasiado ricas para receber subsídios e demasiado pobres para viver descansadas; empresários sem capitalismo de compadrio; trabalhadores sem romantização da pobreza; patriotas sem folclore.

O país optou, até certo ponto compreensivelmente, pelo marasmo, pela estagnação e pela gestão corrente do PS, como agora aprecia os mesmos méritos vindos da AD. Mas não deixei de julgar que, ao longo da última década e, em larga medida, hoje boa parte dos portugueses não tem uma tradução política coerente. A esquerda continua largamente hegemónica no plano cultural e mediático, controla a linguagem moral do regime, define os limites da respeitabilidade pública e mantém uma enorme capacidade de transformar divergências em problemas éticos, mas perdeu o país quando deixou de compreender o salto geracional que se deu entre os velhos operários e os novos assalariados de serviços, quando decidiu enveredar pelo caminho da descontrução total: da família, da autoridade, da identidade nacional, do mérito, da História, da biologia, das hierarquias, configurando, de braço dado com o liberalismo pós-modernista, a ideia do cidadão enquanto indivíduo sem passado, sem deveres, sem vínculos morais excepto os que lhe forem atribuídos por decisão de terceiros, permanentemente dependente do Estado e naturalmente agradecido. A direita, por outro lado, convenceu-se de que bastava gerir melhor do que os socialistas. No mais profundo vazio, Ventura compreendeu-o. Sucede que compreender o eleitorado não é o mesmo que representá-lo bem. E ter uma base eleitoral de apoio maioritária no país não é o mesmo que apresentar ideias diferentes para cada segmento dessa mesma base eleitoral.

Não julgo nada descabida a ideia da direita social, embora tenha a certeza de que Ventura não é dela grande representante. Uma direita social, ou uma direita que tenha uma agenda social conservadora séria, exige densidade moral e intelectual que Ventura não tem. Exige mesmo um certo sentido de limite, e Ventura vive da ausência de limites, da aceleração permanente, da indignação contínua; construiu um movimento social impressionante, mas não montou uma comunidade política. Está a mobilizar humores e a gerir uma ambição pessoal, não uma ambição colectiva.

Aqui me têm, pois, confessando mais uma vez a orfandade política. Nesta semana que passou, entre o vazio do Chega, o cansaço do PSD e o congresso do CDS, permitam-me que confesse a falta que me faz um Partido Popular – chamem-lhe o que quiserem, o que me parece cada vez mais certo é que essa orfandade vai alastrando a uma multidão crescente e silenciosa.